Capítulo 07 — A Colônia
O túnel dos insetos não tinha sido escavado para um esqueleto carregando uma capa de couro do tamanho de uma toalha de mesa. Eu sabia disso porque passei boa parte da primeira hora preso, raspando úmero contra rocha, amaldiçoando em silêncio cada saqueador da história que tornou os espólios uma prioridade.
Mas eu rastejei. E quando a passagem finalmente se abriu, parei.
Não eram os esgotos.
Eu conhecia os esgotos: pedra cortada, ângulos retos, a arquitetura cansada de gente que um dia morou ali. Aquilo era diferente. As paredes não tinham sido construídas, tinham sido roídas. Curvas orgânicas, lisas, sem uma única quina honesta. Eu havia atravessado por baixo de todo o conjunto de prédios que um dia formou as ruínas do castelo — a biblioteca, o laboratório, o criadouro, tudo aquilo ficara para trás e acima de mim. À frente, só caverna. Caverna de verdade, viva, abrindo-se em uma rede de bocas escuras que se ramificavam em todas as direções como as veias da palma de uma mão.
Cinco caminhos. Depois oito. Depois eu parei de contar.
A Visão Noturna acendeu o cenário no seu tom acinzentado de sempre, e foi aí que percebi minha primeira vantagem real desde que cheguei a este mundo. Ali, no breu absoluto, eu enxergava. Cada túnel tinha o chão marcado por décadas de passagem — sulcos polidos, trilhas de algo pesado arrastado de um lado para o outro, brilho fosco de muco seco. Um dos corredores tinha muito mais marcas que os outros. Era por ali que o tráfego acontecia.
Segui as marcas. E, andando, me ocorreu uma coisa que estragou meu bom humor recém-adquirido.
O Tricar não enxerga no escuro. A Freala, a Conna, o Leof — nenhum deles enxerga. Aquele túnel tinha engolido meus amigos numa escuridão onde eu lia o chão como um mapa e eles teriam de tatear parede com parede, cegos, torcendo para escolher a bifurcação certa. Gobe via no escuro? Eu não sabia. Esperava que sim. Esperava muita coisa, naquele momento, e a esperança nunca foi um atributo que o sistema me deixou investir pontos.
Andei. Não sei quanto. Tempo, ali embaixo, é só a distância entre uma preocupação e a próxima.
Foi quando comecei a encontrar os corpos.
Insetos. Insetos grandes — besouros do tamanho de cães, um centípede mais comprido que a Conna —, mas não petrificados como os do criadouro. Mortos de morte recente. Partidos. E não partidos de qualquer jeito: havia cortes limpos, do tipo que só uma lâmina pesada e furiosa abre. Um deles tinha sido cortado quase ao meio num único golpe descendente.
Eu conhecia aquele golpe. Já tinha visto a dona dele reclamar que o machado era "pesado demais para ser elegante e elegante demais para largar".
Conna passou por aqui. Eles todos passaram por aqui, e brigaram, e venceram esse round. Agachei ao lado do bicho cortado, procurando — não sei o quê. Uma pista melhor. Um corpo que eu torcesse para não encontrar. Não havia nenhum amigo ali. Só insetos.
E, quanto mais eu avançava, mais insetos havia.
No começo foram mortos. Depois pegadas frescas. Depois um som — aquele farfalhar seco de mil patas que o cérebro reconhece como errado muito antes de saber por quê. Apaguei o impulso de Labareda na mão e me encostei numa reentrância da parede.
Eles vinham pelo corredor principal. E não eram besouros.
Andavam eretos.
A coisa que liderava a fila tinha o tamanho de um cão grande, mas se movia sobre as patas traseiras, o corpo compacto blindado por placas grossas de uma quitina dourada — quitina, aquela mesma matéria córnea de que se fazem a casca de um besouro e a carapaça de um caranguejo, só que ali empilhada em camadas, mais armadura de soldado que casca de bicho — que, sob minha visão sem cor, brilhava como bronze velho. A cabeça era triangular, dominada por duas mandíbulas curvas que se abriam e fechavam sozinhas, num tique nervoso de quem nasceu para triturar. Antenas em movimento perpétuo varriam o ar. As patas dianteiras eram grossas, deformadas em ferramentas — pás vivas. Atrás dele vinham mais quatro iguais, carregando nas costas fardos de raízes e fungos pálidos.
Cupins. Era a única palavra que minha cabeça oferecia. Cupins gigantes que aprenderam a andar de pé. Não tive a menor ideia do que realmente eram. Só sabia que eram muitos, e que estavam entre mim e o caminho que meus amigos tomaram.
Eu poderia ter esperado eles passarem.
Eu deveria ter esperado eles passarem.
Mas um dos fardos escorregou, e a criatura que o carregava virou a cabeça na minha direção, antenas apontadas, e eu vi naquele gesto a mesma coisa que se vê num cachorro que farejou o intruso: o instante exato em que o silêncio acaba.
— Ah, que se dane — pensei, e a primeira Labareda iluminou o túnel.
O jato pegou o líder em cheio. A quitina dourada resistia bem ao calor — bem, não o suficiente. Ele guinchou, um som agudo e horrível, e recuou batendo as patas. Os outros largaram os fardos e vieram. Não eram guerreiros; eram trabalhadores assustados, mandíbulas feitas para raiz, não para osso. Eu tinha Força trinta e uma capa que ria de mordidas.
O primeiro fechou as mandíbulas no meu antebraço e foi como ser apertado por um alicate de jardineiro. Doeu o orgulho, não o úmero. Girei o braço e a cabeça dele bateu na parede com um estalo molhado. O segundo eu peguei pela base das antenas e simplesmente puxei, descobrindo que coisas que dependem de antenas para tudo ficam muito confusas quando você as arranca. Labareda no terceiro. Punho no quarto.
[Você derrotou: Operário Isopteriano] [Você derrotou: Operário Isopteriano]
Isopteriano. Então era esse o nome. Obrigado, sistema, sempre tão pontual com as apresentações — depois que já estou cobrindo de fluido alheio uma capa que acabei de ganhar.
O XP que pingou daquilo foi uma piada. Cinco níveis de monstro lendário tinham me mimado; aquilo era troco de bolso. Mas matar foi fácil, fácil demais, e eu cometi o erro que todo personagem comete logo antes de aprender uma lição importante: relaxei.
Foi quando o corredor inteiro estremeceu.
O que veio em seguida não era trabalhador.
Tinha o dobro da minha altura quando ergueu o corpo, e o ergueu de propósito, para que eu visse. O tórax era uma couraça de placas que pareciam forjadas por anão de mau humor. Os braços terminavam em garras recurvadas longas como foices. Da cabeça alongada subiam chifres segmentados que eu, na hora, confundi com antenas endurecidas. E as mandíbulas — aquelas eu não confundi com nada. Fecharam-se uma vez, no vazio, e produziram um estalo seco que ecoou pelo túnel inteiro como uma tesoura do tamanho de uma porta.
Um soldado. Dois deles, na verdade, surgindo atrás do primeiro. As mandíbulas do da frente fecharam-se no vazio com um estalo seco, e foi aí — pela primeira vez ali embaixo — que o Conhecimento de Babel resolveu trabalhar. O estalo virou palavra na minha cabeça:
— O corpo sangra. Selem a ferida.
Eu não fazia a menor ideia do que aquilo significava. Só sabia que insetos não deviam falar, e aqueles falavam.
Esses davam trabalho. A garra do primeiro desceu e eu aprendi, de graça, o valor da minha capa nova: o couro de basilisco aparou o golpe que teria me partido a clavícula, deslizando a foice para o lado num chiado de lâmina contra escama. Resposta com Agulha de Água na junta do braço — a pressão encontrou a fresta entre as placas e o membro cedeu num ângulo que membro nenhum deveria. O soldado recuou. O segundo veio pela esquerda e eu enfiei a faca de osso lascada — minha última faca — embaixo da carapaça do pescoço, onde a quitina afinava. Funcionou. Funcionou bem demais; perdi a faca no processo.
[Você derrotou: Soldado Isopteriano]
Um de pé ainda, mancando, mandíbula estalando, decidindo se valia a pena. Decidiu que não. Recuou para o escuro.
E eu, idiota crocante que sou, comemorei de novo.
Porque o chão tremeu pela terceira vez, e dessa vez não foi um soldado.
A coisa que bloqueou o túnel à frente tinha o porte de um ogro. Não andava ereta — não precisava. O corpo inteiro era revestido de uma quitina escura, quase preta sob minha visão, em camadas que se sobrepunham como as placas de um navio de guerra. Os membros dianteiros eram enormes, cada garra do tamanho de uma espada curta. Onde devia haver rosto havia apenas um aglomerado de olhos negros, brilhantes, sem nenhuma expressão para eu ler.
Não parecia um animal. Parecia uma parede que tinha decidido se mover.
Mandei uma Labareda. O fogo lambeu a couraça e morreu ali, como tinha morrido nas escamas do basilisco — aquele tipo de carapaça que faz pouco caso do calor. Agulha de Água nos olhos; ele virou a cabeça e a água riscou a placa sem encontrar a fresta. Avancei com Força trinta e desferi o golpe mais honesto que tinha, o punho fechado contra o flanco blindado.
A criatura cambaleou meio passo.
E me devolveu o golpe.
A garra me pegou de raspão — de raspão — e mesmo assim eu voei. Bati na parede do túnel com força suficiente para reorganizar costelas que ninguém pediu para reorganizar.
[Dano recebido — PV: 11/35]
Onze. De raspão.
Levantei. Ele esperou. E foi aí, com onze pontos de vida e um inimigo que eu fazia recuar meio passo enquanto ele me fazia recuar pela parede, que minha cabeça finalmente parou de comemorar e fez a conta de novo.
Aquilo era um empate. E empate, quando o outro tem dez vezes mais carne que você, é só uma derrota que ainda não terminou de ler o aviso.
Eu não ia ganhar daquele troço na força.
Então fiz a única coisa inteligente do dia: corri.
Recuei pelo corredor lateral, joguei uma Labareda larga atrás de mim só para encher o túnel de luz e confusão, e me enfiei na primeira bifurcação estreita demais para a parede ambulante me seguir. Ouvi o estalo das mandíbulas frustradas ecoar, ficar para trás, sumir.
Sentei no escuro. Esperei o contador de PV parar de me julgar.
E pensei.
Força bruta tinha um teto, e eu acabara de bater a cabeça nele com onze pontos de vida sobrando. Aumentar a Força só me levaria a empatar com paredes cada vez maiores. O que eu precisava não estava naquela aba.
Abri a tela e olhei para os treze pontos de status parados desde o nível dez. Dessa vez soube na hora onde queria gastá-los — não em bater mais forte, mas em aguentar mais e errar menos o desvio. Sete em Vitalidade, para ter mais que um espirro de margem entre "de raspão" e "morto de novo". Seis em Agilidade, para que da próxima vez "de raspão" virasse "errou".
[Vitalidade: 7 → 14] [Agilidade: 13 → 19]
O efeito foi aquele jeito esquisito do sistema de mexer no seu corpo sem pedir licença: meu teto de vida saltou de uma vez, e o túnel inteiro pareceu desacelerar meio passo, como se eu tivesse trocado de lentes. Bom. Mas músculo e reflexo não me deixavam invisível, e contra a parede ambulante invisível era exatamente o que eu queria ser.
Sobrava o Ponto de Magia. Eu tinha Fogo um e Água um — ótimo para furar coisas e iluminar infernos, péssimo para sumir. Mas havia seis caminhos principais, e um deles era feito exatamente de não-ser-visto.
— Trevas — decidi, e empurrei o ponto.
[Caminho da Magia 'Trevas' desbloqueado: Focus 1/10]
Foi como uma porta nova se abrindo num corredor que eu jurava conhecer inteiro. Fechei a mão em volta de nada e imaginei não uma arma, mas uma ausência: um manto de escuridão que viajasse comigo, me apagando do mundo a cada passo que eu desse.
— Manto de Sombras — pedi.
[Focus insuficiente para a magia pretendida.]
Claro. Eu já conhecia aquele tom seco de guichê fechando na minha cara. Era o mesmo "não" que a Bola de Fogo levou antes de eu me contentar com a Labareda, e a Lâmina de Água antes da Agulha. Com Focus um, o sistema não ia me entregar uma sombra que andasse junto comigo. Sombra ambulante era artigo de mago grande.
Então fiz o que sempre funciona neste mundo: pedi menos.
Não uma sombra que me seguisse, mas uma que me cobrisse enquanto eu não me mexesse. Adensar o breu que já existisse ao meu redor até ele me engolir — contanto que eu ficasse imóvel feito pedra. No instante em que eu me mexesse, o feitiço se desmancharia como fumaça empurrada.
— Véu de Sombras — corrigi.
[Magia 'Véu de Sombras' criada com sucesso.]
A escuridão se aprofundou ao meu redor e me bebeu inteiro. Minha Visão Noturna atravessava o véu sem esforço — eu me via. De fora, na sombra de uma fresta, não havia mais nada para ver. Levantei um dedo só para testar, e o véu tremeu e escorreu como areia entre as falanges. Parado, eu sumia. Em movimento, voltava a ser um esqueleto de mau gosto.
Não era um manto. Era uma toca portátil que eu redesenhava toda vez que parava. Para um caçador, péssimo. Para um espião disposto a ficar muito, muito quieto e escutar, era a coisa mais perto da perfeição que eu já tinha conjurado.
E foi o que fiz, pelos dias que se seguiram — se é que "dias" querem dizer algo num lugar onde a única luz vem de fungos que brilham num azul doente. Procurava a fresta mais escura que houvesse, longe do brilho dos cogumelos, puxava o Véu de Sombras por cima dos ossos e virava mobília.
Foi parado naquele breu que descobri uma coisa que nenhuma tela teve a gentileza de me avisar: o escuro me fazia bem. Eu não durmo — não tenho pálpebra para fechar nem cansaço para render —, mas, encolhido na escuridão total, eu sentia o contador de PV subir sozinho, devagar, casa por casa, como se o breu fosse para mim o que o sono é para os vivos. A cada vigília, um pouco mais inteiro. Guardei a informação: morto-vivo recarrega no escuro. Útil, para alguém que pretendia morar em caverna pelo futuro próximo.
E, graças ao Conhecimento de Babel, eu não só escutava — eu entendia. O que para qualquer aventureiro seria estalo, chiado e farfalhar, para mim eram palavras. Cliques com gramática. Vibrações com sotaque.
— O corpo tem fome no terceiro anel — estalou um Operário para outro, os dois sem largar o fardo de raízes que empurravam. — Levem o alimento. O corpo come, o corpo cava, o corpo cresce.
Demorei a sacar o tamanho da ideia, porque ninguém ali dizia "eu". Diziam "nós", e quando não diziam "nós" diziam uma coisa que Babel traduzia meio a contragosto como o corpo. Dois Soldados cruzaram a câmara abaixo de mim arrastando os restos de um terceiro, e um relatou ao outro sem nenhuma emoção que eu soubesse reconhecer:
— Houve intrusos no túnel da entrada. Fogo e água. O corpo sangrou. O corpo fechou a ferida.
Levei um tempo constrangedor para entender que eu era a ferida. Para eles, o esqueleto que tinha derretido dois Operários e furado um Soldado não era um inimigo, nem herói, nem vilão — era um corte. Algo que o corpo registra, isola, cicatriza e esquece.
Aos poucos, conversa após conversa, a coisa toda se desenhou. A Colônia não era onde eles moravam. Era quem eles eram. Cada túnel, uma veia. Cada câmara, um órgão. E cada um daqueles milhares de corpos — o Operário que cava, o Soldado que mata, a parede ambulante que quase me apagou — uma célula só, viva, do mesmo bicho gigante e enterrado.
E a hierarquia veio junto. Os Operários na base, incontáveis, uma maré dourada que nunca dormia. Os Soldados acima, imóveis nos corredores como estátuas que de vez em quando matam. E os Guardiões — a minha parede — mais raros, postados não em qualquer túnel, mas diante das câmaras que aquelas vozes pronunciavam baixando as antenas, do jeito que gente baixa a voz dentro de igreja. Porque acima de tudo, no fim de toda frase que importava, havia um nome, e esse nome vinha sempre curvado:
— Antenas no chão — repreendeu um Soldado a um Operário distraído, quando os dois passaram diante de um túnel mais largo e mais escuro que os outros. — Trichonymphea sonha. Não se perturba o sono d'Ela.
Eu não entendi, ainda, o que era Trichonymphea. Entendi que tudo ali — cada pata, cada mandíbula, cada morte — servia a ela; que aquele organismo de quilômetros seguia muito além da câmara que eu espiava; e que eu não tinha rastejado para dentro de uma toca, mas para dentro de um corpo do tamanho de uma cidade enterrada, respirando ao ritmo das próprias mandíbulas.
Quando me dei conta de que já sabia tudo aquilo, o contador de vida tinha enchido fazia tempo.
★★★
Nome: Thasjo Gênero: Masculino
Estado: Normal Rank: H
Tipo: Esqueleto / Morto-vivo
Classe: Mago
Nível: 10
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PV: 70/70 Força: 30
MP: 1.000/1.000 Agilidade: 19
Dano: 4,9 Vitalidade: 14
Defesa: 2,0 Sentidos: 1 [bloqueado]
Inteligência: 1 [x200]
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Pontos de Status: 0 Pontos de Magia: 0
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✧ Habilidades Especiais ✧
[Ressurreição Lv 1] [Visão Noturna Lv 1]
['O Conhecimento de Babel'] ['Jera - A Runa de Odin' 1/1]
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✧ Habilidades Mágicas ✧
Magias: 《Labareda》《Agulha de Água》《Véu de Sombras》
──────────────────────────────
Caminhos da Magia
Terra: 0/10 Luz: 0/10
Água: 1/10 Trevas: 1/10
Fogo: 1/10 Vácuo: 0/?
Ar: 0/10 Éter: 0/?
★★★
Setenta de vida, o dobro do que eu tinha quando aquela parede me cuspiu contra o muro. Reflexos mais rápidos. Uma toca de sombra para vestir sempre que parasse. Eu estava, para os meus padrões modestos, no auge da forma.
E foi exatamente no auge que entendi a última coisa — tarde demais para o meu gosto.
Eu tinha vindo por aqui atrás dos meus amigos. Eu não era o único que os procurava.
Numa das câmaras mais fundas que ousei espiar, uma coluna de Soldados passou carregando algo que não era raiz nem fungo. Duas formas amarradas em casulos de fio endurecido, suspensas em varas, balançando no ritmo das patas. À frente da coluna, um Soldado de carapaça mais clara estalou uma ordem que Babel me entregou inteira — e que, se eu ainda tivesse coração, o teria parado:
— As presas de fora ainda respiram. Não as triturem. Trichonymphea as quer inteiras, e vivas, na câmara d'Ela.
A primeira forma era pequena. Pequena demais para ser qualquer coisa daquele mundo subterrâneo — do tamanho exato de um gnomo que eu mandara fugir e cuidar da minha garrafa.
A segunda tinha cabelos. Cabelos humanos, sujos, caídos sobre um rosto que, mesmo desacordado, mesmo de cabeça para baixo, eu reconheceria em qualquer caverna deste ou de qualquer mundo.
A maga ia presa. E o gnomo ia junto. Vivos — porque alguma coisa chamada Trichonymphea os queria assim.
Encostado na pedra, envolto no breu, eu era invisível e estava a salvo. Bastava não me mexer.
Contei, devagar, quantos Soldados separavam aquela vara de mim. Contei de novo, torcendo para o número diminuir. Não diminuiu.
E então me lembrei de que, no segundo em que eu desse o primeiro passo atrás deles, o Véu de Sombras escorreria dos meus ombros e me devolveria ao mundo como aquilo que eu era: um esqueleto sozinho, de capa, contra um corpo do tamanho de uma cidade.
Levantei o pé.
O véu escorreu.