Capítulo 20 — O Olho de Cinzas
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Noventa.
Eu já tinha começado essa segunda vida com cinco de vida e a certeza de que um espirro me mataria, então não era o número pequeno que me assustava. Era a direção. Pela primeira vez desde que acordei feito osso num corredor cheio de irmãos meus apodrecendo, eu estava vendo a minha mana descer — não gastar, descer, escorrer de mim pra dentro daquela mão aberta como água que encontra um ralo —, e o sistema, burocrata fiel, me informava da queda com a mesma voz seca com que um dia me parabenizou por subir de nível.
A diferença entre uma flecha e aquilo era a diferença entre tirar uma concha d'água de um lago e abrir um buraco no fundo do lago. Eu sempre soube, lá no fundo da caveira, que a Jera não me dera mana infinita. Só me dera tanta que eu nunca tinha tido motivo pra contar. Agora eu contava. De trás pra frente.
À minha frente, Ela continuava bebendo, sem pressa, com aquele rosto quase de gente que era a pior coisa que aquele buraco já tinha parido. Os três que me importavam estavam no chão atrás de mim, secos, vivos e inúteis, respirando e nada mais. E eu tinha uma ideia fosca, suspensa no ar como a cinza que não queria assentar, e nenhuma certeza de que ela viraria plano antes de o número chegar a zero.
Então eu fiz o que sempre fiz. Parei de tentar vencer pela força e comecei a tentar vencer pela cabeça.
A magia Dela ainda estava ali, girando na palma aberta — e eu via. Não as luzes só, que qualquer um vê; eu via os riscos por baixo das luzes, a assinatura, a gramática da coisa. Era o meu único talento de verdade nesse mundo de magia: ver é fácil, qualquer aprendiz vê o mago desenhar no ar. Entender o desenho é que era meu. E o desenho Dela dizia Luz — mas uma Luz torcida, que não iluminava nem cegava nem queimava. Uma Luz que chamava. Que puxava. Luz feita ralo.
Eu sou um sujeito prático. Vi a arma que estava me matando e pensei a coisa mais óbvia do mundo: quero uma dessas.
Estendi a mão e tentei copiar. Levantei o que eu tinha de Luz — pouco, raso, a luzinha mansa que eu acendi nos campos dos cogumelos e a flecha que finquei no gás —, e tentei torcer aquilo no mesmo desenho, fazer o meu próprio ralo, beber de volta o que era meu.
[ Falha na conjuração — Focus insuficiente. ]
— Ah — disse Ela, e havia quase ternura no escárnio. — Você tentou. Que adorável.
Claro que falhou. Eu tinha Luz o bastante pra acender uma lamparina e atirar uma flechinha; Ela tinha Luz o bastante pra construir uma bomba de sucção do tamanho de uma vida inteira. Era como um menino que aprendeu a riscar um fósforo tentando copiar uma fornalha. O caminho da Luz não era meu. Nunca tinha sido. Eu o peguei por gentileza, num momento mole, pra fazer cogumelos brilharem — e cogumelo brilhando não me servia de nada agora.
Mas a tentativa não foi de graça. Falhar me mostrou a forma do que eu precisava: não um tiro. Um ralo. Algo que girasse e puxasse e segurasse — e que eu não tivesse que tecer do nada, porque tudo o que eu tecia do nada Ela bebia no instante em que nascia.
E foi aí que eu olhei pro ar de novo. Pra cinza.
Ela estava em tudo. Fina, clara, suspensa em todas as alturas de uma vez, a poeira que a minha explosão tinha deixado e que se recusava a cair. E quando o brilho âmbar da mão Dela atravessava um trecho mais grosso de fuligem, ele tropeçava — ficava fosco, hesitava, como o sol fica fraco através da fumaça de um incêndio distante. Eu tinha reparado nisso antes. Agora eu entendia o que significava.
A Luz Dela não gostava da cinza. E a cinza já estava solta. Paga. Pronta. Não precisava nascer de mim pra Ela beber — já estava ali, no ar, em todas as alturas, esperando uma mão que mandasse nela.
Eu tinha duas dessas magias. O 《Manto》, que não cria escuro — manda no breu que já existe. A 《Parede》, que não cria pedra — ergue a que já está no chão. As duas melhores coisas que eu sabia fazer nunca tinham criado nada; só tinham dado ordem ao que o mundo já tinha deixado solto.
E eu tinha Fogo. E tinha Trevas. Os dois fundos, os dois meus, os dois esperando há quatro andares de masmorra que eu juntasse as mãos. Eu vinha empurrando essa porta com o pé, me recusando a atravessá-la com pressa, porque coisa apressada sai torta. Não tinha mais o luxo da pressa.
Eu não criei nada. Eu peguei a cinza que já estava no ar — a minha cinza, a dos meus mortos, a dos filhos preferidos Dela que eu cozinhei de dentro pra fora — e mandei nela.
[ Caminho secundário desperto: Cinzas. (Fogo 3 + Trevas 3 → Focus 2) ]
Eu nem sabia que ele estava ali. O sistema, ao que parece, sabia há tempos — tinha juntado o meu Fogo com a minha Trevas em silêncio, do jeito que junta tudo, e só não tinha me contado porque eu nunca tinha esticado a mão pra usar. Era assim que funcionava. Ninguém me dava magia pronta. Me davam uma porta, e eu tinha que imaginar o que havia do outro lado.
Do outro lado havia um redemoinho.
A fuligem do ar inteiro respondeu de uma vez — não devagar e de mau humor como a pedra, não faminta como o fogo, mas leve, solta, ansiosa, como se aquela poeira toda só estivesse esperando alguém dizer girem. Ela se enrolou no ar entre mim e Ela, espessa, cinzenta, rodopiando num funil que afunilava pra um centro escuro e quieto, um olho de tempestade feito de morto moído. E o olho começou a puxar.
[ Magia adquirida: 《Olho de Cinzas》. ]
A diferença foi imediata, e foi a coisa mais bonita que eu já tinha sentido sem ter terminações nervosas pra sentir. A minha mana parou de cair.
[ MP: 88/1.000 ]
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Subiu. Dois pontos. Dois pontos miseráveis, mas subiu, pela primeira vez desde que Ela ergueu a mão — porque agora havia dois ralos no mesmo cômodo, o dourado Dela e o cinzento meu, e os dois disputavam a mesma água. E o meu, girando na fuligem, também borrava a Luz Dela: cada vez que o funil passava na frente da palma Dela, o âmbar engasgava, perdia força, tropeçava na poeira como tinha tropeçado antes — só que agora de propósito, e o tempo todo.
O rosto quase humano Dela perdeu, por um instante, o sorriso.
— O que — disse Ela — é isso.
Não era uma pergunta. Era uma soberana descobrindo que a praga que ela ia espremer entre os dedos tinha mordido de volta.
— Cinzas — eu disse, pela telepatia, porque era a única voz que eu já tinha e eu nunca soube ficar quieto quando devia. — Acontece que sobrou bastante. Você não quer saber de quem.
Por um momento glorioso eu achei que tinha vencido. O meu funil rodava, a Luz Dela embaçava, a minha barra subia de gota em gota. Eu, que nunca venci nada pela força, ia vencer aquilo do jeito que vencia tudo: vendo o que o outro não via, usando o terreno, transformando o lixo do chão em arma.
Foi aí que Ela me lembrou de que eu estava num cabo de guerra, e que do outro lado da corda havia mais corda do que eu tinha.
O olho dourado na palma Dela apertou. O funil de luz ficou mais estreito, mais fundo, mais voraz — e a minha barra, que subia de dois em dois, parou. Hesitou. Voltou a cair.
[ MP: 84/1.000 ]
— Eu vejo o teu poço, coisa de osso. — A voz Dela tinha recuperado a calma terrível. — Funda, essa carcaça. Mais funda do que tem direito. Mas eu já te disse: o meu enche com mil e duzentos baldes, e o teu com mil. Você cavou um ralo bonito na minha cinza. Não importa. Enquanto o meu for mais fundo que o teu, eu bebo mais rápido do que você. Dois ralos no mesmo poço — vence o maior. Sempre.
E o pior é que eu sabia que era verdade, porque eu sentia. Os dois funis puxavam a mesma água da câmara, a minha mana, a mana que sobrava nas três cascas secas dos meus amigos, o vapor de poder que todo ser vivo solta sem saber — e a corrente toda corria, devagar mas certa, pro ralo maior. Pro Dela. Eu tinha cavado um redemoinho lindo e ele estava perdendo, pelo motivo mais idiota e mais inapelável do mundo: o Dela era maior.
A barra do meu reservatório me dizia isso em números que eu nunca, em duas vidas, tinha tido motivo pra temer.
[ MP: 71/1.000 ]
E então Ela se cansou de ganhar devagar.
— Chega de brincar — disse Ela. E fechou a mão de Luz que puxava, e abriu a outra. E nessa outra não havia ralo nenhum. Havia sol.
Eu não preciso de muita teoria pra saber o que a Luz faz com um morto. Eu sou um morto. A regra é velha como a primeira fogueira: o que cura o vivo, fere o que já morreu, do mesmo jeito que o fogo é carinho pra quem tem frio e ruína pra quem é de palha. Eu podia lançar Luz a vida toda sem me arranhar — o ferreiro não teme a espada que forja. O que eu não podia era receber.
E Ela me deu de receber.
Foi um feixe. Branco-dourado, reto, grosso como o meu braço, e veio direto pra mim com o peso de um meio-dia inteiro condensado num talho. O meu 《Olho de Cinzas》 estava no caminho — a fuligem era espessa entre nós dois, girando — e a nuvem fez o que eu pedi que fizesse: dispersou o feixe, espalhou aquele sol numa névoa, comeu a maior parte dele antes que chegasse.
A maior parte. Não tudo.
O que passou ainda foi sol de meio-dia enfiado num cadáver.
[ PV: 96/420 ]
Eu não tenho nervos, não tenho pele, não tenho a memória da carne que arde — e mesmo assim aquilo doeu, de um jeito que não passa por nervo nenhum, um jeito que é o próprio fato de eu não dever estar de pé sendo cobrado de uma vez. Senti o osso do meu braço esquerdo estalar e enegrecer onde o feixe roçou apesar da névoa, senti a luz tentar me desfazer, devolver à poeira a poeira que o glitch tinha juntado de volta — e por um segundo branco e terrível eu não soube se ia continuar inteiro.
Trezentos e tantos de vida sumiram que nem a minha mana vinha sumindo: de uma vez, sem aviso útil, do jeito que eu sempre temi que a vida fosse embora, em pedaço grande e rápido, agora.
Mas — e essa foi a única graça naquele inferno — pra me dar o sol, Ela teve que parar de cavar o ralo. Não dá pra puxar e empurrar com a mesma mão. E a minha cinza, que Ela acabou de usar como parede pra eu não morrer, estava mais grossa do que nunca, revolvida pelo próprio feixe que ela espalhou.
Ela mirou de novo, pra terminar o serviço. E hesitou. Porque a fuligem que eu girava tinha engrossado tanto, alimentada pelo calor do próprio tiro Dela, que o segundo feixe nasceu já fosco, já mastigado, e morreu na névoa antes de me achar. Ela tinha se cegado na minha cinza. A soberana de mana âmbar, no meio do escuro que ela mesma ajudou a levantar, de repente não enxergava o cadáver que queria apagar.
Eu estava de joelhos. Não lembro de ter caído. O meu braço esquerdo era um graveto preto que não respondia direito. A minha barra dizia uma coisa, a minha vida dizia outra, e as duas diziam acaba logo.
[ MP: 58/1.000 ]
E foi de joelhos, com noventa e seis de vida e meio braço, cega ela e cego eu na mesma cinza, que eu finalmente me lembrei da carta que eu vinha guardando na manga desde que um basilisco me cuspiu de volta pro mundo.
Eu tinha uma runa. Uma só. A runa que um deus de um olho só me deu numa quest que eu nunca pedi, a runa que multiplica o que eu sou e cobra, toda vez, o preço mais antigo que existe.
Eu nunca quis aplicá-la de novo. Guardei. Adiei. Disse a mim mesmo que era carta pra uma hora pior. Olhei pra cara quase humana Dela tateando a fuligem atrás de mim, olhei pros três no chão, olhei pra minha própria mão de osso tremendo num tremor que osso não devia ter — e pensei, com toda a clareza fria de quem já morreu antes e sabe a textura da coisa: se existe hora pior do que esta, eu não quero conhecer.
— Você falou tanto do seu poço — eu disse, e dessa vez fiz questão de que Ela ouvisse cada palavra dentro da própria cabeça. — Deixa eu te mostrar uma coisa que a gente faz lá de onde eu venho, quando o poço do outro é mais fundo.
E apliquei a Jera.
A dor do olho veio antes do alerta. Sempre vem. É a única coisa naquele sistema todo que acontece antes de o sistema avisar — como se a runa fosse mais velha que as regras, mais velha que a tela, e cobrasse na mão, na carne, no osso, antes de a burocracia alcançar. O meu olho esquerdo — o que o basilisco me devolveu, o que eu reconquistei morrendo, o único par que eu tinha — secou na órbita, escureceu, e foi. Pagamento à vista. O tapa-olho do velho, de novo, que eu nunca expliquei pra ninguém e nunca vou.
[ 'Jera — A Runa de Odin' aplicada. ]
[ Inteligência: 1 [x300]. ]
[ MP: 87/1.500 ]
Mil e quinhentos.
O denominador mudou, e eu senti acontecer dentro de mim como uma sala que ganha um pé-direito novo, o teto subindo enquanto eu olho. O meu reservatório — o tal "poço" que Ela tinha medido com tanto desdém — acabava de ficar mais fundo que o Dela. Mil e quinhentos contra mil e duzentos. Pela primeira vez na noite, na vida, no que quer que fosse aquilo, eu era o maior.
E a regra era Dela. Ela mesma tinha dito: dois ralos no mesmo poço, vence o maior, sempre.
Eu empurrei no 《Olho de Cinzas》 o pouco de mana que ainda me sobrava — era tudo o que eu tinha, e não precisava de mais, porque a forma era crua e só mandava na poeira que já estava solta no ar, não me pedia pra criar nada do nada. Não era a quantidade que ia decidir aquilo. Era a profundidade. O meu reservatório, agora, era mais fundo que o Dela — e um redemoinho grande engole o pequeno, todo mundo que já viu água sumir por um ralo sabe disso. O meu funil de cinza inchou, rugiu, engoliu o do Dela inteiro — e a corrente, a corrente que vinha correndo morro abaixo pro ralo Dela a noite toda, parou. Tremeu. E virou.
[ MP: 140/1.500 ]
[ MP: 310/1.500 ]
[ MP: 600/1.500 ]
A minha barra subia agora em saltos, gorda, faminta, porque eu não estava mais repondo a minha mana — eu estava bebendo a Dela. O ralo dourado na palma Dela, a obra de uma vida inteira, a arma afiada estação após estação pra arrancar a mana de uma campeã do céu do próprio corpo dela, continuava aberto, sugando com toda a força — mas o cano que Ela enfiou em mim agora corria pro lado errado, e Ela não conseguia fechá-lo, porque quem abriu o cano foi Ela, não eu. Eu só tinha ficado maior. E o maior vence. Sempre.
Foi a vez Dela de ver o número descer. Não que Ela tivesse uma tela — mas Ela tinha os olhos, e eu vi nos olhos âmbar sem pálpebra o instante exato em que a luz que pulsava por baixo da carapaça Dela, aquela mana densa demais pra um corpo só, começou a diminuir. A vazar pelo ralo errado. A vir pra mim.
— Não — disse Ela, e pela primeira vez a voz não estava calma, nem carinhosa, nem soberana. Estava velha. — Não, isto é meu, eu cavei isto, eu desci mais fundo do que qualquer rainha pra—
— Eu sei — eu disse. — Você me contou. A obra de uma vida. A arma feita pra Joana. — Eu me pus de pé, devagar, o braço preto pendurado, o funil de cinza rugindo entre nós e crescendo a cada batida de coração que eu não tenho. — Foi um belo discurso. Pena que você gastou ele num cadáver.
A luz Dela apagava. As placas em leque das costas, que tinham se aberto em fúria coroada, fechavam-se devagar, sem força. Os pontos de âmbar pelo corpo Dela piscavam como brasa que alguém pisou — eu conhecia aquilo, tinha visto a mesma luz morrer por baixo da casca dos dois Colossais. Ela cambaleou. A soberana que nunca precisou se apressar na vida pôs um joelho no chão.
E eu, que não venço nada pela força, lembrei que ainda faltava a parte da força.
Porque mana não mata rápido. Eu podia sugar Ela até a última gota e, mesmo seca, Ela ainda levaria tempo demais pra tombar — tempo de sobra pra uma garra daquele tamanho me reduzir a cascalho antes de cair. Drenada ou não, Ela ainda seria três homens de altura de quitina e dentes de agulha, e eu ainda seria osso. O 《Olho de Cinzas》 neutralizava — cegava, drenava, apagava a luz. Não cortava. E entre Ela e mim havia um último véu daquela Luz teimosa, um resto de claridade dourada que Ela ainda segurava na frente do corpo como um escudo agonizante, e aquela Luz, mesmo morrendo, ainda me feria se eu atravessasse de osso nu.
Então eu não atravessei de osso nu.
Eu tirei a lança das costas — a lança comum, tosca, vergada no meio desde que o Pesa-Almas a torceu, a ferramenta de tropa que eu nunca troquei porque ferramenta boa a gente não joga fora. E em vez de correr nela o breu que eu sempre corro, a Flecha Negra que rouba vigor, eu corri o que eu tinha de novo. Imbuí a haste de Cinzas.
A mesma poeira que embaçava a Luz Dela, eu enfiei na ponta da lança. Uma haste vergada coberta de uma película de cinza girante, fosca, que bebia claridade em vez de refleti-la.
— 《Imbuir》 — eu disse, mais pra mim do que pra Ela, porque às vezes a gente narra o próprio golpe pra ter coragem de dá-lo.
E arremessei.
A lança atravessou o último véu de Luz Dela como uma agulha fosca atravessa um vidro de sol — a cinza na ponta comeu a claridade no caminho, abriu um talho de penumbra naquela cortina dourada, um buraco escuro no escudo de luz, uma brecha. Não pra ferir. Pra abrir. A lança raspou o ombro Dela e cravou na pedra atrás, e onde ela passou ficou um rasgo de ar morto, sem brilho, do tamanho exato de um esqueleto decidido.
Eu entrei pela brecha.
Quatro passos. A espada de adamante já na mão direita, a única mão que ainda me obedecia, leve como sempre foi pra uma Força que agora beirava o absurdo. A lâmina negro-esverdeada que eu achei sem dono num templo dourado, a que ignora qualquer couraça, qualquer carapaça, qualquer escama — a que, eu sempre desconfiei, alguém forjou anos antes de mim depois de chegar exatamente às conclusões a que eu cheguei: que aquele organismo todo, a colônia inteira, os milhares de bocas e garras e a terra respirando no compasso das mandíbulas, tinha uma só morte. A da cabeça.
Ela ergueu os olhos âmbar pra mim. Não havia mais Luz neles pra me ferir. Havia o luto, ainda, e o rancor, e — bem no fundo, na última fagulha — alguma coisa que num ser de cara humana eu só consigo chamar de surpresa. A surpresa de quem passou estações afiando o fim de uma campeã do céu e morre nas mãos do lixo que andava.
— Você não é a campeã — disse Ela, baixinho, e foi quase um queixume. — Você é nada. Como pode o meu fim ser nada—
— Eu sou o que a morte cuspiu de volta — eu disse. — Você devia ter deixado eu apodrecer em paz.
E cortei.
O adamante fez o que adamante faz. Não houve a resistência da couraça, não houve o estalo da quitina; houve só o peso da minha Força levando uma lâmina que não conhece o conceito de "não passa" através de um pescoço que nenhuma outra coisa naquele mundo teria atravessado. A cabeça coroada de Trichonymphea, a mais humana e por isso a pior das coisas que o Fosso pariu, separou-se do trono de carne que a sustentava e caiu na cinza do meu próprio chão.
[ Você derrotou: Trichonymphea, a Rainha Isopteriana. ]
E aí o mundo inteiro gritou.
Não com som — eu não ouço som. Gritou por baixo do som, naquele lugar onde a telepatia me deixa sentir as mentes, e por um segundo a minha cabeça encheu de milhares de vozes que não eram vozes, milhares de "nós" perdendo o "nós" ao mesmo tempo, a colônia inteira sentindo o fio que a costurava ser cortado de uma vez. Lá longe, fundo nos túneis, eu senti Operários pararem no meio de um passo. Soldados largarem a mandíbula que mordiam. A terra, que respirava no compasso Dela, prender o fôlego — e não saber mais como soltar.
O sistema, indiferente como sempre, começou a despejar o que aquilo me rendia.
[ Você subiu de nível! ]
[ Você subiu de nível! ]
[ Você subiu de nível! ]
[ Você subiu de…
Eu fechei a tela com um pensamento, do jeito que se enxota uma mosca. Depois. Os números podiam esperar. Eu tinha um olho a menos, meio braço de carvão, mil e quinhentos de uma mana que metade era roubada de uma rainha morta, e uma câmara cheia de gente que precisava de mim mais do que eu precisava saber quantos degraus eu tinha subido apagando a mãe daquele lugar com as cinzas dos filhos dela.
Porque era isso que eu tinha feito, e o pensamento me ocorreu com uma nitidez que não combinava com a vitória. Eu não a venci com a minha mana. Venci com a mana dos meus mortos — a poeira deles, suspensa no ar, que eu girei num funil e usei de escudo e de arma e de brecha. Apaguei a mãe com as cinzas dos próprios filhos que ela encheu com a própria mão. Tem vitória que a gente comemora. E tem vitória que a gente só fica de pé olhando, esperando o enjoo passar.
— Osso.
A voz veio fraca, do chão, e era a do Gobe. A sucção tinha morrido com Ela, e a mana voltava devagar aos três como cor voltando a um rosto. Freala já estava se erguendo na coluna, a mão no peito; Quagô se mexia, os olhos redondos arregalados pro corpo decapitado que enchia metade da câmara. O Gobe, ainda de costas, tinha só virado a cabeça pra me achar com o canto do olho.
— Você está com um olho a menos — ele disse.
— Estou.
— Era o bonito?
— Eram os dois iguais, Gobe.
— Pena. — Ele tossiu, e a tosse virou quase riso. — Eu ia dizer que você melhorou de cara. Mas aí lembrei de quem eu tava falando.
Eu teria rido, se eu rio. Foi a coisa mais normal que aconteceu em horas, e eu agarrei aquilo como quem agarra um corrimão.
Freala chegou primeiro, mancando, o braço enfaixado, e parou diante do corpo Dela sem chegar perto da cabeça. Ficou olhando a carapaça apagada, as placas em leque agora moles, a luz âmbar de vez em quando dando um último pulso fraco no ventre Dela e morrendo.
— Acabou — ela disse, e não era pergunta, era espanto. — A coisa que mandava em tudo aqui embaixo. Você cortou a cabeça dela.
— A gente cortou — eu disse. — Você arrancou dois cavaleiros do céu pra chegar até aqui. O Gobe varreu uma horda e quase morreu nisso. O Quagô segurou dois guardiões com uma corda de osso. Eu só dei o último passo. — Olhei pra cinza no ar, que finalmente, agora, começava a assentar. — E pisei numa montanha de gente morta pra dar.
Ela me olhou de um jeito que eu não soube ler, e talvez fosse melhor não saber.
Foi o Quagô que estragou a paz — e foi bom que estragasse, porque a paz, ali, era mentira.
Ele tinha se afastado de nós, andando torto pro fundo da câmara, pra onde o chão descia rumo aos ramais por onde a gente devia seguir. O caminho do mar. A saída que o Görö desenhou no mapa de casca, a subida sem Rainha, a rota toda pela qual a gente atravessou meio inferno pra alcançar. O Quagô parou na beira da descida, e o corpo de sapo dele, que entende de água como eu entendo de osso, ficou rígido.
— Osso — ele disse, e a voz dele tinha perdido toda a piada. — Vem ver.
Eu fui. E ouvi antes de ver: um sussurro fundo, contínuo, crescente, subindo pelos túneis lá embaixo. Água.
— A colmeia segurava a água — disse o Quagô, e ele falava rápido agora, o guia voltando por cima do soldado por cima do amigo. — As calhas, as comportas, os baldes, o meu povo curvado nas calhas a vida inteira — não era capricho dela. Era isso. Ela mandava na água deste fosso inteiro. Quem abria, quem fechava, pra onde ia. — Ele apontou pro escuro lá embaixo, de onde o sussurro subia. — Você cortou a cabeça que mandava. Ninguém mais está segurando nada. A água achou o caminho mais fundo e está enchendo ele. — Ele me olhou. — O caminho do mar é o mais fundo de todos, osso. A nossa saída está virando rio.
Eu olhei pra descida, pro escuro de onde a água subia, e tive vontade de rir do jeito mais amargo possível. Eu tinha matado a única coisa entre a gente e a liberdade, e ao matá-la afoguei a porta.
— Quanto tempo — perguntei.
— Não muito. — O Quagô já recuava da beira. — Uma hora. Menos, se um teto ceder lá embaixo. E vários vão ceder. Eu desabei meia câmara de cinza em cima da minha própria cabeça hoje, osso, então acredite, vários vão ceder.
Atrás de nós, Freala tinha entendido. Vi no rosto dela.
— Então não dá pra descer — ela disse. — A única rota que a gente conhecia pra fora.
— Não a única.
Foi o Gobe quem falou. Ele tinha conseguido se sentar, encostado numa das minhas colunas tortas, pequeno e cinzento e exausto, e olhava pra parede do fundo da câmara — pra cortina de pedra rachada de onde Ela tinha entrado, a fenda pela qual a soberana desceu do coração da colônia pra vir nos espremer.
— Ela veio de algum lugar — disse o Gobe. — Coisas grandes não brotam do chão. Ela desceu por ali, do fundo de onde ela morava, e o fundo de onde ela morava é o coração disto tudo. — Ele apontou com o queixo pra fenda âmbar, escura agora que a luz Dela tinha morrido. — A câmara da Rainha. O lugar mais alto e mais fundo desta colmeia ao mesmo tempo, porque é dali que tudo sobe. A seiva. A água, antes de descer. Ela. — Ele me olhou, e debaixo da exaustão tinha aquele brilho de quem sabe demais e às vezes deixa escapar. — Se existe um caminho curto pra cima neste buraco, osso, é por dentro do quarto dela.
Eu olhei pra fenda. Pro escuro de onde a coisa mais poderosa do Fosso tinha saído pra morrer aos meus pés. O lugar onde, segundo tudo o que a gente tinha juntado pelo caminho — o templo, o xamã, os cavaleiros que falavam —, sangrava a raiz arrancada da árvore que tem raízes em todos os mundos. Onde uma senhora da floresta estava trancada havia tempo demais. Onde a fonte de tudo aquilo ainda escorria, no escuro, sem dono pela primeira vez em eras.
A água subia atrás de nós. A frente, a porta aberta do quarto de uma rainha morta.
— Levantem o Gobe — eu disse. — A gente sobe.
Ninguém discutiu. Não havia o que discutir — atrás era afogar, na frente era o desconhecido, e a gente já tinha aprendido fazia tempo que no Fosso o desconhecido é sempre a melhor das opções ruins. A Freala pôs o ombro bom debaixo do braço do Gobe. O Quagô recolheu a corda de osso e a minha lança vergada da parede onde ela tinha cravado. Eu fiquei por último, como sempre fico, e antes de seguir olhei mais uma vez a cabeça coroada caída na cinza, os olhos âmbar já apagados, a boca quase humana entreaberta sobre os dentes de agulha que não eram de gente nenhuma.
Você devia ter me deixado apodrecer em paz, eu pensei de novo. E então, porque eu sou quem sou, completei: e eu devia ter aprendido, a esta altura, que ninguém neste buraco deixa ninguém em paz.
Virei o rosto — o lado do olho que sobrou — pra fenda escura, pro quarto da rainha, pro caminho que subia.
E entrei nele.
[ Você subiu de nível! ]
[ … ]
— Depois — eu disse pra ninguém, e fechei a tela mais uma vez, e subi atrás dos meus na direção do coração do mundo.