Capítulo 17 — O Último Aceso
A gente ficou dois sonos no largo.
É assim que eu meço o tempo desde que perdi a conta dos dias: pelo sono dos vivos. Um esqueleto não dorme, não tem fome, não tem nada que o obrigue a parar — então eu fico de sentinela no breu enquanto os outros desmaiam, e quando eles acordam eu digo "foi um sono" ou "foram dois", e é o mais perto de calendário que esse buraco me deixa ter. Foram dois. No primeiro, ninguém falou quase nada. A Freala dormiu como quem foi desligado da tomada. O Gobe roncou abraçado à garrafa de vinho como se ela fosse a única coisa boa que sobrou no mundo, o que, para o Gobe, talvez seja verdade. O Quagô deitou de olhos abertos, do jeito que ele dorme, e a primeira vez que eu o vi fazer isso achei que tinha morrido sentado.
No segundo sono, eles começaram a virar gente de novo.
— Osso. — A Freala estava acordada antes do Gobe, encostada na parede, esfregando os pulsos. — Quanto tempo a gente tem aqui?
— O que você quiser — eu disse, na cabeça dela e do grupo. — A estrada não vai a lugar nenhum sem a gente. E lá embaixo não tem ninguém com pressa de subir pra dizer oi.
— Mentira reconfortante. — Ela quase sorriu. — Anotada.
O Quagô se levantou mancando do tornozelo que o Gobe tinha enfaixado, e ficou olhando a estrada que continuava descendo, escura, larga, com aquele cheiro doce-podre de vida demais junta que ia ficando mais forte quanto mais fundo. Ele coaxou baixinho, o jeito dele de pigarrear antes de dizer uma coisa que estava pensando havia tempo.
— Tem outro caminho — ele disse. — Antes de descer mais.
*
— Eu não levei vocês por ele antes — o Quagô continuou — porque ele não vai pra baixo. Ele vai pra dentro. — Ele desenhou no chão de poeira com a garra: a estrada, reta, descendo; e dela, um galho torto pro lado. — A gente tá perto do centro agora. E perto do centro tem a água.
— A água — repeti.
— De onde acha que vem? — Ele me olhou como quem explica o óbvio a uma criança grande. — Uma colmeia desse tamanho bebe um rio por dia. Não cai do céu aqui embaixo. Alguém leva. — A garra dele parou no galho torto. — O meu povo leva. Os ramais úmidos, as calhas, as comportas. A colmeia precisa que a água nunca falte, então pôs quem conhece água pra cuidar disso. — Ele engoliu. — Eu trabalhei nessas calhas. Antes de um Soldado me arrancar de lá e me arrastar pra cima, pra onde você me achou. Eu sei onde tem uma cabana, num ramal de onde a colmeia não desce porque não tem o que comer ali. E sei quem mora nela.
— Um amigo? — perguntou o Gobe, já de pé, a moeda andando entre os dedos.
— Um velho — disse o Quagô. — O mais velho que eu conheço. Ele guia água desde antes de eu nascer. Se tem alguém vivo que sabe desse buraco mais do que eu, é ele. — Os olhos grandes dele piscaram devagar. — E ele dá abrigo. Pros que passam quietos.
Eu olhei pra Freala. Ela deu de ombros, do jeito "não temos planos melhores", que era verdade.
— Quieto eu sei fazer — eu disse. — Quieto é a única coisa que eu faço bem.
*
O ramal era exatamente o que o nome prometia: úmido. As paredes choravam, o chão era lodo escuro, e em todo lugar havia o som de água correndo onde não dava pra ver — um múrmurio de calhas, de comportas de osso e quitina amarradas com fibra, de gente pequena trabalhando no escuro pra que uma coisa enorme não tivesse sede.
E havia a gente pequena.
Eram coaxantes como o Quagô, dezenas deles, talvez mais, curvados nas calhas, raspando lodo, abrindo e fechando comportas, carregando baldes de casca trançada. Não levantaram a cabeça quando passamos. Trabalhavam com a quietude de quem aprendeu que ser notado custa mais caro do que qualquer cansaço. Ninguém os vigiava. Não precisava. O medo já estava dentro deles, fazia tanto tempo que tinha virado o jeito normal de andar.
O Quagô ia na frente com a cabeça baixa, e eu vi nele uma coisa que nunca tinha visto: vergonha. O guerreiro que pôs o casco na frente do leque de espinhos de um Alado, o sujeito que enfrentou comigo coisas que faziam veteranos correrem, andava por entre os próprios e não conseguia olhar pra eles.
— Eu fui um desses — ele disse, sem que ninguém perguntasse. — Guiei água como eles, de cabeça baixa, a vida toda. Até o dia em que me levaram pra cima, e quando me jogaram de volta aqui embaixo eu falava a língua dos homens e não sabia direito por quê. — Ele coaxou, baixo. — Foi quando os Soldados me pegaram e um saco de ossos resolveu não me comer. — Os olhos grandes dele passaram pelos curvados nas calhas. — Eles não sabem que dá pra sair. Eu também não sabia. A gente nasce achando que o mundo é o tamanho da calha.
Não tinha o que responder pra aquilo, então eu não respondi. Tem horas que a fala telepática mais útil é a que a gente segura.
*
A cabana era uma só, encostada onde o ramal se alargava numa poça parada, feita de casca velha e fibra e teto de cogumelo seco. Dentro dela, sentado numa pedra como se fosse parte da pedra, estava o velho.
Eu já tinha visto coaxante novo, coaxante adulto, coaxante guerreiro. Nunca tinha visto um velho. A pele dele tinha perdido a cor do Quagô e ficado de um cinza de barro rachado; um dos olhos era leitoso, cego; as mãos tremiam de leve, sem parar, como água que nunca assenta. Entre os dentes ele segurava um cachimbo de cabo longo, de osso curvado, e dele subia um fio fino de fumaça que cheirava a fungo seco queimando. Mas o olho bom era afiado, e ele nos viu chegar — os quatro — sem se assustar com nenhum, nem mesmo comigo.
— Görö — disse o Quagô, e abaixou a cabeça. — Sou eu. Quagô. Dos ramais altos.
— Eu sei quem é — disse o velho, e a voz dele era um coaxar lento, gasto, saindo por entre o cachimbo. — O que levaram pra cima e não voltou. Te demos por comido. — O olho bom passou por nós, por Freala, por Gobe, e parou em mim. — Voltou com companhia estranha.
— Eles passam quietos — disse o Quagô. — Como você ensinou.
O velho me olhou por um tempo longo. Eu estou acostumado com o jeito que os vivos me olham — o susto, a ânsia de vômito, o sinal contra o mau-olhado. Ele não fez nada disso. Ele me olhou como quem confere uma coisa contra uma lembrança muito antiga, e o que quer que tenha encontrado o fez tirar o cachimbo da boca e suspirar uma baforada lenta, como se estivesse cansado havia eras e só agora pudesse dizer.
— Senta — ele disse. — Vocês vão querer ouvir, e eu vou querer falar. Faz tempo que não tenho com quem.
*
Ele deu de beber aos vivos primeiro. Poções, ele tinha — frascos de barro com um líquido vermelho que puxava pro esverdeado, espesso, com cheiro de raiz fervida.
— Não é a coisa fina dos donos do templo lá de cima — ele disse, enquanto a Freala cheirava o frasco com a desconfiança profissional de quem é maga. — Cura o que dá pra curar. Fecha corte, segura febre. O meu povo aprendeu a fazer de fungo e lodo, porque a coisa fina nunca foi pra nós.
A Freala bebeu, esperou, e assentiu devagar.
— Funciona — ela disse, surpresa. — Mais devagar. Mas funciona.
— E pra isso — o velho empurrou na direção dela uma raiz, pálida, retorcida, com braços que lembravam um corpinho de gente, do tipo que eu já tinha visto numa feira da minha outra vida, com outro nome —, pra isso aqui não tem substituto. Mastiga. Amarga como pecado. Mas o que vocês chamam de mana, isso devolve.
O Gobe arrancou um pedaço antes mesmo de a Freala decidir, mastigou, fez uma careta que teria sido cômica em qualquer outro lugar.
— Por todos os deuses, que coisa horrenda — ele disse, com a boca cheia. E então parou de mastigar, e os olhos dele se arregalaram, e eu senti — do jeito que eu sinto essas coisas, sem ver — o reservatório vazio do gnomo começar a se encher de novo, devagar, como poça na chuva. — Ah. Ah, isso eu levo. Isso eu levo um saco.
— Leva o que conseguir carregar — disse o velho. — Cresce no escuro. É a única coisa que a colmeia não soube nos tirar, porque nem eles sabem que serve. — Um brilho passou pelo olho bom dele. — Eles não bebem mana. Não sabem o que perdem.
*
E aí, com os vivos bebendo e mastigando, o velho falou do buraco.
— Você quer saber de quem manda aqui embaixo — ele me disse, e não era pergunta. — Todo mundo que chega quer. — Ele apontou o cabo do cachimbo pra fundo, pra onde a estrada descia. — Hoje é Ela. A grande, lá no fundo, que põe os ovos e come o que escorre da coisa antiga. Manda nos cupins, e os cupins mandam em nós. — A mão trêmula dele fez um gesto vago, abarcando o ramal, a água, os corpos curvados lá fora. — Pro meu povo sempre foi assim. Guiar a água pra quem nos guarda. Agora é Ela. Antes d'Ela, foi outro.
Eu fiquei muito quieto. A Freala parou de mastigar. Até o Gobe se calou.
— Outro — repeti.
— Antes dos cupins crescerem, antes de Ela ser o que é, o dono daqui era outra coisa. — A voz do velho baixou, e o ramal pareceu baixar com ela. — O meu avô do avô guiava água pra ele também. As histórias dizem que era frio. Que onde ele andava, a água virava pedra. Que ele chamava os mortos do chão pra trabalhar, e os mortos vinham, e não reclamavam, porque mortos não reclamam. — O olho bom veio pra mim, leitoso de lembrança e firme de propósito ao mesmo tempo. — Dizem que ele tinha a cara descarnada. Que era osso por baixo do frio. — Uma baforada lenta. — De certo jeito, ele se parecia com você.
Eu não disse nada. Não porque não tivesse nada a dizer — porque tinha coisa demais, e nenhuma delas era pra dizer ali.
— O que aconteceu com ele? — perguntou a Freala, e a voz dela tinha aquela curiosidade dela que é mais forte que o medo.
— Sumiu. — O velho deu de ombros, um gesto pequeno e antigo. — Pras histórias, sumiu. Pro chicote, só trocou de mão. — Ele olhou pra fora, pros corpos curvados nas calhas. — Pra nós nunca muda o que manda. Muda só de quem é a mão que segura. Frio, antes. Faminta, agora. — Ele me olhou de novo. — Você é a primeira coisa em muito tempo que não parece nem uma nem outra. Não sei ainda se isso é bom.
*
— Tem mais — disse o velho, depois de um tempo, quando o Gobe já estava enchendo um saco de raiz e a Freala já tinha guardado três frascos. — Uma coisa que correu pelas calhas faz um tempo. Antes de a colmeia entrar nesse alvoroço todo de agora, atrás de não sei o quê. — O olho bom me cutucou, e eu fingi que não era óbvio o que era o "não sei o quê". — Chegou um boato pela água. A água carrega fofoca melhor que ninguém, sabia? Corre por tudo, escuta tudo.
— Que boato? — perguntou a Freala.
— Que uns de fora tinham atravessado. — Ele disse devagar, saboreando, como quem conta a melhor parte. — Gente de cima, da sua espécie. Tinham vindo pelo caminho que sobe pro mar e desceram pelas ruínas velhas. E quando a colmeia foi recolher, não recolheu tudo. — Ele coaxou, e o coaxar tinha um riso dentro. — Não foi limpo. Teve uma que cortava. Uma fêmea da sua gente, com uma lâmina das grandes, das de duas mãos, que abria operário e soldado como quem abre fruta. A colmeia perdeu casca naquele dia. Perdeu muita.
Eu senti, mais do que vi, a Freala enrijecer ao meu lado.
— Uma guerreira — ela disse, e a voz dela tinha mudado. — Com um machado de duas mãos.
— Pra mim é lâmina das grandes — disse o velho. — Pra você é o que for. Cortava. — Ele continuou. — A colmeia se irritou. Coisa rara, a colmeia se irritar com presa de fora — geralmente é só comida que ainda não foi comida. Mas aquela cortava demais, e mandaram um dos voadores grandes atrás. Um dos de quatro asas. Pra trazer todos de volta vivos, do jeito que Ela gosta.
— E? — A Freala estava muito quieta agora.
— E o voador falhou. — O olho do velho brilhou. — Primeira vez em eras que eu ouço uma dessas falhar. A que cortava cortou até ele recuar. Ele não trouxe todos. Trouxe dois. Só dois, dos vários. Os outros passaram, e subiram pelo caminho do mar, e a água nunca mais trouxe notícia deles, o que pra esse buraco quer dizer que escaparam. — Ele se recostou. — Foi a fofoca mais bonita que correu por essas calhas na minha vida inteira. A vontade da colmeia não venceu. O meu povo gostou. A gente repassou de comporta em comporta, baixinho, pra todo mundo ter um pouco daquilo. — Ele olhou pro nada. — Faz bem saber que dá pra não obedecer. Mesmo quando não é com a gente.
*
A Freala estava de pé. Eu nem a tinha visto levantar.
— Dois — ela disse. — Ele pegou dois. — Ela se virou pro Gobe, e o Gobe já tinha parado de mastigar a raiz, e os dois se olharam com uma coisa correndo entre eles que eu levei um instante pra entender, porque era uma coisa que só eles dois podiam ter.
— Fomos nós — disse o Gobe, baixinho, sem nenhuma piada na voz pela primeira vez em muito tempo. — Os dois que o Alado pegou. No oito. Foi a gente, Freala.
— A guerreira é a Conna — disse a Freala, e agora a voz dela tremia, e ela não estava nem tentando esconder. — A do machado. Tem que ser. Ela cobria a retirada. Sempre cobria. — Ela apertou os próprios braços. — Eu lembro do voador descendo. Lembro de gritar pra eles correrem. O Gobe me puxou pra trás de uma coluna e o bicho pegou nós dois, e eu pensei que tinha pegado todo mundo, que era o fim de todos, eu passei esse tempo todo achando que eles também tinham... — Ela parou, engoliu. — Eles passaram. Tricar. A Conna. O Leof. Eles subiram pelo caminho do mar.
— Que caminho do mar? — eu perguntei, porque era a única peça que me faltava.
Ela me olhou, e por baixo do choque tinha uma coisa quase parecida com esperança, e fazia tanto tempo que eu não via esperança nela que eu quase não reconheci.
— A gente não nasceu nesse buraco, osso — ela disse, rápido, montando pra mim o que estava montando pra si. — A gente chegou. Pelo mar. O comerciante, o Drubal, tinha um barco; ele nos trouxe por água até uma praia, no pé das terras do Fosso. Da praia subiam as ruínas — as velhas, abandonadas, cheias de morto que anda. Foi por elas que a gente desceu pra cá. Tricar à frente, espada na mão, xingando cada esqueleto que se mexia. — Um riso molhado escapou dela. — Foi por ali que tudo começou. E é por ali que eles saíram. Sobe pelas ruínas, alcança a praia, pega o mar. — Ela me agarrou pelo antebraço, e a mão dela era firme. — Tem uma saída que não passa por Ela, osso. Tem um caminho que chega no mar. E gente nossa já fez ele.
*
Eu deixei a esperança dela respirar um instante. Depois virei pro velho, porque esperança a gente segura com fato.
— Görö — eu disse. — Esse caminho do mar. Dá pra chegar nele daqui?
O velho mexeu a cabeça de um jeito que não era sim nem não, e deu uma baforada.
— Tudo aqui embaixo se conecta — ele disse. — A água vai a todo lugar, e eu sei por onde a água vai. — Ele se inclinou, pegou um caco de casca chato, e com a garra trêmula começou a riscar nele. — Eu te dou um mapa. Não dos bons, mas dos que servem. Por onde passar quieto, onde a colmeia desce e onde não desce. — A garra dele riscou, parou, riscou de novo. — Mas eu não vou mentir pra você como você mentiu pra ela agorinha.
A Freala franziu a testa.
— Ele não falou nada — ela disse.
— Falou pra você. Eu vi. — O olho bom do velho virou pra ela, e ele sorriu por trás do cachimbo. — Eu não escuto as palavras dele, menina. Sou velho, não sou mago. Mas eu vi a tua cara mudar duas vezes enquanto ele te olhava calado, e cara não muda no vazio. — Ele voltou pra mim. — Faz tempo demais que eu ouço gente dizer o que conforta no lugar do que é. Aprendi a diferença sem precisar de orelha. O caminho do mar é real. Mas ele não é o caminho fácil, porque caminho fácil não tem aqui. — Ele empurrou o caco de casca na minha direção. — Esse leva pro coração. Pra perto d'Ela. Porque é pra lá que tudo desce, e eu só sei desenhar o que a água me ensinou. O caminho do mar sobe de outro ponto, e pra alcançar a subida dele, daqui... — ele bateu a garra num ponto do mapa, perto do centro — ...vocês vão ter que passar perto daqui. E aqui não é bom.
— O que tem aqui? — perguntou o Gobe, espiando por cima do meu ombro.
— Ar ruim — disse o velho. — Ar que mata sem tocar. E, perto do ar ruim, os grandes. Os que cavam. — Ele coaxou baixo, e pela primeira vez na conversa toda houve medo na voz dele. — Quando os grandes andam, o teto chove. Vocês vão saber quando estiverem perto. Todo mundo sabe.
*
Antes de pegar o mapa, eu fiz uma coisa que não costumo fazer: eu falei primeiro.
— Antes de a gente ir — eu disse, pra todos. — Eu sei o que ergue eles. Os voadores grandes, e Ela. Não é magia, não é título. É uma coisa que eles bebem.
E contei. O que eu tinha juntado lá no largo, da boca do que morreu rezando e do que fugiu pra ser dono de si: uma coisa que escorre de algo antigo; um gole que ergue um cupim um dedo acima do que ele devia ser; a fonte inteira pra Ela, que bebeu fundo o bastante pra deixar de ser uma delas.
O Gobe largou o saco de raiz. Foi a primeira coisa que ele largou o dia inteiro.
— Repete — ele disse. — A parte da coisa antiga. De onde escorre.
— De cima — eu disse. — As elites falaram em subir. Em sangrar uma coisa velha que umas guardiãs protegem, e beber o que pinga.
— Uma coisa velha — repetiu o Gobe, devagar, e eu vi o gnomo viajado por trás do vigarista acender atrás dos olhos dele. — Que sangra. Que umas guardiãs protegem. — Ele se virou pro velho. — Görö. Essa coisa. É uma árvore?
O velho não respondeu na hora. Deu uma baforada longa, e quando falou, falou olhando a fumaça subir.
— É o que sobrou de uma — ele disse.
*
— Então é verdade — disse o Gobe, e sentou-se de novo, mas de um jeito diferente, como quem precisa do chão pra segurar a cabeça. — Eu achei que fosse história de cair no sono. Eu ouvi essa em três reinos, osso, sempre igual, sempre contada como mentira bonita pra explicar por que o mundo tem buraco. — Ele me encarou. — Dizem que houve uma árvore. Não uma árvore — a árvore. A que tinha as raízes em todos os mundos de uma vez, costurando um no outro, e que segurava tudo no lugar só de existir. A Árvore da Vida. — Ele apontou pra baixo, pro chão, pro fundo do buraco. — E dizem que, faz tanto tempo que não tem tempo, uma das raízes dela foi arrancada deste mundo. Arrancada com força, do jeito que se arranca um dente. E o lugar de onde ela saiu virou um vão. Um fosso. — Ele abriu as mãos. — Este fosso. A gente está dentro da cova de onde arrancaram uma raiz da árvore que segura o mundo. Sempre estivemos.
Ninguém falou. A água corria nas calhas lá fora, indiferente.
— E a raiz? — perguntou a Freala, e ela tinha virado de novo a maga, fria e afiada, a única defesa que ela tem contra coisa grande demais. — Se arrancaram, foi embora. O que sobra de uma raiz arrancada?
— Sobra o que não saiu — disse o velho. — Arrancaram uma. Não arrancaram todas. — Ele desenhou no ar, com o cachimbo, uma linha que descia. — Uma ficou. Cravada fundo, fundo demais pra puxar, agarrada na pedra lá embaixo. E ela não secou. Sangra até hoje, devagar, do talho de onde a irmã foi arrancada. É disso que eu falo quando digo "a coisa antiga". É a última raiz. — A mão dele baixou. — E foi em volta dela que Ela construiu tudo.
*
Eu fiquei parado, juntando, e enquanto eu juntava uma outra coisa subia em mim — não do raciocínio, de mais fundo, de antes de eu morrer.
Porque eu já tinha ouvido aquilo. Não neste mundo.
Uma árvore com raízes em todos os mundos. Uma árvore que segura tudo no lugar. Lá de onde eu vim, antes do chão de masmorra e do nome que eu não lembro, isso tinha nome, e o nome veio sozinho à minha boca-sem-boca como vêm as coisas que a gente decorou criança sem querer decorar. Eu sabia disso de revista velha, de desenho de manhã de domingo, de história que se conta pra fazer menino dormir e não pra explicar o mundo, porque no meu mundo o mundo já tinha sido explicado por outras coisas e aquilo tinha virado só um conto bonito, velho como os deuses, mais velho que eles talvez. A Árvore do Mundo. O freixo de onde tudo pende.
Yggdrasil, eu pensei. E não joguei na cabeça de ninguém, porque ninguém ali ia reconhecer a palavra. Era minha. Vinha do mesmo lugar de onde veio a runa que mora em mim — a Jera, dada por um deus de um olho só que se enforcou na própria árvore pra roubar o segredo dos riscos que eu leio sem esforço. O mesmo conjunto de histórias. A mesma cara. Eu tinha caído num mundo de fantasia genérica e descoberto, degrau por degrau, que por baixo da fantasia genérica tinha a minha, a do meu canto de mundo, esperando — a árvore, o deus caolho, as runas, e agora a raiz arrancada no fundo de um poço. Não era coincidência. Eu não acredito mais em coincidência desde que acordei sem pele. Mas era cedo demais pra saber o que era, então eu guardei. Junto com as outras coisas que eu guardo pra quando forem importantes.
— Osso? — A Freala estava me olhando. — Você ficou quieto de um jeito esquisito.
— Tava só conferindo uma coisa minha — eu disse. — Não é pra agora. Continua, Görö.
*
— A raiz é a fonte — disse o velho, e agora ele falava devagar, juntando as peças pra mim do jeito que eu junto pros outros. — Tudo que vocês viram de estranho nesse buraco vem dela. Por que só os cupins cresceram, num lugar onde meia dúzia de povos definha? Não é que eles são fortes. É que eles têm a raiz. Bebem o que escorre dela, e o que escorre dela ergue um bicho acima do que ele nasceu pra ser. — Ele apontou o cachimbo pra cima, pro alto da galeria, pra além dele. — Mas a raiz é uma só, e é funda. Lá no alto, perto do vale aberto ao céu, sobra uma ponta dela — fina, quase seca, agarrada na pedra. É lá que os servos sobem roubar um gole, quando podem, e voltam um dedo maiores. Mas o grosso dela está no fundo. No coração. Onde Ela está. — A mão trêmula dele se aquietou. — Ela não rouba gole. Ela mora na fonte. Bebeu até deixar de ser cupim, e fez do corpo dela uma jaula em volta da raiz, pra que mais ninguém beba sem a licença d'Ela.
— E as guardiãs — eu disse. — As elites falaram de guardiãs. Quem guarda uma raiz dessas?
— Guardava — corrigiu o velho, e a palavra caiu pesada. — Tinha uma. Das senhoras da floresta, das de casca e folha, mais velha que a minha linhagem inteira. Era ela que cuidava da raiz, que escondia a ponta de cima pra que o céu não a achasse, que deixava os povos pequenos beberem um gole nos tempos ruins, quando dava — o meu povo entre eles. — O olho bom escureceu. — Ela a prendeu. Caçou a senhora da floresta com tudo o que tinha, arrastou ela pro fundo, pra perto da raiz, e a trancou lá. Agora a guardiã guarda a raiz de dentro de uma jaula, contra a vontade, e a árvore sangra só pra encher uma rainha. — Ele me olhou. — Você queria saber por que esse buraco é do jeito que é. É por isso. Uma raiz no fundo. Uma guardiã na jaula. E a água que o meu povo carrega pra que nada disso pare.
*
A Freala soltou o ar devagar.
— A pergunta do templo — ela disse, mais pra si do que pra nós. — Lembra, osso? Você leu em voz alta. Por que só os cupins evoluíram além do molde. E embaixo, num canto: algo aqui os alimenta. — Ela olhou pra mim. — Eles escreveram a pergunta e foram embora sem a resposta. A resposta tava três andares abaixo dos pés deles o tempo todo.
— Os donos do templo não sabem da raiz — eu disse, e era mais dedução que afirmação, mas saiu firme. — Eles vêm de cima, usam o vale, anotam tudo, e não acharam a única coisa que explica tudo. Porque a guardiã escondeu bem demais, e porque depois Ela trancou a fonte no fundo do próprio corpo. — Eu pensei na anotação, na letra cuidadosa de quem cataloga o que não entende. — Eles estão estudando o sintoma. A doença tá embaixo deles, e eles passam por cima toda estação sem ver.
— Bom — disse o Gobe, e havia uma sombra na voz dele que eu não ouvia desde o vinho do templo. — Que continuem sem ver. Uma raiz da Árvore da Vida sangrando num buraco sem dono é o tipo de coisa que faz reino largar a própria guerra e vir correndo. Se o mundo lá fora soubesse o que tem aqui embaixo, osso, não viria a Conna com um machado. Viriam exércitos. — Ele recolheu o saco de raiz, devagar. — Tem segredo que mata mais gente sabido do que escondido.
Eu guardei aquilo também. Tinha buracos na história — coisas que nem o velho alcançava, dobras na história grande que ficavam fora do alcance de quem só conhece o tamanho da calha. Mas o desenho central estava ali, e o desenho central era feio do jeito certo, e completo do jeito que eu precisava: uma raiz, uma guardiã presa, uma rainha que tomou as duas. E, por baixo dele, escondido onde só eu via, o meu próprio desenho começando a aparecer — a árvore, o deus de um olho, os riscos que eu leio. Pra depois.
*
O mapa do velho nos levou por dois sonos de ramais que cheiravam cada vez menos a lodo e cada vez mais a uma coisa que eu não consegui nomear até a gente chegar.
Doce. Limpo. Vivo, mas vivo de um jeito calmo, sem aquela fome que eu tinha aprendido a associar a tudo aqui embaixo. E luz — luz onde não devia ter luz nenhuma.
A galeria se abriu numa câmara grande, e a câmara estava acesa.
Não de fogo. De vida. Cogumelos azuis subiam pelas paredes em escadas e terraços, do tamanho de árvores os maiores, e cada um soltava um brilho suave, azul-prateado, que se somava ao do vizinho até a câmara inteira estar banhada numa luz de luar que não vinha de lua nenhuma. Entre os azuis havia outros — uns que pulsavam devagar, como se respirassem; uns que largavam fios finos de luz que subiam e se desfaziam; tapetes de coisa miúda e brilhante cobrindo o chão como um céu estrelado posto de cabeça pra baixo. Tinha cheiro de terra molhada e de coisa crescendo. Tinha silêncio — um silêncio cheio, redondo, do tipo que a gente sente nos ouvidos.
E aí o silêncio falou dentro da minha cabeça.
Não em palavras. Em sensação — um cócegas, um múrmurio, muitas vozes pequenas e gentis tateando a borda da minha mente ao mesmo tempo, curiosas, sem medo. Eu levei um instante pra entender que era saudação.
E então eles saíram de entre os cogumelos pra nos receber, e eu vi o que eram.
*
Eram fungos de pé. Gente-cogumelo. Os menores na altura de uma criança; os maiores, mais altos que um homem. O que parecia um chapéu era a cabeça deles — uma cúpula larga e inclinada coroando o corpo, marrom por cima, de lamelas pálidas por baixo. Logo abaixo da cúpula saíam dois braços; do tronco roliço, embaixo, partiam duas pernas curtas e grossas. Tudo neles era macio, sem osso aparente, de um cinza-bege de cogumelo fresco: as mãos fechavam em dois dedos e um polegar, e os pés se abriam num punhado de dedinhos quase inúteis, mais enfeite que apoio. E não havia regra fixa — um tinha um braço a mais brotando do flanco, outro o corpo de um feitio diferente, como se a mesma criatura tivesse sido escrita de vários jeitos e nenhum estivesse errado. Sob as cúpulas, onde seria um rosto, os maiores tinham dois olhos pequenos e sonolentos, de uma calma que eu nunca tinha visto em nada vivo no Fosso.
Um deles, dos grandes, segurava pela mão um dos pequenos, e o pequeno se escondia meio atrás da perna dele pra me olhar, e tornava a esconder, e tornava a olhar.
— Murmurantes — disse o Quagô, e pela primeira vez em sonos a voz dele estava leve. — Os fungos que pensam. Eu não sabia que ainda existia um lugar desses. — Ele olhou em volta como criança. — Eles falam pelo ar, por pó. Você sente a conversa na cabeça e o lugar fica calado. Daí o nome.
— Em todo esse buraco horrível — disse a Freala, girando devagar, a luz azul no rosto, o cansaço sumido um instante —, tem isto aqui.
— É — eu disse. E era. Eu, que não me encanto com quase nada, fiquei parado olhando uma câmara cheia de luz que pessoas-fungo acenderam só de existir, e por um instante o Fosso não pareceu uma garganta tentando me engolir. Pareceu um lugar onde valia a pena uma coisa boa ter sobrado.
*
Os Murmurantes nos guiaram — não com mãos, com o múrmurio, abrindo na minha cabeça a sensação de "por aqui", "este caminho", "siga". E enquanto a gente atravessava, eu fui entendendo que a câmara não era só bonita. Era trabalho.
Os campos de azul não eram selvagens. Eram plantados, em fileiras, cuidados. O Gobe parou diante de uma das fileiras, agachou-se, e cutucou um chapéu azul com o dedo, do jeito de quem já vendeu de tudo e reconhece mercadoria.
— Esses eu conheço — ele disse. — São os mesmos que a colmeia cria lá em cima, nas câmaras de cultivo. A comida deles. — Ele olhou em volta, e a ficha caiu. — Não é mato, osso. É lavoura. E se é lavoura da colmeia, então esses bichos gentis aqui não são donos do lugar. São os lavradores. — Ele se levantou, limpando o dedo na roupa. — A colmeia deixa eles vivos porque eles fazem a comida crescer. Eu já vi esse arranjo em cima da terra. Tem nome feio.
O múrmurio na minha cabeça mudou então — o morno ficou mais baixo, mais triste, e me puxou de leve pra um canto da câmara onde a luz era mais fraca. Lá os campos não brilhavam quase nada. Os cogumelos estavam pálidos, ralos, alguns caídos. E no meio deles, sozinho, havia um Murmurante diferente de todos os outros.
Esse era dos altos e esguios, e não era cinza nem marrom. Era pálido, quase translúcido, e por dentro dele corria uma luz — verde, viva, vazada em manchas que pingavam dos braços compridos e da cúpula como gotas que não caíam. Onde a luz dele tocava, os cogumelos do chão despertavam: soltavam uma poeira fina, dourada, que subia, se espalhava e descia sobre os campos vizinhos, e onde a poeira caía, brotava cogumelo novo.
*
— Tá vendo aquilo? — disse o Gobe, parando ao meu lado. — O brilho dele acordando o canteiro. — Ele estreitou os olhos. — Eu sempre achei que era coisa de bicho. Vaga-lume faz, peixe do fundo faz, cogumelo faz. Luz que o corpo solta sozinho, sem querer dizer nada.
— Não é sem querer — disse a Freala, devagar, e ela tinha aquela ruga entre as sobrancelhas de quem está vendo uma coisa não bater. — Olha o ritmo. Vaga-lume pisca à toa. Isso aí tem... compasso. Ele acende onde o campo está fraco e segura onde já brotou. Bicho não escolhe. — Ela olhou pra mim. — Osso. Aquilo é vontade. Aquilo é dirigido.
E aí eu olhei de verdade. Não pra luz — pro que fazia a luz. E vi.
O que o Aceso largava no ar antes do brilho não era só pó. Eram riscos. As mesmas linhas limpas e abertas que eu via a Freala desenhar quando ela acendia uma chama, que o Gobe desenhava quando tomava o ar — riscos de conjuração, traçados não com a mão, mas com o corpo todo daquele bicho, com o pulsar da carne pálida dele. Ele não brilhava. Ele conjurava o brilho. Aquilo era magia, magia de Luz, simples, a coisa mais básica que esse caminho faz — acender — só que feita por um cogumelo que nasceu sabendo, do mesmo jeito que nasceu sabendo crescer.
— É feitiço — eu disse. — Vocês dois estão certos e errados. É luz de bicho e é magia, a mesma coisa nas duas mãos. Ele lança Luz como a Freala lança Fogo. E a luz dele é o que faz o campo soltar semente. — Eu olhei pros canteiros pálidos em volta dele, e pro brilho sozinho no meio do escuro. — É pra isso que ele serve. É o que faz a comida se espalhar.
*
O múrmurio confirmou, triste, e me contou o resto sem palavras, do jeito deles: imagens, sensações, uma história inteira despejada de uma vez na minha cabeça como pó na água.
Antes havia muitos como ele. Acesos espalhados pela câmara toda, poeira dourada subindo de toda parte, comida de sobra — e, com a comida de sobra, Murmurantes novos brotando, geração após geração, a câmara cheia de gente-cogumelo de todo tamanho. E aí a colmeia percebeu. Não que sobrava comida — que os fungos se multiplicavam. E uma coisa que se multiplica deixa de ser gado e começa a virar povo, e povo a colmeia não quer embaixo dela mais do que o estritamente necessário. Então eles vieram, e levaram os que acendiam. Um por um, geração por geração, levaram os Acesos — porque o brilho deles era a chave da reprodução, e tirar a chave era mais limpo que tirar a vida. Até sobrar este. Um só, pra um campo inteiro. Comida que mal dá. Murmurante novo que quase não brota. Uma fazenda mantida no fio entre alimentar a colmeia e nunca, jamais, crescer.
O mesmo gesto. O mesmo gesto que eu tinha visto nos coaxantes de cabeça baixa nas calhas, nos guias de água que não sabem que o mundo é maior que a calha. O mesmo gesto em todo canto deste buraco: não tirar de um povo a vida, mas a capacidade de virar mais. Deixar vivo o que serve. Cortar o que faz crescer.
Eu fiquei com raiva. É uma coisa engraçada de se sentir, raiva, quando não se tem mais vísceras pra apertar nem sangue pra esquentar. Mas eu senti, do meu jeito de osso, frio e fundo.
*
— Dá pra ajudar — eu disse.
A Freala me olhou.
— Como?
— Ele lança um feitiço de Luz, e eu vi o feitiço. — Eu já estava agachado ao lado do Aceso, decorando os riscos que ele largava no ar, a forma simples, o acender. — É a coisa mais básica que o caminho da Luz faz. Uma luz mansa, segurada. Ele faz pequeno, porque é um corpo só, e um corpo só cansa, e tem campo demais pra um brilho só. — Eu me levantei. — Eu não canso.
— Osso. — A Freala ficou cuidadosa. — Luz. Você sabe o que ela faz com o que você é.
— Sei. — Luz cura o vivo e queima o morto, do mesmo jeito que o breu drena o vivo e me alimenta. Não precisei estudar magia em escola nenhuma pra saber disso; é o tipo de coisa que um morto que anda aprende sem querer, do jeito que a gente aprende que fogo queima. — Mas saber que a luz me machuca quando me acerta é uma coisa. Eu não vou levar luz. Vou fazer luz. — Dei de ombros. — São coisas diferentes. Um ferreiro não tem medo da espada que ele forja. Só de quem aponta ela pra ele.
— É incomum — disse o Gobe, e havia um respeito esquisito na voz dele. — Morto-vivo que tece Luz. Não é proibido. É só... eu nunca vi. A maioria foge desse caminho como foge de água benta.
— A maioria não tem o que eu tenho de mana pra gastar à toa numa coisa que não mata ninguém. — Eu olhei o Aceso, sozinho no meio do que não dava conta de acender. — Eu tenho um ponto guardado faz tempo. Vim segurando ele, esperando a porta certa, a coisa esperta de fazer com ele. — Um riso meu, seco, sem boca. — E acontece que a coisa esperta de fazer com ele é a menos esperta de todas. É só ser gentil.
A Freala me olhou por um tempo longo. Depois fez uma coisa que ela quase nunca faz: não argumentou.
— Tá — ela disse, baixinho. — Acende, então.
*
Eu empurrei o ponto.
[Caminho da Magia: Luz — Focus 0 → 1.]
E o caminho abriu dentro de mim sem dor nenhuma — só uma estranheza, uma porta nova num corredor que eu já conhecia todo, dando pra um cômodo que eu nunca tinha entrado. A Luz me respondeu na hora, dócil, como se não soubesse com quem estava lidando, ou como se não ligasse. Não era inimiga de dentro. Era só mais um caminho, esperando ser andado, igual aos outros.
Eu peguei os riscos que tinha lido no Aceso e os desenhei sem desenhar, do meu jeito. Não a flecha de luz que fere, não o feixe que cega — a coisa antes de tudo isso, o acender e nada mais, a primeira palavra do caminho.
[Magia adquirida: 《Aurora》.]
Saiu branca.
Não verde — o verde era dele, do cogumelo, da natureza dele. A minha saiu branca como sol de meio-dia, uma cor que aquele buraco nunca tinha visto e nenhum daqueles bichos nascidos no breu tinha visto na vida, e ela subiu de mim e desabou sobre os campos pálidos como um amanhecer onde nunca houve manhã. Os cogumelos se ergueram. A poeira dourada subiu — não de um ponto, de toda parte, de cada fileira ao mesmo tempo, um nevoeiro de luz e semente enchendo o ar.
E eu não parei. Porque eu não canso, e porque a câmara era grande, e porque tinha campo escuro ainda pra acender — então eu continuei despejando, mais mana, mais luz, segurando a 《Aurora》 aberta muito além do que um corpo vivo poderia. E foi quando eu derramei demais que a luz mudou.
Ela começou a se partir em cores. O branco do sol abriu nas bordas como abre a luz num pingo d'água — um verde que não era o do Aceso, um roxo, um rosa frio, um azul que escorria pro dourado e voltava —, faixas inteiras de cor que ondulavam pelo teto da câmara como cortinas tomadas por um vento que não existe ali embaixo. Não era mais uma lamparina. Era um céu. Um céu de cor em movimento, derramado sobre uma caverna que nunca tivera céu, refletido nos olhos de centenas de criaturas que nunca tinham visto um.
*
O Gobe largou o saco de raiz pela segunda vez no dia. E dessa vez não o recolheu.
— Eu já vi isso — ele disse, e a voz dele estava rouca, e o gnomo que ri de tudo não estava rindo. — Uma vez. No norte de tudo, em Skarfun, nas terras de gelo onde o sol some por meses e o frio racha pedra. Lá o céu faz isso à noite. Cortinas de cor que dançam sem vento, verde e roxo e prata, e os homens do norte param o que estão fazendo e olham pra cima, porque dizem que é o teto do mundo deixando a luz vazar por uma fresta. — Ele olhou pra mim, e depois pra cima, pras cores ondulando. — Eu atravessei meio mundo e vi muita coisa, osso. Vi pouca igual a essa. E nunca, nunca embaixo da terra.
A Freala não disse nada. Ela tinha levado a mão à boca, e os olhos dela brilhavam — não da luz, ou não só. Ela é a que controla, a que pesa, a que tem uma resposta fria pra cada coisa grande demais; e ali, parada na cor que escorria de mim sobre os campos, ela não estava controlando nada. Uma lágrima desceu, pegou a luz, e por um instante brilhou colorida no rosto dela antes de cair.
— Eu achei que nunca mais ia ver o céu — ela disse, num fiapo. — A gente desceu faz tanto tempo. Eu tinha feito as pazes com isso. Com morrer aqui sem ver o céu de novo. — Ela me olhou. — E você trouxe um. Pra baixo. Pra dentro do chão.
Eu não soube o que responder, então deixei a luz responder por mim, e segurei ela aberta mais um tempo do que precisava, só pra que eles tivessem mais um tempo de céu.
*
E os campos responderam. Em volta de nós, sob as cortinas de cor, a câmara inteira floresceu de uma vez. A poeira dourada não subia mais em fios — subia em nuvem, de cada canteiro ao mesmo tempo, e descia, e onde descia brotava, e o brotar era tão rápido que dava pra ver, cogumelos novos abrindo o chapéu no meio do campo como quem acorda. O múrmurio na minha cabeça explodiu — não em tristeza agora. Em algo grande demais pra eu ter nome, muitas vozes pequenas de uma vez, e por baixo de todas, a do Aceso, que pela primeira vez na existência dele não estava acendendo sozinho.
E os Murmurantes — os marrons baixinhos, os grandes de olhos sonolentos, os pequenos que se escondiam atrás das pernas — vieram pro meio da câmara, e ergueram as cúpulas pro céu falso que eu tinha feito pra eles, e ficaram assim, parados, a luz colorida escorrendo sobre as cabeças de cogumelo, e o pequeno que tinha se escondido de mim soltou a mão do grande e abriu os dois bracinhos pro alto, como se quisesse pegar a cor com as mãos de dois dedos.
— Tô olhando — eu disse, antes de a Freala pedir, porque eu sabia que ela ia pedir. E estava. E era a coisa mais bonita que eu tinha feito desde que morri, e eu não tinha matado nada pra fazer ela, e isso — eu descobri ali parado no céu que eu tinha acendido pra gente que nunca ia poder me agradecer direito — isso valia mais do que dez níveis num largo cheio de casca seca.
*
A gratidão dos Murmurantes não veio em palavras, mas eu a senti — uma onda morna, e dentro dela, oferecida, a sensação de "passem", de "este lugar é de vocês também agora", de um caminho se abrindo na minha cabeça pra atravessar a fazenda em segurança até o outro lado, pra onde a gente precisava ir.
— Eles vão guiar a gente — eu disse, deixando a 《Aurora》 enfim baixar, a cor se recolhendo devagar até o azul-prateado de sempre voltar a ser a única luz. — Pelo lado seguro. Longe do ar ruim. — Eu olhei pra Freala. — A gente atravessa a fazenda, sai do outro lado, e dali o mapa do velho leva pra subida do mar. — Não falei o resto em voz alta: que pra chegar lá a gente ia passar perto demais do ar que mata sem tocar e dos grandes que fazem o teto chover. Uma coisa de cada vez. Hoje a gente tinha tido um céu.
A gente seguiu o múrmurio por entre os campos reacesos, e por um trecho longo foi quase paz. O Gobe ia mastigando raiz e reclamando do gosto e olhando pra trás, pras cortinas de cor que ainda demoravam a se apagar. O Quagô ia com a cabeça erguida pela primeira vez em sonos, andando num lugar onde ninguém estava de joelhos. A Freala ia ao meu lado, calada, e a cada tanto eu a via olhar pra cima — pra cima e além, pra um mar que ela não via fazia tempo e onde, talvez, gente que ela achou morta estivesse viva.
E foi quando o chão estremeceu.
*
A primeira vez foi leve. Um tremor, do tipo que faz o pó cair do teto em fios finos. O múrmurio na minha cabeça mudou na hora — o morno virou um zumbido apertado de muitas vozes assustadas de uma vez.
— Ô — disse o Gobe, parando de mastigar. — Isso foi—
A segunda vez não foi leve.
O chão pulou. Lá no alto, longe da fazenda, do lado da câmara onde o ar começava a cheirar errado — o cheiro do ar ruim, o que mata sem tocar —, a parede da galeria inchou pra dentro como se algo do outro lado a empurrasse, e depois não empurrou: rompeu. A pedra se abriu num estrondo que me fez perder o equilíbrio, e da abertura saiu uma mandíbula maior do que a porta de um castelo, e atrás da mandíbula um corpo couraçado que não terminava, que continuava saindo da rocha e continuava e continuava, segmento após segmento, grande como uma rua, grande como uma coisa que não devia caber num lugar e cabia.
E não era um. Atrás dele, a parede inchava de novo, num segundo ponto. Dois.
Os grandes. Os que cavam.
Eles não vieram pra fazenda. Eu vi — vi a primeira mandíbula virar, no meio do estrondo, e desviar dos campos azuis, contornar os cultivos com um cuidado obsceno numa coisa daquele tamanho. Não tocaram um cogumelo dos plantados. Não tocaram a comida. Foram direto, os dois, com a precisão fria de quem recebeu ordem, pro outro lado da câmara — pras moradias dos Murmurantes, as torres de fungo seco onde os baixinhos de olhos sonolentos vivem, e passaram por cima delas como se fossem nada, e elas viraram nada, pó e cogumelo partido e múrmurio se apagando aos gritos dentro da minha cabeça.
Pouparam a plantação. Esmagaram o povo.
Claro. Claro que sim. A comida é d'Ela. O povo é só o que faz a comida, e o que faz a comida pode sempre brotar de novo, contanto que não brote demais. Era o mesmo gesto. O mesmo gesto que as calhas, o mesmo gesto que levar os Acesos um por um, o mesmo gesto que segura o chicote nesse buraco desde antes de a mão ter dona — só que agora feito com duas coisas do tamanho de ruas, do lado de uma fazenda que eu tinha acabado, faz um instante, de encher de céu.
Eu senti a raiva voltar, fria e funda, e dessa vez ela não veio sozinha. Veio com uma dívida.
A espada de adamante já estava na minha mão. Eu nem lembro de ter sacado.
— Osso — disse a Freala, baixo, recuando, a mão dela já se enchendo do ar que a raiz tinha devolvido. — Aquilo é dois. Aquilo é maior que tudo que a gente já—
— Eu sei o que é — eu disse, e a minha voz na cabeça deles saiu de um jeito que eu não reconheci, um jeito que não tinha piada nenhuma dentro.
A primeira mandíbula terminou de moer a última torre e começou a virar. Devagar. Na nossa direção. E atrás dela, a segunda, levantando do chão uma chuva de teto, virou junto.
Dois pesos enormes, entre a gente e o caminho que subia pro mar, em cima do único lugar bonito que esse buraco ainda tinha.
— Então — eu disse, e firmei os pés na luz azul que tinha sobrado da minha — vamos descobrir do que eles são feitos.