Capítulo 11 — Peso na Mão
A escada de castas subia escura acima de mim, e eu tinha decidido que ia subir junto. O que eu não tinha decidido — porque o Pavilhão decidiu por mim — era a pressa.
A trégua não acabou com um anúncio. Acabou do jeito que essas coisas acabam: devagar, e depois de uma vez. Na primeira noite eram três Soldados por borda. Na terceira, eram seis, e andavam em coluna, e não varriam mais a pedra de antena baixa procurando rastro — vinham com a antena alta, certos de que havia alguma coisa ali pra encontrar. Na quinta noite eu cacei uma patrulha inteira e, antes de esconder o último corpo, ouvi a seguinte já entrando pela mesma boca de túnel. A Colônia tinha parado de procurar a gente no escuro. Tinha começado a empurrar.
Eu fazia a conta toda madrugada, sentado no breu enquanto os três dormiam. A floresta do Pavilhão era grande, mas grande não é infinito, e cada noite a margem segura encolhia um passo. Eu podia matar patrulha a noite inteira — o título me pagava por isso, e eu não cansava nunca. Mas matar patrulha não muda a maré. Muda só o lugar onde ela quebra.
Não dá pra ficar, admiti, na manhã em que contei seis colunas em vez de cinco. A gente não está vivendo aqui. A gente está sendo cercado devagar e chamando isso de acampamento.
E aí vinha a parte feia da conta, a que eu vinha empurrando com a barriga que não tenho.
Pra cima não havia saída. O Pavilhão era um poço de paredões altíssimos e lisos, lisos do jeito que só água e séculos lixam a pedra, subindo até sumir na coluna de luz lá no alto. Quem entrava por ali entrava voando ou caindo, e nós três não fazíamos nem uma coisa nem outra. A única porta era a que a gente tinha usado pra chegar: a fenda lá embaixo, a que descia pela Ponte do Inferno e atravessava a Colônia inteira por dentro.
A saída era pra baixo. E pra baixo era através de tudo. Soldados, Guardiões, Alados, a tal mão fechada de Montados que o Quagô desenhara no ar, e — no fundo de tudo, fazendo chover o teto quando se mexiam — as coisas sem nome. A escada que me dera vertigem dois dias antes não era um obstáculo no caminho da saída.
Era o caminho da saída.
*
Foi a Freala quem botou o templo na mesa, e foi o Quagô quem quase capotou de medo quando ela botou.
— Se a gente precisa descer, disse ela, na voz baixa de quem está pensando alto, precisa descer melhor armado do que subiu. E tem uma coisa só, neste poço inteiro, que não nasceu aqui dentro. Ela virou a cabeça pro meio do Pavilhão, pra clareira onde a pedra clara ardia dourada no sol da manhã. Aquilo.
O Quagô, que estava ajeitando peixe-cego nas brasas, largou o peixe.
— Não, disse. Não, não, não. Lá não. O Coaxante já contou. É lá que eles trazem a gente. É de lá que nem todo mundo volta.
— Eles não estão aqui agora, disse Freala. Você mesmo disse: descem uma vez por volta, quando o ar esquenta. Não é a estação. A casa está vazia.
— Casa vazia de gente do céu, choramingou o sapo, é casa que ainda cheira a gente do céu. O Coaxante não entra. O Coaxante espera fora. O Coaxante segura... segura as brasas.
Eu deixei os dois discutirem e fiz o que faço: pesei. A Freala tinha razão na lógica, do jeito frio que ela costuma ter razão. Tudo no Pavilhão tinha crescido do chão úmido do Fosso — a floresta, os bichos, a Colônia. O templo era a única coisa que tinha vindo de fora, descido de cima, posta ali por mãos que não eram daqui. E coisas postas por mãos de fora costumam vir acompanhadas de ferramentas de fora.
Tinha outra coisa, também, que eu não disse em voz nenhuma, nem na de dentro da cabeça dos outros. Eu queria entrar. Fazia semanas que eu juntava fios soltos — gente que desce do céu, ensina a língua só pra perguntar, leva quem responde feio e não devolve — e ali, parado a um tiro de pedra, estava o novelo de onde todos os fios saíam. Curiosidade, pra uma coisa como eu, é quase fome. É a única que eu ainda sinto direito.
— A gente entra, transmiti, e os dois pararam de discutir. De dia, e juntos. Eu enxergo no escuro, vocês não — então tem que ser com a luz do rasgo entrando. E juntos porque cada um repara numa coisa diferente: a Freala vê magia onde eu vejo bagunça, o Gobe fareja valor onde eu passo reto. Eu leio o que estiver escrito, mas ler não é entender o que importa. Não adianta eu entrar sozinho e voltar contando metade. Pega o que serve, aprende o que dá, e some antes de qualquer asa reparar que a clareira tem sombra a mais. Olhei pro Quagô. Você não precisa entrar. Mas não fica aqui sozinho, no aberto, segurando brasa. Fica na soleira. Um pé dentro, um pé fora. O que você vir chegando, você nos avisa.
O sapo pensou no assunto com toda a cara de quem prefere não.
— Um pé dentro, repetiu, infeliz. Só a ponta do pé.
*
A clareira foi a pior parte, e foi a mais curta.
Cento e poucos passos de chão aberto entre a borda da floresta e a escadaria do templo, sem uma copa por cima, com a coluna de sol caindo reta do rasgo lá no alto. Eu, que ando vestido de sombra e me apago do mundo no breu, ali estava nu: o Manto morre na luz forte, e não havia luz mais forte naquele poço inteiro do que a do meio-dia despejada direto do céu. Atravessei como atravessa quem perdeu a vantagem e sabe — depressa, baixo, lendo o ar.
Quase deu pra atravessar limpo.
Vinha uma patrulha pela borda do leste, quatro Soldados em coluna, e o terceiro deles ergueu a antena no instante em que a Freala pisou o aberto. Não houve tempo pra Manto e não havia escuro pra vesti-lo. Houve só a coisa em que eu tinha virado.
Não esperei eles decidirem. Cruzei a distância no passo que a Agilidade me deu — vinte e nove pontos de passo, e dava pra sentir cada um — e a primeira Flecha Negra saiu da minha mão antes que o da frente fechasse a mandíbula. Não fura. Morde. O bicho tropeçou no próprio andar, estranhou as pernas. Segunda flecha, terceira, no mesmo, enquanto eu já passava de lado pro segundo: breu pesado tocando quitina, cada toque roubando um fio do que os mantinha de pé, e ao contrário do fogo, isto somava. Quando os quatro entenderam que tinham companhia, dois já afundavam no próprio peso, lentos demais pra alcançar a sombra que costurava entre eles. Os outros dois eu não gastei flecha — gastei a Força. Peguei a articulação de um com as duas mãos e a Força que eu empilhei por preguiça fez o que faz. Estalou. O último levou Agulha na junta que ele não teve fôlego pra esconder.
[Você derrotou: Soldado Isopteriano.] ×4
Doze segundos, no aberto, no pior terreno que eu podia pedir. E nenhum alarme — porque eu não dei tempo de um clique sair de nenhum deles. Arrastei os quatro pra trás da escadaria, fora da linha de quem viesse depois, e só então deixei o Quagô — que tinha assistido tudo de boca aberta lá da borda — alcançar a gente aos saltos, tremendo.
— A coisa de osso faz isso de dia agora, sussurrou. De dia. No claro. O Coaxante achava que era bicho de escuro.
— Sou, transmiti. Só estou de mau humor com a luz.
Subimos os degraus. A porta do templo não tinha tranca — quem é que tranca uma casa no fundo de um poço que ninguém alcança? — e cedeu ao primeiro empurro com um suspiro de pedra antiga.
*
Por dentro, o templo errava em tudo, e o erro era o mais inquietante dele.
Eu já tinha pisado em ruína no Fosso. Ruína é honesta: cai, racha, junta limo, deixa o tempo entrar. Aquilo ali não era ruína. Era limpo. O chão de pedra clara não tinha uma folha, e a floresta inteira lá fora cuspia folha o tempo todo. As paredes subiam retas, sem musgo, sem a mancha de água que toda pedra do Fosso carrega como cicatriz. Alguém varria aquele lugar. Alguém que tinha ido embora e ia voltar, e varria justamente pra que, quando voltasse, soubesse na hora se algo tinha mudado.
A gente tinha mudado. A gente era a mudança. Pisar ali já era deixar pegada onde ninguém devia deixar.
O Quagô parou na soleira, fiel à palavra: a ponta de um pé membranado pra dentro, o resto do corpo de fora, pronto pra disparar. Os olhos dourados dele varriam o teto como se esperasse que ele se abrisse e despejasse gente.
A Freala entrou comigo. O Gobe entrou na frente de nós dois, porque o Gobe sempre entra na frente quando o cheiro é de coisa que se pega e se guarda.
Foi a Freala quem parou primeiro, três passos pra dentro, os olhos no alto da parede do fundo. Lá, esculpido na pedra clara, havia um símbolo: um olho aberto dentro de um livro também aberto, e ao redor um anel de raios finos, como se o saber emitisse luz.
— Thelestia, disse ela, e o nome saiu baixo, com um respeito que era quase o oposto de fé. Eu devia ter adivinhado. A deusa da sabedoria. Esta é uma casa dela.
— Boa ou ruim, pra gente?, perguntou Gobe, que já tateava uma mesa.
— Depende do que você acha de gente que faria qualquer coisa por uma resposta. Freala não tirou os olhos do símbolo. Os que servem a Thelestia não querem ouro, nem terra, nem poder pelo poder. Querem saber. E é exatamente isso que os torna perigosos: um homem ganancioso você compra, um homem com medo você assusta. Um fanático por conhecimento atravessa fogo, mente, mata e morre, e dorme tranquilo, porque pra ele a resposta vale mais que tudo isso junto — inclusive mais que você. Ela finalmente baixou os olhos pra sala. Não enfrentam provação nenhuma pela causa da deusa porque pra eles toda provação é só mais uma página.
O Quagô, lá da soleira, fez um som miúdo de quem reconhece a descrição.
A sala dava razão a ela em cada canto. Era de trabalho — disso eu não tive dúvida. Mesas longas de pedra, bancos, e sobre as mesas o tipo de bagunça arrumada que só existe onde alguém estuda: potes lacrados em fileira, cada um com uma coisa morta boiando num líquido claro. Uma asa de Soldado aberta e fixada com pinos, como folha de herbário. Um pedaço de fungo azul num prato raso. Uma antena. Uma garra de Coaxante — e eu vi o Quagô ver a garra, lá da porta, e vi a garganta dele parar de inflar por um tempo longo demais.
— Não é o Coaxante, eu disse a ele, depressa. É velho. De muito antes de você.
— O Coaxante sabe, respondeu ele, sem acreditar muito.
E papel. Pilhas de papel, em folhas grossas e caras, cobertas de uma letra miúda e disciplinada. A Freala chegou perto de uma como quem chega perto de fogo, querendo o calor e medindo a queimadura, e começou a ler em voz alta, traduzindo pra nós o que a mão treinada tinha registrado.
— É um inventário, disse. Os povos do Fosso, um a um. Ela virou folhas. Os do teu povo, Quagô — Povo-do-Lodo, "habitam ramais úmidos, pescam, evitam conflito, falam quando ensinados". Os Murmurantes, os fungos que pensam: "telepatia por esporo, base da cadeia, semicultivados pela Colônia". Os Primitivos, os reptilianos do fedor: "perigosos, mas o cheiro os entrega". As Tecelãs do Breu, as aranhas grandes: "disputam corredor com os Soldados e perdem". A voz dela foi ficando mais lenta. E aqui... as Senhoras da Floresta. Fadas-árvore. "Guardam um toco que não se deixa cortar." Está anotado com um cuidado diferente dos outros. Com quase... reverência.
— Por que reverência por uma fada?, perguntei.
— Porque quem escreveu isto sabe o que é o toco, e nós não. Ela me olhou de lado. Mais um fio pro teu novelo.
Ela não fazia ideia de quantos fios eu já carregava — mas dessa vez, ao menos, ela estava lendo comigo, em voz alta, e isso fazia uma diferença que eu não esperava. Eu vinha juntando o Fosso aos pedaços, sozinho no escuro, semana após semana. Ali, de repente, havia uma maga lendo o mapa dos pedaços junto comigo, e eu não tinha que guardar nada — só ouvir.
E havia, de fato, um mapa.
O Gobe o encontrou enrolado num tubo de osso polido, e o abriu sobre a mesa com o cuidado de quem manuseia coisa cara. Era o Fosso inteiro, desenhado de cima, como nenhum de nós jamais o veria com os próprios olhos: o grande poço do Pavilhão no centro, a teia de ramais da Colônia se espalhando dele como raízes, a Ponte do Inferno marcada com um traço que até no papel parecia frio. E em volta, nas bordas do mundo enterrado, nomes e desenhos miúdos: charcos onde os Coaxantes pescavam, um bosque de cogumelo onde os Murmurantes sussurravam, uma mancha escura que a legenda chamava de Ninho das Tecelãs, e, num canto, longe de tudo, uma única árvore desenhada sozinha, cercada de espaço em branco, como se o cartógrafo não tivesse ousado desenhar o que havia em volta dela.
— Eu morei a vida toda neste buraco, murmurou Quagô, esticando o pescoço de fora pra ver sem entrar, e nunca soube que ele tinha essa forma.
— Quase ninguém que mora dentro de uma coisa sabe a forma dela, eu disse. Pra saber a forma, tem que olhar de cima. E só uma gente olha este lugar de cima.
Ninguém precisou apontar pro símbolo na parede.
Foi nesse mapa, na margem, que achei a folha que tinha sido escrita e relida muitas vezes — três versões da mesma frase, riscadas e reescritas, como se a mão não conseguisse largar a pergunta. Eu a li, e li em voz alta, porque tinha acabado de prometer a mim mesmo que não ia guardar mais nada sozinho:
— "Por que estes — e só estes — cresceram além do molde? Por que o cupim do Fosso ergueu castas que o cupim do mundo não conhece, ergueu uma rainha que pensa, enquanto o sapo segue sapo e o fungo segue fungo? O que comeram que os outros não comeram?" Virei a folha. Embaixo, na letra disciplinada, sem floreio: — "Ainda não sei. Mas algo aqui os alimenta."
O silêncio que veio depois foi do tipo que pesa. Porque quem escreveu aquilo tinha olhado a mesma escada de castas que me dera vertigem e feito a única pergunta que importava — por quê — e batido no mesmo muro que eu.
A Freala olhava a folha com aquela quietude específica que eu já tinha visto uma vez, na noite em que o Quagô falou do templo pela primeira vez — a quietude de quem juntou dois pontos que preferia não ter juntado. Ela conhecia os nomes que vinham com aquela letra. Conhecia a deusa do olho dentro do livro. E o que ela ligou, dessa vez, ela quase disse — abriu a boca, mediu o Quagô tremendo na porta, mediu o Gobe encantado com o mapa, e fechou de novo.
— Depois, foi só o que me transmitiu, baixo, pra mim só. Tem coisa aqui que é melhor a gente conversar longe de quem ainda tem medo dela.
Eu aceitei o "depois". A essa altura eu já tinha aprendido que a Freala não trancava as coisas por desconfiança. Trancava por peso. E peso a gente divide quando há onde pousar — não no meio de um templo que ainda cheira a dono.
*
Foi o Gobe quem quebrou o silêncio, e graças a ele, porque o silêncio estava ficando do tipo que apodrece.
— ACHEI!, gritou de um canto, e o grito ecoou de um jeito que fez o Quagô dar um pulo na soleira. O gnomo emergiu de trás de uma cortina de pedra abraçado a uma garrafa bojuda, escura, lacrada com cera vermelha. O sorriso dele era a coisa mais viva que aquele templo tinha visto em muito tempo.
— Gobe, disse Freala, sem virar.
— Você sabe o que é isto? Ele ergueu a garrafa contra a coluna de luz, reverente, girando-a pra ler o lacre estampado na cera. Isto é do Império Rubro. O selo do Senado, ó. Isto não é vinho de taverna, maga. Isto é vinho que atravessou meio mundo pra refrescar a garganta de alguém importante o bastante pra mandar trazer. Ele apertou a garrafa contra o peito. Sabe o que custa uma garrafa destas onde eu nasci? Custa o que eu não tinha. Custa o que ninguém que eu conhecia tinha. E tem uma esquecida no fundo de um buraco onde mora gente com casca.
— E você vai guardar, disse Freala, com a cara de quem já sabe a resposta.
— Guardar? O Gobe me olhou como se eu é que tivesse falado a heresia, e eu nem tinha aberto a boca. Maga, deixa eu te ensinar uma coisa que custou caro pra eu aprender. Eu sou um profissional. E profissional não guarda o melhor pra um amanhã que pode não vir. Ele já estourava a cera com o polegar. A gente está num buraco no fim do mundo, cercado de bicho de casca, prestes a descer pro lugar de onde menos coisa volta ainda. Se tem uma garrafa do Senado neste poço, e tem uma chance de ela molhar a minha garganta antes de alguma coisa enorme molhar o chão com o resto de mim — eu não perco essa chance por causa de uma palavra bonita como "depois".
Ele bebeu. Um gole longo, de olhos fechados, e o suspiro que soltou foi a coisa mais sinceramente feliz que aquele templo de coisas mortas tinha ouvido em anos.
— Ah, disse, baixinho, pra si mesmo. Depois lacrou de novo o que restava, com um trapo e a maior das delicadezas, e guardou no embornal. O resto eu vendo. O selo do Senado vale quase tanto quanto o vinho, e eu sou um homem prático além de sedento. Ele se virou pra mim, lambendo o canto da boca. Império Rubro, Thasjo. Eles não têm rei, sabia? Têm um bando de velhos numa sala votando em tudo, e mesmo assim acham que o mundo inteiro devia ser deles. Gente assim sempre tem o melhor vinho. É como se consolam de ter que dividir o poder.
Eu deixei ele falar, e prestei mais atenção do que ele imaginava. Não pelo vinho — pelo resto. Um gnomo vigarista que pesca do fundo da memória o gosto exato de uma safra imperial, o jeito do Senado, o preço da garrafa em três reinos diferentes, não é um gnomo que passou a vida só engarrafado numa masmorra. O Gobe sabia coisas demais pra quem se vendia como larápio de feira. Eu já tinha reparado nisso antes, e tornei a reparar agora, e tornei a guardar — não como suspeita, só como mais uma daquelas pontas que um dia, eu pressentia, ia ter o resto do fio amarrado.
Enquanto o Gobe filosofava sobre velhos e vinho, a Freala foi fazer o que a Freala faz: o útil. Achou, num nicho lateral, uma arca de viagem — dessas que se monta pra quem vai passar uma temporada longe de tudo — e, dentro dela, o que vale ouro pra quem ainda sangra.
— Frascos, disse ela, e havia alívio de verdade na voz. Ergueu um contra a luz: líquido vermelho-claro, espesso. Cura. Boa, da cara — não é mezinha de aldeia, é poção feita por quem sabe. Fecha corte, segura febre. Separou três, quatro, e foi enfileirando outros, de cor diferente. E estes... restauradores. Devolvem mana. Parou, segurando um deles como quem segura água no deserto. Eu não preciso mais esperar três dias de descanso pra acender uma brasa. Com isto, eu volto a ser maga no meio da briga, e não só depois dela.
Pega tudo, transmiti. Cada frasco. Onde a gente vai, ninguém volta buscar o que esqueceu.
Ela não discutiu. Foi guardando com o cuidado de quem entende exatamente quanto cada um vale — e, pela primeira vez desde que a arranquei daquele casulo, vi nela algo que não era exaustão nem cálculo. Era a sombra de uma maga que, com a mana de volta ao alcance da mão, lembrava do que era capaz quando não estava correndo no fio do próprio poço.
*
A última sala não tinha mesa. Tinha um suporte.
Era uma sala pequena, nos fundos, e a coluna de luz não a alcançava direito — entrava de viés, fraca, e por isso eu não vi de cara o que estava no suporte. Vi primeiro o suporte em si: madeira escura, trabalhada, do tipo que se faz pra honrar o que se apoia em cima. E em cima, atravessada em dois ganchos, uma espada.
O Gobe parou de falar do Senado.
Foi a primeira vez, em todas as semanas que eu o conhecia, que vi o Gobe ficar sem palavra na frente de uma coisa que dava pra pegar. Ele chegou perto da espada devagar, como quem chega perto de bicho dormindo, e não a tocou. Só olhou. E disse, numa voz que tinha perdido toda a brincadeira:
— Isso é adamante.
— Você já viu antes?, perguntei.
— Uma vez. Naquelas estátuas que quase nos mataram, lá atrás — as gárgulas. Eu falei pra vocês: tem coisa que nem o adamante risca. Eu sabia o nome, mas nunca tinha visto tanto junto, e nunca tinha visto trabalhado em lâmina. Ele engoliu em seco. Adamante não enferruja, não lasca, não cega. Você pode bater nele a vida toda que ele te enterra antes de ganhar um arranhão.
— E é raro, completei, porque o tom dele dizia "caro".
— Raro e caríssimo, que não é a mesma coisa. Ele ergueu um dedo, e por um instante não foi um vigarista falando, foi alguém que sabia do assunto. Tem reino que compra, se tiver com o que pagar — e quase nenhum tem com o que pagar. Os anões trabalham o pouco que aparece, e cobram como se fosse a alma deles, porque mais ou menos é. Ele baixou a voz, como quem conta segredo de ofício. E sabe de onde vem? Não sai de mina, não de verdade. Cai. Do céu. São as pedras que riscam o escuro de noite e às vezes batem no chão — quando uma dessas é da liga certa, e um anão acha antes que o mato cubra, é adamante. Por isso é tão pouco. A terra não faz. O céu deixa cair, de vez em quando, como quem perde moeda do bolso.
Eu olhei pra ele. Um gnomo que sabia o gosto do vinho do Senado e a procedência celeste de um metal que rei nenhum possui. Mais uma ponta, eu pensei. O Gobe largava tesouro de conhecimento do mesmo jeito que largava piada — sem reparar no que largava, ou reparando bem demais e fingindo que não.
— E aqui tem uma espada inteira, concluiu ele, voltando ao sussurro, forjada do que cai do céu, esquecida numa salinha no fim do mundo. Numa casa da deusa do saber. Ele me olhou. Você não acha isso pouco à toa pra ser à toa?
Eu me aproximei e, com a luz fraca batendo de viés, vi por que ele tinha baixado a voz.
A lâmina não era prateada como aço. Era escura — um negro com fundo verde, como óleo na água, como a casca de um besouro que ninguém devia tocar. Não refletia a luz; parecia beber um pouco dela e devolver de má vontade. Não tinha um entalhe, um brasão, uma marca de forja. Era só a forma mais simples e mais antiga de matar, feita do metal mais difícil do mundo, e largada ali sem nome e sem dono.
Estendi a mão e a peguei.
E aqui está a coisa engraçada — engraçada do meu jeito. Uma espada daquele tamanho, na mão de um esqueleto, devia pesar. Devia puxar o pulso, testar a junta do ombro, lembrar os ossos de que ossos são finos. Não pesou nada. Eu a ergui como se ergue um graveto, e o motivo me veio junto com a leveza, como um dado que eu tinha na ficha e nunca tinha lido direito.
Eu tinha quarenta de Força.
Quarenta. Empilhados noite após noite, nível após nível, sempre na mesma divisão preguiçosa — um terço aqui, um terço ali —, sem que eu nunca parasse pra perguntar o que se faz com quarenta de Força quando se passa a vida fugindo pro lado. Eu era um mago. Eu tinha escolhido ser mago lá atrás, no nível cinco, sonhando com truques de mão e magia que desarma o inimigo de longe sem encostar. E desde então eu tinha lutado como mago de capa: esquiva, sombra, alfinetada, sumir. A Força que eu juntava ficava parada no corpo como músculo num bicho de zoológico — grande, ocioso, sem nada pra empurrar.
E ali, na minha mão sem esforço nenhum, estava a única coisa que eu conhecia no mundo inteiro capaz de cortar o que eu não conseguia furar. Ignora couraça, dissera o Gobe. Não a pedra: a couraça. Qualquer casca. Qualquer placa que a Colônia engrossasse, qualquer junta que a memória coletiva blindasse — adamante não pede fresta. Adamante faz a fresta.
A Agulha tinha morrido porque a Colônia fechou os vãos. Esta coisa não precisava de vão.
*
Ao lado do suporte, encostada na parede, havia uma lança comum. Cabo de madeira, ponta de aço honesto, do tipo que se produz aos milhares pra armar gente que não importa. Não combinava com a espada — uma era um tesouro de deus, a outra era ferramenta de tropa. E foi exatamente por não combinar que eu reparei: alguém tinha posto as duas juntas de propósito. Lado a lado. Como num exemplo.
A explicação estava na parede acima delas. Um baixo-relevo, gravado fundo na pedra, da altura de um homem. Mostrava um guerreiro — armadura, capacete, lança em riste — e da ponta da lança subiam linhas, espirais, marcas que qualquer um veria como enfeite.
Eu não vejo enfeite. Esse é o meu truque, o único que ninguém mais no poço tem. Eu vejo as runas que os magos desenham quando conjuram, e onde os outros veem rabisco bonito, eu leio. E aquelas marcas subindo da ponta da lança não eram enfeite. Eram instrução.
Diziam, na escrita velha que o diário do Rúna-Meistari me ensinou a entender, uma coisa simples e absurda: a magia desce pela arma. O guerreiro do relevo não lançava o fogo de longe, da mão, como a Freala lançava. Ele punha o fogo na lança e o entregava na estocada, na carne, de perto. A magia e o aço no mesmo gesto. O mago briga longe; o guerreiro leva a magia pra dentro do alcance do braço.
Eu olhei a lança. Olhei a minha mão. E entendi o que estava sendo me mostrado.
A Flecha Negra — a minha estrela, o breu que rouba vigor e empilha — eu lançava de longe, uma atrás da outra, paciente, até o bicho afundar. Mas e se ela não saísse da mão? E se ela descesse pela lança e fosse entregue na ponta, a cada estocada, fincada no alvo de perto? Cada golpe um roubo. Cada espetada empilhando o debuff direto na ferida. Eu não precisaria mais costurar sombra à distância e esperar. Eu poria a sombra na ponta e entraria.
A ideia foi tão boa que eu quase ri. Peguei a lança com a mão livre, recolhi o breu como recolho pra Flecha Negra, e tentei — em vez de soltá-lo da palma, empurrá-lo cabo abaixo, pra ponta.
O breu chegou até a metade do cabo e morreu. Escorreu de volta como água numa parede que não se molha. Tentei de novo, com mais vontade, e a vontade não foi o problema — eu senti, claríssimo, que a mão sabia fazer a magia e o braço não sabia fazer a arma. Eram duas coisas que não se falavam. O mago em mim sabia tecer o breu. Mas não havia, em mim, ninguém que soubesse fazer o breu e o aço serem a mesma coisa.
[Falha: técnica indisponível para a sua classe.]
A linha do sistema apareceu seca, fria, e em outro dia teria me irritado. Naquele, não. Naquele ela me disse exatamente o que eu precisava saber: a parede não era de pedra. Era de classe. Faltava-me uma coisa que tinha nome, e o relevo na parede tinha acabado de me mostrar o nome no formato de um homem de armadura com uma lança que cospe fogo.
Eu era mago. O guerreiro do relevo não era mago. E entre o que eu era e o que aquela espada na minha mão pedia pra eu ser, havia um degrau que eu ainda não tinha subido — mas que, pela primeira vez, eu conseguia ver inteiro.
Guardei a lança assim mesmo, com a técnica que eu ainda não podia usar. Algumas chaves a gente carrega antes da fechadura. E guardei a espada com um cuidado que me surpreendeu em mim — eu, que perdi túnica, arco e as facas sem chorar nenhum, de repente com medo de arranhar uma lâmina que não pode ser arranhada.
*
A Freala tinha ficado quieta esse tempo todo, e quando falou, falou olhando a espada na minha mão e não pra mim.
— Você reparou, disse ela, que ninguém respondeu a pergunta?
— Qual delas? Tinha muita pergunta sem resposta naquela casa.
— A óbvia. Ela apontou a espada com o queixo. Um metal que custa um reino, forjado numa lâmina sem dono, e largado no fundo de um poço cheio de bichos de casca. Pra quê? Ela cruzou os braços. Adamante ignora couraça. Pensa no que tem couraça aqui. Pensa em quanta couraça precisaria ter uma coisa, pra alguém gastar uma fortuna dessas em adamante contra ela e guardar a espada justamente aqui, junto da porta por onde se desce até essa coisa.
Ninguém respondeu. O Gobe abriu a boca e a fechou. O Quagô, lá da soleira, fez um som baixo na garganta. E eu segurei a lâmina escura e senti, pela primeira vez, que ela não era um achado de sorte. Era uma ferramenta deixada perto do serviço pra que estivesse à mão quando o serviço precisasse ser feito. A pergunta da Freala — contra o quê? — ficou no ar daquela salinha sem que ninguém ousasse pegá-la, do jeito que a outra pergunta, a da folha puída, tinha ficado.
E dessa vez eu tinha uma ponta da resposta — e, fiel ao que tinha prometido a mim mesmo na porta, não a guardei. Voltei às pilhas, achei a folha que minha leitura rápida tinha registrado e a mão treinada escrevera sem floreio, e a li alto, pros três:
— "A colônia é um corpo só. Cada inseto, uma célula; a rainha, a cabeça que pensa por todas. Estimula-se a célula, a célula responde; mata-se a célula, outra cresce. O corpo não morre por ferida no membro." Levantei os olhos pra Freala antes de ler a última linha, a que vinha sublinhada uma vez: — "Há uma só morte para um corpo assim. A da cabeça."
A Freala recebeu aquilo com um aceno lento, do tipo que não é surpresa, é confirmação. O Gobe olhou da folha pra espada na minha mão, e da espada pra folha, e dessa vez foi ele quem ficou sem piada. Porque os dois — a anotação e a lâmina — assentavam um ao lado do outro com um encaixe limpo demais pra ser acaso. Alguém, antes de nós, tinha olhado a mesma escada impossível de castas e chegado à mesma conclusão fria: que não adianta matar célula, que o corpo só cai pela cabeça. E tinha forjado, pra cortar essa cabeça, a única lâmina que a casca dela não pararia.
— Então a espada não é pra abrir caminho até a saída, disse Freala, devagar. É pra terminar o caminho. É pra ela. Ninguém precisou perguntar quem era "ela".
E depois tinha ido embora, e deixado a lâmina ali, esperando.
*
A gente saiu como entrou — rápido, baixo, lendo o ar. O Quagô praticamente nos arrancou da soleira com os olhos, tão aliviado de nos ver de volta inteiros que esqueceu de ter medo da espada nova na minha mão. A travessia de volta pela clareira foi limpa; nenhuma antena se ergueu, e eu agradeci ao acaso, porque no claro eu ainda era só um esqueleto carregando coisa pesada sem o breu pra me esconder.
Já na sombra da floresta, com o templo ardendo dourado às nossas costas, eu parei e olhei pra trás uma última vez. A casa limpa, varrida, esperando o dono voltar quando o ar esquentasse. A sala de coisas mortas em potes. A pergunta sem resposta na folha puída. A lâmina que agora estava comigo e não mais lá.
Eu tinha entrado atrás de armas e saído com armas. Mas tinha entrado atrás de respostas e saído com mais perguntas do que levei — e com a sensação, nova e desconfortável, de que a gente não tinha invadido a casa de um inimigo. Tinha invadido a oficina de alguém que estudava o Fosso do jeito que eu estudava a Colônia: de longe, friamente, montando o mapa de uma coisa antes de decidir o que fazer com ela. E que esse alguém, fosse quem fosse, tinha chegado às mesmas conclusões que eu vinha juntando aos trancos — só que anos antes, e com letra muito mais bonita.
Olhei a espada na minha mão. Escura, leve, sem dono. Feita pra cortar uma cabeça que ninguém ali tinha coragem de nomear, por uma mão que tinha ido embora e ia voltar.
Engraçado, pensei, e dessa vez a piada não veio com graça nenhuma junto. Eu passei semanas me achando o caçador deste poço. E acabei de descobrir que tem caçador mais antigo, mais frio e muito mais bem-armado do que eu — e que, por algum acaso ridículo, a gente está caçando a mesma coisa.
A diferença é que ele forjou a lâmina e foi embora.
Eu é que estava com ela na mão.
E entre mim e a cabeça que aquela lâmina foi feita pra cortar, ainda subia a escada inteira — Soldado, Guardião, Alado, a mão fechada dos Montados, as coisas sem nome lá no fundo. Só que agora eu não ia subir como o mago de capa que esquiva e some.
Eu tinha quarenta de Força ociosa, uma lâmina que nada para, e uma técnica gravada na parede que eu ainda não sabia executar — mas cujo nome, agora, eu sabia procurar.
É sempre pra cima. Mas dá pra subir de espada na mão.