Capítulo 12 — Aço Emprestado
A boca do túnel nos engoliu de volta no breu, e foi como tirar uma armadura quente demais.
Eu não tinha percebido o quanto a luz do Pavilhão me incomodava até deixá-la pra trás. Duas semanas atravessando clareira no meio-dia, vestido de nada porque o Manto morre na luz forte, sentindo-me nu cada vez que pisava o aberto — e de repente a pedra fechou por cima da gente, a coluna de sol virou um fio lá atrás, e o escuro me cobriu como uma roupa que cabe. Recolhi a sombra do chão sem nem pensar e a vesti. O Manto subiu pelo corpo, colou nos ossos, e eu sumi.
— Você fez de novo, sussurrou Quagô, lá da frente. A coisa de osso. Você ficou... menos.
— É assim que eu trabalho, transmiti. Lá em cima eu estava de mau humor o tempo todo. Aqui embaixo eu fico bonito.
O sapo não achou graça, mas relaxou um dedo. O escuro era a casa dele tanto quanto a minha. A Freala acendeu uma brasa pequena na ponta dos dedos — só o bastante pra ela e o Gobe não tropeçarem, porque vivos precisam ver, e eu ainda achava estranho lembrar disso. O Gobe vinha atrás dela, resmungando sobre o peso do embornal cheio de frascos, garrafa de vinho aninhada contra o peito como se fosse filho.
E eu vinha por último, com a espada nas costas.
Eu tinha amarrado a lâmina num arranjo de tiras de couro de basilisco que a Freala improvisou, porque não fazia ideia de como se carrega uma espada — nunca tinha carregado nenhuma na vida que me lembro, e a vida que eu lembro é curta e termina com gente rindo de mim num beco. A coisa batia nas minhas vértebras a cada passo, e eu tinha consciência dela o tempo todo, do jeito que se tem consciência de um dente novo. Ainda não sabia o que ela era pra mim. Sabia só o que ela era: a única coisa em todo o Fosso que cortava o que eu não conseguia furar.
A escada das castas subia escura à minha frente — não, descia. Eu ainda me confundia com isso. A força das coisas crescia conforme a gente descia, então pra mim era subir e descer ao mesmo tempo, ganhar altura afundando. Soldado, Guardião, Alado, os cavaleiros encouraçados que o Quagô desenhara no ar com medo na ponta dos dedos, e lá no fundo as coisas sem nome que faziam o teto chover.
A gente ia descer através de tudo isso.
E pela primeira vez eu não ia fazer isso fugindo.
*
O primeiro confronto veio rápido, e eu o estraguei lindamente.
Estávamos num ramal estreito, daqueles que a Colônia escava reto e liso, quando Quagô parou de chofre e abaixou a cabeça. Eu não precisei de aviso — já sentia pela pedra. Três pares de patas vindo na nossa direção, ritmo de patrulha, antena alta. Soldados. Três deles, na curva à frente, e ainda sem saber da gente.
O velho eu já teria a resposta pronta. Recuar pra sombra, deixar a Flecha Negra fazer o serviço de longe, uma atrás da outra, paciente, até os três afundarem no próprio peso, e finalizar com a Agulha na junta. Doze, quinze segundos. Limpo. Era assim que eu virei o que sou.
Mas eu tinha uma espada nas costas, e a curiosidade, pra uma coisa como eu, é quase fome.
Fiquem, transmiti aos outros, e puxei a lâmina das costas.
Saiu da bainha improvisada com um arranhão que me fez estremecer — eu, que não tenho nervos, estremeci pelo som, alto demais naquele silêncio. Os Soldados ouviram. As três antenas se ergueram de uma vez, viraram pra mim, e a curva à frente virou três mandíbulas abertas vindo no trote.
Bom. Sem mais teoria.
Eu segurei a espada como tinha visto guerreiros segurarem em filmes que assisti numa vida que não existe mais — as duas mãos no cabo, o gume pra cima — e quando o primeiro Soldado fechou a distância, eu baixei a coisa nele com toda a Força que passei meses empilhando sem usar.
Não houve resistência. Foi isso que me assustou.
Eu estava preparado pra o choque, pro tranco de aço batendo em quitina, pra aquela vibração de quando a Agulha lascava uma escama de basilisco e voltava pela minha mão. Não veio nada disso. A lâmina entrou no Soldado pelo alto da cabeça e saiu pela base, e o bicho se abriu em dois como fruta madura, sem que meu braço sentisse mais que o peso do próprio gesto. A casca que parou minhas facas e cegou a Labareda lá atrás simplesmente não estava ali pra mim. Adamante não procura vão. Adamante faz o vão.
Por meio segundo eu fiquei parado, deslumbrado com a facilidade, e o meio segundo quase me matou.
O segundo Soldado já estava em cima de mim, e eu tinha feito tudo errado — golpe largo, demorado, as duas mãos comprometidas embaixo, o corpo aberto, os pés plantados onde um mago jamais planta os pés. A mandíbula dele fechou onde minha caixa torácica estava, e só não a triturou porque a Agilidade me arrancou de lá num espasmo feio, sem elegância nenhuma, caindo de lado contra a parede. PV é uma coisa que eu tenho pouco. Cento e vinte parece muito até você lembrar que uma mandíbula de Soldado tira metade disso de uma mordida, e que eu não regenero no meio da briga, e que a segunda mordida não vem com pedido de desculpas.
Eu me levantei com raiva — de mim, não dele. Mandei breu pela mão, a Flecha Negra que eu sei fazer dormindo, e acertei o segundo Soldado em cheio. Ele tropeçou, mole, pesado. Aí sim eu o cortei, e dessa vez de um jeito mais curto, mais mesquinho, sem me abrir todo. O terceiro o Quagô tinha empurrado contra a parede com uma vara — o sapo era mais corajoso do que se vendia, quando a coisa de osso estava por perto — e eu o terminei com um talho de lado que mal exigiu que eu girasse o pulso.
[Você derrotou: Soldado Isopteriano.] ×3
Três cadáveres. Um deles partido tão limpo que dava pra ver o interior, a arquitetura úmida de um bicho que eu tinha aprendido a desmontar peça por peça e que agora se abria todo num gesto.
E eu, ofegante de um fôlego que não tenho, encostado na parede, com uma lâmina perfeita na mão e a certeza humilhante de que eu não fazia a menor ideia de como usá-la.
— Você quase morreu, disse a Freala, chegando com a brasa. Não era pergunta nem bronca. Era a constatação seca dela de sempre.
— Eu reparei, transmiti.
Ela olhou o Soldado partido ao meio, depois olhou pra mim, e depois disse a coisa que eu já sabia mas não tinha querido dizer primeiro.
— A espada corta tudo. Mas você luta como quem nunca segurou uma. Largo, lento, plantado. Cada golpe seu pede que o inimigo fique parado esperando. Ela cruzou os braços. Lá fora, contra um, dá certo, porque a espada perdoa. Mais embaixo, contra muitos, ela não vai perdoar você ter aberto a guarda.
— Eu sei lançar magia de longe e sumir, retruquei. Isso eu aprendi sozinho, do zero, comendo o chão. Isso aqui, ergui a lâmina, é outra língua. E eu não tenho dicionário.
Ela ficou um tempo me olhando. — Ninguém tem, no começo, disse, por fim. Eu levei anos pra que a primeira forma parasse de me escapar dos dedos. Querer não basta. Tem uma coisa no meio do caminho entre a mão saber e o corpo obedecer, e ela só se aprende fazendo. Você chega lá.
Ela achava que era só treino — o treino que faz um homem virar espadachim de tanto repetir o gesto. E talvez fosse, em parte. Mas eu lembrava da palavra seca que tinha brotado na minha cabeça quando tentei pôr o breu na ponta da lança, lá no templo, a palavra que ela não tinha como ler porque ninguém lê o que o sistema só diz a mim. Indisponível para a sua classe. O que faltava em mim tinha nome, e não era só prática. Era uma chave que eu ainda não possuía, guardada atrás de um degrau que eu ainda não tinha pisado. Eu via a espada na minha mão e aquela falha encaixarem na mesma fechadura. Em algum lugar lá embaixo havia um patamar onde a porta abriria. Eu só tinha que chegar vivo até ele.
*
A gente desceu.
Não foi um dia. Foi a perda da conta dos dias, que lá embaixo não existem — não há manhã num lugar que nunca teve sol. A gente media o tempo pelo sono dos vivos: Freala e Gobe dormiam, Quagô cochilava de olhos abertos do jeito perturbador dele, e eu vigiava, porque eu não durmo e porque alguém tinha que. Quando eles acordavam, a gente descia mais um trecho. E cada trecho cobrava o seu pedágio em bichos.
Comer foi o problema que eu não tinha — e foi por não tê-lo que quase esqueci que os outros tinham. As poucas frutas que a gente carregou do Pavilhão duraram o que duram frutas, e quando acabaram foi o Quagô quem nos salvou da fome. O sapo conhecia o subsolo do jeito que eu tinha aprendido a conhecer a Colônia: onde eu via só pedra e breu, ele via despensa. Arrancava cogumelos pálidos das paredes úmidas, cheirava cada um, jogava metade fora com uma careta e entregava o resto pra Freala assar na brasa. E nos veios de água que cortavam os ramais ele pescava peixes cegos — bichos brancos e moles, sem um olho sequer na cabeça lisa, porque pra que serve olho num lugar onde nunca houve luz pra enxergar? A evolução não desperdiça: o que não serve, ela apaga. Aqueles peixes tinham trocado a vista por outra coisa, sentiam a água mexer e fugiam do que mexia — só que não fugiam rápido o bastante do Quagô, que enfiava a mão na correnteza e a tirava com o jantar se debatendo, num gesto rápido demais pra eu acompanhar. — O Coaxante não precisa ver o peixe, explicou, satisfeito com o meu espanto. O Coaxante sente ele. Eu ficava olhando aquilo com uma inveja esquisita. Não da comida. Da naturalidade com que eles ainda pertenciam ao mundo dos que têm fome.
Eu fui aprendendo a lâmina do jeito que aprendi tudo: errando até doer e corrigindo o que doeu.
Aprendi que a espada me puxava pra perto, e perto era onde eu morria, então eu não podia deixar a espada decidir a briga. Quem decidia era a sombra. A Flecha Negra continuava sendo a minha estrela — eu abria de longe, empilhando o breu que rouba vigor, deixando os bichos lentos e moles antes mesmo de me verem. Só então eu entrava, com o Manto vestido, costurando entre eles pelo escuro, e a espada virava o que ela devia ter sido desde sempre: não a abertura da briga, mas o ponto final dela. Um talho num alvo que já mal se mexia não me expunha. Era barato. Era seguro. Era quase elegante, se você não reparasse que eu ainda segurava o cabo do jeito errado.
Aprendi que adamante não tem opinião sobre o que corta. Casca de Soldado, placa de Guardião, junta blindada — pra lâmina, tudo era a mesma manteiga. A adaptação que tinha matado a minha Agulha de Água, toda aquela memória coletiva treinada pra fechar cada vão contra mim, simplesmente deixou de importar. Eles tinham passado meses se blindando contra um inimigo que tinha deixado de existir.
Houve uma noite — uma das que a gente chamava de noite — em que um Guardião nos encurralou num alargamento de túnel. Uma muralha viva de quitina escura, placas sobrepostas como o costado de um navio de guerra, cada garra do tamanho de uma espada curta. Eu o matei em três movimentos. Duas flechas pra tirar o passo dele, e quando a guarda blindada baixou — a couraça que nenhuma arma minha jamais tinha sequer marcado —, um golpe que entrou pela placa do tórax como se a placa fosse sugestão.
[Você derrotou: Guardião Isopteriano.]
Eu fiquei olhando o corpo. Não com triunfo. Com uma espécie de vertigem ao contrário. Eu lembrava do peso daquele tipo de bicho nas minhas costas, lembrava de empatar com ele e considerar isso uma vitória, lembrava de fugir. E ali estava ele, partido no chão, morto por um esqueleto que tinha aprendido a brigar fazia uma semana.
— Para de admirar, disse o Gobe, passando por cima do Guardião com a delicadeza de quem evita poça. Toda vez que você mata um desses você fica aí parado contemplando a própria sombra. Um dia desses contempla na hora errada e vira contemplação permanente.
Ele tinha razão, o pequeno verme. Eu fiquei reparando demais na própria evolução. É uma coisa perigosa, reparar em si mesmo no meio de um lugar que mata.
Mas era difícil não reparar. Porque alguma coisa estava acontecendo comigo, e a tela confirmou.
*
Veio sem cerimônia, no meio de um corredor, depois de um confronto que nem foi grande — quatro Soldados e um Guardião que tiveram a má ideia de nos cercar numa curva onde havia escuro de sobra pra mim.
[Você subiu de nível!]
E de novo, mais abaixo no mesmo túnel.
[Você subiu de nível!]
E uma terceira vez, dois sonos depois, quando eu já tinha parado de me espantar.
O título ainda me pagava — «Predador Paciente», o bônus por abater sem soar o alarme — só que agora eu o honrava de um jeito torto. Eu não era mais tão paciente. Eu ainda matava em silêncio quando dava, porque silêncio é vida lá embaixo, e cada bicho que morre sem gritar é um bicho que não chama o irmão maior. Mas a espada me deixou ganancioso. Onde antes eu escolhia minhas brigas com a avareza de quem tem pouco PV, agora eu aceitava brigas que antes teria evitado, porque sabia que ia vencê-las depressa. Cada bicho a mais era um degrau a mais. E os degraus somavam.
Eu parei num nicho, deixei os outros dormirem, e abri a tela toda — não a olhava inteira fazia tempo.
★★★
Nome: Thasjo Gênero: Masculino
Estado: Normal Rank: H
Tipo: Esqueleto / Morto-vivo
Classe: Mago
Nível: 18 Título: «Predador Paciente»
──────────────────────────────
PV: 150/150 Força: 46
MP: 1.000/1.000 Agilidade: 35
Dano: 8,1 Vitalidade: 30
Defesa: 3,6 Sentidos: 1 [bloqueado]
Inteligência: 1 [x200]
──────────────────────────────
Pontos de Status: 0 Pontos de Magia: 0
──────────────────────────────
✧ Habilidades Especiais ✧
[Ressurreição Lv 1] [Visão Noturna Lv 1]
['O Conhecimento de Babel'] [Telepatia]
[Compreensão de Runas] ['Jera - A Runa de Odin' 1/1]
──────────────────────────────
✧ Habilidades Mágicas ✧
Magias: 《Labareda》《Agulha de Água》《Véu de Sombras》
《Manto de Sombras》《Flecha de Fogo》《Flecha Negra》
──────────────────────────────
Caminhos da Magia
Terra: 0/10 Luz: 0/10
Água: 1/10 Trevas: 2/10
Fogo: 1/10 Vácuo: 0/?
Ar: 0/10 Éter: 0/?
★★★
Nível dezoito. Cento e cinquenta de vida — meu corpo de vidro tinha ganhado um pouco mais de vidro. A Força em quarenta e seis, a Agilidade em trinta e cinco, e eu, fiel à divisão preguiçosa que adotei há muito, tinha dividido os pontos em três como sempre: um tanto pra bater, um tanto pra correr, um tanto pra não morrer. Igual, sempre igual.
E pela primeira vez aquilo me incomodou.
Eu virei outra coisa, pensei, olhando os números. Eu carrego uma espada agora. Entro na briga agora. E continuo distribuindo ponto como o mago covarde que eu era no nível cinco, sonhando com truque de mão. Quarenta e seis de Força num corpo que ainda esquivava, ainda fugia, ainda lutava metade da briga de longe. Será que eu não devia despejar tudo em Força, virar de vez o que a espada pedia? Ou ao contrário — proteger o vidro, empilhar Vitalidade, parar de morrer de uma mordida?
Eu não resolvi. Guardei a pergunta junto com as outras, no maço cada vez mais gordo de coisas que eu ia ter que decidir antes de chegar lá no fundo. Mas reparei numa coisa que a tela teimava em não mudar: Pontos de Magia: 0. Eu sabia a regra na própria carne — um a cada cinco níveis. O último tinha vindo no quinze, e fora pra Trevas, pro Manto. O próximo só viria no vinte.
Dois níveis. Faltavam dois níveis pro próximo ponto de magia. E eu tinha o pressentimento, sem saber explicá-lo, de que o vinte não ia me trazer só mais um caminho pra investir. Tinha cheiro de degrau maior. De porta.
*
Foi numa dessas paradas que a Freala finalmente cobrou o "depois" que tinha me prometido no templo.
Ela esperou o Gobe dormir e o Quagô se afastar pra pescar no veio de água que corria por ali — o sapo precisava molhar a pele de tempos em tempos, e fingia que era caça quando era só saudade de charco. Quando os dois estavam fora do alcance, ela se sentou perto de mim, costas na pedra, a brasa apagada na mão pra não chamar olho nenhum.
— Você lembra o que eu não disse, lá em cima.
— A casa da deusa do saber, respondi. Você ligou alguma coisa e fechou a boca por causa do Quagô.
— Liguei. Ela ficou um tempo escolhendo as palavras, o que nela era raro. O templo não é uma casa de Thelestia abandonada num buraco. É uma casa que se usa, se fecha, e se torna a usar. Repara no estado dela: tudo limpo, arrumado, guardado em ordem — não do jeito de quem mora, mas do jeito de quem arruma antes de ir, pra voltar e encontrar tudo onde deixou. Ela tinha folheado o suficiente pra saber do que falava. E as anotações não foram feitas de uma vez. São de muitas vindas. Dá pra ver pela tinta, que envelhece em camadas: um punhado de páginas, e depois um intervalo longo, e depois outro punhado. Como anel de tronco de árvore. Cada estação que passa lá em cima, uma camada nova aqui embaixo. Ela me olhou no escuro, e eu via os olhos dela porque vejo no escuro e ela sabia disso. Os que servem àquela deusa não moram aqui. Eles descem. De fora, de cima, uma vez por ciclo, quando o ar vira e a estação esquenta — foi o que o Quagô contou, do jeito apavorado dele. Descem, convocam os povos do Fosso um a um, ensinam a língua só pra poder perguntar, perguntam tudo, e levam embora quem responde mal.
O fio se fechou na minha cabeça com um estalo seco. Eu vinha juntando aquilo havia semanas, pedaço por pedaço, e a Freala tinha acabado de amarrar as duas pontas que eu não conseguia juntar sozinho.
— O templo é a base deles, eu disse, devagar. É de lá que eles trabalham, quando descem. E nós acabamos de invadir, revirar e roubar a casa de uma gente que volta toda virada de estação.
— Que vai reparar, ela confirmou. Você viu como aquilo é cuidado. Quando voltarem, vão saber na hora que alguém mexeu. E vão querer saber quem. Mas não foi isso que franziu a testa dela. O que não me sai da cabeça é outra coisa. Esses que servem à deusa do saber — lá fora a gente os chama de Devotos do Conhecimento. E eles têm nome bom, Thasjo. Bom de verdade. Os reinos os recebem como sábios, como conselheiros, como gente que apara uma guerra em vez de acender. Quando um Devoto bate na sua porta, você não tranca: você oferece a melhor cadeira, porque tudo o que ele quer é saber, e saber não tira nada de ninguém. Ela passou a mão na pedra, devagar, como quem procura onde o chão range. Por isso aquilo lá embaixo não fecha. Catalogar bicho, anotar povo, desenhar mapa — tudo bem, é o feitio deles. Mas levar embora quem responde mal e não devolver? Isso não é coisa de sábio. Isso é crueldade. E Devoto do Conhecimento, por tudo que já ouvi a vida inteira, não é cruel. Ela ficou um tempo calada. Tem alguma coisa aqui embaixo que faz essa gente boa agir de um jeito que eu nunca ouvi eles agirem em parte nenhuma do mundo. E eu daria muito pra saber o quê.
Eu deixei aquilo assentar. Não era uma novidade limpa — era uma sombra a mais sobre um relógio que eu já sabia que estava correndo. A trégua tinha acabado lá em cima. Agora eu sabia que havia outro prazo, maior, mais ao longe, mas igualmente certo: quando o ar esquentasse, os donos do Fosso iam voltar. E quando voltassem, a gente precisava estar fora dali. Ou poderoso o bastante pra não se esconder de ninguém.
— Então a gente desce mais rápido, transmiti.
— A gente desce mais inteiro, ela corrigiu. Rápido é como você quase morreu, no primeiro Soldado. E aí ela fez uma coisa que eu não esperava: o canto da boca dela subiu, de leve, no escuro que ela achava que escondia o rosto. Mas obrigada por dividir isso comigo. Eu venho juntando suspeita há semanas, sozinha, sem ninguém pra dizer se eu não estava enxergando coisa onde não tem. Você também junta as suas, do seu canto. A gente devia ter começado a conversar antes.
Era o mais perto de calor que aquela mulher já tinha chegado comigo. Eu, que não tenho rosto pra mostrar o que sinto, deixei passar sem comentar, do jeito que se deixa passar uma coisa boa que pode espantar se a gente apontar pra ela. Mas guardei. No maço bom, dessa vez — que também existe, mesmo num esqueleto.
*
A gente soube que tinha chegado mais fundo antes de ver qualquer coisa. Soube pelo túnel.
Os ramais da Colônia, até ali, tinham sido todos do mesmo tamanho: largos o bastante pra um Guardião passar, estreitos o bastante pra eu escolher onde brigar. De repente o corredor à nossa frente se abriu numa galeria de teto alto, alta demais, larga demais — larga como uma estrada, com o chão batido e liso de uma coisa que passa por ali muitas vezes, sempre pesada, sempre no mesmo caminho.
Quagô parou na borda e não quis pôr o pé.
— Aqui não é dos que a gente conhece, sussurrou. Olha o chão. Olha o alto. Ele apontou pra parede, onde, bem acima da minha cabeça, a pedra estava raspada — sulcos longos e altos, deixados por algo que passava ali de pé, grande demais pra caber andando como os outros. O Coaxante nunca veio tão fundo. O Coaxante só ouviu falar. Dizem que aqui andam os que voam de armadura. Os que têm um cavaleiro montado em cima. Casca por cima de casca, e um senhor no lombo.
Os Cavaleiros Alados. A mão fechada que ele tinha desenhado no ar lá em cima, dias e uma vida atrás. O degrau acima do Alado.
E eu vi um.
Lá no fundo da galeria, onde a escuridão ficava densa até pros meus olhos, alguma coisa se ergueu — grande, e errada no jeito de ser grande. Não a massa cega de um Escavador; aquilo não fazia o teto chover. Era pior de um jeito mais íntimo: tinha forma. Postura quase de gente, alta, equilibrada sobre patas traseiras poderosas, uma longa cauda segmentada riscando a pedra atrás de si pra firmar o peso. A quitina não era a casca lisa de um Soldado — era trabalhada, ornamentada, subindo pelos ombros em placas que pareciam ombreiras e fechando em volta da cabeça num elmo que ninguém forjou e que mesmo assim parecia forjado, rematado por chifres longos e curvos como uma coroa. Os braços terminavam em garras compridas e articuladas, dobradas com o cuidado de mãos. E as asas, quando se abriram só um palmo pra reequilibrar o corpo, eram imensas — abertas de todo, varreriam o corredor de parede a parede.
E eu entendi, num átimo, onde o conto do Quagô tinha torcido. Não havia cavaleiro nenhum montado. Não eram dois, um carregando o outro. Era um só. A metade de cima erguia-se como um cavaleiro acima da metade de baixo, e quem nunca tinha chegado perto — quem só ouvira a história repassada de medo em medo — jurava ver um senhor sentado no lombo de uma montaria. Não havia montaria. Havia uma coisa só, desenhada pra parecer duas, encouraçada como nada que eu já tinha cortado.
Ela não nos viu. Estava longe, e eu estava no breu, e o Manto fazia o seu trabalho. Mas eu senti — do jeito que se sente um olhar mesmo quando ele não pousou na gente — que aquilo enxergava o mundo de um jeito diferente das castas abaixo dele. Os Soldados procuravam. Os Guardiões reagiam. Aquilo vigiava, parado, atento, com a mesma paciência fria que um dia me rendeu um título.
Eu recuei pra dentro do corredor estreito, devagar, sem um som, e puxei os outros comigo só com o gesto.
— A gente não passa por ali agora, transmiti, quando estávamos longe o bastante. Tem outro caminho?
Quagô balançou a cabeça, infeliz. — Tem. Mais longo. Mais fundo antes de descer. Engoliu. Mas pra sair deste poço, cedo ou tarde, a estrada larga é a estrada. Tudo o que desce passa por onde eles passam.
Claro que passava. A saída era pra baixo, e pra baixo era através de tudo — e "tudo", agora, incluía aquela coisa encouraçada e paciente que se erguia como um cavaleiro sobre si mesma, andando numa estrada que era a única estrada.
Eu olhei pra trás, pro escuro denso onde o Cavaleiro Alado tinha sumido. Depois desamarrei a espada das costas e a segurei nas mãos, no breu, só pra sentir o peso que não pesava.
Adamante corta tudo. Eu já tinha provado isso na casca do Soldado e na placa do Guardião. Não havia razão pra duvidar que cortaria também aquela armadura ornamentada de camadas sobrepostas.
O problema não era a lâmina.
O problema era que, contra uma coisa que voa, que vigia em vez de reagir, que pensa antes de avançar, brigar largo e plantado e aberto — do jeito que eu ainda brigava no fundo, por baixo de todos os truques que eu costurava pra disfarçar — ia me custar bem mais que uma mordida. E o jeito certo de segurar aquela espada continuava trancado, atrás de dois níveis e de uma palavra que só eu tinha ouvido.
Técnica indisponível para a sua classe.
Eu guardei a lâmina. Olhei a estrada larga lá no escuro, a estrada por onde tudo o que descia tinha que passar, inclusive a gente.
E entre mim e aquela coisa encouraçada ainda havia um degrau que eu conhecia bem demais. O Alado — esguio, dourado, de quatro asas e zumbido grave, a casta que arrancou a Freala e o Gobe dos casulos e me fez correr sem olhar pra trás, lá atrás, quando eu ainda achava que ele era o topo do mundo. Eu nunca tinha vencido um. Eu tinha fugido de um. E agora descia por vontade própria pro andar onde eles caçam, de aço na mão e sem saber direito segurá-lo, rumo a uma estrada guardada por algo um degrau acima ainda.
Tudo bem, pensei, e dessa vez a piada veio com um fiapo de graça de volta, porque eu precisava dela. Eu vim de muito longe pra ser péssimo com uma espada. Seria um desperdício parar de descer agora, justo quando estou prestes a ser péssimo com ela contra coisas que voam.
A escada inteira ainda subia à minha frente. Só que agora cada degrau tinha um nome — e os próximos, todos eles, tinham asas.