Capítulo 08 — Cegar o Corpo
Levantei o pé. O véu escorreu.
E, no meio milímetro entre o calcanhar deixar a pedra e o mundo voltar a me enxergar, uma parte de mim que ainda não tinha sido devorada por nenhum monstro deste mundo gritou idiota com tanta convicção que eu obedeci. Devolvi o pé ao chão. A escuridão tornou a me beber, lenta, e a câmara lá embaixo continuou sem saber que existia, na sua sombra mais alta, um esqueleto prestes a fazer a coisa mais burra da sua segunda vida.
Porque eu tinha acabado de quase começar a perseguir uma coluna de Soldados a pé, sozinho, sem véu, contra um corpo do tamanho de uma cidade — e tudo porque a única ferramenta que minha cabeça oferecia era andar atrás deles.
Mas eu não precisava andar atrás de ninguém para falar.
É uma coisa fácil de esquecer quando se passa semanas sendo mobília. O sistema, lá no começo de tudo, me enfiou numa espécie de grupo — uma linha invisível costurada entre as cabeças de quem aceitou, sem querer, dividir o azar comigo. Eu não falo. Não tenho garganta, língua, nem o sopro que move as duas. Mas dentro daquela linha eu podia pensar para fora, e do outro lado havia ouvidos que não eram bem ouvidos.
O problema é que a linha tem alcance. Desde que sai do basilisco, ela vinha me devolvendo o mesmo bilhete seco toda vez que eu tentava:
[Falha na conexão. Membro(s) do grupo fora de alcance.]
Eu já tinha parado de tentar, mas agora a vara dos Soldados balançava a poucos metros abaixo de mim, dois casulos pendurados feito presunto numa adega. Me concentrei e empurrei o pensamento pela linha como quem enfia o ombro numa porta emperrada.
[Conexão restabelecida com 2 membros do grupo.]
Finalmente!
E do outro lado, a primeira coisa que recebi de volta não foram palavras. Foi um susto — aquele tipo de pânico mudo que um corpo solta antes da mente alcançar o que está acontecendo, e que pela linha chegou até mim como um baque gelado. Depois, num fio de pensamento fino e trêmulo, em gnomês temperado de terror:
— Não. Não, não, não. Eu enlouqueci. A maga estava certa, eu fiquei tempo demais no escuro e enlouqueci, agora tem osso falando na minha—
Gobe, pensei, do jeito mais calmo que um esqueleto consegue pensar quando está secretamente eufórico. Você não enlouqueceu. Pior: sou eu.
Houve uma pausa do tamanho de um precipício.
— Thasjo? — e a palavra veio tão pequena, tão sem fôlego, que por um instante o vigarista de três golpes por minuto, o gnomo que tinha um trocadilho para o próprio enforcamento, simplesmente não soube o que fazer com a própria voz. — Você morreu. A gente te viu... o bicho te engoliu, a gente esperou, você não voltou pela linha, a Freala disse que—
A Freala disse que eu estava morto. E de certa forma ela teve razão, mas teimosia é um defeito de caráter meu. Senti, mais do que ouvi, o segundo fio da linha estremecer — o casulo ao lado se mexendo, uma consciência subindo do fundo do sono à força. Acorda ela. Devagar. Se ela gritar, vira ração.
Eu observei, da minha varanda de sombra, a forma menor se contorcer dentro do fio endurecido. E então — sem estalo, sem fumaça, sem nenhum dos floreios que ele tanto amava — Gobe simplesmente minguou.
A casca de fio que prendia um sujeito do tamanho de uma criança de repente prendia coisa nenhuma, e por entre as tramas escorregou uma versão de Gobe do tamanho do meu polegar, pendurada num fiapo, descendo de nó em nó como um marinheiro bêbado num cordame. Ele tocou o chão, voltou ao tamanho de sempre num estalo de ar deslocado, e ficou agachado na penumbra azul dos fungos, os olhos enormes varrendo a câmara.
Dois Soldados montavam guarda ali, imóveis como as estátuas que fingem ser até a hora de matar. As antenas dos dois se ergueram ao mesmo tempo.
Gobe não hesitou. Enfiou a mão na túnica, tirou uma moeda de prata — aquela moeda, a que sempre voltava para o dono por mais longe que fosse atirada — e lançou-a num arco alto para o canto oposto da câmara. Ela bateu na pedra com um tilintar agudo, quicou, rolou. E as duas cabeças triangulares giraram para o som como cães puxados por uma coleira, as garras-foice subindo, o corpo todo inclinado para a vibração.
Foi o suficiente. Gobe atravessou para o casulo de Freala e começou a serrar o fio com uma faquinha que eu não fazia ideia de onde tinha saído.
Gobe, pensei, enquanto ele trabalhava. Você encolhe.
— Hm? Sim. Coisa de gnomo. Já te mostrei.
Você encolheu agora e saiu de um casulo que três Soldados levaram a noite inteira costurando. Deixei a pergunta pousar sozinha. Por que você ainda está aqui? Você podia ter escorregado desse fio na primeira hora e sumido por um buraco de rato.
A faquinha parou no fio. Quando o pensamento dele voltou, tinha perdido o tremor e ganhado uma coisa que eu não associava ao Gobe — peso.
— Quando a gente se separou de vocês, lá na escuridão, depois que o teto caiu... — ele recomeçou a serrar, devagar. — Eu me perdi do Tricar. Da Conna, do Leof, de todo mundo. Fiquei sozinho num corredor com três daqueles soldados entre mim e qualquer saída, e eu fiz o que gnomo faz: encolhi e me escondi num pé de fungo, esperando todo mundo morrer pra eu poder fugir com a consciência limpa de quem não viu nada. — Uma pausa. — Foi a maga que me achou. Cega no escuro, do jeito que vocês todos ficam, tateando parede com parede, e mesmo assim ela me ouviu chorar baixinho ali no meio do mato e parou. Podia ter passado reto. Eu teria passado. Ela enfiou a mão no fungo, me pôs no bolso e disse "fica quieto, gnomo, eu te tiro daqui". E aí os soldados acharam nós dois.
O fio cedeu. O casulo se abriu.
— Então não, concluiu Gobe, e era a frase mais honesta que eu já tinha ouvido sair dele. Eu encolho. Mas eu não saio daqui sem ela. Tem dívida que não dá pra pagar pequeno.
Freala caiu de joelhos no chão de pedra, tossiu o fio que ainda tinha na boca, e a primeira coisa que aquela maga fez — antes de respirar direito, antes de olhar para Gobe — foi erguer a cabeça na direção exata da minha sombra, lá no alto, onde não havia absolutamente nada para um olho humano ver.
— Você está atrasado, pensou ela na linha, a voz mental seca, raspada de sono e de cativeiro, mas firme. Eu teria sorrido se tivesse com o que.
— Que bom que sentiu minha falta. Agora me escuta, porque eu passei esses dias fazendo a única coisa que um morto faz bem: ouvindo.
E contei a eles a coisa que tinha aprendido espiando da minha varanda de breu
— Esses bichos não enxergam. Senti a descrença de Gobe se formar e atropelei por cima. — Não como você e eu. Eles têm olhos, têm um bando deles, e os olhos não servem para nada. O que eles têm de verdade são as antenas. Eles leem o chão — cada passo que você dá é um tambor para eles. E leem o ar — cheiro, suor, esse perfume invisível que vocês de carne soltam sem nem saber. Para um desses, vocês dois não são duas formas no escuro. São dois fogos de artifício: barulho de pé e fedor de vivo. É assim que eles caçam. É assim que conversam. É assim que toda essa coisa enterrada sabe onde dói.
Houve um silêncio na linha. O silêncio específico de quem está pensando rápido.
— Tire a vibração e o cheiro deles, pensou Freala, devagar, montando a frase enquanto a dizia, e eles ficam...
Cegos, completei. De verdade, dessa vez. Uma câmara inteira de bichos tateando o vazio sem fazer ideia de onde a presa foi parar.
E foi aí que eu lembrei, com um respeito meio constrangido, que tinha na minha frente uma profissional.
Eu invento magia chutando o sistema na canela até ele me dar uma versão menor do que pedi. A Freala faz outra coisa. Ela ficou parada de joelhos, os olhos fechados, e eu praticamente ouvi as engrenagens. Quando voltou a falar pela linha, não era mais a mulher indefesa precisando de resgate. Era uma maga trabalhando.
— Não vou fingir que sou grande coisa, avisou ela, e havia naquilo a falsa modéstia exata de quem sabe ser exatamente grande coisa. Sou maga do ar, terceiro grau. É o que tenho de melhor. Mas quem passa a vida estudando aprende uns truques. Escuta.
Primeiro o ar. — A mão direita dela se abriu sobre o chão. Vocês me conhecem por empurrar coisas com vento. Não vou empurrar. Vou bater. Uma rajada que pulsa, liga e desliga rápido demais para o olho, rápido demais para a antena — afoga o tambor do chão em mil tambores falsos. E carrego nessa rajada o nosso cheiro, espalho o feromônio da câmara inteira em todas as direções de uma vez. Por uns segundos, esse "corpo" todo vai estar gritando consigo mesmo. Ninguém escuta ordem nenhuma no meio de um grito.
Depois o fogo. — A mão esquerda. Não em vocês, não em mim. Naquilo. — E eu soube, sem que ela apontasse, que ela falava dos canteiros de fungo: aqueles tapetes pálidos e úmidos que forravam as paredes da câmara e enchiam tudo daquela luz azul doente. Fungo molhado não pega fogo. Fungo molhado solta fumaça. Uma flecha de chama na hora certa e essa câmara vira uma chaminé. A luz some, e com a luz some a única vantagem que os de carne nunca tiveram aqui embaixo.
— Eu enxergo na fumaça, ofereci.
— Eu sei, devolveu ela, sem surpresa, como quem já tinha contado com isso na conta. Por isso você vai na frente.
E por cima de tudo, o vapor. — As duas mãos, agora. A fumaça esconde de olho. Mas o cheiro de vivo atravessa fumaça como atravessa qualquer coisa, e era o cheiro que ia nos entregar. Então eu fecho a fumaça com uma camada de vapor quente, úmida, espessa — e o nosso cheiro morre dentro dela. Some. Para esse corpo cego, surdo e entupido, nós três deixamos de existir.
Ela abriu os olhos.
— Você abre a brecha, disse a Gobe. Pequeno como só você fica, por baixo, enquanto eles estão de antena erguida pro lado errado. Eu faço as três. E ele — a cabeça inclinou de novo para a minha sombra — guia. Porque quando minha fumaça apagar a última luz desta câmara, ele vai ser a única coisa aqui dentro que ainda vê.
Era um plano bom. Era um plano bom demais para o tempo que ela teve para fazê-lo, e eu fiquei com aquela inveja específica do amador diante do mestre. Eu teria gasto a tarde inteira e chegado a "joga fogo e corre".
Mas não foi a inveja que me prendeu. Foi o que aconteceu quando ela começou.
Porque magia, neste mundo, deixa rastro. Magos sérios desenham runas no ar sem perceber, o elemento ardendo em sinais nos dedos um instante antes da magia nascer — eu tinha lido sobre isso no diário do velho mestre de runas, mas ler não é ver. E eu, com o olho que enxerga no breu onde mais ninguém enxerga, vi.
Quando Freala chamou o vento, uma runa só acendeu na palma dela, limpa, única, do tom do ar. Quando chamou o fogo, outra, sozinha. Coisas que eu reconhecia — eu tinha as minhas, toscas, mas tinha.
Mas quando ela chamou o vapor, não foi uma runa. Foram duas. A da água e a do fogo, sobrepostas, entrelaçadas, queimando juntas numa terceira coisa que não era nenhuma das duas e era as duas ao mesmo tempo — um sinal que eu nunca tinha visto, num caminho que eu não sabia que existia entre os caminhos que eu conhecia.
Guardei aquilo. Anotei na única gaveta confiável que me sobrou, ao lado de "o escuro me cura" e "nunca confie num comerciante": perguntar à maga o que foi aquela runa dupla. Depois. Se houvesse depois.
Porque ela já tinha começado.
— Agora, pensou Freala.
E o ar gritou.
Não foi sopro. Foi um murro que se repetiu cem vezes por segundo, a câmara inteira vibrando num zumbido que eu sentia até na medula que não tenho, e no rastro daquela pulsação o cheiro morno dos fungos e dos corpos se espalhou em todas as direções de uma vez. Embaixo, os dois Soldados de guarda se sacudiram como quem levou água fria no ouvido. As antenas, que rastreavam tão bem um tilintar de moeda, agora se debatiam no ar, perdidas, recebendo o mundo inteiro ao mesmo tempo. Um deles abriu as mandíbulas e estalou uma ordem — eu vi Babel tentar traduzir e desistir, porque a ordem saiu picada, sem sentido, o corpo o corpo o corpo onde está o cor—
A flecha de fogo cruzou a câmara.
Pegou o maior canteiro de fungo bem no meio. E o velho mato úmido fez exatamente o que Freala prometeu: não ardeu, fumegou, soltou de uma vez uma nuvem branca e gorda que subiu rugindo pela parede, engoliu o segundo canteiro, depois o terceiro, e em três respirações que eu não dou a luz azul da câmara afogou-se numa parede de fumaça cega.
E o mundo, para todo mundo que não fosse eu, apagou.
Ouvi Gobe xingar no escuro. Ouvi os Soldados baterem as garras na pedra, tateando. E vi — só eu vi, no cinza nítido da minha visão noturna atravessando fumaça como se fosse névoa fina — a terceira runa acender nas mãos de Freala, a dupla, e o vapor brotar dela e se deitar sobre a fumaça como uma tampa numa panela. Senti o cheiro de vivo dos meus dois companheiros simplesmente parar. Engolido. Cozido para dentro da névoa.
Mão na minha capa, ordenei, encostando a barra de couro de basilisco na mão que eu sabia estar tateando. Senti dois punhos se fecharem nela — um grande, um minúsculo crescendo de volta ao tamanho normal. Não larguem. Não falem alto. Eu vejo. Vocês confiam. Vamos.
E eu os puxei para dentro do escuro que eu enxergava e eles não.
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Guiar dois cegos por dentro de um corpo vivo é uma experiência que eu não recomendo.
A câmara atrás de nós era um pandemônio. Centenas de Operários e Soldados tateando uma névoa que cheirava a tudo e a nada, esbarrando uns nos outros, estalando ordens que se contradiziam, o corpo está cego o corpo dói onde a presa onde a presa — todo aquele organismo perfeito reduzido, por uns minutos roubados, a um bêbado caindo das próprias pernas. Eu os conduzi rente à parede, por um ramal estreito que tinha decorado após dias de tédio, a capa servindo de corda, meus dois cegos atrás de mim em fila, Gobe ofegando piadas baixinho para não pirar e Freala sem desperdiçar um único pensamento que não fosse "esquerda?" "esquerda" "quantos passos" "doze".
Foi nesse fôlego, andando, que eles me contaram como tinham sido pegos.
— Não foi soldado, pensou Gobe, e mesmo na linha o pensamento veio encolhido. A gente dava conta de soldado. A Conna fez picadinho de uns dez. Foi outra coisa. Veio depois, quando a gente já estava cansado.
— Maior?, perguntei, e na minha cabeça eu já estava montando a imagem: o porte de ogro, a couraça preta em camadas, a garra do tamanho de uma espada curta. A parede que andava. O bicho que me empatou.
— Maior, confirmou Freala. Mas havia algo errado no jeito como ela disse. Curto demais. Trancado demais. Uma maga que tinha acabado de me explicar a física da própria magia com a calma de quem lê uma receita, e que de repente não queria dar detalhe nenhum de uma coisa que tinha visto com os próprios olhos.
Eu conhecia aquele tipo de silêncio. Era o silêncio de quem viu uma coisa que não quer descrever porque descrever é convidar de volta.
Filei a informação com a outra: eles ainda estão com medo. Não o medo limpo da fuga, o medo de pé ligeiro e olho aberto. Um medo mais fundo, mais quieto, que não tinha ido embora nem depois de cortado o fio, nem depois de apagada a luz, nem agora que corríamos livres. Eles carregavam o medo como quem carrega um caroço sob a pele.
Eu, sendo eu, cheguei à conclusão errada com toda a confiança do mundo.
É o Guardião, pensei, só para mim, a velha presunção crocante voltando ao trote. Foi um dos grandes que pegou eles. Aquele que me empatou. E claro que tinham medo — sozinhos, cansados, contra uma parede que ignora fogo e bate como tronco de árvore. Mas eu não estou sozinho agora. Eu tenho uma maga de terceiro grau cheia de truques e um gnomo que vira chave de fenda. Da última vez foi empate. Dessa vez, em três, com fumaça e a coisa cega...
Eu tinha acabado de me convencer de que conseguia matar um Guardião quando o corredor à frente foi bloqueado por um Guardião.
A muralha preta se ergueu de um nicho lateral onde estivera — imóvel, indistinguível de pedra até decidir não ser — e encheu o túnel de ombro a ombro. O aglomerado de olhos negros não tinha expressão para ler. Não precisava. As duas garras-espada subiram, e o chão sob nós tremeu com o peso do passo.
— Ah não, disse Gobe. Ah não, esse não é o—
É esse sim, cortei, e empurrei os dois para trás de mim. Esse eu já enfrentei. Esse eu sei lutar. Freala — ele caça igual aos outros. Antena. Cega ele.
E, que o sistema me perdoe a arrogância, funcionou.
Não na força. Eu já tinha aprendido, batendo a cabeça, que força contra um Guardião era só uma derrota lendo o aviso devagar. Funcionou porque dessa vez nós três fomos uma única coisa contra um bicho que tinha sido feito para lutar contra um.
Freala soltou a rajada pulsante de novo, curta, na cara dele — e o Guardião sacudiu a cabeça enorme, as antenas perdendo o norte, golpeando o lugar onde nosso barulho deveria estar e onde, por causa dela, havia mil barulhos e nenhum. A garra desceu num arco que teria me partido ao meio e desceu do lado errado, mordeu pedra, abriu um sulco no chão a um passo de mim. Gobe minguou, disparou por baixo do bicho rente ao chão, e do tamanho de um rato enfiou a Lâmina de Vento dele na dobra atrás de um joelho couraçado — não para cortar a placa, que não cortava, mas para a fenda entre as placas, o tendão exposto onde a armadura tinha que respirar. O Guardião cambaleou meio passo. O mesmo meio passo de sempre. Mas dessa vez não era eu sozinho empurrando uma parede; era eu, e a parede estava cega, e a parede estava mancando.
Congela, pediu Freala, e a runa dupla — a da água e a do ar dessa vez, outra que eu não conhecia, guardei essa também — fechou de gelo a junta que Gobe tinha aberto. O membro travou no meio do movimento com um estalo de cristal.
E eu fiz a única coisa que sei fazer bem. Pus toda a Força num punho, mirei a fresta gelada e quebradiça onde a couraça já chorava, e bati. Bati como quem desconta três dias de mobília. A placa congelada estourou, a Agulha de Água entrou pela ferida na pressão que fura núcleo de gárgula, e dessa vez encontrou alguma coisa lá dentro que um Guardião precisava para continuar sendo Guardião.
A muralha caiu. Caiu de verdade, de uma vez, do jeito que paredes caem.
[Você derrotou: Guardião Isopteriano.]
O XP pingou mais gordo que o dos Operários. Bem mais. Ainda assim escorreu pela barra do meu nível como água por um ralo fundo — um Guardião era refeição de verdade, mas eu estava com a barriga de quem comeu um basilisco, e refeição de verdade ainda era pouco. Não importava. Eu não tinha lutado por XP. Tinha lutado para provar a mim mesmo uma conta que finalmente fechava.
Viu?, pensei, e admito que houve um pouco de pavão naquilo. Empate vira vitória quando se é três. Já era o pior que tinha aqui embaixo, e a gente—
Foi aí que reparei neles.
Gobe, de tamanho normal de novo, não comemorava. Freala, de pé sobre os cacos de gelo e a carcaça da maior coisa que eu tinha derrubado neste mundo, não respirava aliviada. Os dois olhavam o Guardião morto do jeito que se olha um cachorro grande atropelado quando se está com medo do dono.
O medo não tinha ido embora. O Guardião morto não tinha levado o medo embora.
E a minha cabeça, finalmente, fez a conta certa: se isso não é o que apavora vocês — então o que te pegou era pior que isso.
O zumbido começou antes de eu terminar o pensamento.
Grave. Constante. Vinha de fundo do corredor à nossa frente, de uma das bocas escuras de onde o ar saía mais quente, e não era o farfalhar seco de mil patas que eu já tinha aprendido a ouvir. Era outra coisa. Era asa. Camadas de asa, longas, batendo num ritmo paciente que fazia a poeira dançar no chão e os pelos do braço de Gobe se levantarem.
A coisa entrou na luz que não havia — na minha luz, na minha visão de morto — e por um segundo eu esqueci que devia estar fugindo, porque era, contra toda a justiça do mundo, belo.
Onde o Guardião era muralha, aquilo era lâmina. Corpo esguio, alongado, vestido de uma quitina dourada lavrada em fios finos como joalheria, padrões de filigrana correndo pela carapaça. Quatro asas translúcidas se abriam devagar atrás dele, longas o bastante para envolver o próprio corpo, e mesmo sem cor mesmo na minha visão cinzenta elas pegavam o pouco brilho que sobrava e o devolviam em dourado, prata, um azul de gelo. Duas antenas compridas arqueavam sobre a cabeça como chifres de coroa. Ele pairava um palmo acima do chão, sem pressa, sem precisar de chão, e virou para nós a cabeça lavrada com a calma de uma coisa que nunca, em geração nenhuma daquele corpo enterrado, precisou ter pressa.
— Esse, pensou Freala, e a voz mental dela estava tão pequena quanto a do Gobe lá no começo de tudo. Esse foi o que pegou a gente.
Não estalou nenhuma ordem. Não bloqueou nenhuma passagem. Só nos olhou com olhos que eu não conseguia ler e abriu, devagar, as quatro asas, e o zumbido subiu de tom como um coro afinando antes da primeira nota.
Eu tinha matado um basilisco por dentro. Empatado e depois vencido a maior coisa que aquela colônia punha num corredor. Reaprendi a falar com meus amigos do lado errado da morte. E olhando aquela coisa dourada e linda subir mais um palmo no ar, com toda a minha recém-conquistada confiança de esqueleto no auge da forma, eu cheguei à única conclusão inteligente que me sobrava — a mesma de sempre, a que me mantinha de pé desde o primeiro dia neste mundo.
Corram, pensei. Corram agora, e não olhem o que voa atrás.
E nós corremos.