Capítulo 10 — Cadeia Alimentar
Passei dias preocupado com Alados, gás que mata e portões que ninguém devia abrir. Levei um tempo embaraçoso pra perceber que o primeiro inimigo a nos vencer no Pavilhão seria o estômago.
Não o meu. O meu é uma decoração que carrego entre as costelas. O problema eram os dois corpos vivos sentados na grama dourada, e o jeito como, vencido o susto da floresta caída do céu, começaram a olhar pras samambaias como quem lê um cardápio.
— Eu estou com fome, anunciou Gobe, com a gravidade de quem dá uma notícia de guerra. Fome de verdade. Tinha esquecido como é. É horrível.
— A gente vive com isso, disse Freala, sem abrir os olhos. É o combinado de ser vivo.
— Pois eu fiquei mal-acostumado. Gobe tateou o cinto e ergueu contra a luz a garrafa — a mágica, a mesma de onde eu o tinha despejado de volta no mundo, semanas atrás. Sabe quanto tempo eu passei aqui dentro? Nem eu sei. Esse é o ponto. Lá dentro não tem fome, nem sede, nem sono, nem o joelho doendo. A coisa segura você num talinho de instante que não acaba. O mundo lá fora pode girar um ano que, pra quem está dentro, não passou um suspiro. Ele baixou a garrafa e me apontou com ela, acusador. Aí um esqueleto te despeja na realidade e a realidade cobra atrasado. Tudo de uma vez. Eu acordei mortal de novo, Thasjo, e a primeira coisa que a mortalidade fez foi pedir almoço.
Guardei aquilo — na garrafa o tempo não corre — junto com as outras coisas de Gobe que pareciam piada e não eram. Mas o que importava era simples: dois dos três sobreviventes daquele buraco precisavam comer, e o terceiro era eu, que não como.
Freala abriu os olhos.
— E eu preciso dormir, disse ela, e doeu nela admitir. O Manto de Vento me esvaziou. Mana não é balde que se vira; é poço, e o meu secou subindo aquela garganta. Volta com descanso e comida, devagar, igual o fôlego. Ela me mediu com aquela curiosidade de estudiosa diante de bicho novo. Você, pelo que é, não deve nem sentir o poço baixar. Deve ser bom.
Tem suas vantagens, pensei, e tem o seu preço. Mas o preço não vinha ao caso. O que vinha era que eu era a única coisa de pé entre aqueles dois e o escuro, e o escuro ali tinha fome também.
*
A floresta não foi difícil de vender.
— A gente não fica no aberto, eu disse, apontando a clareira onde o templo ardia dourado no meio do Pavilhão. Bonito é a mesma coisa que exposto. Entramos nas árvores: sombra, copa fechada, várias saídas, nada que veja a gente de cima.
E porque a parte de cima daquele poço era um rasgo de céu por onde só descia quem tinha asa, e porque o único de nós que vira uma asa de perto passara a véspera fugindo dela, ninguém discutiu o "nada que veja a gente de cima".
Foi montando o acampamento que apareceu a coisa engraçada — engraçada do meu jeito.
Freala sabia o que toda maga aventureira sabe: que aquela trepadeira de seiva leitosa queima a pele, que o cogumelo de pé azul é o que a Colônia cultiva e não mata ninguém, que água parada se ferve e água corrente se confia com menos medo. Conhecimento herdado, testado. Mandou Gobe encolher e subir nos galhos altos, onde a fruta boa amadurece longe de quem rasteja, e foi separando o cacho roxo que prestava do cacho roxo que dava cólica com a segurança de quem já errou e aprendeu.
— Esse não, dizia ela, e Gobe largava. Esse sim. O de dentro, mais escuro.
E eu sabia o resto. Sabia porque, na vida que me arrancaram, eu fui devoto de um certo tipo de programa — não vou dizer o nome, mas era dos bons. Largavam duas pessoas sem nada no fim do mundo, só elas e a teimosia, e eu assistia maratonas inteiras admirando quem aguentava. Achava bonito. Achava que um dia talvez me servisse. Ninguém me avisou que o dia ia chegar do outro lado da morte.
— Não, não amontoa folha por cima e pronto, eu disse a Gobe, que amontoava folha por cima e achava pronto.
— Por que não? Está em cima. Cobre.
— Cobre o vento. Não cobre o frio que vem de baixo. Apontei o chão. O chão rouba o calor de vocês a noite toda, mais que o ar. Primeiro a cama: folha seca, camada grossa, mais grossa do que parece bastar. Depois o teto. Mostrei dois troncos caídos num V. Galho encostado aqui, inclinado, bem baixo. Quanto menor por dentro, menos espaço pra vocês esquentarem.
— Você fazia isso?, perguntou Gobe, encaixando o galho, desconfiado.
— Eu prestava atenção em quem fazia. Verdade técnica. E decora a regra: três minutos sem ar, três dias sem água, três semanas sem comida. Por isso a gente não corre atrás de fruta primeiro. Cuida do que mata rápido — calor, água — e deixa a barriga reclamar, que ela reclama devagar.
— A barriga discorda, disse Gobe, mas trabalhou.
Quando o abrigo ficou de pé — ridículo e perfeito —, Freala juntou uma concavidade de pedra com água e raspou os dedos pra acender o fogo. Não saiu nada. Nem fagulha. O poço de mana estava seco; ela não tinha dentro de si, sequer a energia para acender a brasa pra um pavio.
Ela encarou a mão vazia com uma frustração silenciosa, do tipo que orgulho não deixa virar reclamação.
Eu me agachei do outro lado da pedra e, sem alarde, soltei um fiapo de Labareda — o menor que sei fazer, do tamanho da chama de uma vela — sob a água. Não me custou nada. É essa a graça e a injustiça do que eu sou: o que a esvaziava por dentro eu gastava sem sentir falta.
A água começou a sussurrar. Freala me olhou. Não disse obrigada — não é gente de dizer —, mas algo no rosto dela cedeu um milímetro, e por um milímetro ela parou de me olhar como um enigma e me olhou como alguém que estava ali, do lado, fazendo a coisa pequena que dava pra fazer.
— Útil, disse ela, por fim.
— Faço o que posso com o que sobra, respondi, e era quase uma piada, e ela quase sorriu.
Comeram pouco e devagar, do jeito de quem foi avisado de que estômago vazio implora e estômago cheio demais castiga. Quando os dois apagaram dentro do abrigo, sobrou o que sempre sobra pra mim: a noite inteira, acordado, sem nada pra fazer com ela.
Então fui fazer o que faço. Fui explorar.
*
A floresta tinha bordas, e nas bordas a rocha voltava, e na rocha voltavam as bocas de túnel. Foi na terceira que achei a primeira patrulha.
Três Soldados. Quitina dourada, mandíbulas como tesouras de jardineiro, aquele andar de relógio. Iam de antena baixa, varrendo a pedra, parando, varrendo — procurando. Procurando a gente. A trégua tinha prazo, e o prazo, pelo visto, era agora.
O esqueleto rachado que rastejara pra fora daquele bicho, semanas atrás, teria entrado em pânico. O que eu era àquela altura fez uma conta fria: três Soldados não são um Guardião.
Adensei o Véu — a sombra que me engolia enquanto eu ficasse parado — e esperei o último da fila chegar perto. Agulha de Água na nuca, na fresta entre as placas, onde a couraça não cobre: o jato fino e duro entrou e o bicho caiu sem um clique. Os outros dois viraram. Labareda no primeiro, contínua, na junta das pernas, onde a casca afina — o fogo não rasga a quitina, mas, despejado sem parar no mesmo ponto, cozinha o que está embaixo. O terceiro veio de mandíbula aberta e eu não recuei, porque recuar faz a luta durar; pisei pra dentro do golpe, peguei a articulação com as duas mãos, e a força que eu tinha pagado caro fez o resto. Estalou.
[Você derrotou: Soldado Isopteriano.] ×3
Doze segundos, no máximo. De propósito. Eu tinha uma regra nova, e a regra era: rápido. Esqueleto fazendo barulho de batalha numa borda da floresta é jantar anunciado pro que vier atrás — um Guardião, ou pior, alguma coisa com asa pairando no rasgo de céu. Mata depressa, esconde os corpos, sai. Briga curta não chama plateia.
Repeti aquilo noite após noite. E em algum momento, no meio da rotina, o sistema reparou no padrão:
[Título adquirido: «Predador Paciente»]
[Abater inimigos sem soar o alarme da colônia concede bônus de Experiência.]
Eu nem sabia que dava pra ganhar título. Mas se o sistema queria me pagar bônus por fazer o que eu já ia fazer de qualquer jeito, eu não ia recusar. Cacei mais. Cacei muito. Patrulha após patrulha, sem um único alarme, a barra do meu nível — que havia muito eu tratava como parada — começou enfim a se mexer, gorda do bônus, e um dia transbordou.
[Você subiu de nível!]
[Você subiu de nível!]
[Você subiu de nível!]
[Você subiu de nível!]
[Você subiu de nível!]
[Nível 15 alcançado.]
[Você recebeu 30 pontos de Habilidade.]
[Você recebeu 1 ponto de Magia.]
Cinco de uma vez. Não porque cada inseto valesse muito — não vale —, mas porque foram muitos, e o título engordou cada um. Distribuí os trinta pontos parado no escuro, friamente. Inteligência eu nem toquei — graças à runa apodrecida na minha órbita, ela já beira o absurdo, e jogar ponto ali seria como acrescentar um copo d'água no mar. Dividi o resto igual no que me sustenta de pé e me deixa bater: dez em Força, dez em Agilidade, dez em Vitalidade.
A diferença foi imediata: os ossos assentaram mais firmes, o passo ficou mais leve, e veio aquela sensação rara de que o vidro de que eu sou feito tinha ganhado um dedo a mais de espessura.
[Pontos de Vida: 70 → 120.]
E sobrou o ponto de Magia, piscando. Esse eu não dividi. Esse eu sabia onde queria desde a primeira vez que o Véu me largou no chão por eu ter ousado dar um passo.
[Caminho da Magia «Trevas»: 1 → 2.]
[Nova magia disponível: 《Manto de Sombras》.]
A magia que o sistema me negara lá atrás, quando eu não tinha como sustentá-la e me dei por satisfeito com o Véu, seu irmão menor. Puxei o breu pra junto do corpo e dessa vez ele não me largou ao primeiro passo: grudou, veio comigo, andou comigo. Uma mortalha de sombra colada nos ossos que não desmanchava em movimento — só morria sob luz forte e direta, mas no breu e na penumbra ela me vestia inteiro e me apagava do mundo.
Estendi a mão à minha frente e não a vi. Mexi os dedos: nada. Eu continuava ali — sabia onde meu próprio braço estava —, mas pra qualquer outra coisa naquele escuro, eu tinha deixado de acontecer.
Um esqueleto que não faz som, não respira, não esquenta, e agora também não se vê. Eu estava virando um problema sério pra quem morasse no escuro.
*
Foi por isso que demorei a entender quando o método começou a falhar.
Não falhou de repente. Foi murchando. Numa patrulha, o Soldado que eu fui furar baixou o corpo na hora errada e a Agulha bateu na placa em vez da junta, e escorregou. Coincidência, pensei. Mas na seguinte os três andavam diferente — mais juntos, as articulações abrigadas atrás de placas, as nucas encostadas umas nas outras como quem aprendeu que a nuca era o problema. E não dava pra um Soldado ter aprendido: o que eu matava não voltava pra contar. Só que eu não estava lutando contra Soldados. Estava lutando contra a coisa de quilômetros da qual cada Soldado era uma célula, e a coisa tinha memória. Cada inseto que eu furava numa fresta ensinava a Colônia inteira onde ficava a fresta.
A Agulha, fora da junta, era um esguicho num muro. Forte o bastante pra achar um vão; fraca demais pra abrir um. E a Colônia estava fechando os vãos.
Eu preciso de mais magia, admiti, parado no escuro com um plano que estava enferrujando na minha mão. Magia de verdade. E eu não sei nem por onde se começa.
Sabia quem sabia.
*
Mas antes disso, na volta, foi que vi o que vi — duas bordas adiante.
Não era patrulha. Eram Soldados arrastando alguém. E o alguém não era inseto.
Era do tamanho de uma criança grande, encurvado, a pele lustrosa malhada de verde e barro, dedos longos e membranados crispados de dor. Um homem-sapo. Os Soldados o levavam pelas pernas, de cabeça pra baixo, dando nele o tipo de empurrão que não tem objetivo nenhum além de machucar.
E ele falava. Em voz alta, esganiçada, e — pra minha surpresa — na língua dos homens, atravancada e molhada, mas a mesma que a Freala falava.
— Coaxante não fez nada!, guinchava. Coaxante só pesca! Larga o Coaxante!
Eu devia ter seguido em frente. Não era meu povo, não era minha briga, e cada minuto ali era um minuto longe de dois amigos dormindo sem guarda.
Não segui.
Vesti o Manto e cruzei a distância sem que uma antena se erguesse. O Soldado que fechava a fila só teve tempo de virar antes de a Agulha achar a junta do pescoço — essa ainda exposta, porque o bicho carregava presa e não podia se encolher. Os outros dois largaram o sapo, que é o que sempre fazem quando aparece presa maior, e vieram. Manto, um passo de lado, e os dois bateram no lugar onde eu tinha estado. Labareda num. Mãos no outro. Curto.
[Você derrotou: Soldado Isopteriano.] ×3
O homem-sapo se encolhera contra a parede, os olhos enormes e dourados fixos em mim, a garganta inflando e murchando.
— A coisa de osso, sussurrou. A coisa de osso anda. A coisa de osso mata. A coisa de osso vai comer o Coaxante?
— Não como, transmiti, e ele deu um pulo ao ouvir minha voz dentro da cabeça. Você consegue andar?
— A coisa de osso fala por dentro! Ele apertou as têmporas. Coaxante anda. Anda muito bem, anda já, anda pra longe da—
— Anda comigo, cortei. Tem fogo e gente do teu tamanho de medo lá onde eu estou. É mais seguro que aqui.
"Mais seguro que aqui" convence rápido quem acabou de ser carregado de cabeça pra baixo. Ele veio.
*
O sapo se chamava Quagô, e Quagô, uma vez seguro perto das brasas e da Freala desperta e do Gobe encantado por ter público novo, descobriu que tinha muito a dizer e fome de dizer. É o que o medo recém-passado faz com a língua.
— Coaxante agradece, disse, fazendo uma reverência tão funda que quase capotou. Os do Fosso não ajudam os do Fosso. Cada povo no seu charco. Mas a coisa de osso ajudou. Por quê?
— Porque ele estava perto, disse Freala, antes de mim, secas as palavras mas não os olhos. Ele tem essa mania. E me olhou de lado, e havia ali quase um elogio.
— Como é que vocês conversam?, perguntou Gobe ao sapo. Você fala a nossa língua, e eu duvido que tenha nascido sabendo.
— Não é língua do Coaxante. É língua ensinada. Ele encolheu os ombros lustrosos, e a voz baixou, como quem fala de coisa que é melhor não dizer alto. Quando o ar esquenta — uma vez a cada volta, quando vem o calor — eles descem. Do céu. Pelo buraco de luz lá no meio, onde fica o templo que arde de dourado. Um dedo membranado apontou, sem querer, pro coração do Pavilhão. Chamam os povos do fosso pra dentro do templo, um por um. E perguntam. Perguntam tudo: onde o Coaxante mora, o que o Coaxante come, o que o Coaxante viu de estranho na água. Pra perguntar, primeiro ensinam a falar — não se ordenha resposta de quem não entende a pergunta. Ele tremeu. O Coaxante respondeu bonito. Por isso o Coaxante voltou.
Houve um silêncio do tamanho daquele "voltou".
— E os que respondem feio?, perguntou Gobe, mais baixo ainda.
Quagô não respondeu. Só olhou pro templo dourado, lá longe, e tirou os olhos dele depressa, do jeito de quem desvia de uma coisa que já doeu.
Do outro lado das brasas, a Freala — que dias antes tinha me recitado os deuses como quem recita uma reza velha — parou de mastigar. Não disse nada. Mas eu vi: ela tinha ligado dois pontos que eu ainda não tinha, e o que quer que tivesse ligado não a deixou com vontade de falar.
Eu guardei o fio assim mesmo, sem as pontas. Gente que desce do céu uma vez por ano, pousa num templo de luz no meio de um mundo enterrado e arranca dos nativos tudo o que eles sabem — ensinando a língua só pra arrancar melhor. Não soube dizer o que era. Soube que a gente estava acampado a um tiro de pedra da porta por onde aquilo descia.
— E o que você sabe sobre os Cupins?, perguntei.
Foi aí que ele reorganizou o mapa que eu vinha desenhando da Colônia desde que pus os pés nela.
Eu achava que conhecia a escada. Operários na base, a maré que cava e carrega e cultiva o fungo. Soldados acima, as tesouras dos corredores. Guardiões acima deles, as paredes ambulantes. E os Alados no topo — os que voam, os que capturam, a coisa dourada que nos perseguira e parara no limiar. Eu tinha empacotado o Alado como o degrau de cima, logo abaixo da Rainha.
Quagô riu de mim. Com respeito, mas riu.
— A coisa-de-asa não é o teto, disse, e os dedos desenharam degraus no ar úmido. A coisa-de-asa caça. É a unha da mão. Acima dela vem a mão fechada — os que a coisa-de-asa obedece. O Coaxante os chama de Montados. Voam também, mas não vêm sozinhos: vêm encouraçados de fileira dupla, e com quem os monta em cima. Onde os Montados passam, o ramal fica vazio por luas.
— E acima dos Montados?, perguntou Freala, e tinha largado o descanso; estava ouvindo de verdade.
— Acima, ninguém viu e voltou pra contar. Quagô baixou a voz. Mas embaixo. Lá no fundo de tudo, vivem os que cavam o que não devia ser cavado. Grandes como uma câmara inteira. A pedra é lama mole pra eles. Quando um se mexe, o teto do Coaxante chove. Ele tremeu. Nós não temos nome pra esses. Temos um jeito de rezar pra que continuem dormindo.
Montados. Cavadores do tamanho de uma câmara. A cada nome que ele dizia, surgia uma casta que eu nem sabia existir, acima da última — e a Colônia, que eu já achava grande, ficou de repente alta demais pra eu ver o topo. Deu uma vertigem que eu não tinha onde sentir.
Porque a conta era simples e feia. O Alado — aquilo que rachara pedra com o bater das asas, que nos caçara sem suar, do qual a gente só escapara porque ele escolheu não vir — o Alado era a unha. Tinha mão acima dele. E tinha, lá no fundo, coisas que faziam chover o teto. E nada daquilo era a Rainha, que continuava no topo de tudo, sonhando, longe demais pra eu sequer imaginar o tamanho.
Eu vinha me achando o caçador do Pavilhão por desmontar patrulha de Soldado, pensei. E acima do Soldado havia o Guardião; acima do Guardião, o Alado; acima do Alado, coisas sem nome. Entre mim e a Rainha cabia um exército, e eu mal arranhava o primeiro degrau.
Não disse isso. Mas o frio que guardei não vinha da Ponte do Inferno. Vinha da certeza, nova e exata, de que a Agulha enferrujando na minha mão não ia me levar a lugar nenhum naquela escada.
*
Quando Quagô enfim dormiu — homens-sapo dormem de olhos abertos, o que não ajuda o sono de ninguém ao lado —, virei-me pra única pessoa ali que podia me dar o que eu mais precisava. Não comida nem sono. Eu precisava de teoria.
— Me ensina, transmiti à Freala. Tudo que você puder. Eu invento minhas magias tateando, e tateando eu já esbarrei no teto. Os insetos estão aprendendo mais rápido do que eu. Então me tira do escuro. Começa pelo começo.
Ela me estudou um tempo — a maga exausta que tinha visto um esqueleto reinventar o vento — e decidiu que valia a aula.
— O começo de um mago de batalha, disse ela, e fez questão das palavras, é a flecha. Toda magia tem mil usos, mas a primeira que se aprende pra lutar é sempre a flecha, em qualquer caminho, porque é a frase mais curta que um elemento sabe dizer. Você recolhe o elemento num ponto, aponta a vontade, solta. Um tiro: começa, vai, acaba. Ela ergueu a mão e um dardo de fogo do tamanho de um prego nasceu na ponta do dedo, partiu, e cravou num tronco com um silvo. Flecha. Primeiro grau.
— E depois da flecha?
— Depois a flecha vira lança. O dardo seguinte saiu mais longo, mais grosso, e furou o tronco de lado a lado. Segundo grau. A flecha arranha; a lança atravessa. É onde o dano começa pra valer — onde uma casca dura deixa de rir de você. Ela apoiou as costas na pedra, e a voz achou aquele tom de aula que ela não admitia gostar de ter. Terceiro grau, a coisa deixa de mirar um e passa a mirar muitos: a bola. Você já ouviu falar de bola de fogo, todo mundo já — junta a chama num ponto e ela estoura num raio, e quem estiver dentro do raio que se explique. Tem bola de toda cor: a de gelo que estilhaça, a de ácido que come, o estouro de trovão que rebenta o ar.
— E sobe mais.
— Sobe sempre. Ela contou nos dedos sem perceber. Quarto grau, a bola vira linha: o raio. O relâmpago que risca uma fileira inteira, o jato que varre tudo num corredor. Quinto, a linha vira leque, o sopro — um cone de brasa, ou de gelo, ou um grito que parte ossos, despejado na frente toda de uma vez. Do sexto em diante é coisa de gente grande: tempestade, que não é um golpe, é um clima — chuva de brasa, nevasca, trovoada que fica caindo num pedaço de mundo enquanto durar a vontade do mago. Mais acima ainda, dizem que tem a coluna, que desce do céu num ponto só e apaga o que houver ali. E lá no topo, no nono, no décimo, os nomes que a gente sussurra: o meteoro, o dilúvio, o juízo. Magia de quem virou lenda. Ela me olhou. Eu sou terceiro grau no Ar. Chego na bola. O raio eu sonho. O resto eu só vi em livro e em gente morta.
Eu absorvi tudo aquilo do jeito que absorvo desde que cheguei — de órbita aberta. Mas tinha uma coisa que não fechava.
— Se é só subir o caminho, eu disse, por que ninguém simplesmente lança muito? Por que você, com mana sobrando, não solta cem flechas de uma vez em vez de uma lança? Cem flechas não é mais que uma lança?
Ela riu — não de mim, do erro, que é um riso diferente.
— Porque você está medindo a coisa errada. O grau de uma magia não é quanta mana ela bebe. É quão difícil ela é de tecer. Ela deixou aquilo assentar. Uma flecha é primeiro grau porque é simples — um aprendiz tece uma no primeiro mês. Uma bola é terceiro porque coordenar a chama pra explodir no ponto certo, na hora certa, sem queimar a sua própria mão, é complicado. Não é a mana que separa o aprendiz do mestre. É a cabeça. Ela ergueu um dedo. E é por isso que ninguém "enche o céu" de flechas. Lançar dez ao mesmo tempo não é dez vezes uma flecha simples — é uma única coisa muito mais complexa, dez frases ditas na mesma boca, no mesmo instante, cada uma com seu rumo. Tão difícil quanto uma magia de grau alto. Não importa o tamanho do seu poço; se a sua cabeça não dá conta da costura, o céu fica vazio.
E ali, escutando, eu entendi duas coisas ao mesmo tempo — uma que ela quis me ensinar, e outra que ela não fazia ideia de ter ensinado.
A primeira: eu tinha o poço sem fundo e a cabeça de um aprendiz. A saraivada bonita que eu sonhei lá atrás — cem agulhas de uma vez — estava tão fora do meu alcance quanto o meteoro. Mana eu tinha de sobra. Era a costura que me faltava.
A segunda eu guardei pra depois. Porque havia uma diferença entre lançar dez flechas ao mesmo tempo e lançar dez flechas uma atrás da outra — e essa segunda coisa, simples, repetida, sem pressa, era a única no mundo que mana infinita fazia de graça.
— Mais uma, eu disse, empurrando. Trevas. Eu tenho trevas. O que um caminho de trevas faz, além de esconder?
Os olhos dela se estreitaram, interessados.
— Trevas quase não fere, disse. É o caminho que rouba, não o que rasga. A flecha dele tem nome próprio porque não é como as outras: chamam de Flecha Negra. Não fura nada. Ela morde o que te mantém de pé — o vigor, o fôlego, a vontade do corpo de obedecer. Quem leva uma fica mais lento. Mais pesado. Leva duas, três, e vira melado. Ela deu de ombros. Eu não lanço — não tenho o caminho. Mas todo mago estuda os seis, mesmo os que nunca vai tocar, porque é assim que a gente sabe do que tem medo. E de Flecha Negra eu sei o bastante pra ter medo.
Flecha Negra, repeti, e dentro do crânio uma porta que eu nem sabia trancada se abriu.
*
Esperei a Freala dormir pra testar. Algumas descobertas a gente prefere fazer sem plateia, caso saiam ridículas.
A flecha em si veio fácil — fácil demais, agora que alguém tinha me dito que ela existia. Recolhi o fogo num ponto, em vez de deixá-lo vazar como na Labareda, apontei, soltei. A terceira já cravava onde eu queria.
[Magia aprendida: 《Flecha de Fogo》.]
Levei-a a uma casca de Soldado caída perto do abrigo, dessas que a muda deixa pra trás. A Flecha de Fogo bateu na placa e se espalhou em fagulhas, sem furar. Lancei outra. Outra. Cinco, dez, uma atrás da outra, no mesmo palmo de quitina — eu não cansava, não ficava sem mana, podia fazer aquilo a noite toda. E a casca, no fim das dez, estava chamuscada e inteira. A Freala tinha razão na teoria e a Colônia tinha razão na prática: dez arranhões fracos no mesmo lugar não viram um talho. O dano não se soma. Ele se perde.
Então fogo não é o caminho, pensei. E virei pra sombra.
A Flecha Negra não cravou — não é o que ela faz. Saiu da minha mão como um fiapo de breu com peso, tocou a casca vazia e... nada visível. Mas eu, que vejo no escuro o que os vivos não veem, vi a coisa: por um instante a quitina pareceu mais velha, mais cansada, como se a flecha tivesse mordido não a placa, mas a lembrança do bicho que um dia a vestiu.
[Magia aprendida: 《Flecha Negra》.]
Numa casca morta não tinha vigor pra roubar, então o efeito morria ali. Eu precisava de algo vivo. E vivo, naquela floresta, não faltava.
Achei um Soldado solitário num ramal de borda. Manto. Cheguei perto. E em vez de procurar a junta — a junta que a Colônia agora abrigava —, fiz a única coisa que a Freala tinha jurado que ninguém faz, com a única vantagem que só eu no mundo tinha: comecei a repetir.
Flecha Negra. O Soldado tropeçou no próprio passo, estranhou as pernas.
Flecha Negra. As antenas dele baixaram um tom, a varredura ficou lerda.
Flecha Negra, Flecha Negra, Flecha Negra — uma atrás da outra, cada uma simples, cada uma barata, cada uma roubando mais um fio do que o mantinha de pé, e ao contrário do fogo, isto se somava. O debuff empilhava. O bicho que devia ter me estraçalhado afundou no chão como se a própria casca tivesse virado chumbo, as mandíbulas abrindo e fechando devagar, devagar, devagar demais pra alcançar coisa nenhuma.
Aí, sim, a Agulha. Uma só, sem pressa, na junta que ele não tinha mais força pra esconder.
[Você derrotou: Soldado Isopteriano.]
Eu fiquei olhando o corpo, e pela primeira vez em muito tempo o orgulho não veio com piada junto. Eu não tinha mais poder do que de manhã. Tinha a mesma flecha mais fraca do arsenal, a primeira que todo aprendiz aprende. Mas eu era a única criatura naquele mundo que podia lançá-la mil vezes sem cair de joelhos — e tinha acabado de descobrir a única magia em que mil vezes a mesma coisa fraca virava uma coisa forte.
*
Levei três noites afinando aquilo, e na terceira fui atrás dos Guardiões.
Eram quatro. Postados numa câmara úmida que Quagô dissera que a Colônia reocupara — paredes ambulantes, a casta que tempos atrás me dera o melhor combate da minha curta segunda vida e o terminara em empate, eu me gabando porque empatar com aquilo era o auge da minha carreira de então. Quatro deles, agora. O eu que empatara com um teria dado meia-volta rezando pra não ter feito barulho.
Vesti a sombra. Cruzei a câmara sem que uma antena se erguesse. E não procurei junta nenhuma. Procurei vigor.
Flecha Negra no primeiro, e outra, e outra, antes que os outros três soubessem que havia companhia — e quando souberam, e viraram aquelas paredes lentas pra me achar, eu já estava do outro lado, costurando o segundo de breu enquanto o primeiro afundava no próprio peso. Eles bateram onde eu tinha estado. Bateram em sombra. E eu fui passando, um a um, não com força, com paciência: cada Guardião uma conta de flechas pretas empilhadas até a couraça pesar mais do que a perna aguentava, até a parede ambulante virar parede e só. Aí a Agulha na junta rendida, ou a mão, ou a Força que me sobrava. O que fosse. Eles já tinham perdido a luta antes de eu encostar.
Quatro Guardiões. Nenhum arranhão em mim. E nem a calma eu perdi, o que é mais difícil que não perder o fôlego.
[Você derrotou: Guardião Isopteriano.] ×4
Fiquei no meio das quatro paredes paradas e chamei a tela, só pra ver, preto no branco, o tamanho do que eu tinha virado.
★★★
Nome: Thasjo Gênero: Masculino
Estado: Normal Rank: H
Tipo: Esqueleto / Morto-vivo
Classe: Mago
Nível: 15 Título: «Predador Paciente»
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PV: 120/120 Força: 40
MP: 1.000/1.000 Agilidade: 29
Dano: 6,9 Vitalidade: 24
Defesa: 3,0 Sentidos: 1 [bloqueado]
Inteligência: 1 [x200]
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Pontos de Status: 0 Pontos de Magia: 0
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✧ Habilidades Especiais ✧
[Ressurreição Lv 1] [Visão Noturna Lv 1]
['O Conhecimento de Babel'] [Telepatia]
[Compreensão de Runas] ['Jera - A Runa de Odin' 1/1]
──────────────────────────────
✧ Habilidades Mágicas ✧
Magias: 《Labareda》《Agulha de Água》《Véu de Sombras》
《Manto de Sombras》《Flecha de Fogo》《Flecha Negra》
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Caminhos da Magia
Terra: 0/10 Luz: 0/10
Água: 1/10 Trevas: 2/10
Fogo: 1/10 Vácuo: 0/?
Ar: 0/10 Éter: 0/?
★★★
Nenhum ponto piscando — esse eu já tinha gastado, e bem. Mas a tela me deixou pensando no próximo, que viria, com mais paciência e mais mortos.
E pela primeira vez a escolha não era óbvia. Eu vinha empilhando o que já tinha — fogo, água, trevas —, mas Quagô me mostrara uma escada de castas tão alta que três caminhos rasos jamais alcançariam o topo. Talvez fosse hora de algo novo. A terra, pensei, podia dar peso ao que eu lanço — areia na água corta pedra; uma agulha com terra dentro talvez não furasse a casca, talvez a serrasse. Ou a luz, que eu nunca ousara — ainda que luz, pra uma coisa como eu, fosse fogo amigo apontado pro lado errado. Eram ideias perigosas, dessas que parecem espertas demais e cobram a conta depois.
Não escolhi. Algumas decisões a gente deve ao próprio futuro o respeito de não tomar com sangue de inseto ainda quente nas mãos.
Mas eu sabia uma coisa, olhando as quatro paredes caídas e a escada de castas subindo acima delas, escura e sem fim à vista: qualquer que fosse o caminho, ia ser pra cima.
É sempre pra cima, quando se descobre o tamanho do que está por cima.