Capítulo 2: O Banquete de Sangue
Passava das quatro da madrugada quando o inferno desabou sobre o abrigo. Na superfície da montanha, acima do bunker subterrâneo, o acampamento de civis estava imerso no silêncio da noite. Casas de madeira improvisadas e rústicas preenchiam o pátio, todas protegidas dentro das enormes muralhas de pedra que cercavam o pé da montanha. Aquelas barreiras eram úteis para conter as hordas de monstros terrestres, mas completamente inúteis contra o verdadeiro terror que vinha do céu.
No topo de uma das torres de vigilância sobre as muralhas, dois guardas bocejavam, lutando contra o sono pesado da madrugada. De repente, um som desconhecido cortou a brisa fria da noite: um bater de asas massivo e pesado, acompanhado pelo estalo macabro de ossos se retorcendo no ar.
— GRRRRAAAARGH!
— Que... Que barulho foi esse? — perguntou um dos vigias, despertando sobressaltado. Ele arregalou os olhos, varrendo a escuridão para tentar encontrar a origem do som.
— De que som você está fal—
KRA-CHRONKKK-SHHHH!
Antes que o companheiro pudesse terminar a frase, a escuridão acima deles foi rasgada. Uma silhueta colossal, com quinze metros de envergadura, colidiu de frente contra a torre vizinha. O impacto foi brutal. A estrutura de madeira e ferro explodiu em estilhaços com um estrondo ensurdecedor de vigas se partindo e metal retorcido voando pelo ar.
Do meio dos escombros fumegantes, o monstro alado se ergueu, sacudindo a cabeça decomposta. Parecia um morcego gigante em carne viva, exalando um odor insuportável de carniça e podridão que empesteou a muralha.
Quando a poeira baixou, os rostos dos guardas sobreviventes empalideceram. À distância, os olhos tingidos de sangue da criatura fixaram-se neles.
— O que essa monstruosidade está fazendo aqui?! — gritou um dos vigias, levando as mãos ao rosto em puro pavor. — Esse tipo de monstro só deveria existir na cidade em ruínas, a dezenas de quilômetros daqui!
O monstro bateu as asas, erguendo-se no ar. Com um movimento chicoteante, sua cauda longa e pontiaguda disparou para a frente, perfurando de um lado ao outro o peito de um terceiro guarda que tentava escapar dos escombros da torre destruída. A ponta brotou nas costas do homem, erguendo-o no ar em direção às mandíbulas da fera.
— A-Alguém... me ajuda... socorr... — balbuciou o soldado empalado, interrompido por um jorro de sangue que lhe escapou pela boca.
À beira da morte, ele olhou para cima, vendo as mandíbulas da criatura avançarem. Em um único estalo, as enormes mandíbulas arrancaram e engoliram sua cabeça. Sangue jorrou em jatos violentos do coto do pescoço. As mãos do homem, que antes agarravam a cauda do monstro em um reflexo desesperado, desabaram molengas. Com um movimento violento, a criatura sacudiu a cauda, arremessando o restante do cadáver contra a torre dos sobreviventes. O impacto foi tão brutal que o corpo explodiu contra a parede, pintando a estrutura de sangue, carne e vísceras.
Logo acima deles, o céu se rompeu novamente. Um segundo mutante mergulhou das nuvens, cravando o ferrão de sua cauda diretamente na nuca de outro soldado ferido que tentava se levantar dos escombros da primeira torre.
Na torre que restara de pé, o vigia engoliu em seco, assumindo uma postura firme apesar do terror que lhe gelava a espinha.
— Rápido! Vá avisar os comandantes! Eu vou soar o alarme para recolher os civis! — ordenou ele ao parceiro.
— Tudo bem! Tome cuidado, eu já volto com os reforços!
A sirene de emergência começou a berrar, ecoando tanto na superfície da montanha quanto nas profundezas do bunker militar. O som estridente transformou a colônia em um formigueiro humano. Civis saíam gritando desesperados de suas casas, alguns carregando os filhos no colo, correndo em direção às portas blindadas do subsolo. Ao mesmo tempo, guardas empunhando espadas longas marchavam para fora do bunker.
Entre os defensores, uma jovem de cabelos negros e curtos avançou. Ela sacou uma espada gigante de suas costas com uma facilidade impressionante. Em uma velocidade sobre-humana, a guerreira interceptou o primeiro monstro, que estava prestes a devorar um civil encurralado. A lâmina massiva cortou o ar, abrindo um rasgo profundo no peito da criatura.
As vísceras do mutante despencaram no chão enquanto ele rugia em fúria. Porém, logo em seguida, o horror se multiplicou: as entranhas expostas se contorceram como cobras vivas, rastejando de volta para dentro da barriga do monstro. A ferida se fechou instantaneamente, colando a pele sem deixar nenhuma cicatriz ou marca.
O monstro fixou os olhos vermelhos na mulher, encarando-a.
— GRRRRAAAARGH! — o mutante rugiu em fúria, tentando intimidá-la com seu hálito podre.
A guerreira nem piscou. Ela apenas ergueu sua espada gigante, agora coberta pelo sangue escuro da criatura, apontando a lâmina diretamente para a fera. Havia uma frieza e uma calma assustadoras em seu olhar para aquela situação.
— Pode vir, sua aberração imunda.
Longe do caos do campo de batalha, no alojamento feminino localizado nas entranhas do bunker, o som abafado de botas marchando às pressas despertou Maria sobressaltada. Ela se sentou no beliche, esfregando o rosto na tentativa de espantar o sono. Assim que se levantou, olhou para a cama de cima. Estava vazia.
— Penny...? Para onde você foi no meio dessa confusão?! — murmurou Maria, com o coração apertado. Sem entender o motivo do alarme estridente e da movimentação frenética no corredor, ela abriu a porta do alojamento e deu de cara com uma soldada que parecia ter se fardado às pressas.
— Você não pode sair! — barrou a militar, empurrando levemente o ombro de Maria para trás. — Devido ao que está acontecendo na superfície, o regulamento proíbe o acesso de civis até lá nessas situações. Por isso, permaneça aqui em seu quarto.
— Mas o que está acontecendo lá fora? — questionou Maria, mas ficou sem resposta. A soldada virou as costas e se afastou correndo pelo corredor.
Na superfície, o cenário era de puro horror. Monstros mergulhavam em rasantes violentos através do céu escuro, cravando as garras nos civis antes de erguê-los no ar. Lá no alto, as feras disputavam as presas entre si, dilacerando os corpos em pleno voo e fazendo com que uma chuva macabra de braços, pernas e entranhas despencasse sobre o pátio.
Embaixo, os soldados lutavam bravamente para defender a população em retirada. Algumas famílias tentavam se esconder nas cabanas rústicas de madeira, mas as estruturas eram facilmente estraçalhadas pelas garras dos mutantes, que massacravam quem estivesse dentro. Os militares descarregavam suas armas de fogo contra os invasores, mas os projéteis pareciam não surtir efeito algum naquelas carcaças expostas; os monstros simplesmente ignoravam os tiros e avançavam para devorá-los.
Longe dali, isolada dos clamores desesperados de socorro, Penny observava toda a carnificina empoleirada no galho mais alto de uma árvore colossal. Graças às suas habilidades, ela se mantinha completamente invisível e indetectável, tanto para os sentidos apurados dos monstros quanto para os olhos humanos.
— Eu sabia que esses bebês fofos iriam tornar essa história bem mais interessante! — exclamou Penny para si mesma. Ela balançava as pernas no ar com um sorriso radiante no rosto, divertindo-se ao ver os mutantes despedaçarem os humanos que não foram rápidos o bastante para fugir.
Enquanto o sangue empapava a terra do acampamento, nos níveis mais profundos e protegidos do bunker militar, um guarda esmurrava uma porta blindada com urgência.
— Comandante Lara! Rápido! Monstros voadores invadiram o perímetro e estão atacando a base! — gritou o homem, completamente sem fôlego.
A porta de metal se abriu com um clique seco. Uma pressão esmagadora e intimidadora emanou do interior do cômodo quando a Comandante Lara deu um passo à frente. Suas vestes militares pretas estavam impecavelmente alinhadas e sua mão direita repousava com elegância sobre o cabo de uma katana presa à cintura. Um tapa-olho de couro cobria seu olho esquerdo, ocultando as cicatrizes profundas herdadas de batalhas antigas.
— Certo. Vamos logo acabar com esses mutantes — declarou a Comandante Lara. Sua voz imponente e gélida ecoou pelas paredes de concreto do corredor conforme ela começava a marchar. — Vá e relate a situação imediatamente para todos os outros oficiais. Quero todos os comandantes na superfície agora mesmo. Diga para trazerem apenas seus esquadrões de elite... Armas de fogo comuns não irão deter essas criaturas.
De volta à superfície, o céu parecia se rasgar em definitivo. Os monstros mutantes despencavam em massa sobre o pátio da colônia, esmagando os ossos de soldados e civis sob o peso de suas patas traseiras grotescas.
— GRRRRAAAARGH!
No meio do banquete de carnificina que assolava a superfície, um dos soldados de elite do esquadrão da Comandante Lara avançou em uma velocidade sobre-humana. Com um único arco preciso de sua espada gigante e reluzente, ele decepou a cabeça de um dos mutantes que acabara de bater as asas para levantar voo, carregando o cadáver de um civil na boca."
— Criaturas malditas... — rosnou o soldado, limpando o sangue negro da lâmina enquanto o corpo da fera se debatia atrás dele.
Mas o alívio durou pouco. Atrás do militar, o coto ensanguentado no pescoço do monstro começou a borbulhar. Tecidos musculares se expandiram violentamente e ossos estalaram enquanto uma nova cabeça se reconstruía do zero, em questão de segundos.
— GRRRRAAAARGH! — rugiu a criatura com a garganta recém-formada.
O monstro regenerado ergueu voo, seus os olhos injetados de fúria se fixaram no homem que o havia degolado. O soldado o encarava de volta, pronto para cortar-lhe a cabeça mais uma vez. Mas uma segunda fera despencou do céu em um mergulho fulminante, abrindo uma mandíbula colossal direto nele. Ele não teve tempo de reagir — estava todo focado no primeiro inimigo. Paralisado pelo choque, viu que não havia como desviar. Fechou os olhos, esperando o pior.
Antes que os dentes da criatura o alcançassem, um lampejo de prata cortou a noite.
A Comandante Lara moveu-se tão rápido que os olhos humanos registraram apenas o rastro do vento cortante. Quando o soldado abriu os olhos para entender por que ainda estava vivo, a cabeça do monstro desabou bem à sua frente. E aquele mutante não fora o único. Em menos de um milésimo de segundo, os corpos de vinte e sete criaturas que infestavam o pátio despencaram simultaneamente. Várias delas caíram diretamente do céu, com as cabeças decepadas rolando para um lado e os troncos grotescos colidindo contra o solo de outro.
— Soldado Enrique — disse Lara, embainhando sua katana com um estalo seco enquanto observava a chuva de carcaças que ela mesma provocara. — Jamais abaixe sua guarda contra um mutante. A maioria deles tem capacidade de regeneração.
— O-Obrigado, Comandante Lara! — gaguejou Enrique, suando frio ao ver os corpos gigantescos das feras desabarem sobre o pátio, esmagando os telhados das casas de madeira.
A calmaria, contudo, foi uma breve ilusão.
No chão, os pescoços e troncos decepados começaram a se contorcer. O som de tecidos se rasgando e ossos estalando ecoou por todos os lados. Em seguida, uma sinfonia de rugidos idênticos e ensurdecedores chocou-se contra a muralha, fazendo o solo e as estruturas de concreto do bunker tremerem. Todos os monstros estavam de pé novamente, sem um único arranhão visível em suas peles expostas. Parte das criaturas ergueu voo, e os olhos tingidos de sangue de cada uma delas fixaram-se na mulher de tapa-olho.
— Eu sabia que não seria tão fácil... — resmungou Lara, com sua voz gélida e imponente, varrendo o céu com o olhar. — A habilidade principal desses monstros parece ser uma regeneração ainda mais avançada do que a dos mutantes comuns. Para matá-los sem perder mais tempo, precisaremos de fogo.
— Espero que você não esteja se referindo a mim quando disse que precisaria de fogo?
Um homem de aproximadamente trinta anos, vestindo o mesmo uniforme militar inteiramente negro dos generais, aproximou-se. Ele ostentava uma expressão sonolenta, como se estivesse entediado e todo aquele horror ao redor fosse apenas mais um dia comum de trabalho. Ele caminhou calmamente pelo caos, indo em direção à comandante Lara.
— Comandante Raven, que bom que apareceu. Estava justamente precisando de suas habilidades de manipulação de chamas — disse Lara, mantendo o tom gélido enquanto o encarava. — Como já deve ter notado, o problema aqui é a regeneração avançada desses mutantes.
— Por que você mesma não usa suas habilidades de gelo para matá-los, Comandante Lara? Acredito que congelá-los funcionaria tão bem quanto o fogo para anular a regeneração deles. Ou estou enganado? — rebateu Raven, bocejando logo em seguida.
Internamente, o sangue de Raven fervia de frustração. *“Tsc, para que ela me chamou até aqui sendo que, se quisesse, poderia facilmente eliminar todas essas criaturas sem dificuldade nenhuma? Eu detesto o jeito que ela me dá ordens como se eu fosse um inferior, sendo que a única diferença real entre nós dois é que a afinidade elemental dela é superior à minha.”*
— Não estou pedindo a sua opinião sobre como matar esses monstros, Comandante Raven — cortou Lara, a voz subindo um tom em frieza e autoridade. — Pare de dar palpites inúteis e cumpra o seu dever.
Ao responder, Lara liberou inconscientemente uma fração de sua intenção assassina. A pressão foi tão esmagadora que três dos mutantes que sobrevoavam o pátio se assustaram com a aura da mulher e fugiram em direção às nuvens.
— Certo, certo, eu ajudo — cedeu Raven, coçando a cabeça e soltando um bocejo por ter acordado pela confusão dos monstros no meio da noite. Enquanto se preparava para enfrentar os monstros, ele começou a resmungar mentalmente: *“Que inferno... Por que essas aberrações tinham que aparecer logo de madrugada que e a melhor hora para dormir?”*
Assim que ouviu a confirmação de Raven, Lara flexionou os joelhos e disparou em direção aos céus com um salto sobre-humano. O impacto do impulso foi tão violento que o chão sob seus pés estremeceu e rachou profundamente.
Sua lâmina partiu o ar, decapitando instantaneamente a criatura que voava mais baixo. Usando o corpo gigante do monstro em queda livre como uma plataforma temporária, Lara impulsionou-se novamente. Ela começou a saltar de fera em fera no ar, executando uma sequência coreografada de cortes brutais que retalhavam os céus.
Raven assistiu à cena lá de baixo, engolindo em seco diante da demonstração de poder: *“Que ogra grotesca... É por isso que já está na casa dos trinta e dois anos e nunca arranjou um namorado. Com toda essa força, nem parece uma mulher humana de verdade. É mais um monstro do que os próprios mutantes.”*
À medida que os corpos decapitados choviam do céu, Raven puxou o ar para os pulmões. Pequenas faíscas começaram a escapar pelos cantos de sua boca e, quando ele soprou, enormes rajadas de chamas vorazes irromperam a escuridão da noite, agindo como o sopro de um dragão. O fogo atingiu as carcaças dos monstros em pleno ar exatamente no momento em que tentavam se regenerar. Ao entrarem em contato com o calor avassalador, os tecidos e ossos viraram cinzas instantaneamente, sendo dispersados pelo vento frio da madrugada.
— E eu acho que esse monstro deve ter sido o último — comentou Raven, limpando uma leve cortina de fumaça que subia de seus lábios após incinerar a última criatura.
No mesmo instante, Lara pousou do céu em uma postura imponente bem ao lado dele. Com um movimento preciso, ela sacudiu sua katana para livrar a lâmina do excesso de sangue e a embainhou com um clique seco.
— Você foi de grande ajuda, Comandante Raven. Bom trabalho — declarou Lara, sem sequer olhá-lo, continuando a marchar em frente.
— Obrigado... Eu acho — respondeu Raven, pego de surpresa pelo elogio inesperado. Internamente, ele franziu o cenho: *“Ela enlouqueceu? De onde veio esse elogio do nada?”*
No topo da árvore mais alta, Penny assistia ao desfecho do espetáculo. Seus olhos dourados rasgavam a escuridão da noite com fascínio.
— Que personagens interessantes... — murmurou a garota, com um sorriso de canto enquanto observava a dupla lá embaixo. — Eu não sabia que os humanos deste livro seriam tão fortes, muito menos que teriam poderes elementares parecidos com os de outras histórias por onde já passei. Achei que seria apenas mais um daqueles contos irritantes de apocalipse e monstros genéricos, mas não parece ser o caso. Isso está ficando divertido, haha.
Lá embaixo, mais duas figuras se aproximavam do pátio, onde restos dilacerados de soldados e civis estavam espalhados por toda parte. Chegando atrasado após o término da batalha, o Comandante Gideon exibia seu habitual sorriso de superioridade, embora sua mente fervilhasse com pensamentos mesquinhos: *“Hum, parece que muitos civis morreram. Isso é excelente, menos bocas inúteis para alimentar.”*
Vindo logo atrás dele estava a Comandante Katerina. Ela carregava a tiracolo um rifle que ostentava um design exótico, parecendo fruto de tecnologia alienígena. Katerina exalava uma presença envolta em mistério, com os olhos parcialmente ocultados pela aba rígida de seu quepe militar negro.
— Vocês dois estão atrasados — sentenciou Lara, encarando-os com uma frieza cortante por não terem prestado apoio durante a invasão.
— Ora, vamos. De qualquer forma, vocês dois já resolveram tudo por aqui. Isso é o que realmente importa, não é, Comandante Lara? — rebateu Gideon, forçando sua falsa postura de imponência enquanto pensava: *“Que absurdo... Ficar perturbando os outros a essa hora da madrugada, sendo que ela ou o Raven tinham capacidade de sobra para resolver o problema sozinhos.”*
Enquanto os três oficiais discutiam, Katerina manteve-se em silêncio absoluto. Seus olhos vagaram calmamente pelas cabanas destruídas e pelos corpos mutilados espalhados pelo chão, até que sua atenção parou abruptamente na copa de uma árvore distante.
Por uma fração de segundo, ela detectou uma sutil flutuação no ar. Era uma presença quase imperceptível, porém sinistra, inumana e completamente alienígena a tudo o que já havia sentido em sua vida.
Na árvore, o sorriso de Penny congelou por um milésimo de segundo ao notar o olhar da militar fixo em sua direção.
— Que estranho... Nenhum ser escrito nas páginas das histórias deveria ser capaz de notar a minha presença, a menos que eu permitisse — ponderou Penny, observando Katerina à distância.
Sob a aba do chapéu, Katerina franziu o cenho. Ela piscou os olhos algumas vezes, quebrando o contato visual com o galho distante: *“Que esquisito. Eu podia jurar que senti algo vindo daquela árvore... Deve ter sido apenas impressão. Hun… quando é que a Comandante Lara vai calar a boca e parar de reclamar sobre não termos ajudado na batalha?”*
Enquanto Lara continuava a repreender Gideon e Katerina, os soldados da guarnição recolhiam os restos mortais dos civis e combatentes, empilhando-os em uma enorme fogueira para serem cremados.
No galho da árvore, Penny utilizou suas habilidades para distorcer o espaço ao seu redor. Em menos de um piscar de olhos, ela desapareceu do pátio e reapareceu sentada em sua cama, no interior do alojamento. Sua mente continuava intrigada com a mulher que quase a descobrira: *“Aquela mulher... Ela parece perigosa. Se conseguiu notar um ser como eu, deve possuir uma capacidade de percepção extremamente avançada. Tudo bem que eu não estava ocultando totalmente a minha presença, mas ainda assim... Foi inesperado.”*
Seus pensamentos foram interrompidos pelo estalo abrupto da porta se abrindo. Maria entrou correndo, com o rosto pálido de puro pavor.
— Penny! Onde você estava?! Eu procurei por você em toda parte! — exclamou a mulher, puxando a menina para um abraço apertado e desesperado. — Fiquei sabendo que monstros voadores atacaram a superfície... Tive tanto medo de você ter saído do bunker. Que bom que você está bem!
Penny manteve sua expressão dócil e indefesa, embora sua mente ironizasse a situação com desdém: *“Sério que ela se importa tanto assim comigo sem nem me conhecer direito? Humanos são realmente criaturas bizarras por se preocuparem com qualquer um. Se ela soubesse quem eu sou de verdade... Ou que fui eu quem atraiu aqueles monstros para atacar este lugar, que cara ela faria? Só de imaginar, sinto uma vontade insuportável de contar... Mas vou ficar quieta por enquanto.”*
— Eu acordei no meio da noite e não consegui mais pegar no sono, não consigo dormir bem em lugares que não conheço — mentiu Penny, adotando a voz mais inocente do mundo enquanto olhava para Maria. — Aí eu saí para caminhar pelos corredores. Entrei em uma sala vazia para ver o que tinha dentro, mas de repente a terra tremeu muito forte e a porta acabou travando. Ouvi os guardas correndo e gritei por socorro, até que um deles abriu para mim.
— Sério? Que alívio... Fico tão feliz que você esteja bem — disse Maria, respirando fundo enquanto acariciava o rosto de Penny. — Penny, vou precisar subir agora para ajudar com os estragos e os feridos na superfície, então prometa que não vai sair deste quarto. Mais tarde, quando a situação se acalmar, nós vamos nos mudar para uma das cabanas da superfície.
— Tá bom! — respondeu Penny, sorrindo docemente e acenando com a cabeça.
Assim que Maria fechou a porta e a deixou sozinha na penumbra do quarto, a atmosfera mudou drasticamente. O sorriso dócil sumiu do rosto de Penny e seus olhos passaram a brilhar intensamente no escuro.
Enquanto isso, em outra dimensão conhecida como O Mundo das Histórias — muito além dos limites daquele livro —, erguia-se um palácio em ruínas com milhares de metros de altura, cujo topo rasgava as nuvens mais altas. Em uma das ilhas flutuantes que orbitavam a estrutura, um alarme estridente ecoou no topo de uma torre colossal de concreto. No interior dessa torre, cercado por prateleiras gigantescas repletas de livros, um desses livros começou a emitir um brilho vermelho incandescente. No mesmo instante em que o livro brilhou, uma fenda profunda e violenta rasgou as imensas paredes de centenas de metros da torre.
— Hun… Outra anomalia surgiu. Prevejo que logo, logo a senhorita Penny estará de volta — disse um homem de cerca de quarenta anos, observando as rachaduras se espalharem.
No mesmo instante que isso ocorreu, e que a imensa estrutura tremeu na outra dimensão, uma rachadura fina e brilhante surgiu no rosto de Penny, cruzando sua bochecha como se ela fosse uma boneca de porcelana prestes a quebrar.
— Ha... HaHaHa! — Penny soltou uma risada genuína, ácida e carregada de empolgação. — Então mais uma anomalia acabou de surgir em outra história da minha torre? Que emocionante!
**Fim do Capítulo 2.**