Capítulo 18 — Quando o Teto Chove
Freala — A Maga que Queria Mais
Eu sempre soube exatamente o tamanho que eu tinha.
Maga do Ar, terceiro grau. Um pouco de Água, um dedo de Fogo, um truque de Gelo pra quando o inverno ajuda. É um currículo honesto. Dá pra atravessar um reino com ele, ganhar a vida numa caravana, sobreviver a uma masmorra rasa se o grupo for bom. Não dá pra mais que isso, e eu tinha feito as pazes com não ser mais que isso muito antes de descer neste buraco. Gente que não faz as pazes com o próprio tamanho morre cedo, querendo ser o que não é na hora errada.
E aí os dois grandes terminaram de virar, e eu descobri que tinha mentido pra mim a vida inteira.
Porque a primeira coisa que eu senti quando aquelas duas mandíbulas do tamanho de portões apontaram pra gente não foi medo. Foi vontade. Uma vontade burra, infantil, gritada por cada osso meu de uma vez: eu queria ser maior. Maior que o meu grau, maior que o meu medo, maior que aquela coisa. Pela primeira vez em anos a maga comum dentro de mim levantou a cabeça e disse que comum não ia bastar, não aqui, não hoje.
— Recuem da boca do túnel. — A voz do osso entrou na minha cabeça rápida, seca, sem nenhuma daquelas piadas que ele usa pra fingir que não está com pressa. — O ar lá em cima mata sem tocar. Fiquem na luz, fiquem juntos, segurem o que vier por baixo. Os dois grandes são meus. Eu vou—
E aí Ela falou, e eu nunca mais quis ser maior na vida.
Não veio dos túneis. Veio das bocas deles. Os dois Colossais abriram as mandíbulas ao mesmo tempo, e do fundo daquilo, de onde devia sair só fome, saiu uma voz — uma voz de mulher, enorme, calma, antiga, que não cabia naquelas gargantas e cabia, que encheu a câmara e encheu a minha cabeça e empurrou pra fora tudo o que já estava lá. Eu senti o múrmurio dos Murmurantes apagar. Senti o fio do osso na minha mente — aquele cordão morno que eu carrego desde o dia em que a gente se conheceu, na porta de um laboratório com gárgula quebrada no chão — e senti aquele fio afogar, sumir debaixo da voz Dela como uma vela debaixo de uma onda.
— Eu sou Trichonymphea — disse a voz, e o nome bateu na pedra e voltou de todo lado, e por um instante não havia mais nada no mundo além do nome Dela. — Vocês tocaram o que é meu. Acenderam o que eu apaguei. Esconderam a coisa de osso que a morte cuspiu de volta. — As duas cabeças baixaram juntas, na mesma batida, bonecas da mesma mão. — Eu lembro de cada um que ajudou. O sapo de cabeça baixa. O velho da água. Os cogumelos que vocês fizeram brilhar. Eu vou cobrar de todos. Comecem a entender isso agora, enquanto ainda há tempo de me implorar.
A ameaça devia ter me feito correr. Fez o contrário. Porque eu pensei no Görö e no cachimbo trêmulo, no Quagô andando de cabeça erguida pela primeira vez, no pequeno de dois dedos abrindo os bracinhos pro céu que o osso tinha acendido — e entendi que correr não salvava nenhum deles. Ela ia cobrar de qualquer jeito. A única coisa que tirava a conta da mão Dela era a gente não perder aqui.
E o fio do osso não voltou. Eu olhei pro lado e ele já não estava — já corria pra cima, pro escuro do ar ruim, pequeno e branco-osso entre as duas montanhas que cavam, e eu não conseguia mais alcançá-lo na cabeça, e ele não podia me alcançar com voz nenhuma porque voz ele não tem. A gente ia lutar surdo um pro outro. Cada um sozinho na própria caveira.
Antes de ir, ele tinha deixado uma coisa. Eu só reparei quando a maré dourada despencou da boca do túnel atrás dos Colossais — soldados, operários, guardiões, alados, todas as castas de baixo de uma vez, a colmeia inteira vomitada na câmara — e bateu numa sombra. Ele tinha jogado um lençol de breu sobre a entrada antes de subir. A 《Mortalha》. Os primeiros que cruzaram aquilo chegaram do outro lado moles — patas pesadas, casca bamba, a fúria toda lá mas o corpo sem combustível pra ela. Ele não podia falar comigo, mas tinha dito, do jeito dele: aqui, isto vai facilitar, agora é com você.
Tudo bem. Era comigo.
O primeiro soldado que veio na minha direção veio pela Mortalha, então veio devagar. Eu não desperdicei o Rugido nele — o Rugido é caro, e a noite ia ser longa. Tracei a 《Lança de Fogo》 e a enfiei na dobra do pescoço, onde a casca afina. A quitina amolecida pela Mortalha cedeu como cera, e a lança entrou fundo. Ele caiu de lado e parou de ser problema.
E foi aí que os meus sentidos viraram contra mim. O calor subindo de uma câmara cheia de fogo e bicho. O suor escorrendo no olho na pior hora. O ar ficando rarefeito e doce na beira do gás, a cabeça começando a rodar. A minha pele sentia cada grau, cada fio de fumaça de quitina queimada me embrulhando o estômago — e eu senti as minhas próprias mãos tremerem quando a garra de um soldado passou raspando e abriu a minha manga e o braço debaixo dela.
Doeu. Doeu de um jeito honesto, vermelho, e eu gritei — alto, de boca aberta — e o grito se perdeu no estrondo sem ninguém pra ouvir.
Eu recuei dois passos, tateei a bolsa com a mão boa, achei o frasco de cura e bebi rápido demais, engasgando. O fungo do velho desce amargo e fecha a ferida devagar, devagar demais, e eu tive que me defender com o braço meio cego enquanto a carne se costurava. E aí a maré veio — não um soldado, uma dúzia, subindo pela boca do túnel, a maioria já passada pela Mortalha do osso: casca bamba, fúria inteira. Dessa vez eu não tinha tempo de ser econômica, e não tinha por quê.
Então eu fiz a coisa que eu sempre achei que não era pra mim.
Eu soltei o 《Rugido da Tempestade》.
Não como no largo, em pânico, rezando pra forma segurar. Dessa vez eu quis. Puxei o ar de toda a câmara — da beira do gás, do alto, do chão — e despejei numa parede de vento, reta na maré dourada. O Rugido bateu neles como um muro caindo, e a casca que a Mortalha tinha amolecido não aguentou: cascas partiram, corpos voaram, e os que não voaram afundaram quebrados onde estavam. Não um. Vários, de uma vez. E não doeu lançar. Não custou medo. O vento me escutou na primeira vez que pedi, como se finalmente tivesse decidido que eu valia a conversa.
Eu fiquei ali um segundo, ofegando, o braço ardendo, o coração batendo na garganta — toda a minha pequenez humana berrando que eu ia morrer — e por cima dela, mais alta, uma certeza nova e perigosa: eu posso ser mais que isto. Não comum. Nunca mais comum.
Foi o último pensamento meu que foi só meu.
Porque lá em cima, na beira do ar que mata, alguma coisa ficou branca. Branca como nada naquele buraco tinha o direito de ser. E o branco virou uma luz que doía de olhar, e a luz inchou, e eu tive tempo exato de pensar osso, o que foi que você—
— antes de o calor chegar. Não a luz: o calor, uma parede dele, varrendo a câmara num sopro só, batendo na minha pele como a porta de um forno escancarada no rosto. Eu fechei os olhos com força, do jeito que a gente fecha quando sabe que vai doer—
Gobe — A Carta na Manga
Tem uma coisa que eu nunca contei pro osso, e que eu não pretendia contar nunca.
Eu não sou um vigarista que sabe um truque de vento.
Eu fui muita coisa antes da garrafa. Lugares que eu não digo o nome, mesas onde eu sentei, magia que eu vi e aprendi e usei, e depois resolvi esquecer, porque saber demais é igual a dever demais — toda coisa que você sabe fazer alguém um dia vem cobrar que você faça. Eu desci pra dentro daquela garrafa mágica de gnomo justamente por isso. Lá dentro o tempo não corre, a fome não aperta, e ninguém vem cobrar nada de quem não está em lugar nenhum. Eu ia ficar lá pra sempre, fora do mundo e fora das dívidas, e foi um esqueleto idiota que me tirou de novo pro frio.
Eu devia odiar ele por isso. O engraçado é que não odeio.
Porque desde que esse osso me destampou, pela primeira vez em muito tempo eu acordei querendo dever de novo. Querendo dever pra Freala, que me carregou quando o grupo rachou. Querendo dever pro sapo, que divide o peixe sem contar os pedaços. Querendo dever pro próprio osso, que entrou num templo pra me deixar pegar uma garrafa de vinho e não fez piada — quase não fez piada — do quanto aquilo importava pra mim. Eu passei a vida fugindo de dívida. E aí, velho demais e sóbrio demais, eu descobri que dívida com gente certa não é corrente. É raiz. É a única coisa que prende a gente no mundo dos vivos quando o mundo dos vivos para de fazer sentido.
Então quando a voz Dela encheu a câmara e prometeu cobrar de todo mundo que tinha ajudado — eu, que fujo de cobrança desde que me conheço, sorri. Sorri com a boca toda. Porque finalmente tinha uma conta que eu queria pagar, e Ela tinha acabado de me dar licença pra pagar ela inteira de uma vez.
Eu vi a maré dourada bater na Freala. Vi o braço dela abrir. Vi o osso sumir pro alto. E vi, do lado de cá da câmara, longe da Mortalha, uma segunda onda de bicho rolando reta pra cima de nós três, sem amolecer em sombra nenhuma — guardiões na frente, daqueles que são parede que anda, e atrás deles operário até onde a luz azul alcançava.
A Freala ia morrer. O sapo ia morrer. Não tinha Lança de Fogo nem chicote que segurasse aquilo.
Tinha uma coisa que segurava.
Eu tirei do bolso o último naco da raiz amarga do velho e enfiei na boca inteiro. Tem gosto de moeda velha fervida em vinagre, e eu sou o homem mais sem vergonha que esse buraco já viu, e mesmo assim quase devolvi. Mas eu mastiguei, e mastiguei, e senti a mana voltar pelo corpo numa onda rápida e tonta, mais do que o meu reservatóriozinho miserável jamais segura — porque o meu problema nunca foi saber a forma. Eu sei formas que fariam a Freala chorar de inveja. O meu problema sempre foi ter um dedal pra carregar o que pede um barril.
Hoje eu tinha um barril emprestado na boca. E doze segundos antes de ele secar.
Eu não desenhei nada no ar pra eles verem. Não tinha plateia pra impressionar e não tinha tempo de ser bonito. Eu só abri as duas mãos, virei as palmas pra maré dourada, e tracei — fundo, certo, do jeito que eu não traço na frente de ninguém há anos — a forma que eu jurei nunca mais usar.
O 《Sopro do Furacão》.
Não é o Rugido. O Rugido é um jato, uma linha, uma coisa que você aponta. O Sopro é um leque. É o que acontece quando você pega todo o ar de um lado do mundo e manda ele pro outro de uma vez, num cone que abre da minha mão até a parede do fundo. A câmara inteira virou vento. Os operários da retaguarda saíram voando como folha. Os guardiões da frente, pesados demais pra voar, ancoraram as garras no chão e escorregaram mesmo assim, raspando pra trás, a parede que anda virando a parede que recua. Eu abri um vão. Um corredor inteiro de chão limpo entre a gente e o bicho, varrido por um vento que não devia existir embaixo da terra.
Eu segurei longe do alto. Longe do osso, longe do ar doce e ruim da beira — porque até a minha cabeça boba sabe que vento e gás e fogo é receita de não sobrar gnomo pra contar. Soprei pro lado da gente, só pra abrir espaço, só pra dar à Freala e ao sapo um instante de não estarem cercados.
E então a raiz secou, e o barril emprestado se foi, e eu fui junto.
Não tem como explicar pra quem nunca esvaziou o último fio de mana num lance só. É como tossir os pulmões pra fora. O mundo perde a cor primeiro, depois o som, depois o peso. As minhas pernas sumiram debaixo de mim. Eu caí de joelhos no chão que eu tinha acabado de varrer, e a última coisa que eu pensei, com o pouco de mim que ainda pensava, foi que tinha valido — que pela primeira vez em uma vida inteira de fugir, eu tinha ficado, e gastado tudo, e ficado.
Eu vi, de muito longe, lá de dentro do escuro que vinha me buscar, uma luz acender no alto da câmara. Branca. Bonita. A coisa mais bonita, eu pensei, sem saber por quê.
E o escuro me levou no instante exato em que aquela luz começou a virar outra coisa — e dessa outra coisa, graças a todos os deuses em que eu nunca acreditei, eu não vi nada.
Quagô — O Rio de Dentro
O Coaxante sempre soube que podia aprender.
Isso o meu povo esqueceu, lá nas calhas, de cabeça baixa, raspando lodo e carregando balde pra que uma coisa enorme nunca tivesse sede — sem ninguém precisar vigiar, porque o medo já estava velho demais dentro deles, virou o jeito normal de andar. Mas o Coaxante não esqueceu. O Coaxante olhava os Soldados moverem a pedra e aprendia como a pedra se move. Olhava o peixe cego fugir da mão e aprendia onde a mão não devia estar. O Coaxante pegou mandíbula de inimigo morto e trançou um chicote, pegou meio casco e fez escudo, e aprendeu a brigar sozinho, no escuro, sem ninguém ensinar — porque aprender é a única coisa que ninguém consegue tirar de um povo, por mais argola que ponha no tornozelo dele.
Mas tem uma coisa que o Coaxante não sabia aprender sozinho. O Coaxante sabia as coisas de fora. A pedra, o peixe, o chicote, o casco. O de dentro — a coragem de ficar quando o certo é fugir — esse rio o Coaxante tinha represado tão fundo que tinha esquecido que existia. Toda a vida abaixando a cabeça represa o rio de dentro. E aí veio a coisa de osso, que não baixa a cabeça pra nada nem pra rainha nenhuma, e sem querer, só de existir do jeito que existe, abriu a comporta.
Quando a voz Dela disse que ia cobrar do velho da água, do povo das calhas, dos pequenos que brilham — o Coaxante sentiu o rio de dentro vir.
Ela achou que a ameaça ia fazer o sapo correr. Ela não conhece sapo. O sapo corre do que é maior que ele a vida inteira; é por isso que o sapo dura. Mas tem uma coisa que faz o sapo virar e cravar os pés, e essa coisa é alguém ameaçar a poça onde nasceram os girinos. O meu povo não estava ali. E era exatamente por não estar ali, por estar lá nas calhas onde a mão Dela alcança fácil, que o Coaxante não ia dar um passo pra trás. Cada bicho que eu segurasse aqui era um bicho a menos que descia pra cobrar do Görö.
A coisa de osso me viu medir a maré e entender que eu ia ficar. Antes de subir pro ar ruim, ele veio até mim — rápido, sem palavra, porque a voz Dela já tinha afogado a fala dele na minha cabeça — e pegou o meu chicote pela trança. Eu senti o frio dele subir pelo cordão de mandíbulas. Senti o breu entrar na arma, correr pelos segmentos como água preta enchendo um leito seco, e a trança ficou pesada de um peso que não era de peso, escura de um escuro que mordia.
Ele me olhou com os dois buracos onde tinha olho. Não disse nada. Não precisava. Dura pouco, dizia o jeito como ele largou a arma na minha mão e já se virava pra ir. Use enquanto morde.
E foi embora pro alto, pequeno e branco, e me deixou com um pedaço da magia dele na mão e uma vontade nova fincada no peito que eu não tinha antes de ele tocar a minha arma: o Coaxante quer aprender a fazer isto sozinho. Não pra sempre depender do toque do osso. Pra um dia o breu correr no meu chicote porque eu mandei, do meu jeito, do jeito do meu povo. Um dia. Hoje não. Hoje era o toque emprestado, e o toque emprestado ia ter que bastar.
Bastou.
O primeiro guardião que o vento do gnomo deixou escapar veio pesado, abaixado, a casca grossa que ri de lâmina comum. O Coaxante não bateu na casca. O Coaxante nunca bate na casca. Eu girei o chicote, deixei a ponta cantar no ar, e fiz a trança imbuída passar por dentro da guarda dele e estalar na junta do joelho, na dobra mole onde toda parede que anda esconde a fraqueza. O breu mordeu. Não cortou — o chicote nunca cortou nada — mas o breu bebeu. O guardião sentiu a perna esfriar, ficar pesada, atrasada, e a parede que anda começou a andar torto.
Foi o golpe mais forte que o Coaxante já deu na vida. Eu senti nas mãos. Não a força — eu não fiquei mais forte. O peso. A primeira vez que uma arma minha entregou mais do que o meu braço sozinho podia entregar. A primeira vez que o de fora e o de dentro bateram juntos na mesma pancada.
Veio outro. E outro. Eu apanhei — uma garra de operário me abriu o flanco, e o sangue do sapo é frio e escorre rápido, e eu tive que parar atrás do escudo de casco e procurar na bolsa, com os dedos escorregando, o frasco vermelho-esverdeado do velho, e bebê-lo de um trago amargo enquanto a perna tremia. Eu não sou de ferro. Nenhum de nós é. Mas eu levantei de novo, porque o rio de dentro, uma vez aberto, não sabe parar de correr.
E enquanto a comporta despejava, eu estalava o chicote, e a cada estalo eu pensava numa coisa só. Não nos bichos. No Görö. No cachimbo trêmulo, no olho cego e no olho que ainda enxerga, no velho que guia a água deste buraco desde antes de eu sair de girino e que ensinou o meu povo a abaixar a cabeça porque era o único jeito de durar. Eu pensei nele, e nas calhas cheias de costas curvadas, e estalei mais forte, e prometi pra cada bicho que caía: o Coaxante não vai abaixar a cabeça. Não hoje. E quando eu voltar pras calhas, velho, eu vou te ensinar a levantar a sua.
Foi nessa hora que o alto da câmara ficou branco.
Eu ergui a cabeça — erguida, do jeito que eu tinha jurado — e vi a luz crescer onde o osso tinha sumido, perto do ar que mata, e vi os dois grandes virados pra ela como mariposa pra fogueira, e tive tempo de um pensamento de sapo, rápido e besta: que claridade bonita pra um lugar tão fundo.
E o mundo abriu uma boca de luz, e o Coaxante, de cabeça erguida, olhou dentro dela—
Thasjo — O Flagelo do Fosso
Eu já tinha encarado coisas grandes. O Basilisco era grande. O Cavaleiro Alado era grande.
Essas coisas eram grandes do jeito que um inimigo é grande. Os Colossais eram grandes do jeito que um lugar é grande. Eu corri pra cima do primeiro com a espada de adamante — a lâmina que atravessa qualquer couraça, a minha carta de "eu resolvo isso" desde o templo — e enfiei ela até o cabo no flanco daquela coisa, e a couraça cedeu, e a lâmina entrou inteira, e não aconteceu nada.
Claro que não aconteceu nada. Eu tinha furado um prédio com um prego. A espada faz o vão em qualquer casca; ela só não tem como fazer vão suficiente numa casca que tem o tamanho de uma rua. Eu podia ficar ali o dia inteiro abrindo buraquinhos perfeitos numa coisa que tem buraco demais pra notar mais um. O adamante não tinha falhado. A escala é que tinha rido dele.
Tentei o que sobrava. Joguei a 《Bola de Fogo》 — a dívida velha do esgoto, a magia que eu cobrei de mim a saga inteira, a resposta pro "muitos de uma vez". Estourei ela em cheio na lateral da cabeça do bicho. O fogo lambeu a quitina, chamuscou, machucou até — eu vi o segmento encolher, vi a coisa estremecer com o impacto, a primeira reação que eu tinha arrancado dela. Mas estremecer não é morrer, e uma queimadura num couro daquele tamanho é um arranhão num boi. A Bola de Fogo, sozinha, contra aquilo, era um tapa.
Eu fiz o que sempre faço quando o corpo não basta. Fui pra cabeça deles.
Estiquei a fala pra dentro da mente do mais perto, do jeito que estiquei pro Pesa-Almas, pro Fanático, pro Curioso — procurando o "eu", a vaidade, a fé, qualquer coisa com que se conversa. E achei o quê? Fome. Só fome. Uma fome sem fundo e sem dono, larga como a coisa, e por baixo dela fúria, e por baixo da fúria mais nada — nenhum nome, nenhum "eu", nenhuma porta. Eu empurrei mais fundo, procurando alguém em casa.
E alguém atendeu. Só não era ele.
— Não há ninguém aí pra você seduzir, coisa de osso. — A voz Dela subiu pela garganta do Colossal como subiria por um cano. — Estes não perguntam como o Curioso, não rezam como a Boca, não pesam como o que você jogou contra si mesmo. Estes são os meus mais amados justamente porque não têm nada dentro além de mim. Eu os enchi sozinha. Eles são a minha mão grande. — A cabeça enorme se inclinou, e por um instante foi Ela me olhando por dentro daquela fome. — Você fala com qualquer mente. Que pena. Estes não têm nenhuma pra você roubar.
E aí eu soube que truque nenhum ia funcionar. Não tem como virar a vaidade de uma coisa que não tem vaidade. Não tem como acolher um indivíduo que nunca foi indivíduo. O que estava na minha frente não era um inimigo com um ponto fraco na cabeça. Era duas montanhas com a fome Dela dentro e a voz Dela na boca, e elas iam me moer e depois moer os meus, e não havia conversa nesse buraco que mudasse isso.
Então eu parei de procurar a conversa e comecei a procurar o terreno.
Eu sou rápido — Agilidade não falta —, mas rápido a pé não basta contra uma garra que varre meia câmara num gesto. A primeira quase me pegou; eu senti o vento dela passar onde a minha caixa torácica tinha estado meio segundo antes. Eu precisava ser rápido de um jeito que perna de esqueleto não dá sozinha. Então eu fiz a coisa mais idiota e mais útil que me ocorreu: virei a 《Labareda》 — o meu primeiro feitiço, o jato de fogo besta que não fura quitina nenhuma — pra baixo, pros pés.
O empurrão me jogou de lado num arranco que nenhum músculo meu poderia ter dado. Eu ri sem boca. Virei foguete, pensei, o canhão de vidro virou foguete, e disparei outro jato e saltei por cima de uma garra que vinha me partir ao meio, e mais um, ricocheteando pela câmara feito uma fagulha viva, longe — sempre longe — da beira onde o ar cheirava doce e errado, porque fogo nos pés e gás no ar é o tipo de piada que só se conta uma vez.
E enquanto eu ricocheteava, os bichinhos vinham. A maré de baixo subia pra me alcançar nos cantos, operário e soldado se metendo no meio da dança dos grandes, e eu ia cortando no caminho, sem pensar, do jeito que a gente respira — Flecha Negra aqui, espada ali, um soldado partido a cada salto, sem contar, porque quem conta perde o ritmo.
O sistema contou por mim.
[ Você matou +9.999 Isopterianos. ]
A linha apareceu seca, do nada, no meio de um salto, e eu quase perdi o jato de tão absurda. Nove mil e novecentos e noventa e nove. Não nessa câmara — na vida, na minha segunda vida inteira de matar casca dourada degrau por degrau desde os esgotos, e o medidor enfim batendo no teto como um conta-giros estourado. E embaixo dela, mais duas:
[ Título «Predador Paciente» evoluiu → «Flagelo do Fosso». ]
[ Bônus: dano aumentado contra criaturas do tipo Inseto. ]
Eu parei. No meio de tudo, por um batimento que eu não tinha pra gastar, eu parei.
Porque o «Predador Paciente» tinha morrido. O título que me fez quem eu fui esse tempo todo — o que mata em silêncio, o que não soa alarme, o que espera —, o sistema tinha enterrado ele e posto outro no lugar. Eu não era mais o predador paciente. Eu era o Flagelo do Fosso. E "flagelo" é uma palavra que a minha cabeça velha, a de antes de osso, conhecia bem. Flagelo é praga. Flagelo é a nuvem que desce no campo e não sobra espiga. Flagelo é o que você chama o dedetizador pra resolver.
E foi o dedetizador dentro de mim, o sujeito comum de uma vida comum que já xingou barata em cozinha apertada, que teve a ideia.
Porque é isso que você faz com praga. Você não cata uma por uma. Você não briga com cada bicho na razão. Praga em ninho fechado, você não enfrenta — você gaseia. Você fecha a sala, abre o gás, e toca fogo.
E eu estava de pé numa sala fechada cheia de gás.
O ar ruim. O metano que mata os vivos sem tocar e que pra mim, que não respiro, nunca passou de um cheiro errado. A beira da câmara onde a parede tinha rompido estava encharcada dele, invisível, paciente, esperando só uma fagulha que ninguém ali era burro o bastante pra acender perto.
Eu ia ser burro o bastante. De propósito.
Mas eu precisava dos dois grandes lá dentro. E coisa que não tem mente não se atrai com conversa, não se engana, não se provoca. Tinha que ser com uma coisa mais funda que mente. Eu olhei pros Colossais — bichos que nasceram cavando no breu absoluto, que nunca viram luz na existência inteira, cujo mundo é o preto total da pedra — e lembrei do que o Aceso me ensinou na fazenda, faz uma vida atrás, faz uma hora atrás: que luz, neste fundo, é a coisa mais estranha que existe. E o que é estranho pra uma fera cega não dá medo. Dá fúria. Dá aquela fome velha de morder o que não se entende.
Eu nunca tinha lançado a Luz pra fora. Só tinha acendido com ela, gentil, na fazenda. Mas o caminho estava aberto dentro de mim, e a forma mais simples de qualquer caminho é a flecha. Eu peguei o acender da 《Aurora》 e apertei ele, concentrei o que era manso até virar ponta, do mesmo jeito que se faz a Lança a partir da brasa.
[ Magia adquirida: 《Flecha do Sol》. ]
Saiu branca e reta e cruel, um risco de sol num lugar que sol esqueceu, e — porque é Luz que eu lanço, não Luz que me acerta — não me queimou nada. Eu mirei fundo na beira do gás, no coração invisível do ar ruim, o ponto mais longe de mim e mais perto da morte, e cravei a Flecha do Sol lá. Ela ficou fincada na rocha, ardendo branca, um pequeno meio-dia impossível pendurado no escuro.
As duas cabeças viraram juntas.
Eu senti a fome Dela mudar de alvo. As montanhas largaram o esqueleto que não conseguiam acertar e foram pro sol que não conseguiam entender, as duas, lado a lado, cavando o próprio caminho pela câmara rumo àquela luz, pra dentro da nuvem que eu não via mas sabia que estava ali, engolindo o ar envenenado a cada passo daquele corpo enorme.
E eu corri pro outro lado.
Eu não sou idiota. Eu confio na capa de pele de Basilisco — o couro que ri do fogo. E eu sei que ri: o dono dele só morreu quando eu acendi a Labareda dentro da barriga dele, porque por fora o fogo não o arranhava. Mas confiar não é apostar cego. Eu disparei a Labareda nos pés pra ganhar a distância, me joguei atrás de um esporão de pedra na ponta mais longe da câmara, me enfiei no vão entre a rocha e o chão até onde o meu corpo de osso coube, e puxei o breu pra mim. 《Manto》 sobre 《Manto》, 《Mortalha》 por cima, camada sobre camada de trevas sólidas enroladas no meu corpo como um casulo, a capa de Basilisco fechada por cima de tudo. Cada escudo que eu tinha, posto entre mim e o que eu estava prestes a fazer.
Os dois Colossais alcançaram a Flecha do Sol. Enfiaram as cabeças naquela luz boba, naquele meu pedacinho de sol, bem no meio do ar que esperava havia tanto tempo.
Eu olhei pra eles uma última vez, dois montes cegos de fome com a voz Dela dentro, debruçados sobre a minha isca.
— Acende — eu disse, na cabeça deles, mesmo sabendo que não tinha ninguém em casa pra ouvir.
E joguei a 《Bola de Fogo》 na nuvem.
O mundo virou branco. Não a luz da Flecha — o branco de antes do som, o branco que vem antes de qualquer coisa ter tempo de doer: a câmara inteira virando fogo num batimento, o ar virando muro, a pedra virando pó. E eu, no fundo do meu casulo de breu e couro, no centro exato do meu próprio fim, fechei a última camada de sombra sobre mim e fiz a única coisa que ainda me restava: apostei na capa, no breu, e em mim.
E esperei pra ver se o Flagelo do Fosso aguentava o próprio flagelo.