Passava das cinco da madrugada quando o inferno desabou sobre o abrigo.
Na superfície da montanha, acima do bunker subterrâneo, o acampamento de civis estava imerso no silêncio.
Casas de madeira improvisadas e rústicas preenchiam o pátio, todas protegidas por altos muros de pedra.
Aquelas barreiras eram úteis para conter as hordas de zumbis comuns, mas inúteis contra o verdadeiro terror que vinha do céu.
No topo de uma das torres de vigilância, dois guardas tentavam espantar o sono.
De repente, um som cortou a brisa fria.
Um bater de asas massivo e pesado, acompanhado por um estalar de ossos expostos.
- GRRRRAAAARGH!
- Que... Que barulho é esse?
- perguntou um dos vigias, a voz tremendo enquanto tateava o cabo de sua espada.
Antes que o companheiro pudesse responder, a escuridão acima deles foi rasgada.
Uma silhueta colossal de quinze metros de envergadura colidiu de frente contra a torre vizinha.
O impacto foi brutal.
A estrutura de madeira e ferro explodiu em estilhaços com um estrondo ensurdecedor.
Do meio dos escombros, o monstro alado se ergueu, sacudindo a cabeça decomposta. Parecia um morcego gigante em carne viva, exalando um odor insuportável de podridão.
- O que essa monstruosidade está fazendo aqui?!
- gritou o guarda restante, o rosto paralisado em puro pavor.
- Não deveria existir um mutante desses a centenas de quilômetros de distância!
O monstro bateu as asas, erguendo-se no ar. Com um movimento chicoteante, sua cauda longa e pontiaguda disparou para a frente, perfurando o peito de um guarda soterrado nos escombros.
- A-Alguém... me ajuda... socorr...
- o homem tossiu sangue, acordando no susto antes de ter sua cabeça esmagada pelas mandíbulas escancaradas da criatura.
Logo atrás, outro mutante mergulhou das nuvens, cravando seu ferrão venenoso diretamente na nuca de mais um soldado.
O vigiar da torre sobrevivente engoliu em seco, assumindo uma postura séria apesar do terror.
- Rápido! Vá avisar os comandantes! Eu vou soar o alarme para recolher os civis!
- ordenou ele ao parceiro.
- Tudo bem! Tome cuidado, eu já volto com os reforços!
A sirene de emergência começou a berrar, ecoando tanto na superfície quanto nas profundezas do bunker militar.
O som estridente transformou a base em um formigueiro humano.
Civis corriam desesperados em direção às portas blindadas do subsolo, enquanto guardas empunhavam suas espadas longas, tentando desesperadamente ganhar tempo.
No alojamento feminino, o barulho despertou Maria sobressaltada.
Ela sentou-se na beliche e olhou imediatamente para o lado. A cama estava vazia.
- Penny...? Para onde você foi no meio dessa confusão?!
- murmurou Maria, o coração apertado de preocupação.
Longe dali, empoleirada no galho de uma árvore extremamente alta que vigiava todo o vale, Penny assistia ao espetáculo.
Graças aos seus poderes, ela estava completamente invisível, indetectável para humanos ou monstros.
- Eu sabia que esses bebês fofinhos iriam tornar essa história bem mais interessante!
- exclamou Penny, balançando as pernas no ar com um sorriso radiante, enquanto observava, lá embaixo, os mutantes dilacerarem os humanos que não conseguiram correr a tempo.
Enquanto o sangue manchava a terra na superfície, um guarda esmurrava uma porta de metal nos níveis mais profundos do bunker.
- Senhora Lara! Rápido! Mutantes voadores estão atacando a base! - gritou o soldado, sem fôlego.
A porta se abriu com um clique seco.
Uma pressão esmagadora emanou do quarto quando a Comandante Lara deu um passo à frente.
Suas vestes militares estavam perfeitamente alinhadas, e a mão direita repousava calmamente no cabo de uma katana presa à cintura.
Um tapa-olho cobria seu olho esquerdo, escondendo cicatrizes profundas de garras antigas.
- Certo. Vamos logo acabar com esses mutantes.
- disse a Comandante Lara, sua voz imponente e gélida ecoando pelo corredor.
- Avise os outros comandantes. Quero todos na superfície com seus esquadrões de elite imediatamente.
- GRRRRAAAARGH!
O céu parecia rasgar enquanto os monstros mutantes despencavam sobre o pátio, esmagando ossos de civis e soldados sob suas garras massivas.
No meio do banquete de sangue, um dos soldados de elite da Comandante Lara avançou.
Com um único arco preciso de sua espada reluzente, ele decepou a cabeça de um dos mutantes em pleno voo.
- Criaturas imundas...
- rosnou o soldado, limpando o sangue negro da lâmina.
Mas o alívio durou pouco.
Atrás dele, o cadáver da fera começou a borbulhar.
Tecidos musculares se expandiram e ossos estalaram enquanto uma nova cabeça se reconstruía do zero absoluto em segundos.
- GRRRRAAAARGH!
O monstro regenerado ergueu voo, os olhos injetados de fúria cravados no homem que o havia degolado.
A mandíbula colossal se escancarou a milímetros do rosto do soldado paralisado pelo choque.
Antes que os dentes cravassem, um flash de prata cortou a noite.
A Comandante Lara moveu-se em uma velocidade tão absurda que os olhos humanos só registraram o rastro do vento.
Quando o soldado piscou, o monstro à sua frente caiu fatiado.
E não foi o único.
Em menos de um piscar de olhos, os corpos de todas as 27 criaturas que infestavam o pátio desabaram no chão, decapitados pela katana da comandante.
- Soldado Enrique.
- Lara embainhou a arma com um estalo seco.
- Jamais abaixe a guarda contra um mutante.
- O-Obrigado, Comandante Lara!
- gaguejou o homem, suando frio.
A calmaria, contudo, foi uma ilusão.
No chão, a carne decepada dos monstros começou a se contorcer em uma velocidade ultra-avançada.
Uma sinfonia de rugidos idênticos ecoou, fazendo o solo e as paredes do bunker tremerem.
Todas as feras estavam de pé novamente, regeneradas e com os olhos fixos na mulher de tapa-olho.
- Eu sabia que não seria tão fácil...
- resmungou Lara, a voz carregada de irritação profunda.
- A habilidade principal dessas pragas é a regeneração. Precisamos de fogo.
- Você está me dando ordens?
Um homem de aproximadamente 25 anos, vestindo o uniforme militar negro dos generais e ostentando uma expressão severa, caminhou calmamente em direção ao caos.
Suas mãos já faiscavam com pequenas brasas.
- Comandante Raven, que bom que apareceu. Estava justamente precisando das suas chamas - disse Lara, mantendo o tom gélido.
- Como já deve ter notado, a regeneração deles é ultra-avançada.
- Por que você mesma não usa suas habilidades de gelo, Comandante Lara? Acredito que congelá-los funcionaria. Ou estou enganado?
- rebateu Raven, o tom de voz banhado em deboche.
Internamente, o sangue de Raven fervia de pura inveja: "Lara, você se acha superior a mim.
Mas é bom lembrar que não fico muito atrás. Você só ganha porque a sua afinidade elemental é ligeiramente mais forte!"
- Não estou pedindo a sua opinião, Comandante Raven
- cortou Lara.
Naquele instante, ela liberou sua aura de combate.
A pressão esmagadora fez o ar ao redor ficar tão denso e pesado que até mesmo os mutantes no chão se assustaram, batendo asas em pânico para recuar em direção ao céu.
- Certo, certo. Eu ajudo
- bufou Raven, cedendo diante da intenção de matar da mulher.
- Mas você vai ficar me devendo uma. Não se esqueça disso.
Ignorando completamente o comentário, Lara flexionou os joelhos e disparou em direção aos céus com um salto sobre-humano.
Sua lâmina partiu o ar, decapitando a criatura mais alta.
Usando o corpo massivo do monstro em queda como plataforma, ela saltou de fera em fera, executando uma sequência de cortes de uma brutalidade esmagadora.
Raven assistiu à cena lá de baixo, engolindo em seco: "Que ogra grotesca... É por isso que já está na casa dos 32 anos e nunca arranjou um namorado."
À medida que os corpos decapitados choviam do céu, Raven estendeu as mãos.
Rajadas de fogo mágico e violento irromperam de suas palmas, incinerando os cadáveres antes que a regeneração pudesse começar.
Em poucos minutos, restaram apenas cinzas flutuando no ar da madrugada.
- Acho que esse foi o último
- disse Raven, limpando a fuligem do rosto.
Lara pousou do céu em uma pose imponente, a katana limpa de qualquer rastro de sangue. Ela caminhou até o rival.
- Comandante Raven. Bom trabalho.
- Obrigado, eu acho... - murmurou ele, detestando o fato de receber um elogio logo da pessoa que ele mais queria superar.
No topo da árvore mais alta, Penny assistia ao fim do espetáculo, os olhos amarelos brilhando no escuro.
- Que personagens interessantes...
- sorriu a garota, balançando as perninhas invisíveis.
- Eu não sabia que os humanos desse livro seriam tão fortes, considerando que é apenas um apocalipse comum.
Lá embaixo, duas figuras se aproximaram do pátio agora limpo.
O Comandante Gideon, exibindo seu habitual sorriso desdenhoso, e a Comandante Katerina, uma mulher misteriosa cujos olhos eram parcialmente ocultados pela aba de seu quepe militar negro.
- Vocês dois chegaram atrasados
- pontuou Lara, encarando-os.
- Ora, de qualquer forma vocês dois já resolveram tudo. Isso é o que importa, não é, Comandante Lara?
- respondeu Gideon, tentando manter sua falsa postura de superioridade.
Enquanto os três conversavam, Katerina permaneceu em silêncio absoluto. Seus olhos vagaram pelo perímetro até pararem exatamente na copa da árvore distante.
Ela sentiu uma flutuação.
Uma presença sinistra, fria e completamente alienígena.
Na árvore, o sorriso de Penny congelou por um milésimo de segundo.
- Que estranho... Nenhum ser escrito nesta história deveria ser capaz de notar a minha presença.
Katerina franziu o cenho sob o chapéu, piscando os olhos e quebrando o contato visual com a folhagem: "Que bizarro. Eu podia jurar que senti algo vindo daquela árvore... Deve ter sido apenas impressão."
Usando seu teletransporte, Penny distorceu o espaço e reapareceu instantaneamente em sua cama no alojamento, pensativa: "Aquela mulher... Ela parece perigosa. Seus sentidos conseguiram raspar na minha existência, mesmo eu não ocultando totalmente a minha presença. Isso foi... inesperado."
Seus pensamentos metalinguísticos foram interrompidos pelo estalo da porta abrindo. Maria entrou correndo, o rosto pálido de pavor.
- Penny! Onde você estava?! Eu te procurei por toda parte!
- exclamou a mulher, puxando a menina para um abraço apertado.
- Mutantes voadores atacaram a base... Tive tanto medo de você ter saído. Que bom que você está viva!
Penny manteve a expressão dócil enquanto sua mente ironizava: "Sério que ela se importou tanto? Se ela soubesse que fui eu quem chamou aqueles monstros para cá só porque estava entediada, que cara ela faria? Seria hilário ver... mas vou ficar quieta."
- Eu acordei no meio da noite e não consegui mais dormir, então fiquei andando pelos corredores
- mentiu Penny, com a voz mais inocente do mundo.
- Aí deu um tremor forte e a porta da sala onde eu estava acabou travando. Ouvi os guardas correndo, gritei por socorro e um deles abriu para mim.
- Sério? Meu Deus, que alívio... O importante é que você está bem - suspirou Maria, visivelmente mais calma.
- Penny, vou precisar sair para ajudar com os estragos, então não saia deste quarto. Mais tarde, quando tudo se acalmar, nós vamos nos mudar para as cabanas da superfície.
- Tá bom!
- respondeu Penny, sorrindo docemente.
Assim que Maria fechou a porta e a deixou sozinha, a atmosfera mudou.
Em outra dimensão chamada de O Reino dos Pesadelos, muito além daquele livro, no topo de um palácio em ruínas de 10.000 metros de altura, o alarme ecoou. Em uma das prateleiras, um livro específico começou a emitir um brilho vermelho incandescente. Na Torre Negra correspondente àquela ala, uma fenda profunda rasgou o concreto de 700 metros da torre.
No mesmo milésimo de segundo, no dormitório do abrigo zumbi, uma rachadura fina e brilhante surgiu no rosto de Penny, cortando sua bochecha como se ela fosse uma boneca de porcelana prestes a quebrar.
- Ha... HaHaHa!
- Penny soltou uma risada genuína, ácida e empolgada.
- Então uma anomalia real acabou de acontecer em outro universo do mestre? Que emocionante!
Fim do Capítulo 2.