Capítulo 3: Uma Anomalia
No subsolo do bunker, após seu rosto rachar como se ela fosse uma boneca de porcelana, Penny entendeu imediatamente o que estava acontecendo.
Em seus pensamentos, ela ponderou: “Essas anomalias vivem acontecendo, isso é sempre um saco. Eu sempre tenho que sair da história em que estou para ir resolver o problema na outra dimensão. E essa rachadura no meu rosto, sem dúvida, significa que minha torre foi severamente danificada pelo paradoxo.”
Penny passou de leve a mão sobre o próprio rosto, fechando a abertura brilhante que havia surgido em sua bochecha.
— Pronto. Acho que isso vai resolver por enquanto, pelo menos até eu consertar essa anomalia irritante.
Os olhos de Penny incendiaram-se como tochas em um tom dourado divino. Ela fechou as pálpebras por um instante e, quando as abriu, as pupilas já haviam retornado à coloração amarela normal. A garota observou o novo cenário ao seu redor.
— Hum... Minha torre está bem mais limpa do que da última vez em que estive aqui. Acho que isso foi há algumas centenas de anos.
Ela já se encontrava no interior de sua própria torre, o lugar sagrado onde guardava diversos livros em enormes estantes de dezenas de metros de altura. As paredes da estrutura eram completamente negras e havia poucas janelas voltadas para o vazio.
— Bem, agora que já cheguei, acho que vou resolver logo essa anomalia maldita para voltar a observar aquela história — disse Penny, olhando para os lados. A biblioteca era tão imensa que sua figura parecia invisível se comparada às monumentais prateleiras de madeira. — Droga... Se eu tiver que procurar a causa dessa falha neste lugar, irei levar literalmente séculos para achar esse único livro no meio de bilhões de outros. Acho melhor apenas perguntar para um dos meus subordinados onde está o foco do problema.
Penny andou em direção a uma enorme escadaria de pedra que levava aos andares superiores. Ao começar a subir os degraus escuros, ela notou uma imensa fenda luminosa rasgando as paredes maciças da estrutura.
— Que merda... Por que nunca tem nenhum servo por perto quando preciso de algo? Parece que eles só aparecem quando querem me bajular, morrendo de medo de que eu os mate — resmungou Penny, parando por um breve instante para tocar a fenda luminosa. Ao passar os dedos pela energia viva, ela pensou: “Hum, que fenda profunda... Que tipo de anomalia teria força para causar isso?”
Após checar o dano, ela voltou a caminhar em um ritmo mais rápido. Seus passos eram totalmente silenciosos. Depois de mais de uma hora subindo os degraus que pareciam infinitos, ela alcançou o segundo andar da torre, que não era muito diferente do primeiro: para onde quer que se olhasse, só se viam livros e mais livros empilhados em estantes gigantescas.
— Que torre entediante — queixou-se Penny, observando o vazio silencioso do lugar. — Acho que é por isso que prefiro habitar o interior das histórias. Caso contrário, eu já teria enlouquecido sem fazer nada neste lugarzinho tedioso.
Enquanto Penny resmungava, um homem de aparência madura, na casa dos quarenta anos, começou a descer as escadas do terceiro andar. O homem, que vestia um terno inteiramente negro e impecavelmente alinhado, curvou-se respeitosamente para cumprimentá-la.
— É muito bom ver a senhorita Penny de volta, após mais de duzentos anos imersa dentro das histórias. E quanto ao motivo de seu retorno, eu não vou nem precisar perguntar... Só de olhar para as rachaduras que se espalharam pela torre inteira, já sei que outra anomalia está acontecendo — disse o homem, exibindo um sorriso caloroso antes de retomar sua postura ereta.
Penny o encarou em silêncio, enquanto pensava: “Esse velho ainda está vivo. Acho que ele realmente parou de envelhecer desde o dia em que jurou me servir há muito tempo atrás.”
— Olá, Alter. É bom rever você também após todo esse tempo. E vejo que cumpre bem os seus serviços. A torre está impecável como sempre, bem diferente de trezentos anos atrás, quando era apenas eu por aqui e tudo parecia uma tremenda bagunça — comentou Penny, varrendo os arredores com o olhar. — Bem, de qualquer forma, obrigada pelo seu trabalho duro. Se bem que, após essa anomalia, você terá ainda mais o que fazer... A propósito, cadê o restante dos servos? Faz horas que estou procurando um deles para me ajudar em algo e não encontro ninguém.
Alter ficou um pouco confuso com a pergunta e observou Penny procurar ao longe, tentando avistar algum sinal de movimento.
— Bem... Isso já aconteceu há tanto tempo que acho que a senhorita não deve mais se lembrar. Mas a senhorita matou todos eles há séculos. Ou melhor dizendo, a senhorita os baniu para o mundo que abriga os seus pets.
— Hum… — murmurou Penny, piscando, sem recordar daquele detalhe. — Eu fiz isso? Bem, então tá, né. Quando eu tiver tempo, crio outros servos para ajudá-lo nas tarefas da torre, Alter. Ou, se eu encontrar alguém interessante dentro de uma das histórias, posso trazê-lo comigo.
— Não precisa se preocupar com isso, senhorita Penny. Eu gosto bastante do que faço e não dá trabalho nenhum organizar toda a torre — respondeu Alter, semicerrando os olhos de forma serena sob o olhar atento de Penny. — Além do mais, prefiro a torre do jeito que ela é agora. Os antigos serviçais sempre ficavam insultando a senhorita pelas costas quando não estava aqui. Por isso fiz questão de avisá-la na época, para que fossem devidamente punidos…
Alter foi interrompido por um estrondo seguido por um enorme tremor. Era a fenda luminosa na torre que estava ficando maior e mais larga.
— Certo, já chega de tanta conversa fiada. Eu queria lhe perguntar se você sabe onde está o livro que está causando todo esse caos na minha torre — perguntou Penny, estreitando os olhos amarelos com uma frieza cortante. “Eu tenho que resolver logo essa anomalia irritante antes que minha torre seja ainda mais danificada” — pensou ela, observando a fenda nas paredes ficar maior.
— Mas é claro que sei onde está o exemplar que está procurando, senhorita — respondeu Alter, fechando os olhos com um leve sorriso cúmplice. — O livro em questão está localizado no nonagésimo andar. Eu mesmo guiarei a senhorita até lá, se assim permitir.
— Hum, pode ser — aceitou Penny, refletindo internamente: “Eu poderia facilmente me teletransportar até o nonagésimo andar sem ter que subir tudo isso de escadas, mas já faz tanto tempo que não visito minha própria casa... Acho que vou apenas caminhar e observar o lugar. Logo, logo estarei de volta à minha história principal e não sei quanto tempo vai levar até eu retornar aqui.”
Os dois começaram a subir as imensas escadas que pareciam infinitas. Como nem Penny e nem Alter eram capazes de se cansar fisicamente, eles venciam os degraus enquanto conversavam sobre tudo o que havia acontecido na torre, no palácio do Mestre e nas instalações dos outros Daftardares.
Cada andar exigia horas de caminhada. Quando alcançavam um novo nível, o cenário repetia-se de forma labiríntica: estantes de madeira escura e secular erguiam-se raspando o teto, cada uma guardando uma realidade diferente. Porém, ao atingirem os andares superiores, o cenário mudou. Entre os corredores, estátuas de pedra macabras decoravam todo o pavimento, retratando figuras humanas esculpidas com expressões tão tenebrosas que pareciam ter visto algo tão horripilante, que as fizeram rasgar o próprio rosto em puro horror.
Observando os monumentos, Penny deu um leve sorriso macabro. A cena a divertia enquanto pensava: “Vejam só a minha coleção de estátuas... Lembro que cada uma delas já foi um dos meus servos que ousou me irritar ou que simplesmente me desobedeceu. Foi divertido transformá-los em mobília para deixar minha torre menos monótona. Uma boa forma de matar o tempo, já que não havia nada para eu fazer neste lugar.”
Enquanto caminhavam entre as esculturas grotescas, Alter relembrou um detalhe:
— Senhorita, acabo de me lembrar de que, cerca de setenta anos atrás, o seu irmão veio procurá-la aqui na torre. Como a senhorita já estava imersa dentro de uma história e havia me ordenado estritamente para não revelar o seu paradeiro a ninguém, eu inventei uma desculpa para mandá-lo embora, conforme suas instruções — relatou Alter, fazendo uma breve pausa. — No entanto, ele pediu para avisá-la de que, assim que retornasse, era para a senhorita passar na torre dele antes de entrar em qualquer outro livro.
— Hum, meu irmão? Já faz milênios desde a última vez que o vi. Acho que o motivo disso é que prefiro habitar o interior das histórias do que ficar interagindo com o restante da minha família entediante — justificou Penny, com um olhar confuso ao processar o recado. — Alter, ele não deixou nenhuma informação sobre o que queria conversar comigo?
— Até onde me lembro, não, senhorita. Ele descobriu logo de cara que eu estava mentindo para mandá-lo embora, então apenas me encarregou de transmitir esse recado. Ele até usou um tom um tanto ameaçador, exigindo que a senhorita o visitasse antes de ir a qualquer outra história.
“Hum… Por que todos insistem em me importuntar? Como se essa anomalia já não fosse o suficiente, agora até meu irmão aparece após milênios sem nos vermos” — pensou Penny após ouvir o recado.
— Tsc, tudo bem. Assim que eu resolver essa anomalia, darei uma passada na torre dele para ver o que há de tão importante para ele vir esgotar a pouca paciência que me resta — disse Penny, estalando a língua em sinal de irritação.
Eles continuaram a subida silenciosa até que finalmente atingiram o nonagésimo andar. Lá, no meio de uma prateleira empoeirada, um livro específico emitia um brilho vermelho incandescente e pulsante, como um coração doente.
— Aqui está, senhorita. O livro que brilhou em vermelho, fazendo as rachaduras aparecerem na torre, está bem ali, naquela estante — apontou Alter.
— Certo. Muito obrigada por me guiar até aqui, Alter. Você já pode se retirar, eu irei resolver tudo daqui para frente — ordenou Penny, enquanto caminhava em direção ao tomo.
O assistente curvou-se em uma reverência impecável, deu meia-volta e desceu os degraus até sumir completamente de vista.
Ficando sozinha, os pensamentos de Penny ganharam força: “Certo... Vamos logo resolver essa bagunça para eu descobrir o que o meu irmão quer. E, finalmente, poder voltar à minha maravilhosa rotina.”
Ao estender a mão e tocar na capa vibrante, arrancando o livro da estante, os olhos de Penny brilharam em um tom dourado e, no mesmo instante, ela desapareceu da torre. Ressurgiu imediatamente no meio da praça central de uma imensa capital medieval, segurando o livro físico, que flutuava acima de sua mão.
Ela olhou ao redor para absorver os detalhes de que tipo de história se tratava: casas rústicas construídas com blocos de pedra cinzenta e vigas de madeira maciça preenchiam as ruas de terra batida. Crianças vestidas com trapos corriam e brincavam, alheias ao perigo, enquanto guardas trajando armaduras de placas marchavam em linha reta em direção aos portões de ferro de um castelo colossal que dominava o horizonte.
“Hum… Essa é mais uma daquelas histórias de mundo mágico. Que falta de criatividade. Não que eu esteja reclamando de algo, mas o mestre deveria parar de criar histórias repetitivas” — pensou Penny enquanto observava o lugar, enquanto as pessoas passavam ao seu redor.
Penny, que se mantinha completamente invisível, abriu as páginas do livro que trazia nas mãos e sorriu levemente de canto.
— Bom, vamos ver quem é o maldito responsável por ter me feito vir até essa história de merda... — Os olhos amarelos de Penny ficaram dourados enquanto ela lia as linhas de texto da obra. — Hum... Olha só o que temos aqui. O causador dessa anomalia é uma deusa chamada Gaia, retratada como a deusa criadora desta história. Que coisa mais irritante. Esse nome não tem muita originalidade... Já vi diversos outros personagens em outras histórias com o mesmo nome e, sinceramente, matei todos eles, porque esse nome de alguma forma me irrita muito — disse Penny, suspirando de frustração e fechando o livro abruptamente.
Após fechar o volume, seus olhos, que antes brilhavam em um dourado divino, retornaram à coloração amarela de sempre. Ela estalou os dedos casualmente e desapareceu no ar.
No milésimo de segundo seguinte, materializou-se no interior de um templo monumental. As paredes eram esculpidas em ouro puro e reluzente, refletindo o chão polido feito inteiramente de prata maciça. Ao olhar para a frente, Penny avistou um gigantesco trono dourado. Sentada nele estava uma figura imponente, banhada por uma energia mística que percorria todo o seu corpo.
— Hum… Quem é você, garotinha? Como conseguiu chegar a este lugar? — questionou a voz ao notar Penny, ecoando de forma majestosa pelas paredes do templo.
— Você deve ser a tal "deusa" desta história maldita que causou uma anomalia em minha torre, certo? — perguntou Penny, encarando a entidade no trono como se olhasse para um inseto nojento.
— Hum… Como você sabe quem eu sou? Você, por acaso, me conhece? — indagou a deusa, observando Penny de cima.
Penny deu um sorriso enigmático, fazendo a entidade fraquejar em sua postura, confusa. Quando o sorriso da garota desapareceu do nada, seu rosto assumiu uma seriedade aterrorizante. No mesmo instante, a sala iluminada do templo escureceu por completo. Os olhos dourados de Penny brilharam como estrelas na escuridão profunda enquanto ela liberava uma fração quase invisível de sua aura. Foi o bastante para fazer o tecido da realidade daquele templo sagrado se estilhaçar e rachar no ar, agindo como um espelho velho quebrado cujos fragmentos despencavam no chão.
— Você é a causadora dessa anomalia irritante — decretou Penny, estreitando as pupilas. — Eu não sei o que você fez para causá-la e, honestamente, pouco me importa. Mas devo dizer que, por sua causa, esta realidade inteira irá sumir da existência. Estou lhe dizendo isso para que saiba muito bem que foi você quem causou tudo isso a si mesma…
— Espere!
Penny foi rudemente interrompida pelo ser antes mesmo de conseguir concluir sua frase. Com um suspiro de desdém, ela recolheu sua presença, fazendo o ambiente retornar ao normal e a iluminação dourada brilhar novamente pelo templo.
— Isso que eu vou dizer pode soar meio estranho, mas... Você é uma das entidades conhecidas como os nove Daftardares? — perguntou a divindade, com um choque espantoso e genuíno na voz.
A deusa, que até então não possuía uma forma física definida, sendo apenas uma silhueta humanoide feita de energia pura e pulsante, começou a colapsar sua estrutura para assumir uma forma humana. A energia que antes servia como sua carcaça começou a se transformar em tecidos musculares. Onde antes não havia olhos, boca ou nariz, as feições começaram a brotar durante a transformação.
Enquanto a mudança acontecia, com partículas de matéria flutuando rapidamente em direção à entidade para cobrir a energia de seu corpo com uma pele humana, Penny observava tudo com tédio: “Hum... Embora isso não seja exatamente uma metamorfose, me lembra bastante uma. Que saco, isso é bem sem graça de se observar. Seria muito mais divertido se ela estivesse gritando e virando do avesso durante a mudança de forma, igual aos metamorfos reais que dão um belo show de gritos na hora de se transformarem...”
Após alguns segundos, a transformação da entidade estava completa. Ela havia assumido a forma de uma mulher humana loira, extremamente bela e vestida com trajes cerimoniais de sacerdotisa.
— Hum… Bem, como eu posso dizer… Isso é realmente inesperado — disse a deusa, com um tom de surpresa ao olhar para Penny, posicionando a mão no queixo, pensativa. Em seguida, exibiu um sorriso caloroso. — Eu só soube da existência de entidades chamadas Daftardares há pouco tempo, mas nunca cheguei a pensar que, entre esses seres lendários, existiriam alguns com a forma de crianças.
Ao ouvir o comentário da deusa, a irritação de Penny atingiu o limite: “Essa criatura está insinuando que eu sou algum tipo de criança? Tsc... Se for assim, a única criança aqui é ela. Ela deve ter o quê? Uns dez ou treze bilhões de anos no máximo. Se comparar isso comigo, ela nem chegaria a ser um bebê, já que existo há tanto tempo que idades universais como dezenas ou centenas de bilhões de anos passam para mim em um piscar de olhos.”
Enquanto Penny resmungava internamente, a deusa continuava a falar sozinha, observando a garota com curiosidade e fazendo perguntas em sequência, como qual era o seu nome, como eram os outros Daftardares e se todos eles também tinham aparências infantis. Já completamente sem paciência para o falatório, Penny a cortou:
— Certo, já chega de toda essa falação — sentenciou Penny, o rosto voltando a ficar gélido e mortal. — Você me interrompeu quando eu estava falando. Naquele instante, tive muita vontade de matar você de imediato, mas eu me contive... Afinal, independentemente de eu tirar a sua vida agora ou não, você vai morrer do mesmo jeito assim que eu apagar esta história de uma vez por todas.
Ao ouvir as menções de Penny sobre matá-la, a deusa ponderou: “Ela disse que me mataria… Bem, eu já sabia que, ao tentar alcançar o worldbuilding dos Daftardares, acabaria criando uma anomalia e chamando a atenção de um deles. Já que não tenho escolha, acho melhor atacar primeiro e tentar destruí-la. Afinal, entre os humanos que eu criei, existe um ditado que diz: quem ataca primeiro, leva vantagem.”
Utilizando a totalidade de seus poderes, a divindade manifestou um buraco negro do tamanho de uma bola de futebol no centro do salão. A singularidade começou a distorcer o tecido do espaço-tempo de todo o templo monumental. Apesar de a estrutura parecer infinita de tão vasta, o santuário foi instantaneamente espaguetificado pela força gravitacional, sumindo em um piscar de olhos. O colapso revelou um céu completamente escuro, onde se podia contemplar as estrelas diretamente no vácuo, como se estivessem cara a cara com elas.
Quando a deusa fixou o olhar no ponto exato onde a garotinha loira estava, percebeu que absolutamente nada havia acontecido a ela. A deusa suspirou mentalmente: “É... Pelo visto, é realmente impossível matar um dos nove Daftardares.”
— Hum... Nossa, quanto poder! Sério, por um segundo eu realmente pensei que você fosse me matar — ironizou Penny, soltando uma risada abafada enquanto encarava a divindade.
Ao ouvir o deboche, a deusa lamentou internamente: “Ela, sem dúvida, está zombando de mim. Mas fazer o quê? Eu não sou uma deidade voltada para guerras ou destruição.”
Após terminar de ironizar o ataque, Penny soltou um leve suspiro e virou-se de costas para a criatura que a observava em silêncio absoluto.
— Bem, até que isso foi bem divertido, mas agora já chega de tanta conversa fiada — sentenciou Penny, mantendo os olhos fechados enquanto dava os primeiros passos na direção oposta. — Você causou essa anomalia e agora, como uma dos nove Daftardares, eu tenho o dever de apagar essa realidade.
Enquanto caminhava calmamente, Penny estendeu o braço sem olhar para trás. Um livro físico materializou-se do nada e caiu perfeitamente em sua palma. Ela jogou o tomo casualmente para o alto; o volume flutuou no vácuo por alguns instantes, subindo vários metros até estacar no ar.
— DELETAR — ordenou Penny, desaparecendo no mesmíssimo milésimo de segundo em que proferiu a palavra.
No instante em que a ordem foi dada, as páginas e a capa do livro começaram a se desintegrar, desfazendo-se em trilhões de partículas de luz azul que se dispersavam pelo vácuo espacial. À medida que a obra virava poeira luminosa, o tecido do espaço-tempo do universo inteiro estilhaçou-se como um imenso espelho atingido por uma marreta cósmica.
Por meio das fendas dos estilhaços, a deusa pôde contemplar visões de toda a sua criação flutuando diante de si, como se fossem telas de uma imensa projeção. Nos fragmentos do espaço-tempo, ela observou a capital medieval que abrigava incontáveis vidas — o primeiro lugar onde Penny havia pisado antes de invadir o templo.
Os fragmentos também mostraram vários vilarejos distantes. Em um deles, a deusa viu um jovem soldado sorrindo calorosamente enquanto dizia:
— Pai, estou de volta! Finalmente consegui me tornar o guarda de uma família nobre de barões. Agora vou ter dinheiro de sobra para sustentar a nossa família e comprar o que a minha filha tanto me pediu.
Ele conversava com um ancião, que o encarou sério antes de começar a desferir golpes leves no rapaz com sua bengala de madeira, resmungando:
— Só agora você vai parar de ser um vagabundo que só vive comendo na minha casa, mesmo já sendo um adulto?!
O velho parou de golpear o jovem e o puxou para um abraço apertado, enquanto lágrimas de profunda preocupação e alegria escorriam de seus olhos cansados:
— Vê se você toma cuidado lá fora... E não ouse morrer igual ao seu irmão.
O soldado sorriu com os olhos marejados, retribuindo o abraço do pai:
— Pode deixar, pai.
Logo em seguida, uma garotinha correu na direção deles com os braços abertos, gritando "papai!", enquanto uma mulher caminhava logo atrás, exibindo um sorriso radiante.
Nas visões que duraram apenas alguns segundos, a deusa contemplou até as imagens de um beco escuro da capital, onde um trio de bandidos espancava e roubava um jovem indefeso. E, após a exibição daquelas memórias fragmentadas, todos os seres daquele universo congelaram no tempo em perfeita sincronia. A deusa era a única que ainda podia se mover.
Quando metade do livro já havia virado poeira azul, uma aterrorizante destruição em massa teve início. Estrelas implodiram em supernovas brutais, planetas racharam e explodiram, jogando detritos pelo vácuo, e sistemas solares e galáxias inteiras começaram a se desmanchar em partículas de luz, dando lugar a um vazio absoluto onde antes residiam bilhões de mundos brilhantes. Logo em seguida, a própria escuridão do vazio passou a desaparecer em um tom inteiramente branco, como se o universo fosse uma folha de papel onde todas as letras estivessem sendo apagadas por uma borracha invisível.
Contemplando o fim de tudo, a deusa olhou para a própria mão e a viu se desfazendo em poeira luminosa, colapsando junto com o restante do livro. Sem forças, ela se sentou nos degraus de pedra que restavam, observando o vácuo ao redor sumir na alvura divina. Quando o tomo estava prestes a se desintegrar por completo, lágrimas pesadas escorreram dos olhos da deusa. A parte superior de seu corpo já havia virado luz; restava apenas sua cabeça, que terminava de se desmanchar.
— Eu realmente sinto muito por ter causado isso a todos vocês... — sussurrou a divindade, a voz carregando um arrependimento devastador diante da destruição de suas próprias criações. — Eu só... Só queria descobrir a verdade sobre o que nós realmente...
Antes que pudesse pronunciar as últimas palavras, sua voz foi cortada pelo silêncio eterno. A deusa e toda a sua realidade haviam sido completamente apagadas da existência.
Penny reabriu os olhos e encontrou-se de volta aos corredores silenciosos de sua Torre Negra. Ela soltou um suspiro profundo enquanto encarava a imensidão vazia da estrutura e pensou: “Certo. Agora só falta eu ir ver o que o meu irmão quer. E assim, finalmente, poderei voltar a observar as minhas histórias.”
Fim do Capítulo 3.
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📝 Nota do Autor — Sobre a escrita
Oi, pessoal! Queria avisar que estou utilizando uma inteligência artificial apenas para corrigir minha gramática, ortografia e pontuação. A IA não criou nem escreveu nenhum parágrafo desta história — tudo é ideia e escrita minha. Como costumo digitar com letras faltando, palavras trocadas e tenho dificuldade com acentos e símbolos, uso a ferramenta só para arrumar os erros sem mudar NADA do que criei. Minha gramática é tão confusa que às vezes até saem palavras em espanhol — e eu nem sei espanhol, juro! 😅
Resumindo: sou péssimo com regras de escrita, então sempre reviso tudo antes de postar para garantir que minha essência continue aqui. Se alguma parte ainda estiver confusa, podem me avisar! E desculpem por tantas notas no começo dos capítulos — Obrigado pela compreensão e boa leitura! 😁