Após seu rosto rachar como porcelana fria, Penny entendeu imediatamente o que estava acontecendo. Ela fechou os olhos. Quando as pálpebras se abriram, suas pupilas brilharam em um dourado cortante e divino. Ao piscar mais uma vez, o quarto do abrigo desapareceu. Ela já se encontrava no interior de sua própria Torre Negra, o lugar sagrado onde guardava as diversas dimensões em forma de livros.
- Bem, eu já cheguei. Então, onde está a causa dessa anomalia? - disse Penny, com a expressão gélida e o olhar sério.
Ao começar a subir os degraus de pedra escura, ela notou uma enorme fenda luminosa rasgando a estrutura de concreto da Torre.
- Que desagradável... Eu odeio quando essas anomalias acontecem. Sempre que isso ocorre, sou obrigada a abandonar a história que estou observando - resmungou a garota, irritada.
Caminhando impulsionada por seus passos silenciosos, ela alcançou o segundo andar. Ali, um homem de aparência madura, por volta dos quarenta anos e vestido com um terno inteiramente negro e alinhado, curvou-se respeitosamente para cumprimentá-la.
- Senhorita, você já voltou? Não precisa nem me dizer o motivo... Só de olhar para as rachaduras que se espalharam pela estrutura, já sei que estamos lidando com uma anomalia - disse o homem, exibindo um sorriso caloroso no rosto.
Penny o encarou em silêncio, enquanto pensava: "Cara, esse velho ainda está vivo. Acho que ele realmente parou de envelhecer desde o dia em que jurou me servir como ajudante nesta torre."
- Oi, Alter. Vejo que você cumpre bem os seus serviços. A torre está impecável como sempre, bem diferente de cem anos atrás, quando era apenas eu por aqui e tudo parecia uma bagunça - comentou Penny. - De qualquer forma, obrigada pelo seu trabalho duro. Se bem que, após essa anomalia, você terá ainda mais o que fazer.
- Ora, o que é isso, senhorita? Não há necessidade de me agradecer. Afinal, meu dever sagrado é servi-la com total devoção - respondeu Alter, mantendo o semblante sereno.
- Tudo bem, agora chega de conversa fiada. Você sabe onde está o livro que está causando todo esse caos na minha torre? - perguntou Penny, estreitando os olhos amarelos.
- Sim, senhorita. Ele está localizado no nonagésimo andar. Eu mesmo guiarei a senhorita até lá.
Os dois começaram a subir a imensa estrutura. Para onde quer que se olhasse, o cenário era labiríntico: estantes de madeira escura e secular erguiam-se até o teto, abarrotadas de livros que pulsavam com vidas e realidades inteiras. Entre os corredores, estátuas de pedra macabras ganhavam forma, retratando figuras humanas esculpidas no ato de rasgar o próprio rosto em pânico.
Enquanto venciam os lances de escada, Alter recordou-se de um detalhe:
- Senhorita, lembrei-me agora... Cerca de sessenta anos atrás, o seu irmão veio procurá-la. Como a senhorita já estava imersa dentro de uma história, ele preferiu não interromper o seu passatempo. - Alter fez uma breve pausa. - No entanto, ele pediu para avisá-la de que, assim que retornasse, deveria passar na torre dele antes de entrar em um novo livro.
- O meu irmão? Já faz centenas de anos desde a última vez que o vi. Mas o motivo disso é que prefiro mil vezes habitar o interior das histórias do que ficar parada por aqui - justificou Penny, com uma ponta de confusão no olhar. - Ele não deu nenhuma pista sobre o que queria, Alter?
- Não, senhorita. Ele apenas me encarregou de transmitir esse recado. Pediu estritamente que o visitasse antes de iniciar sua próxima leitura.
- Tudo bem. Assim que eu resolver este paradoxo, darei uma passada na torre dele para ver o que há de tão importante.
Eles continuaram a subida silenciosa até que finalmente atingiram o nonagésimo andar. Lá, no meio de uma prateleira empoeirada, um livro específico emitia um brilho vermelho incandescente e pulsante, como um coração doente.
- Aqui está, senhorita. O livro que causou a rachadura na Torre está bem ali, naquela estante - apontou Alter.
- Certo. Muito obrigada por me guiar até aqui, Alter. Você já pode se retirar - ordenou Penny.
O assistente curvou-se em uma reverência impecável, deu meia-volta e desceu os degraus até sumir completamente de vista.
Ficando sozinha, os pensamentos de Penny ganharam força: "Certo... Isso vai ser terrivelmente tedioso, mas vamos logo acabar com essa bagunça para eu descobrir o que o meu irmão quer."
Ao estender a mão e tocar na capa vibrante da obra, o espaço ao redor de Penny distorceu-se. Ela desapareceu da torre, ressurgindo instantaneamente no meio de uma praça central de uma imensa capital medieval, segurando o livro físico sob o braço.
Ela olhou ao redor para absorver os detalhes do ambiente. Casas rústicas construídas com blocos de pedra cinzenta e vigas de madeira maciça preenchiam as ruas de terra batida. Crianças vestidas com trapos corriam e brincavam alheias ao perigo cósmico, enquanto guardas usando armaduras de metal fosco marchavam em direção aos portões de ferro de um castelo colossal que dominava o horizonte.
Penny abriu as páginas do livro que trazia nas mãos e sorriu de canto:
- Bom, vamos ver quem é o gênio que quebrou o roteiro... - Os olhos amarelos da garota brilharam ao ler as linhas de texto. - Olha só... O causador dessa anomalia é o próprio deus criador desta história. Que coisa mais fascinante agora sim estou empolgada. - Disse penny com um sorriso sinistro no rosto.
Penny fechou o livro abruptamente. Seus olhos, que antes brilhavam em um dourado divino, retornaram à coloração amarela de sempre. Com um estalo de dedos casual, o ambiente ao seu redor se desfez.
No milésimo de segundo seguinte, ela materializou-se no interior de um templo monumental. Ali, a ostentação cósmica era evidente: as paredes eram esculpidas em ouro puro e reluzente, refletindo o chão polido feito inteiramente de prata maciça. À sua frente, erguia-se um gigantesco trono dourado. Sentada nele, uma figura imponente e banhada em energia percebeu a intrusa.
- Quem é você, garotinha? Como conseguiu invadir este lugar? - questionou a voz ecoando pelas paredes do templo.
- Você é o deus criador desta realidade, certo? - perguntou Penny, exibindo um sorriso radiante e quase infantil no rosto.
- Como você sabe disso? Você... me conhece?
O sorriso de Penny desapareceu do nada. Seus traços tornaram-se frios e ela liberou uma fração quase invisível de sua aura. Foi o suficiente. O próprio tecido da realidade daquele templo sagrado começou a estilhaçar e rachar no ar como se fosse um espelho velho.
- Você é o causador da anomalia - decretou Penny, estreitando os olhos. - Eu não sei o que você fez para causá-la, e, honestamente, pouco me importa. Mas devo dizer que, por culpa de um idiota como você, esta realidade inteira será sumariamente apagada. É bom que você saiba que a culpa de tudo isso é-
- Espera!
Penny foi rudemente interrompida pelo ser antes mesmo de conseguir concluir sua frase.
- Não pode ser... Você é uma das nove entidades conhecidas como Os Daftardars? - perguntou a divindade, com uma surpresa espantosa e genuína na voz.
A entidade, que até então não possuía uma forma física definida sendo apenas um contorno humanoide feito de energia pura e pulsante, começou a colapsar sua própria estrutura para assumir uma forma humana. A energia que antes servia como sua pele transformou-se em carne viva, moldando-se até se tornar uma mulher loira, extremamente bela e vestida com trajes cerimoniais de sacerdotisa.
Enquanto a metamorfose acontecia, Penny observava com profundo desdém: "Que nojo... Tanto os poderes de metamorfose quanto essas mudanças de forma são coisas bem grotescas de se ver na prática."
Após estabilizar completamente sua forma humana, a mulher deu um passo à frente no chão de prata.
- Bem... Isso é realmente surpreendente - disse a deusa, com um tom onde o choque se misturava a um deboche arrogante. - Nunca imaginei que, entre os lendários nove Daftardars, também existiriam crianças.
Uma veia de pura irritação saltou na testa de Penny. Sua paciência havia esgotado. Ela pensou, furiosa: "Essa vaca... A única criança aqui é ela. Eu já tenho mais de um quatrilhão de anos de existência, enquanto essa criatura, que deve ter no máximo uns treze ou quinze bilhões de anos, se acha a mais velha."
- Chega de falação - cortou Penny, o rosto gélido. - Como você ousa me interromper enquanto eu ainda estou falando?
A mulher assustou-se com a pressão da aura de Penny. Em um instinto desesperado de autodefesa, a deusa fechou o punho com força, fazendo o próprio espaço-tempo colapsar e se esmagar diretamente ao redor do corpo da garota loira.
No entanto, nada aconteceu. O golpe sequer tocou as roupas de Penny.
- Que atrevida você é, não acha? - ironizou Penny, abrindo um sorriso cruel ao ver o semblante da deusa se encher de pavor absoluto quando percebeu que seus poderes máximos eram inúteis. - Deixe-me deixar uma coisa bem clara para você: nenhum personagem dentro das histórias pode ferir uma entidade como eu. E uma ninguém como você, que nem é tão poderosa se comparada a deuses de outras histórias, atreveu-se a me atacar? Para a burrice, realmente existem limites.
Penny suspirou, virando as costas com total indiferença.
- Bem, já chega de tanta conversa fiada. Já perdi tempo demais com uma casca vazia feito você. Então... adeus.
Ela caminhou calmamente em direção à saída imaginária daquele templo. Sem olhar para trás, jogou o livro físico que trazia nos braços. O volume flutuou no ar por um instante, envolto em uma estática pesada.
- Deletar - ordenou Penny.
No mesmo instante, o livro começou a se desintegrar, desfazendo-se em trilhões de partículas de luz azul. No momento em que as páginas viraram poeira cósmica, o tecido do universo observável inteiro estilhascou-se como um imenso espelho que acabava de ser golpeado por uma marreta.
Visões fragmentadas de toda a dimensão surgiram flutuando no vazio que se abria. Mostrou a capital real medieval onde Penny estivera momentos antes. Mostrou um vilarejo distante, onde um soldado sorria calorosamente enquanto conversava com um ancião da aldeia. Apareceram até mesmo as imagens escuras de um grupo de bandidos espancando e roubando um jovem em um beco sujo. Todos eles, bons ou maus, congelaram no tempo no exato segundo em que a realidade quebrou.
Logo após o estilhaço, a destruição em massa começou. Estrelas implodiram, planetas racharam ao meio, sistemas solares inteiros e galáxias espirais começaram a se desmanchar em partículas de luz azul. O céu sagrado, o inferno profundo e o próprio vazio absoluto onde ficavam os deuses do caos daquela dimensão foram desintegrados, restando apenas o nada.
A deusa daquela realidade, vendo sua própria pele e o templo de ouro virarem poeira luminosa junto com o livro, caiu de joelhos. Lágrimas pesadas escorreram por suas bochechas humanas enquanto ela fechava os olhos pela última vez.
- Eu realmente sinto muito por ter causado isso a todos vocês... - sussurrou a divindade, a voz embargada pelo remorso diante do fim de suas criações. - Eu só... só queria descobrir a verdade por trás d-
Antes que pudesse terminar a última palavra, a frase foi cortada pelo silêncio eterno. A deusa e seu multiverso desintegraram-se por completo.
Penny piscou. O cenário de destruição sumiu e ela já se encontrava de volta aos corredores silenciosos de sua Torre Negra. Ela espanou as mãos, retomando seu rumo.
"Certo. Agora vamos ver o que o meu irmão quer."
Fim do Capítulo 3.