Capítulo 13 — Trazer ao Chão
O caminho mais longo me ensinou uma coisa que o curto nunca teria: a Colônia tinha medo dela mesma.
A gente desviou da estrada larga do jeito que o Quagô mandou — voltando atrás, descendo por um ramal lateral que afundava antes de tornar a cair, mais fundo, mais demorado, longe da galeria de sulcos altos onde o Cavaleiro Alado montava guarda. E quanto mais a gente descia por aquele desvio, mais eu reparava que os próprios insetos o evitavam. Os Operários não cavavam ali. Os Soldados não patrulhavam ali. Era um trecho de túnel velho, de paredes que ninguém alargava fazia muito, e o silêncio dele não era o silêncio de um lugar seguro. Era o silêncio de um lugar que se cede de bom grado a quem é dono dele.
— Eles deixam este aqui pra quem?, transmiti, baixo, pro grupo.
Quagô não respondeu na hora. O sapo tinha parado de provocar e de se gabar fazia um trecho inteiro, e isso, nele, era o equivalente a um homem ficar branco.
— Pros que caçam, disse, por fim. Os de baixo não cavam onde os caçadores precisam de espaço pra abrir as asas.
E foi nesse instante exato — porque o Fosso tem um senso de hora cruel que eu já aprendi a respeitar e a odiar — que o zumbido começou.
Não era som de pata. Não era estalo de mandíbula. Era um zumbido grave, contínuo, que eu não ouvi com ouvido nenhum (não tenho) mas senti pela pedra subindo pelas vértebras, um arranhar grosso no ar, como o ronco de uma corda esticada quase até arrebentar. Eu conhecia aquele som. Eu tinha corrido daquele som uma vez, sem olhar pra trás, arrastando uma fé tola de que ele era o pior que o Fosso tinha pra me mostrar.
A Freala parou de respirar. O Gobe se encolheu meio palmo sem nem pensar, instinto de presa.
— É ele, ela disse. Não precisou dizer qual.
*
O Alado entrou na câmara à frente da gente como uma coisa que não pertence ao chão e sabe disso.
Eu o vi inteiro pela primeira vez — porque no oitavo dia daquela vida eu só tinha visto o quanto dele coube no meu pânico de fuga, e pânico é um péssimo desenhista. Agora, parado no breu que era a minha casa, com o Manto vestido e tempo pra olhar, eu o vi. Corpo esguio, longo, nada da massa de muralha de um Guardião — era construído pra cortar o ar, não pra aguentar pancada. A quitina dourada subia pelas costas num desenho de filigrana, fina como joia, daquelas que parecem trabalhadas à mão por alguém com tempo e crueldade de sobra. Quatro asas translúcidas, recolhidas, longas o bastante pra envolver o corpo todo como uma capa de luz parada. Duas antenas arqueavam sobre a cabeça em curva de chifre ornamental. E aquilo flutuava — pairava um palmo acima da pedra sem encostar, as asas batendo rápido demais pra eu separar uma batida da outra, suspenso no ar com a naturalidade de quem nunca precisou do chão pra nada.
Os Soldados procuravam. Os Guardiões reagiam. Este — eu senti na hora, com a mesma certeza fria que me deu um título lá atrás — este escolhia. Virou a cabeça devagar, varrendo o breu, e parou na nossa direção não porque tinha nos visto, mas porque tinha decidido onde valia a pena olhar. Caçador olhando caça.
E aí veio a parte que eu não esperava: ele não atacou. Inclinou o corpo, recolheu uma das antenas, e fez um movimento miúdo e quase educado com a cabeça — para a Freala, depois para o Gobe. Reconhecimento. A Colônia lembra, eu pensei, com um arrepio que ossos não deveriam ser capazes de ter. Aquela coisa, ou o corpo de que ela era célula, se lembrava de ter carregado os dois em casulos. Estava avaliando um reencontro.
Plano, transmiti, e a palavra saiu mais firme do que eu me sentia. Agora. Antes que ele decida.
E então eu fiz a coisa que vinha funcionando havia uma semana inteira. A coisa que tinha me deixado arrogante. Eu abri a mão no breu e mandei a Flecha Negra.
*
Eu sei fazer a Flecha Negra dormindo. É a minha estrela, o breu que rouba vigor, e o meu truque é repeti-la sem cansar e sem esvaziar até o alvo afundar no próprio peso. Contra Soldado, contra Guardião, contra qualquer coisa que avance em linha reta e fique no chão tempo o bastante pra empilhar, é morte certa e paciente.
A primeira flecha saiu perfeita e acertou o ar.
Porque o Alado não estava mais onde ele estava. Ele tinha cruzado um terço da câmara no tempo que a minha sombra levou pra atravessar metade dela — não voou para algum lugar, ele simplesmente deixou de estar na linha do meu tiro, num arranque lateral tão rápido que meu olho noturno só registrou o rastro, não o movimento. A flecha mergulhou no breu atrás dele e se desfez sem tocar em nada.
Segunda flecha. Mirei onde ele ia estar. Ele esteve em outro lugar.
E foi aí que o estômago que eu não tenho afundou, porque eu entendi o problema na carne, antes de entendê-lo na cabeça. A Flecha Negra precisa de tempo. Empilhar precisa de um alvo que aceite acumular. Tudo o que eu sou — o predador paciente, o que escolhe a briga com a avareza de quem tem pouco PV — tudo isso foi construído sobre uma suposição que eu nunca tinha visto falhar: a de que, mais cedo ou mais tarde, o inimigo fica parado pra mim.
Este não ia ficar parado nunca.
A terceira flecha eu nem cheguei a soltar, porque o Alado decidiu que a apresentação tinha acabado. Ele despencou — mergulhou do nada num ângulo que dobrou meu pescoço pra acompanhar, garras à frente, e aquelas garras não eram as ferramentas grossas de um Soldado. Eram longas, finas, recurvadas, e mesmo no breu eu vi a luz correr pelo gume delas como corre numa faca bem amolada. Lâminas. O bicho tinha lâminas nas mãos e me trazia todas de uma vez.
Eu vesti o Manto e me joguei. Não foi elegante. Foi o mesmo espasmo feio que me arrancou da mandíbula do Soldado no primeiro dia da espada, a Agilidade fazendo o trabalho que a perícia devia fazer, e mesmo assim a garra me pegou. Não a caixa torácica — ele mirou ali, no centro, no golpe que mata, e só não acertou porque eu já não estava no centro de mim mesmo. Pegou o úmero esquerdo de raspão e abriu um sulco no osso, fundo, com um chiado de quem risca pedra.
[Dano recebido. PV: 150 → 119.]
Trinta e um de vida num arranhão. Um arranhão. Eu caí de lado, rolei pra dentro de uma sombra mais densa, e por um segundo inteiro a única coisa que a minha cabeça conseguiu pensar foi a verdade nua: Sozinho, eu morro aqui. Hoje. Como morri da última vez, só que desta vez não tem esgoto pra me devolver perto.
Foi o pensamento mais útil que eu tive em dias.
*
Eu lutei a semana inteira como quem não precisa de ninguém. A espada me fez ganancioso, e a ganância me fez esquecer uma coisa que eu sabia desde o oitavo dia, desde quando três pessoas e um plano de três magias tiraram a Freala e o Gobe de uma colônia inteira: eu sou frágil, e o frágil que sobrevive é o que sabe deixar de ser o único na briga.
Esqueçam o que eu disse, transmiti, e dessa vez não foi uma ordem de general, foi um pedido. Eu não dou conta dele sozinho. Ninguém aqui dá. Mas ele é rápido, não é forte — esguio, casca fina. Se a gente prender ele no chão por três segundos, eu corto. A espada corta qualquer coisa. O problema é o ar. Tirem ele do ar.
A Freala não perdeu meio instante. — Gobe, comigo. Sapo, alcance. Osso, você finaliza. Quatro palavras e a briga inteira virou outra coisa.
O Gobe cresceu de volta ao tamanho cheio — ele tinha encolhido por puro reflexo — e jogou as mãos pro alto. — Eu seguro o teto dele! A Lâmina de Vento dele cortou a câmara num assobio, não na direção do Alado, mas acima dele, fechando o espaço por onde o bicho subia pra ganhar altura e mergulhar de novo. Não feriu. Cortou a rota. O Alado teve que abortar a subida, inclinar, perder uma fração da velocidade que era tudo o que ele tinha.
E uma fração foi o que a Freala precisou.
— Lufada! Ela não tentou acertar o corpo dele. Aprendeu o mesmo que eu, no mesmo segundo, mas mais rápido porque é maga há mais tempo que eu sou esqueleto: não se acerta o veloz onde ele está. Acerta-se o ar em que ele se apoia. A rajada bateu por baixo de uma asa, no exato instante em que ela estava aberta e tensa pra firmar a curva, e o Alado girou — desequilibrado, jogado meio palmo pro lado, o voo perfeito virando por um átimo um tropeço no ar.
Foi quando ele fez a coisa que ninguém esperava. Arqueou o abdômen pra frente, por baixo, como um escorpião que traz o ferrão — e cuspiu. Não veneno, não fogo. Espinhos. Uma rajada de cerdas duras e longas, da grossura de um dedo, disparadas em leque da ponta do abdômen com um estalo seco de varas quebrando. O bicho que eu achei que só sabia voar e cortar tinha um terceiro truque, e o guardou pra quando o pressionaram.
Abriguem!, eu gritei na cabeça deles, tarde.
Um espinho rasgou o ombro da Freala e ela engoliu o grito pra não dar a posição. Dois cravaram na pedra ao lado do Gobe, que se atirou pra trás xingando em gnômico. E foi o Quagô — o sapo que se vendia como covarde e batia em retirada à primeira mandíbula — quem fez a primeira coisa verdadeiramente corajosa daquela noite.
Ele se pôs na frente.
Eu nunca tinha visto o que ele carregava nas costas porque ele nunca tinha precisado mostrar. Era um casco — meio casco de Operário, ou de algo da casta baixa, curvado, do tamanho de um broquel, raspado e amarrado com tira de couro num braço só. O Quagô o ergueu e o leque de espinhos bateu nele com um tamborilar de granizo em telhado, três, quatro, cravando na quitina velha sem atravessá-la. Atrás do escudo, o sapo nem piscou.
— O Coaxante apanha desses bichos desde que nasceu, coisa de osso, ele coaxou, e pela primeira vez tinha um fio de gabolice de volta na voz dele. A gente não vence eles. Mas a gente aprende a não morrer pra eles primeiro.
E aí ele me mostrou pra que servia a outra mão.
*
O chicote do Quagô era a coisa mais feia e mais inteligente que eu tinha visto em todo o Fosso.
Era feito de pedaços de cupim. Literalmente — segmentos de mandíbula, garras de Soldado, espinhos de Guardião, articulações duras dos bichos que o povo dele abatia ao longo de uma vida inteira de apanhar e sobreviver, tudo perfurado e enfiado num cordão trançado de fibra, num comprimento de braço e meio que terminava num gancho de garra recurvada. Pedaços de inimigos mortos costurados numa coisa que atacava os vivos. Era exatamente o tipo de arma que uma casta presa, fraca, esperta e ressentida inventaria pra ferir o que não consegue alcançar com as mãos. O sapo lutava como eu — de longe, com medo, com paciência —, só que ele tinha nascido sabendo o que eu levei uma semana e quase a vida pra entender.
Quando o Alado se recompôs do tropeço da Lufada e jogou o corpo pra cima de novo, buscando altura, o Quagô girou o chicote uma vez sobre a cabeça e o lançou. O gancho de garra mordeu a borda de uma asa — não a rasgou, a prendeu — e o sapo cravou os pés na pedra, todo o peso anfíbio dele plantado, e puxou.
O Alado não veio ao chão. Era forte demais, e o Quagô, leve demais. Mas por um segundo a asa não fechou direito, o voo cambaleou, e a coisa que dependia inteiramente da própria velocidade perdeu a velocidade.
Agora, eu pensei, e quase mandei a Flecha Negra de novo, e me contive a tempo. Não. Um segundo de asa presa não era os três segundos no chão que eu tinha pedido. Empilhar ainda não dava. Eu precisava dele parado, e o Quagô só tinha conseguido deixá-lo lento.
Faltava a coisa que prega um voador no chão de uma vez. E só uma pessoa ali tinha essa coisa.
*
Eu tinha visto o Gobe fazer mágica pequena a vida inteira que o conhecia. Lâmina de vento, escudo de vento, a moeda que volta pra mão, truque de feira, truque de fuga. Eu o tinha catalogado, com a arrogância de sempre, como o vigarista útil — muita lábia, pouca potência. Foi a noite mais cara da minha vida pra desfazer esse engano.
— Sai da frente do sapo!, o Gobe berrou, e o Quagô, que sentiu na voz o que vinha, soltou o chicote e se atirou de lado.
O gnomo plantou os dois pés, abriu os braços, e eu vi a runa que ele desenhou no ar acender — porque ver as runas é comum a todos, mas eu as entendo, e a que o Gobe traçou não era a runa simples da Lâmina de Vento. Era uma só, ainda do caminho do Ar, mas densa, enrolada sobre si mesma camada após camada — não duas runas casadas como as que a Freala desenha quando mistura elementos, uma só, de Ar puro, torcida até um grau que aquele corpo pequeno não tinha o direito de carregar.
— Eu só consigo fazer isso UMA vez!, ele gritou, e na voz dele não tinha gabolice nenhuma agora. Então é melhor valer!
O 《Rugido da Tempestade》 não foi um golpe. Foi o ar inteiro da câmara escolhendo um lado. O vento se fechou num jato — não a rajada que empurra e morre, mas um fluxo contínuo, denso, centenas de correntes torcidas numa só, urrando em alta velocidade contra o Alado e sem parar de urrar. Não precisava mirar à frente como a Bola, porque não era uma coisa que viajava até o alvo e estourava onde ele tinha estado. Era uma coisa que se derramava sobre ele e ficava. E o que ela fez ao bicho foi pior que furar. Tomou o ar de baixo das asas dele. O Alado, que voava porque mandava no ar, descobriu de uma vez que ali havia algo que mandava mais — e a corrente o prensou pra baixo, contra a pedra, as quatro asas batendo em pânico num vento que não cedia, até o chão receber o que o céu tinha largado.
O Alado caiu.
Caiu de verdade, esmagado contra a rocha pelo próprio elemento, o corpo batendo com o estrondo de uma armadura vazia jogada do alto. E o Gobe caiu junto — de joelhos, depois sentado, depois quase deitado, o rosto cinza, a respiração curta, a mão ainda erguida e tremendo no ar onde a runa tinha estado. Esvaziado. Seco. Uma coisa grande, ele tinha dito uma vez, e depois desaba. Eu nunca tinha entendido o "desaba" até ver os olhos dele rolarem pra trás e o corpinho dele amolecer contra a parede, vivo, mas tão sem mana que por um instante pareceu menos vivo que eu. O rugido morreu com ele — o vento se desfez no segundo em que o gnomo apagou, e foi por isso que a gente teve pressa.
— Gobe!
— Tô... bem..., ele arrastou, sem força nem pra abrir os olhos. Acaba... com ele... antes que eu... tenha que ter feito isso à toa...
Não precisou repetir.
*
O Alado estava no chão, atordoado do baque, as asas ainda procurando o ar que o Gobe tinha arrancado de baixo delas — um punhado de segundos que não iam durar. Os três segundos que eu tinha pedido. E desta vez eu não os desperdicei contemplando minha própria sombra.
A Flecha Negra finalmente teve o que precisava: um alvo parado. Eu abri as duas mãos e empilhei — uma, duas, três, quatro, o breu que rouba vigor caindo sobre o bicho enquanto ele tentava firmar as asas no chão, cada flecha mais pesada que a anterior na forma como o afundava. As asas pararam de tremer pra cima e começaram a tremer pra baixo, o peso do próprio corpo virando uma coisa estranha e grande demais pra ele carregar. A Freala viu o que eu fazia e fechou a janela do outro lado: — Gelo! — e a junta de uma asa, aberta e exposta contra a pedra, congelou numa casca branca que travou a articulação no lugar.
Preso. Lento. Pesado. Cego de vigor.
Eu desamarrei a espada das costas — o gesto já não me era estranho, uma semana de errar tinha servido pra isso — e dessa vez não a segurei como nos filmes de uma vida que não existe mais. Segurei curto. Mesquinho. Os pés onde um mago não planta os pés, mas fechado, sem me abrir, do jeito que a Freala tinha me dito que eu ia ter que aprender ou morrer.
O Alado ergueu a cabeça coroada de antenas e me olhou. E eu juro que, naquele último instante, aquilo me reconheceu também — não como os dois prisioneiros que ele carregou, mas como a coisa que tinha fugido dele no oitavo dia e voltado no décimo terceiro de aço na mão.
Eu sei, pensei, e não tive graça nenhuma pra oferecer dessa vez. Eu também não acreditei.
O adamante não procurou vão. O adamante fez o vão. A lâmina entrou na filigrana dourada do pescoço como entra em manteiga, sem que meu braço sentisse mais que o peso do próprio gesto, e a casca fina e elegante que cortava o ar como faca descobriu, no fim, que existia uma faca melhor.
[Você derrotou: Alado Isopteriano.]
A câmara ficou em silêncio. Aquele silêncio que volta depois de uma coisa grande, quando o ar ainda guarda o cheiro de tempestade e a gente reconta os próprios membros pra ver se ainda estão todos lá.
*
[Você subiu de nível!]
Veio uma vez só, e foi a vez que mais valeu desde que eu desço.
Eu não abri a tela na hora. Fiquei parado, com a espada baixa e o úmero rasgado, olhando a coisa morta no chão — a coisa que tinha sido o topo do meu mundo num dia em que eu fugi sem olhar pra trás, e que agora estava partida aos meus pés. Devia ser triunfo. Era outra coisa. Era a consciência muito clara de que, se eu estivesse sozinho, era o meu pescoço naquele chão, e não o dele.
A Freala se arrastou até o Gobe e o ergueu encostado na parede, conferindo a mana dele do jeito que se confere uma febre. O Quagô recolhia o chicote do chão, examinando o gancho de garra pra ver se a asa do Alado o tinha lascado, já calculando, do jeito prático dele, o conserto. Três pessoas machucadas, cansadas, vivas. Por minha causa, em parte. Mas eu, por causa delas, inteiro — ou o que passa por inteiro num saco de ossos com um sulco novo no braço.
— Você parou de contemplar a própria sombra, observou o Gobe, fraquinho, sem abrir os olhos. Tô orgulhoso. Levou só um quase-morrer.
— Eu estava contemplando a sua, retruquei. Você quase morreu de leve. Achei bonito.
Ele riu — um fio de riso, tudo o que tinha sobrado nele —, e foi um bom som de se ouvir num lugar que não costuma fazer bons sons.
A Freala não riu. Ela estava olhando pra mão do Gobe, a mão que tinha torcido o ar inteiro da câmara num jato só, e havia na cara dela uma coisa que eu não tinha visto antes — nem inveja, nem espanto, alguma coisa mais funda e mais incômoda, do tipo que muda uma pessoa por dentro sem fazer barulho.
— Eu joguei tudo o que tenho naquele bicho, ela disse, mais pra si do que pra nós. Lufada, Lâmina, ia tentar o Estouro Trovejante se ele ficasse parado um segundo. E nada do que eu tenho pega uma coisa que voa daquele jeito. A Bola explode num ponto — no ponto onde a coisa estava quando eu soltei. Aí ela já saiu de lá. Ela olhou o Gobe. O que você fez não escolhe um ponto. Toma o ar inteiro. Não tem pra onde o bicho fugir, porque fugir é dentro do ar — e o ar virou seu.
— Quarto grau, o Gobe murmurou, de olhos fechados, professor sem querer. A forma que vem logo depois da Bola. Para de ser uma pedra que você atira e vira uma corrente que você segura. Rugido da Tempestade, lá onde eu cresci. Um suspiro. Eu faço dormindo. Faço uma vez e durmo no chão, mas faço. Você... você tem fôlego de mana pra dez de mim e ainda não sabe torcer a runa pra fechar a forma.
— Ainda não sei, ela disse.
E foi só isso. Ela não pediu, ele não prometeu, ninguém combinou nada em voz alta. Mas eu vi a coisa nascer ali, no escuro, entre a maga que tinha mana de sobra e a forma trancada, e o gnomo que tinha a forma e nenhuma mana pra sustentá-la. Dois meio-magos que, juntos, faziam um inteiro. Eu conhecia bem essa aritmética. Era a mesma que tinha acabado de me manter vivo.
*
Eu só abri a tela quando os outros dormiram — Gobe primeiro, apagado de exaustão; depois a Freala, com o ombro enfaixado num pano que o Quagô umedeceu; o sapo cochilando de olhos abertos, o casco e o chicote ao alcance da mão mesmo no sono.
★★★
Nome: Thasjo Gênero: Masculino
Estado: Normal Rank: H
Tipo: Esqueleto / Morto-vivo
Classe: Mago
Nível: 19 Título: «Predador Paciente»
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PV: 160/160 Força: 48
MP: 1.000/1.000 Agilidade: 37
Dano: 8,5 Vitalidade: 32
Defesa: 3,8 Sentidos: 1 [bloqueado]
Inteligência: 1 [x200]
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Pontos de Status: 0 Pontos de Magia: 0
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✧ Habilidades Especiais ✧
[Ressurreição Lv 1] [Visão Noturna Lv 1]
['O Conhecimento de Babel'] [Telepatia]
[Compreensão de Runas] ['Jera - A Runa de Odin' 1/1]
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✧ Habilidades Mágicas ✧
Magias: 《Labareda》《Agulha de Água》《Véu de Sombras》
《Manto de Sombras》《Flecha de Fogo》《Flecha Negra》
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Caminhos da Magia
Terra: 0/10 Luz: 0/10
Água: 1/10 Trevas: 2/10
Fogo: 1/10 Vácuo: 0/?
Ar: 0/10 Éter: 0/?
★★★
Dezenove. Mais seis pontos despejados na mesma divisão preguiçosa de sempre — um tanto pra bater, um tanto pra correr, um tanto pra não morrer. Eu olhei a distribuição igual, eternamente igual, e a pergunta que eu vinha empurrando voltou, mais alta agora. Quarenta e oito de Força. Trinta e sete de Agilidade. E ainda assim, esta noite, a Força não tinha matado o Alado e a Agilidade mal tinha me salvado dele. Quem matou o Alado foi um rugido de vento que eu não sei tecer, um chicote que eu não saberia usar, uma rajada na hora certa, e um escudo de casco velho na frente dos espinhos.
Eu fico melhor, pensei, encarando os números. A cada degrau eu fico melhor. E a cada degrau fica mais claro que "melhor" não é a mesma coisa que "suficiente", e que sozinho eu já não basto faz tempo.
Era um pensamento estranho pra um morto-vivo solitário, sem voz, sem nome, que entrou neste mundo zombado por gente que ria enquanto ele morria. Eu passei a primeira metade desta vida convencido de que precisava ficar forte o bastante pra nunca mais depender de ninguém. E aqui estava eu, ao lado de três corpos cansados que me mantiveram inteiro, pensando que talvez o erro tivesse sido justamente esse — querer não depender, num lugar onde nada sobrevive sozinho.
Faltava um nível pro vinte. Um só. E o vinte ainda tinha cheiro de porta — eu pressentia o batente dele a cada vez que segurava a espada do jeito errado e a palavra seca brotava na minha cabeça pra me lembrar de que a chave estava num andar abaixo, esperando. Indisponível para a sua classe. Mas eu já não pensava na porta como o que ia me fazer bastar sozinho. Pensava nela como mais uma peça que a briga lá embaixo ia exigir de uma coisa que tinha, finalmente, parado de tentar ser a única peça no tabuleiro.
Eu fechei a tela.
Lá no fundo do desvio, mais abaixo ainda, a estrada larga continuava esperando — a galeria de sulcos altos onde o Cavaleiro Alado montava guarda, encouraçado, paciente, um degrau inteiro acima da coisa que tinha custado a quatro de nós uma noite e quase um gnomo. O Alado tinha sido a conta que eu devia desde o oitavo dia, e eu finalmente a paguei. Mas a fatura não veio sozinha, e a próxima, eu já sabia, ia vir maior.
Olhei os três dormindo no breu, o sapo de guarda, a maga de ombro enfaixado, o gnomo apagado com a garrafa de vinho ainda apertada contra o peito mesmo desmaiado.
Tudo bem, pensei, e dessa vez a piada veio com calor de verdade, porque eu precisava dela e porque, pela primeira vez em muito tempo, ela não era só minha. Da última vez eu enfrentei o céu sozinho e corri. Desta vez eu trouxe gente. Vamos ver se o céu gosta menos de quatro do que gostou de um.
A escada inteira ainda subia à minha frente. Só que agora, em cada degrau, eu não estava mais subindo sozinho.