Capítulo 09 — Respirar é Opcional
Há uma vantagem em correr sem pulmões: eu não cansava.
Era a única coisa boa daquela corrida. Freala e Gobe iam na minha frente porque eu mandei — eu enxergava no breu, eles não, e a última coisa que aquela colônia precisava era de dois fugitivos cegos despencando numa boca de túnel. Atrás de nós vinha o Alado, e o Alado não fazia o farfalhar seco de mil patas que eu já tinha aprendido a temer. Fazia asa — longa, paciente. E não vinha devagar por calma. Vinha devagar porque podia.
A primeira lâmina de vento passou tão rente ao Gobe que levou um tufo de cabelo. Veio das asas: quatro batidas secas e o ar virou navalha, abriu um talho limpo na pedra à nossa frente, faísca onde teria sido osso. A segunda cruzou o lugar onde a nuca da Freala estivera meio segundo antes. Aquilo não era um predador esperando a presa cansar. Era um carrasco ajustando a mira, errando por pouco — e o pouco era a única coisa entre nós e o fim.
— Esquerda, transmiti, e Gobe jogou o corpo na boca esquerda do ramal sem perguntar. Freala atrás dele, a mão arrastando na parede para não cair. Desce. Desce sempre que puder.
— Por quê descer?, ofegou ela.
— Porque coisa que voa odeia teto baixo. Eu não sabia se era verdade. Soava verdade. Às vezes é o que dá pra oferecer.
E, por sorte — eu sei reconhecer sorte quando é ela que me salva —, era verdade o bastante. Descemos. O túnel apertou, a pedra deixou de ser a parede roída e lisa dos Isopterianos e virou rocha bruta, viva. Os fungos azuis rarearam, sumiram. Uma última lâmina de vento ainda nos caçou corredor adentro e estourou numa quina de pedra a um palmo do meu ombro, sem ângulo pra fechar. E então o zumbido atrás de nós — que tinha nos seguido três curvas, quatro — parou.
Não diminuiu. Parou. Como se tivesse esbarrado numa parede que eu não via.
Freei meio passo, derrapei a atenção pra trás. O Alado estava lá, ainda, pairando um palmo acima do chão na última curva iluminada de azul. As quatro asas meio recolhidas, como quem trava um golpe que decidiu não desferir. A cabeça lavrada virada para o nosso túnel escuro. E ele não entrava. Aquela coisa dourada e linda que um segundo antes rachava pedra com o bater das asas estava parada no limiar de onde estávamos, recusando-se a pôr uma única ponta de antena adiante.
— Por que ele parou?, sussurrou Gobe, e a voz mental dele tinha aquela vibração fina de quem não acredita na própria sorte.
Eu não sabia. Mas vi a coisa recuar — recuar, ela, que tinha nos caçado sem mover um músculo a mais do necessário — e dobrar as asas, e sumir colônia adentro como quem fecha uma porta por fora. E eu aprendi, ali, uma regra nova deste mundo: quando o predador do topo da cadeia decide que um lugar não vale a pena, o lugar não é seguro. O lugar é outra coisa.
Eu só não sabia ainda o quê.
*
Paramos quando as pernas deles pediram. As minhas não pedem nada.
Freala sentou na rocha, as costas na parede, e ficou um tempo só respirando — fundo, ruidoso, o ar entrando e saindo daquele jeito caro que os vivos têm. Gobe se jogou ao lado dela, voltou ao tamanho normal com um estalo seco de articulações, e tateou no cinto até achar a garrafa, não a mágica, a de bebida, e bebeu, e tossiu.
— Ele desistiu, disse Gobe, e riu, e a risada saiu errada. Ele simplesmente... a gente correu mais que um Alado. Eu vou contar isso pra todo mundo. Vou contar pros meus netos, que eu não tenho.
— A gente não correu mais que ele, disse Freala. Os olhos dela estavam fechados. Ele deixou.
Ela tem razão, pensei, e não disse, porque não havia ânimo nenhum em estar certo sobre aquilo.
Deixei que descansassem. Aproveitei para fazer a conta que vinha adiando desde a câmara: que três deles tinham sumido no escuro, e que dois estavam aqui comigo, e que isso deixava um buraco do tamanho de Tricar, Conna e Leof no meio da história.
— Os outros, transmiti, devagar, para não soar como acusação. Quando vocês se separaram. Pra onde eles foram?
Freala abriu os olhos.
— Pra cima, disse ela. Leof abriu a Senda.
— A quê?
Ela me olhou do jeito que já tinha me olhado duas vezes naquela fuga — aquele olho de lado, de quem percebe um buraco onde devia ter chão.
— A Senda da Esperança. Como se isso explicasse. É uma graça de Élpis. Leof junta as mãos, jura o juramento, e nasce um fio de luz que aponta o caminho de menor mal pra fora. Não a saída mais curta. A que mais gente sobrevive. Ela fez uma pausa. Ele abriu, e o fio apontou os túneis que sobem, de volta às ruínas onde a gente entrou. Tricar pegou a frente, Conna fechou a retaguarda, e eles foram pra cima por ali. Eu e o gnomo ficamos pra trás cobrindo, e quando viramos a cabeça o fio já tinha ido, e a luz com ele, e aí... Ela não terminou. Não precisava. O Alado dourado terminava a frase sozinho.
Então eles podem estar lá fora, pensei. Ou podem estar mortos no meio do caminho de menor mal, que é menor, não nenhum. Guardei as duas possibilidades lado a lado, do mesmo tamanho, porque era honesto.
O que eu disse foi:
— Eu não conheço essa magia. E, com a porta aberta, empurrei mais: Nem aquelas duas que você soltou no Guardião. O vapor e o gelo. Quando você as conjura, a marca que acende na sua mão não é uma só — são duas, trançadas uma na outra. Nas outras magias é uma só. Por que duas?
Freala parou de descansar e começou a me estudar de verdade.
*
— Você vê as runas, disse ela. Não era bem uma pergunta, mas tinha o peso de uma. Você enxerga a marca se desenhar quando eu conjuro, e mesmo assim não sabe que vapor e gelo são caminhos secundários? Que eles nascem de dois caminhos puros casados — água com fogo, água com ar — e por isso vêm com duas runas, não uma? Ela inclinou a cabeça. Que mago lê a costura da magia e não conhece o nome do tecido? Que tipo de mago inventa o que faz tateando no escuro, sem nunca ter ouvido o nome de nada?
Um péssimo, pensei. Mas ela merecia melhor do que isso, e eu queria a informação que viria se ela continuasse falando, então pus a cara mais ignorante que um crânio sem cara consegue pôr e deixei o silêncio puxar.
Funcionou. Gente que sabe das coisas não suporta um buraco no conhecimento alheio. É mais forte que elas.
— Existem dois jeitos de uma magia acontecer, disse Freala, e a voz dela achou um tom velho, de aula. O meu jeito é o arcano. A gente pega as energias do mundo — as que estão em tudo, no ar, na água, na pedra, na sombra — e dobra elas com a vontade, com estudo, com anos. Magia arcana é insultar a lei natural na cara dela. É fazer relâmpago de céu limpo, virar um homem em sapo, abrir uma porta aqui e sair do outro lado do mundo, encher uma sala de gente que não existe. É vistosa. É bruta. E é toda nossa — ninguém empresta, a gente arranca.
— E o outro jeito, transmiti.
— O outro jeito é o de Leof. Ela disse o nome com cuidado. Magia divina. Você não arranca nada. Você ajoelha. Promete devoção a uma potência grande o bastante pra ouvir — um dos deuses, quase sempre — e ela empresta um pedaço do poder dela em troca. E a magia sai com a cara do deus que a concedeu. Élpis dá cura, abrigo, um fio de luz na escuridão. Mas Karnax arma o braço de quem faz guerra, e Gromthar enche os orcs de um fogo que não é fé nenhuma, é fúria. O deus escolhe o que empresta — quem reza por destruição, e reza ao deus certo, recebe destruição. Um canto de boca subiu, sem alegria. O fogo verde que o Leof joga, aquele que quase te matou lá no começo? Não é fogo arcano. É Élpis: esperança com gume, luz que escolhe o que queimar. A diferença não é o que a magia faz. É de onde ela desce. Arcano sobe da terra. Divino desce do céu.
Eu absorvi aquilo do jeito que absorvo tudo desde que cheguei — de boca aberta, ou de órbita aberta, tanto faz. Numa colônia de insetos do tamanho de um reino, com um deus dourado nas costas, a aula de teologia mágica de uma maga exausta era a coisa mais útil que tinha me acontecido em dias.
— Os deuses, transmiti. Quantos são.
Ela piscou.
— Sete, disse, como quem diz que a água é molhada. E vendo que eu esperava mais, suspirou, e contou nos dedos sem perceber que contava. Khalim, o Juiz, que segura a balança e lidera os outros. Durinor dos anões, da forja. Larieneth da floresta. Karnax da guerra — esse todo general reza. Thelestia do saber. Gromthar, que os orcs sangram. E Élpis. O dedo dela parou em Élpis com um carinho involuntário. A Donzela. A Esperança. A de Leof. Ela me encarou. Todo bebê deste mundo mama os Sete junto com o leite, Thasjo. Você não tem mãe?
Não que eu lembre, foi a resposta verdadeira, e não dei.
— Sete, repeti.
E foi quando Gobe, que tinha ficado quieto tempo demais para um gnomo, soltou — bêbado de cansaço e dois goles, os olhos meio fechados, do jeito de quem fala dormindo:
— Oito, se você contar o que não conta.
Houve um silêncio com bordas.
Freala virou a cabeça devagar.
— Sete, disse ela, e o tom era de aviso.
— Sete, concordou Gobe, na hora, abrindo os olhos, abrindo um sorriso, a coisa toda dele de vigarista voltando ao posto num pulo. Sete, claro, sete. Tava sonhando. Esquece o gnomo, o gnomo bebeu. E riu, e a risada dessa vez saiu certa, ensaiada, e empurrou a conversa para longe daquilo com a habilidade de quem empurra conversa para viver.
Eu guardei. Oito, se você contar o que não conta. Guardei junto com o "deus dos caminhos, esquecido, com senso de humor" que ele tinha deixado escapar dias atrás, no túnel, quando rimos do nosso próprio azar. Dois fios soltos da mesma cor. Eu ainda não sabia tecer, mas estava aprendendo a não jogar fio fora.
*
A conversa nunca chegou a um fim. Foi interrompida.
Gobe falava — alguma coisa, um desvio, mantendo o leme longe do oitavo — quando a voz dele tropeçou no meio de uma palavra. Não de propósito dessa vez. Ele levou a mão à testa, apertou os olhos, e a frase morreu sem dono.
— Gobe?
— Tô bem, disse ele, e não estava. A pele dele, que eu via em cinza, tinha um cinza errado. Só... a cabeça. Doendo. Desde a corrida. Achei que era a corrida.
— Eu também, disse Freala, e a percepção de que não estava sozinha no sintoma assustou ela mais do que o sintoma. Ela tentou se levantar, e a parede teve que ajudar, e a perna não acertou o chão de primeira. Tonta. Eu tô... por que eu tô tonta. Eu não corri tanto assim.
Gobe se virou de lado e vomitou o pouco que tinha no estômago.
E eu, parado ali no meio dos meus dois únicos amigos vivos do lado errado da morte, senti exatamente nada. Nenhuma dor de cabeça, porque eu não tinha cabeça onde doer. Nenhuma tontura, porque tontura é o corpo brigando por algo, e o meu não brigava por nada. Nenhuma náusea, pelo motivo óbvio e nojento de sempre.
E foi essa a pista. Não o que eu sentia. O que eu não sentia.
Dois corpos que respiram passando mal ao mesmo tempo, no mesmo lugar, sem ferimento, sem veneno que alguém tivesse comido. Um corpo que não respira, perfeitamente bem. A diferença entre nós três não era força, nem sorte, nem fé.
Era o ar.
E eu sabia o nome dele. Veio de um porão da cabeça que eu nem lembrava ter — da vida que me arrancaram antes desta —, a palavra inteira, limpa, deslocada num mundo de deuses e runas: metano. Pântano, mina, esgoto, bicho que apodrece no escuro sem ninguém olhando. O gás que não tem cheiro e mata assim mesmo, empurrando o ar bom pra fora do peito sem fazer cerimônia. Uma colônia inteira digerindo o mundo há séculos lá embaixo exalava isso por quilômetro, e ele se acomodava nas barrigas mais fundas da pedra, onde nada o varria. Eu não tinha como explicar metano pra eles. Mas tinha como explicar morrer.
Parem de respirar fundo, transmiti, e a urgência saiu tão crua que os dois me olharam. Freala, ouve. O ar aqui está ruim. Ruim de matar. Vocês não estão cansados, vocês estão sufocando devagar e o corpo de vocês ainda nem percebeu direito.
— Como você... — ela engoliu — ...você nem respira.
— Por isso. A ironia não tinha graça nenhuma, e mesmo assim era a chave inteira. Eu sou o único aqui que não bebe desse ar, e sou o único que tá bem. Uma colônia desse tamanho, comendo, apodrecendo, fermentando há séculos lá embaixo — ela exala. E o que ela exala desce, ou estagna onde ninguém ventila. E ninguém ventila aqui porque os bichos têm medo desse lugar. O Alado parou no limiar. Eles não vêm pra cá. E sem eles indo e vindo, o ar não se mexe. Ele só... senta. E engrossa.
Eu olhei para o fundo do túnel, para onde a rocha descia mais, para a boca escura de onde o ar saía quente e mais pesado.
A sorte de vocês, completei, é que a gente parou aqui, na beirada. Lá embaixo, no fundo, onde tá grosso de verdade, vocês teriam apagado antes de sentir dor de cabeça. A gente precisa subir. Agora. E pra subir vocês vão ter que respirar, e respirar é o problema.
— Então a gente prende o fôlego, disse Gobe, limpando a boca.
— Por quanto tempo? Você não sabe quanto chão tem até o ar limpar. Eu não sabia também. Era o ponto.
E aí — porque é assim que minha cabeça funciona, aos trancos, juntando coisa errada com coisa errada até sair coisa certa — eu lembrei do Véu.
*
— Escutem, transmiti, e me agachei na frente dos dois para que prestassem atenção a uma ideia, não a um esqueleto. Deixa eu mostrar uma coisa.
Estendi a mão e fiz um Véu de Sombras minúsculo, do tamanho de uma maçã, só pra ser visto. A escuridão em volta dos meus dedos se juntou, adensou, virou um caroço de breu mais negro que o breu ao redor. Não criei sombra nenhuma — não sei criar. Peguei o escuro que já estava aqui e apertei, juntei, mandei ele ficar onde eu quis. Fechei a mão e o caroço se desfez. É só isso que eu faço. Eu não invento o elemento. Eu mando no que já existe.
Freala olhava a minha mão como quem lê uma página.
— Vocês mandam no ar, continuei. É o caminho de vocês, não o meu. Então não tentem fazer ar limpo do nada — não dá, e ia gastar vocês à toa. Façam o que eu fiz: peguem o ar que ainda presta, o que desce de cima, e apertem ele junto do corpo. Uma casca. Fina. Colada em vocês. Empurrem o pesado pra fora e não deixem ele voltar.
Eu não podia fazer aquilo por eles — não tenho o Ar, tenho fogo, água e sombra e nenhum sopro nos ossos. Tudo que eu tinha era a ideia. Então dei a ideia inteira, e fui guiando os dois com palavra e gesto, corrigindo, apontando, até a ideia sair da minha cabeça e virar magia na mão deles.
Gobe foi o primeiro. A runa acendeu nos dedos dele — um traço só, limpo, de Ar — e um fiapo de vento começou a girar rente à pele, tímido, depois redondo, fechado: uma bolha do tamanho de um homem. Ele respirou dentro dela e a cara mudou na hora.
— Ah, disse Gobe. Ah, isso é bom. Isso é ar de gente. E a risada saiu certa pela primeira vez desde a fuga.
Freala fez a sua logo atrás, mais firme, mais redonda. Manto de Vento, pensei, batizando aquilo sem querer — cada um o seu, duas cascas de fôlego limpo num corredor que matava. A runa se desenhou na mão dela enquanto conjurava, e dessa vez era uma só: vento puro, sem a trança do gelo.
— Não está em livro nenhum, disse ela, baixinho, e na voz havia aquela admiração de quem passou a vida estudando e ainda assim levou um susto. Eu sei mil magias de ar. Nenhuma é essa. De onde você tira essas coisas, esqueleto?
Da pressa de não te ver morrer, pensei, e não disse.
E aí veio o problema. Freala apertou os lábios; a casca em volta dela tremeu nas bordas.
— Isso bebe mana, disse ela. Sem parar. Não é um golpe que sai e acaba — é uma torneira que fica aberta. Eu seguro por uns minutos. O gnomo, menos. Quanto chão tem até o ar limpar?
E foi a primeira vez na existência que eu tive de pensar de verdade sobre mana — porque foi a primeira vez que a conta não era minha. Eu carrego mana que não acaba; lanço Labareda até enjoar e o número mal se mexe. Tinha tratado mana como tratava ar: coisa que os outros contam, não eu. Olhei as duas cascas tremerem nas beiradas e entendi, com um aperto, que pra quem respira cada fôlego custa — até o de mentira, até o mágico.
— Pouco, menti, porque não sabia. Tem pouco chão. Anda atrás de mim e não gasta fôlego falando.
E subimos. Diferente do meu Véu, que morre no instante em que dou um passo, o Manto andava com eles: duas bolhas de ar bom subindo uma garganta de ar ruim, eu na frente porque eu via, os dois atrás respirando como quem foi devolvido à beira de um rio.
*
Subimos por um tempo que eu não medi. O ar foi clareando — eu soube porque os dois foram falando mais, reclamando mais, o que em gente que respira é sinal de saúde. A rocha foi mudando outra vez. E então, sem aviso, o túnel parou de ser túnel.
Desembocamos numa câmara tão grande que o teto se perdia muito acima de onde meu olho alcançava.
E fazia frio. Frio de verdade, súbito, depois de dias de calor úmido de fungo — um ar gelado descendo de algum lugar muito acima, por uma chaminé de pedra que rasgava o teto perdido no escuro e trazia, de tão longe, o cheiro de fora. À nossa frente, atravessando a câmara de um lado a outro, havia uma ponte. Não construída — crescida. Um arco único de pedra que a água tinha esculpido em eras, fino no meio, partindo de um paredão e morrendo no outro, e por baixo dele, congelada no meio da queda, uma cachoeira. Gelo no formato exato do tombo da água, parada no ar, presa por aquele frio que descia da chaminé. Estalactites desciam do escuro como dentes. Estalagmites subiam pra encontrá-las. E na base da ponte, gravadas na pedra com um capricho que nenhum inseto teria, corriam runas.
Eu as li. É o que eu faço.
ᛈᛟᚾᛏᛖ᛫ᛞᛟ᛫ᛁᚾᚠᛖᚱᚾᛟ
Ponte do Inferno.
Não falei pros outros o que diziam. Gobe perguntou, e eu disse que eram velhas demais pra entender, e ele aceitou porque queria aceitar. Não havia nada que duas pessoas que acabaram de quase sufocar precisassem menos do que uma ponte gelada chamada Inferno avisando, em letra de gente, que estavam no caminho certo para algum lugar muito errado.
E a ponte fazia jus ao nome. Do outro lado da cachoeira morta ela não subia, nem seguia reta — descia. Mergulhava num declive de pedra que afundava no breu, e lá no fundo, no limite do que meu olho alcançava, dois portões a esperavam. Altos como três homens, de uma pedra escura que parecia beber o pouco que havia pra ver, fechados, lavrados pela mesma mão antiga que cravara o aviso. A ponte era só o caminho. O inferno tinha portão, e o portão ficava lá embaixo, no fim da descida.
— A gente não desce ali, transmiti, antes que qualquer um dos dois pusesse o pé na pedra. Aqueles portões a gente não abre. Não hoje, não nunca, não nós. Gobe se debruçou um palmo, viu o declive sumir no escuro, e pela segunda vez ficou quieto. A gente vinha subindo desde o gás. Continua subindo. Essa ponte desce — então a ponte não é nossa. Tem que haver outra boca nesta câmara que puxe pra cima.
E havia. Uma fenda na parede gelada, do lado oposto à ponte, estreita e íngreme, soprando um ar que pela primeira vez em dias não cheirava a mofo nem a morte. Subimos por ela — apertados, os ombros deles raspando a rocha — e, no alto, depois de uma última curva, a luz nos engoliu.
*
Luz de verdade. Luz de sol.
Subia ela de uma abertura colossal lá no alto — o teto do mundo se abrindo num rasgo de céu — e descia em colunas douradas que cortavam o ar úmido da câmara e batiam no chão, e o chão era verde. Uma floresta. Quente, molhada, viva, crescida ali no fundo do Fosso ao redor das pernas de luz que desciam do céu, samambaias do tamanho de homens, troncos vestidos de musgo, vapor subindo da terra morna onde o sol batia. Pássaros — eu não via pássaros desde que morri — cruzavam as colunas de luz e sumiam na sombra das copas. E no centro de tudo, exatamente onde o maior dos raios de sol da manhã pousava, havia um templo.
Pequeno. Antigo. De uma pedra clara que o sol fazia arder de dourado, tão banhado de luz que doía olhar — e eu não tenho olhos para doer, e doeu mesmo assim. Era o coração daquele lugar. O coração do Fosso, talvez. Aberto ao céu que nos cercava por todos os lados em paredões de rocha tão altos e tão lisos que sumiam na luz lá em cima.
Gobe não disse nada. Foi a coisa mais rara que ele fez em toda a nossa amizade.
Freala foi a que falou, depois de muito tempo, e o que ela falou não foi sobre a beleza.
— Eles não voltaram por aqui, disse ela, baixo, girando devagar para tomar os paredões inteiros, o anel de pedra sem rachadura que nos cercava, o céu inalcançável lá no alto. Olha em volta, Thasjo. Não tem subida. Não tem trilha. Esses paredões... a Senda do Leof apontou os túneis, não isso. Tricar e os outros nunca passaram por aqui. Pra entrar ou sair desse lugar você precisa voar. Ela olhou pra cima, pro rasgo de céu de onde a luz e o frio desciam. Ou cair.
Tinha razão sobre o céu. O anel de pedra subia liso até se perder na luz, e a única estrada que dava pra cima a partir dali era a que tinha asa — e o único de nós que vira uma asa de perto naquele dia tinha passado a manhã fugindo dela.
Mas a Freala olhava pra cima, e eu não conseguia parar de olhar pra baixo. Pra fenda por onde a gente acabara de subir. Pra garganta escura que descia de volta à câmara fria, à cachoeira morta, à ponte que afundava — e aos portões pretos esperando no fim dela. Um lugar de paredões sem rachadura ainda tinha um jeito de entrar. A gente tinha acabado de usá-lo. E o que serve de porta pra um esqueleto e dois fugitivos subirem serve, igualzinho, pra qualquer coisa descer.
Olhei a floresta dourada, os pássaros, o templo ardendo de sol. Não vi um refúgio.
Vi o fundo de um poço bonito demais, fechado pra cima e aberto pra baixo, com uma única porta — e a porta dava pro inferno.