Capítulo 19 — O que Segura o Teto
Eu não morri.
Levei um tempo embaraçoso pra ter certeza disso. No fundo do casulo — 《Manto》 sobre 《Manto》, 《Mortalha》 por cima, a capa de Basilisco fechada sobre tudo, o meu corpo de osso espremido no vão entre a pedra e o chão — o mundo tinha virado um único som branco e contínuo, e depois nada, e eu fiquei ali esperando descobrir se "nada" era a morte ou só o silêncio depois de uma coisa grande demais pra orelha que eu não tenho.
Quando o breu finalmente afrouxou, eu desenrolei as camadas uma a uma, como quem desembrulha um presente que pode estar quebrado, e a primeira coisa que entrou pelo meu olho bom foi cinza. Cinza no ar, cinza na pedra, cinza pendurada do nada como neblina que esqueceu de cair. A explosão tinha comido o oxigênio, o gás, a fumaça das castas, e deixado no lugar uma poeira fina e clara que não assentava — flutuava, suspensa, em todas as alturas de uma vez, como se a câmara inteira estivesse cheia de fantasma moído.
A capa de Basilisco estava chamuscada até parecer carvão nas bordas. Tinha aguentado. Claro que tinha — o dono dela só morreu porque eu acendi a Labareda dentro da barriga dele; por fora, o couro ri do fogo. Eu fiz uma anotação mental de pedir desculpas póstumas ao Basilisco pela quantidade de vezes que ele já tinha me salvado a vida depois de morto.
Levantei. As juntas reclamaram. E aí eu vi os dois.
Os Colossais estavam caídos, e mesmo caídos eram paisagem. Um deles tinha tombado de lado, a mandíbula que era maior que a porta de um castelo agora escancarada e imóvel, cheia de cinza por dentro como uma caverna dentro da caverna. O outro tinha afundado de frente, a couraça partida em placas do tamanho de carroças, a luz âmbar que pulsava por baixo da casca dele apagada — toda apagada, como brasa que alguém pisou. A explosão tinha feito o que adamante e fogo não fizeram: não furou os dois. Cozinhou os dois. De dentro pra fora, do jeito que eu aprendi a matar o que é grande demais pra cortar.
[ Você derrotou: Escavador Colossal. ] ×2
A linha apareceu seca no canto do meu olho, e eu quase ri, porque "derrotou" é uma palavra pequena pra duas montanhas. E aí veio a outra, e a outra, e a outra, repetindo, atropelando, o sistema tentando me contar uma coisa que claramente nem ele estava preparado pra contabilizar.
[ Você subiu de nível! ]
[ Você subiu de nível! ]
[ Você subiu de nível! ]
Dez vezes. Eu parei de ler na quarta. Dez níveis de uma vez, despencando de uma só vez como uma escada inteira caindo em cima de mim, e eu fiquei ali no meio da fuligem, sozinho, sentindo o meu próprio corpo de osso encorpar — não tem palavra melhor. A Força entrou como peso novo nos braços, a Agilidade como um zumbido nas canelas, a Vitalidade como uma casca a mais sobre uma coisa que já não tinha carne pra proteger. Cada Colossal valeu cinco degraus. Os dois juntos me empurraram de uma vez por um lance de escada que eu teria levado meio ano pra subir matando casca dourada uma por uma.
Distribuí os pontos do jeito que sempre distribuo — igual nos três, sem pensar, porque pensar nisso é luxo de quem tem tempo. E o sistema, cerimonioso como sempre, abriu a tela toda, como se um morto sozinho numa câmara cheia de cinza precisasse de um relatório.
★★★
Nome: Thasjo Gênero: Masculino
Estado: Normal Rank: H
Tipo: Esqueleto / Morto-vivo
Classe: Mago / Guerreiro
Nível: 45 Título: «Flagelo do Fosso»
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PV: 420/420 Força: 100
MP: 1.000/1.000 Agilidade: 89
Dano: 18,9 Vitalidade: 84
Defesa: 9,0 Sentidos: 1 [bloqueado]
Inteligência: 1 [x200]
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Pontos de Status: 0 Pontos de Magia: 2
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✧ Habilidades Especiais ✧
[Ressurreição Lv 1] [Visão Noturna Lv 1]
['O Conhecimento de Babel'] [Telepatia]
[Compreensão de Runas] ['Jera - A Runa de Odin' 1/1]
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✧ Habilidades Mágicas ✧
Magias: 《Labareda》《Agulha de Água》《Véu de Sombras》
《Manto de Sombras》《Flecha de Fogo》《Lança de Fogo》
《Bola de Fogo》《Flecha Negra》《Lança Negra》
《Garras da Sombra》《Mortalha》《Aurora》《Flecha do Sol》
Técnica: 《Imbuir》
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Caminhos da Magia
Terra: 0/10 Luz: 1/10
Água: 1/10 Trevas: 3/10
Fogo: 3/10 Vácuo: 0/?
Ar: 0/10 Éter: 0/?
★★★
Quatrocentos e vinte de vida. Eu, que comecei essa segunda existência com cinco — cinco — e a sensação de que um espirro me mataria. Olhei pra aquele número e por um segundo me senti poderoso — de verdade, sólido, grande —, e foi exatamente nesse segundo que o teto começou a cair.
Não foi um desabamento. Foi pior: foi o som de um lugar decidindo desabar com calma.
Um rangido fundo, longo, que vinha de cima e de todo lado — a pedra da câmara, sacudida pela explosão, percebendo só agora que tinha sido ferida. Fios de poeira começaram a descer em cortinas. Uma laje do tamanho de uma porta se soltou lá no alto e desceu girando, e bateu, e estourou em pedaços a uns vinte passos de onde eu estava. E aí outra. E o chão tremeu de um jeito diferente do tremor dos Colossais — não vinha de baixo, vinha de cima, e tudo o que vem de cima numa caverna tem um nome só: fim.
Foi aí que eu lembrei dos outros.
A fuligem tinha me deixado cego como qualquer um — pior, eu só tenho um olho. Mas eu virei pro lado da câmara onde a gente tinha começado, longe do bolsão de gás que eu detonei, e enxerguei o suficiente: vultos no chão. Pequenos. Caídos. E acima deles, num ângulo que a minha cabeça velha, a de antes do osso, reconheceu na hora com aquele frio na espinha que eu já nem tenho — uma viga inteira de rocha, rachada na base, pendendo.
Eu não ia chegar a tempo de arrastar três corpos pra fora dali. Eu sou rápido. Não sou aquilo.
E eu tinha dois pontos queimando na palma da mão.
Tem uma coisa que eu aprendi nesse buraco, e que nenhum mago formado teria me ensinado porque eu nunca pisei numa escola de magia: o sistema não me dá magia pronta. Ele me dá uma porta, e eu tenho que imaginar o que tem do outro lado. A 《Labareda》 foi eu querendo fogo e empurrando mana até o fogo sair. A 《Agulha》 foi eu querendo um furo. Eu nunca tinha tocado no caminho da Terra na vida — nem na primeira, nem nessa —, mas eu sabia, do jeito que a gente sabe das coisas óbvias, o que eu precisava que a Terra fizesse.
Eu precisava que ela ficasse onde estava. Que segurasse.
Joguei os dois pontos no caminho que eu nunca tinha andado.
[ Caminho desbloqueado: Terra. Focus → 2. ]
E aí, em vez de imaginar um projétil — uma flecha, uma lança, as formas que machucam —, eu imaginei a coisa mais burra e mais antiga do mundo. Uma parede. Uma pedra de pé. Uma coluna como as do templo dourado, dessas que ninguém olha porque a função delas é justamente nunca cair. Não uma muralha de fortaleza, nada de catedral — só pedra fazendo o que pedra faz de melhor, que é segurar peso e não reclamar.
Eu estendi a mão pro chão entre os meus amigos e a viga que descia, e puxei.
A rocha do chão respondeu. Não como o fogo responde, faminto; nem como o breu, que é meu e me obedece como sombra obedece a quem a projeta. A Terra respondeu devagar, pesada, de mau humor, como um velho que se levanta porque precisa e não porque quer. Uma coluna subiu do chão num gemido grosso, grossa como o tronco de uma árvore, e cresceu, e encontrou a viga que caía bem na hora em que ela ia esmagar tudo — e segurou.
[ Magia adquirida: 《Parede》. ]
O impacto da viga na coluna soltou uma chuva de cascalho, mas a coluna aguentou. Eu não parei. Ergui outra, e outra, fechando um teto sobre os três vultos no chão como quem arma uma tenda de pedra no meio de um temporal de pedra. Com mana de sobra eu não precisava medir o gasto — só a imaginação me limitava, e imaginar pedra de pé é fácil, qualquer um que já viu uma ponte sabe a forma. Em alguns segundos eu tinha levantado um bosque de colunas tortas e feias e perfeitamente inúteis pra qualquer coisa que não fosse exatamente isto: impedir que o céu caísse na cabeça das únicas três pessoas que ainda me importavam neste mundo.
E depois — porque eu estava em dívida, e dívida é a única coisa que um morto leva a sério — eu virei pro outro lado da câmara, pra onde os terraços de cogumelo azul tinham sido lavoura e agora eram escombro, e ergui mais colunas. Sobre os Murmurantes. Sobre os pequenos que sobraram, os que os Colossais tinham poupado da plantação e esmagado das casas. Não dava pra desfazer o que já tinha caído. Dava pra impedir o resto de cair. Foi o que eu fiz, coluna por coluna, até o rangido do teto virar só resmungo, e o resmungo virar silêncio.
Eu fiquei ali, no meio do meu bosque de pedra, e tive um pensamento que não combinava nem um pouco com o lugar: que magia ridícula. Sem brilho, sem estrondo, sem nada que botasse medo em ninguém. A coisa menos heroica que eu já tinha conjurado. E, olhando os três respirarem debaixo dela, talvez a melhor.
— Você está horrível.
A voz veio fraca, rouca, debaixo de uma das colunas, e era a melhor coisa que eu tinha ouvido em horas. Freala estava sentada contra a pedra, um braço enfaixado com um trapo da própria manga, o rosto coberto de cinza menos onde o suor tinha aberto trilhas. Olhava pra mim com aquele olhar de quem está checando se o que vê é real.
— Eu estou horrível? — A minha voz entrou na cabeça dela, e eu vi o instante em que ela registrou que entrou — o cordão telepático tinha voltado, o fio morno entre nós que a voz Dela tinha afogado. Voltou junto com a morte dos Colossais, como uma vela que reacende quando a janela fecha. — Você se viu? Você parece uma chaminé que apanhou.
Ela riu. Doeu nela rir, deu pra ver, mas riu. — Achei que você tinha morrido.
— Eu também. Foi por pouco. — Eu me ajoelhei perto dela, contei os vultos. Três. — Você está inteira?
— O braço não. O resto sim. — Ela olhou pra cima, pro teto de pedra que eu tinha armado, e eu vi a maga nela acordar por cima da mulher exausta, do jeito que sempre acorda. — Isso é Terra. Você não tinha Terra.
— Tenho desde uns dois minutos atrás.
— Você aprendeu um caminho inteiro — ela falou devagar, como quem precisa dizer em voz alta pra acreditar — no meio de um teto caindo. Pra fazer uma parede.
— Pra fazer uma parede — eu confirmei. — Sei que não é o 《Rugido da Tempestade》. Não arranca ninguém do céu. Só não deixa o céu cair em cima de você.
Ela me encarou por um tempo que eu não soube medir. — Eu passei a vida inteira — ela disse, baixinho — querendo a magia que arranca do céu. A grande. A que faz a gente parecer mais do que é. — A mão boa dela tocou a coluna ao lado. — E você, quando enfim abraça um elemento novo, uma afinidade que mago nenhum ganha de graça, gasta ela na magia que ninguém aplaude. — Ela balançou a cabeça. — Eu ainda não sei se quero ser você ou se quero te bater.
— A maioria das pessoas fica nas duas — eu disse, e ela bufou uma risada, e eu fui ver os outros.
Quagô estava encolhido sobre o próprio flanco, e quando eu cheguei perto ele se mexeu e o chicote de mandíbulas dele — a trança que eu tinha enchido de breu emprestado antes de subir pra encarar os Colossais — rolou da mão dele. O breu já tinha saído fazia tempo; era só corda de osso de novo. Mas ele segurava ela como quem segura uma coisa que ainda vale.
— O Coaxante ficou — ele disse, antes mesmo de eu perguntar. A voz dele veio dura, orgulhosa, a voz de um sapo que decidiu há pouco que ia falar de si em terceira pessoa como se fosse uma lenda. — Não correu. Segurou um guardião. Dois. — E aí a lenda vacilou, e ele me olhou com aqueles olhos redondos, e era só o Quagô de novo: — Doeu, osso. Doeu o tempo todo. Eu fiquei com medo o tempo todo.
— Ficar com medo e ficar mesmo assim — eu disse — tem um nome. Não é "sem medo". É outra coisa, melhor.
Ele piscou. — Qual?
— Coragem, seu sapo. É literalmente a definição. — Ele riu, e tossiu, e segurou o flanco, e riu de novo. — A poção do Görö fechou o talho?
— Fechou devagar. Görö faz tudo devagar. — Ele apertou o chicote. — Osso. Quando isso acabar. Eu quero que você me ensine. A botar o breu na arma. Sozinho. Não emprestado. Eu não quero mais o teu toque na minha corda — não que o teu toque seja ruim — mas eu quero o meu. Quero voltar pras calhas e mostrar pro Görö que dá. Que um sapo pode.
Eu não sabia se dava. 《Imbuir》 é técnica de Guerreiro, da minha classe, do meu sistema; eu não fazia ideia se um Coaxante sem tela de status podia aprender a canalizar coisa nenhuma. Mas eu olhei pra cara dele e entendi que a resposta certa não era a verdadeira.
— A gente tenta — eu disse. — Quando acabar, a gente senta e tenta até dar ou até a gente ter certeza de que não dá. Combinado?
— Combinado.
O terceiro vulto não tinha dito nada.
Gobe estava de costas, pequeno, os braços abertos como criança que dormiu cansada demais pra se cobrir. Por um instante horrível eu achei — mas aí o peito dele subiu, raso, e desceu, e subiu de novo. Vivo. Só vazio. Eu já tinha visto aquilo nele uma vez, tempos atrás, quando ele soltou um vento grande demais pro próprio tamanho e desabou: o homem que esvazia o último fio de mana num lance só e o corpo simplesmente desliga, porque mana não é luxo pra quem é vivo, é parte de estar de pé.
— Ele soltou uma coisa que eu não conhecia — Freala disse atrás de mim, a voz cheia de uma coisa que era metade espanto, metade raiva. — Um leque de vento. Enorme. Varreu uma onda inteira de bicho como se fosse folha seca. Eu nunca tinha visto o Gobe fazer nada daquele tamanho. Nunca. Ele sempre foi... o Gobe.
Eu também não conhecia aquela forma. Mas conhecia o suficiente de magia, agora, pra saber que era grande demais — grande demais pra um reservatório do tamanho do dele, que solta uma coisa e seca. Ele tinha guardado aquilo esse tempo todo atrás de piada, bebida e moeda de prata que volta pra mão.
Eu me ajoelhei perto dele. Ele estava acordando — devagar, do fundo de onde a gente acorda quando o corpo desliga pra não morrer. Os olhos dele abriram uma fresta, acharam o teto de pedra, depois me acharam.
— ...eu ainda tô vivo? — a voz dele saiu como papel amassado. — Que decepção. Eu tinha feito uma saída tão bonita.
— Você desabou na cara no chão. Não foi assim tão bonita.
— Na minha cabeça foi linda. — Ele tentou se levantar, não conseguiu, desistiu com dignidade. — Você viu o vento? — Havia um orgulho cansado na voz dele, o orgulho de um velho mostrando uma cicatriz. — O 《Sopro do Furacão》. Esse é o nome dele. Eu guardei essa forma a vida inteira sem soltar, porque quem solta uma coisa dessas atrai o tipo de gente que cobra. — Ele tossiu. — E hoje eu soltei por um sapo e uma maga rabugenta. Olha no que eu virei. — Os olhos dele acharam os meus. — Eu morri por vocês, sabia. Tecnicamente. Por uns segundos. Vocês me devem uma agora. — E aí a piada saiu da cara dele, só um pouco, e o que ficou debaixo dela era uma coisa que eu nunca tinha visto no Gobe: ele estava com vergonha. — Eu fiquei, osso. Eu, que fujo de tudo. Eu fiquei.
— Eu sei.
— Não, você não sabe. — Ele fechou os olhos. — Você não sabe quanto tempo faz que eu não fico em lugar nenhum.
Eu sabia o suficiente pra não estragar com palavra. Botei a mão no ombro dele — osso no ombro de um gnomo coberto de cinza, deve ter sido uma cena — e deixei ali.
E foi nesse momento exato, com os quatro vivos e a fuligem assentando devagar e pela primeira vez em horas uma coisa parecida com paz, que o chão voltou a tremer.
Eu conhecia aquele tremor. Tinha aprendido a reconhecê-lo havia pouco, quando os Colossais romperam a parede pela primeira vez: o teto chovendo em fios, o chão pulando. Mas isto era diferente. Os Colossais vinham com fome, atabalhoados, cavando. Isto vinha com cadência. Passo. Pausa. Passo. Como uma coisa que sabe exatamente para onde vai e não tem a menor pressa de chegar, porque tudo o que existe entre ela e o destino vai estar morto antes que ela precise apressar o passo.
Freala se levantou primeiro, encostada na coluna, e eu vi o sangue fugir do rosto dela debaixo da cinza.
— Não — ela sussurrou. — Não, não, a gente matou os grandes, era pra ter acabado, era pra—
A parede do fundo da câmara se iluminou.
Não de fogo. De âmbar. Uma luz dourada e funda, vinda de trás de uma cortina de pedra rachada, crescendo, e com ela a temperatura do ar mudou — ficou densa, doce, cheia, do jeito que o ar fica quando há mana demais num lugar só. E então a pedra se afastou, empurrada de dentro como cortina, e Ela entrou.
Eu tinha ouvido a voz Dela. Tinha sentido Ela encher a minha cabeça pela boca de duas montanhas ocas. Mas eu nunca tinha visto, e ver era outra coisa.
Os Colossais eram grandes do jeito que um lugar é grande. Ela não. Ela era grande do jeito que um trono é grande — não por tamanho, por autoridade. Andava ereta, sobre duas pernas, alta como três homens mas esguia, e cada movimento dela tinha a economia de quem nunca precisou se apressar na vida. A couraça era de placas escuras, quase pretas, e cada placa tinha a borda traçada num fio de ouro, como se alguém tivesse desenhado o contorno de cada escama com tinta de sol. Dos ombros e da cabeça subiam chifres longos, curvos, arranjados como uma coroa que ninguém colocou ali porque ninguém precisou: nasceu coroada. Às costas, placas em leque se abriam e fechavam devagar, como um manto que respira. E por baixo de tudo — no peito, nos ombros, no ventre, nas juntas — pulsava aquela luz âmbar, a mesma que vazava dos Colossais, só que viva, contida, enorme: mana tão densa que brilhava através da própria carne dela, vazando da casca como brasa vaza de uma fornalha mal fechada.
E Ela tinha um rosto. Foi o que mais me desconcertou. Entre todas as castas de cara cega e mandíbula de tesoura, Ela tinha quase um rosto de gente — maxilar, lábios finos de quitina, e por trás deles, quando se entreabriam, fileiras de dentes delgados e afiados como agulhas. A mais humana das coisas que aquele buraco já tinha parido, e por isso a pior. A seiva, eu pensei. Não foi só o tamanho que Ela bebeu daquela coisa que sangra no fundo. Foi isto também — um rosto. A seiva a ergueu acima do molde e, de quebra, deu a Ela cara o bastante pra eu reconhecer nela a vaidade, o luto, o desprezo. Monstro a gente esquece. Cara a gente não esquece nunca.
A Freala tinha razão sobre uma coisa que ela disse uma vez: cada casta tem um truque que não é magia nem músculo. E eu, olhando pra Ela, entendi que o truque Dela era simplesmente existir tanto. Tinha mana demais ali pra um corpo só. Dava pra sentir na boca, se eu tivesse boca.
— Ah — disse Ela, e a voz era a mesma que tinha afogado a minha cabeça, mas agora vinha de uma garganta de verdade, e era quase pior por isso: calma, baixa, quase carinhosa. — Você é menor do que eu imaginei. Toda essa morte, e cabe numa coisa tão pequena.
Os olhos dela — âmbar, luminosos, sem pálpebra — passaram por mim e foram pros meus. Pros dois Colossais caídos. E eu vi, naquela cara quase humana, uma coisa que eu preferiria não ter reconhecido. Luto. Um luto antigo, soberano, terrível.
— Meus mais amados — disse Ela, baixinho, pra eles, não pra mim. — Os que eu enchi com a minha própria mão, porque não havia em vocês nada que não fosse eu. — E então os olhos voltaram, e o luto tinha virado outra coisa. — E você os apagou com a luz dos meus próprios campos. Com fogo na minha própria casa.
— Pra ser justo — eu disse, pela telepatia, porque era a única voz que eu tinha e eu nunca soube ficar calado quando devia —, eles começaram. Quebraram a casa de muita gente antes de quebrar a sua.
Ela inclinou a cabeça. E sorriu — de verdade, com aquela boca quase de gente e os dentes de agulha que não eram de gente nenhuma. — Ele fala dentro da minha cabeça — disse Ela, encantada, do jeito errado de encantada. — A Boca me contou que você fazia isso. Que falava com os meus filhos pensantes e os virava do avesso. O Curioso, que se chamou de "eu". A Boca, que rezou até o fim. — Um passo. O chão tremeu. — Você converte. Que talento desperdiçado. — Outro passo. — Aqui não há ninguém pra converter. Só eu. E eu não estou à venda.
E aí Ela ergueu a mão.
Eu vi a magia se formar antes de entender o que era — porque ver as runas é fácil, qualquer mago vê; o meu problema sempre foi o contrário, eu entendo o que vejo, e às vezes o que eu entendo é pior do que a ignorância. Os riscos se acenderam na palma dela, dourados, girando, e eu reconheci a assinatura: Luz. Mas torta. Luz que não ilumina nem cega nem fere — Luz que puxa. Na palma aberta dela cresceu um redemoinho, um vórtice de fios dourados em espiral, e o ar da câmara inteira começou a se inclinar pra dentro dele.
E os meus amigos gritaram.
Não de dor. De vazio. Eu vi acontecer e não pude fazer nada, porque foi rápido demais e porque não havia nada a fazer: a Freala caiu de joelhos com um som que eu nunca quero ouvir de novo, a mão no peito, como se alguém tivesse enfiado a mão dentro dela e arrancado o fio que a mantinha de pé. O pouco de mana que a raiz do Görö tinha devolvido a ela escorreu pro ar em fios de luz e foi sugado pra dentro do vórtice na mão Dela. O Gobe, que já estava vazio, convulsionou mesmo assim — porque quando não há mana pra tirar, a coisa tenta tirar o que vier depois. E o Quagô — o Quagô, que nunca conjurou nada na vida, que jurava não ter uma gota de magia no corpo — soltava fios de luz também. Porque toda coisa viva carrega mana, mesmo a que não sabe que carrega, mesmo a que nunca aprendeu a gastar; e o vórtice não fazia distinção. Sugou do sapo o pouco que ele tinha sem nunca ter usado, e ele tombou de lado, paralisado, os olhos abertos, vivos, apavorados, presos num corpo que não obedecia.
Em segundos os três estavam no chão, secos, imóveis, respirando e nada mais. Vivos. Inúteis. Fora de cena. Ela tinha limpado o tabuleiro com um gesto, sem nem me olhar enquanto fazia, do jeito que a gente espanta insetos da mesa antes de comer.
E aí Ela me olhou. E o vórtice na mão Dela girou na minha direção.
— Agora — disse Ela — você.
Eu senti. Foi a coisa mais estranha que já me aconteceu nessa segunda vida cheia de coisas estranhas: senti a minha própria mana ser chamada. Não arrancada, ainda — chamada, como maré que começa a virar, um puxão fundo no lugar onde eu guardo o que me faz lançar. Os fios dourados acharam o meu reservatório e começaram a beber dele, e eu senti o poço baixar — devagar, mas baixar.
[ MP: 980/1.000 ]
E foi aí que me gelou uma coisa que eu não esperava: eu nunca tinha visto aquele aviso na vida. Ele sempre esteve lá — o sistema conta tudo, eu sei que conta. Mas as minhas magias custavam tão pouco perto do tamanho do meu poço que o número mal tremia; uma flecha tirava uma gota de um lago, e eu nunca tive motivo pra olhar. Aprendi a temer o aviso de PV, porque vida eu via sair em pedaços grandes, vermelhos, na hora. Mana eu nunca vi descer de verdade. Até aquele instante.
[ MP: 905/1.000 ]
E Ela percebeu na mesma hora que tinha algo errado, porque os olhos Dela se estreitaram.
Os olhos Dela passaram pelo meu peito do jeito que se lê uma página — Ela enxergava a mana presa em mim como eu enxergo as runas no ar — e o que leu a fez parar.
— Que poço fundo — disse Ela, e havia surpresa na voz, surpresa e desdém na mesma medida. — Eu vejo a mana represada nessa carcaça, coisa de osso, e há muito mais do que deveria caber num morto. O teu poço enche com mil baldes. Mil. É muito, para uma coisa que a morte cuspiu de volta. — O vórtice apertou, e o puxão ficou mais forte, e eu travei os pés no chão como se isso adiantasse contra uma força que não tinha onde eu empurrar de volta. — Que pena que o meu enche com mil e duzentos. E isto na minha mão esvazia o teu mais rápido do que qualquer fonte te reenche.
Então eu fiz a coisa óbvia. A coisa que eu devia ter feito antes de Ela terminar a frase: revidei.
Tracei a 《Bola de Fogo》 — a minha resposta pro que é grande, fogo que estoura e come tudo num raio — e empurrei pra cara Dela com tudo o que o pânico me deu. Devia ter aberto um meio-dia em chamas bem no meio daquele rosto quase humano.
Não abriu nada.
A forma nasceu na minha mão e Ela a bebeu no berço. Eu senti acontecer: a mana saiu de mim pra dar corpo ao fogo e, no instante exato em que saía, o vórtice a chamou e a engoliu, e a Bola de Fogo morreu antes de existir, sugada pra dentro da palma Dela como fumaça por uma fresta. Sobrou um bafo morno no ar. Uma piada de fogo.
[ MP: 720/1.000 ]
O baque dessa vez eu vi. Um tanto inteiro do poço sumiu de uma vez — a água que eu tinha gasto pra erguer o fogo, escorrida pela mão Dela antes mesmo de virar chama. O aviso que eu tinha ignorado a vida toda, agora, eu não conseguia parar de olhar.
— Ah. — Agora a voz era pura ternura, a ternura terrível de quem ensina. — Você ainda não entendeu. A Colônia Lembra, coisa de osso. Eu provei cada filho que você matou, e com a carne deles provei tudo o que você fez na frente deles — cada sombra que vestiu, cada chama, cada flecha preta. Eu conheço as suas magias melhor do que você as conhece. E enquanto o meu poço for mais fundo que o teu, tudo o que você tecer eu bebo antes de nascer. — O sorriso de agulhas voltou. — Lance. Lance tudo. Cada balde que você erguer só despeja mais rápido no meu.
E o pior é que era verdade, e eu soube na hora que era, porque senti o poço descer mais um tanto enquanto os fios dourados subiam, gordos, pra dentro da palma Dela. Cada magia minha não era uma arma contra Ela. Era uma concha carregando a minha água pra dentro do poço dela.
Não era uma briga de corpo, nem de fogo, nem de breu. Eu tinha a espada que corta qualquer couraça, tinha as Garras, o Manto, a pedra que obedecia desde dois minutos atrás — e nada daquilo importava, porque Ela não me deixava nem começar. Era uma briga de quem tinha o poço mais fundo. Um cabo de guerra. E do outro lado da corda havia mais água do que eu tinha — eu sentia, do jeito nojento de quem sempre entende o que vê, que Ela puxava mais rápido do que eu jamais conseguiria repor.
— Você quer saber o que é isto na minha mão? — Ela ergueu o vórtice um pouco mais, quase com orgulho, e continuou bebendo enquanto falava, sem pressa, porque tempo era a única coisa que Ela tinha de sobra. — Deixe eu te contar, já que vai morrer ouvindo. Você merece saber de quem é a mão que te apaga.
E aí Ela falou, e eu ouvi, e perdi mana, e ouvi mais, arquivando cada palavra num canto da cabeça que ainda funcionava — porque informação é a única coisa que ninguém consegue sugar pela palma da mão.
— Houve um tempo em que nós não éramos nada. Cupins. O povo mais baixo de um buraco cheio de povos famintos. — A voz Dela foi ficando funda, antiga. — Disputávamos cada palmo de túnel com os homens-sapo, com os reptantes fétidos, com as tecelãs do breu. E perdíamos, coisa de osso. Perdíamos sempre. Morríamos aos milhares por um pedaço de raiz podre, porque ser muitos não vale nada quando se é fraco. Eu vi os meus filhos serem comidos por tudo o que existia neste fosso. Vi gerações inteiras virarem alimento. — Os pontos de âmbar no corpo Dela pulsaram mais forte, no compasso das palavras. — E então fui eu. Eu, Trichonymphea, que desci mais fundo do que qualquer rainha ousou descer antes de mim. Fui eu que achei o que sangra no coração do mundo. Fui eu que bebi do que escorre dele enquanto a minha corte inteira tremia de medo na escuridão. E foi a minha boca que levou aquilo de volta pro meu povo.
O puxão não parava. Mas eu segurava os pés no chão, e ouvia.
— E nós crescemos. — Algo que era quase amor passou pela voz Dela, e foi pior que o desprezo. — Pela primeira vez na história deste poço, os cupins pararam de perder. Os túneis viraram nossos. As raízes viraram nossas. A terra passou a respirar no compasso das nossas mandíbulas. Eu dei ao meu povo uma era inteira, coisa de osso. Tirei eles da lama com as minhas próprias mãos. E eu fiz isso sozinha.
E aí a voz mudou, e o rancor entrou nela como gelo enfiado numa ferida.
— E o céu reparou. — Ela quase cuspiu. — Ela. A campeã da deusa do saber. A serva de mãos limpas que desce do alto a cada primavera achando que carrega justiça nos braços. Joana. — O nome saiu sílaba por sílaba, veneno medido. — Ela viu o meu povo florescer e decidiu — ela, que nunca pariu nada, que nunca perdeu um filho pra fome de outro — que algo tão baixo quanto nós não tinha direito a uma era. Que tínhamos crescido demais. E ela desce, toda primavera, com o fogo sagrado da senhora dela, e ceifa os meus filhos aos milhares. Não pra nos matar — pra nos podar. Pra me manter pequena. Pra me deixar exatamente do tamanho que ela acha que eu mereço. — As placas em leque das costas Dela se abriram inteiras, e por um instante Ela foi só fúria coroada. — Ela é mais forte do que eu. Ainda. Por isso eu fiz a única coisa que uma rainha esperta faz diante de algo mais forte: eu escondi. Enterrei a fonte tão fundo que o céu nunca a achou. Deixei a campeã pensar que eu era só sorte e número. E enquanto ela me podava e ia embora satisfeita, eu — eu, Trichonymphea — gastei estação após estação afiando isto. — O vórtice. A Luz que bebe. — A arma feita pra arrancar a mana da campeã do próprio corpo dela e deixá-la seca no chão da minha casa, na primavera em que ela descer esperando uma poda e encontrar uma cova.
Ela me olhou, e o luto e o rancor se fundiram em algo quase íntimo.
— Essa é a arma que eu estou gastando em você. A obra de uma vida inteira. O fim de Joana, desperdiçado num cadáver que teve a ousadia de apagar os meus preferidos. — O sorriso de agulhas. — Devia me enfurecer. Decidi tratar como ensaio. Você vai ser a primeira coisa que esta arma mata. Agradeça.
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O meu poço baixou de novo. Mais fundo. Eu sentia, agora, o fundo dele se aproximando — devagar, inevitável, como o chão se aproxima de quem cai. E quando o poço secasse, eu não sabia o que acontecia com um morto-vivo sem mana, mas tinha um palpite, e o palpite tinha cheiro de fim de verdade, dessa vez sem glitch e sem estômago de basilisco pra me cuspir de volta.
Eu precisava de uma ideia. Eu sempre precisei de uma ideia — foi a única coisa que me manteve vivo desde o primeiro degrau, eu nunca venci nada pela força, venci tudo por ver o que os outros não viam. Então eu fiz o que sempre faço quando o corpo não basta: parei de olhar pra Ela e comecei a olhar pro terreno.
E o terreno estava cheio de fuligem.
A cinza que a minha explosão tinha deixado no ar — fina, suspensa, em todas as alturas, recusando-se a assentar. Ela ainda estava ali, pendurada em tudo. E a luz âmbar Dela, tão densa, tão poderosa, ao atravessar aquela poeira... tropeçava. Eu vi. Por um instante, só um instante, onde a fuligem estava mais grossa, o brilho dourado da mão Dela ficou mais fosco, mais fraco, como o sol fica fraco através da fumaça de um incêndio distante.
A Luz Dela não gostava da cinza.
E uma coisa começou a se juntar com a outra, lá no fundo da cabeça, do jeito que as ideias se juntam quando não há mais tempo pra elas. Ela bebia tudo o que eu fazia nascer — a Bola de Fogo morreu na minha mão porque a mana saía de mim e ia direto pro vórtice. Mas a cinza já estava solta. Já estava no ar, em todas as alturas, paga e pronta, sem precisar nascer de mim de novo. E as minhas duas melhores magias nunca criaram nada do nada — o Manto manda no breu que já existe, a Parede ergue a pedra que já está ali. Talvez houvesse um jeito de mandar no que já estava solto sem oferecer a Ela uma gota fresca pra beber. Eu tinha Fogo, e tinha Trevas, e havia uma porta entre os dois que eu vinha me recusando a atravessar com pressa — e do outro lado dela morava uma coisa feita exatamente de cinza.
Pela primeira vez desde que Ela entrou, eu tive uma coisa parecida com esperança. Pequena. Fosca. Suspensa no ar, como tudo o mais ali.
E o poço baixou de novo —
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— e Ela sorriu com os olhos, e o vórtice girou, e eu soube que ia ter que decidir muito rápido se a esperança fosca ia virar plano antes de o poço chegar ao fundo.