*BOOM-THUD... KRA-KAAAAAK... THWAMP!*
A estrutura colossal da Torre Negra estremeceu violentamente, fazendo a própria ilha flutuante onde ela repousava vibrar em resposta. Lentamente, o concreto secular começou a se mover por conta própria, como um organismo vivo. As imensas fendas abertas nas paredes externas foram se fechando e se selando, apagando os vestígios da anomalia recém-resolvida à medida que a torre se autorreparava.
- Que barulho mais desagradável... - Penny resmungou, estreitando os olhos amarelos enquanto assistia ao processo de regeneração das paredes.
Com um gesto entediado, a garota passou a ponta dos dedos delicados sobre a bochecha. No mesmo instante, a fina fenda de luz que cortava seu rosto de porcelana começou a se fechar, desaparecendo sem deixar cicatrizes. Assim que a estrutura completou seu reparo absoluto, Penny deu meia-volta e iniciou sua descida compassada pelas escadarias de pedra.
- Senhorita! Vejo que a anomalia já foi resolvida. Meus parabéns pelo seu ótimo trabalho, como sempre - ecoou uma voz vinda do andar inferior.
Era Alter. O homem de aparência madura e terno impecável curvou-se, exibindo seu habitual sorriso caloroso.
Internamente, as engrenagens da mente de Penny já giravam em pura irritação: "O que será que é tão urgente para o meu irmão me chamar logo agora, depois de centenas de anos sem nos vermos? De qualquer forma, é melhor eu ver logo o que ele quer para poder voltar para a minha história."
- Obrigada, Alter - respondeu Penny, contendo o suspiro de tédio. - Agora que a anomalia foi resolvida, você terá muito trabalho pela frente com a organização. Se precisar de ajuda, me diga antes que eu retorne para o meu livro.
- Ora, não há necessidade, senhorita. Eu faço isso sozinho com o maior prazer. Afinal, este é o meu único passatempo por aqui - respondeu ele, mantendo o semblante sereno de sempre. - Já que a senhorita praticamente não fica na torre, e não há mais ninguém além de nós dois habitando este lugar, o único divertimento que me resta é o trabalho quando ele aparece.
Penny revirou os olhos mentalmente: "Tanto faz. Se ele não queria ajuda, era só dizer 'não'. Para que uma explicação longa dessas? Isso torra a minha paciência, que já não é muita."
- Tudo bem então, Alter - limitou-se a dizer. - Estou indo em direção à torre do meu irmão.
- Certo, senhorita - disse Alter, curvando-se em uma reverência profunda e impecável.
Penny marchou em direção aos portões imensos da base. Ao se aproximar, as pesadas folhas de ferro e rocha se abriram sozinhas com um rangido ecoante, como se a própria torre estivesse saudando sua dona. Assim que seus pés cruzaram o limite, os portões se fecharam às suas costas com um estrondo absoluto.
Ela agora pisava na ilha flutuante. Acima dela, o céu do Reino dos Pesadelos exibia nuvens escuras e densas que giravam em um redemoinho eterno, como se estivesse prestes a desabar em uma tempestade. Penny começou a caminhar sobre uma ponte de pedra suspensa no vazio, o único caminho que conectava sua ilha ao Palácio em ruínas de seu mestre.
Após percorrer o longo e silencioso trajeto, ela finalmente adentrou os limites do Palácio do Criador. A ala onde o mestre habitava ficava a vários andares acima; os níveis inferiores, por onde Penny caminhava, eram completamente vazios e desprovidos de qualquer alma viva. Era ali que as pontes de pedra de todas as nove torres se encontravam.
Penny avançou pela imensidade do salão deserto. O caminho era flanqueado por figuras de pedra monumentais: golems colossais de 100 metros de altura erguiam-se como pilares divinos, sustentando o peso absurdo do castelo com seus ombros rochosos. Logo abaixo deles, servindo como decoração, fileiras perfeitamente retas de golems menores, de 30 metros de altura, guardavam os lados esquerdo e direito do corredor por onde a garota passava.
Ao alcançar os degraus que finalmente levavam à torre de seu irmão, Penny parou.
- Que chatice... - exclamou, cruzando os braços e fazendo um bico emburrado.
Olhou para a vastidão ao redor, frustrada: "Não entendo por que o mestre quer um castelo desse tamanho se não tem nada nem ninguém dentro dele nos andares inferiores além de golems. Isso é cansativo. Mas fazer o que... Não dá para me mover instantaneamente para outra torre sem a permissão do dono."
Sem outra escolha, ela subiu a longa escadaria até parar diante dos portões da torre vizinha.
- Certo. Agora vejamos... - murmurou Penny.
Com um movimento rápido, ela desferiu um soco contra a estrutura de metal. O impacto bruto e desproporcional ao seu tamanho infantil fez os portões colossais estremecerem com um estrondo ensurdecedor.
Quase instantaneamente, a porta se fendeu e um homem de aparência jovem, entre os 25 e 28 anos, cabelos longos e negros e vestindo um terno preto alinhado, colocou a cabeça para fora com uma expressão de pura fúria.
- Que desagradável! Para que uma violência dessas?! Você por acaso não tem mo... - o homem esbravejou, mas sua voz sumiu instantaneamente na garganta assim que ele olhou para baixo e encontrou as pupilas amarelas de Penny.
- O que foi que você disse? - Penny sibilou, inclinando a cabeça para o lado enquanto seu rosto assumia uma expressão fria e aterrorizante. - Tá querendo morrer? Para um mero assistente, você está se achando demais.
O homem engoliu em seco, o rosto empalidecendo enquanto dava um passo para trás.
- D-Desculpe... Eu não sabia que era você, Senhorita Penny. Peço encarecidamente que me perdoe!
- Tanto faz. Não tenho paciência para desperdiçar com alguém como você - cortou ela, a voz transbordando irritação. - Cadê o meu irmão?
- O senhor Neon está nos andares superiores - disse o servo, com a voz trêmula e os olhos fixos no chão.
- Me mostre o caminho - ordenou Penny, cravando suas pupilas amarelas no homem com um olhar assustador e penetrante.
- Sim! Mas é claro, senhorita. Por favor, me siga - respondeu o funcionário, apressando o passo enquanto o suor frio escorria pelo seu pescoço. Internamente, sua mente gritava em desespero: "Fala sério... Como eu fui me meter logo com essa baixinha? De todos os nove grandes Daftardars, ela é de longe a mais problemática e temperamental!"
De repente, Penny parou abruptamente no meio do corredor de pedra. O servo, que caminhava alguns passos à frente, congelou no mesmo instante. Sentindo uma onda de aura sinistra e gélida rastejar pelas suas costas, ele nem sequer teve coragem de olhar para trás. O terror paralisou seus músculos.
No milésimo de segundo seguinte, Penny estalou os dedos casualmente.
*BOOM!*
Os braços e as pernas do servo explodiram simultaneamente em uma chuva de partículas e carne.
- AaaaAAARGH! - O homem despencou no chão, soltando um grito lancinante que ecoou pelas paredes da torre. He encarou Penny com o rosto desfigurado pelo pavor absoluto, enquanto o sangue espichava violentamente do que restara de seu tronco, deixando-o completamente incapaz de se mover.
- Eu te disse que a minha paciência era curta, mas mesmo assim você preferiu me insultar - disse Penny, sua voz mudando de uma calmaria gélida para uma explosão de irritação pura. - Você achou mesmo que eu não escutaria o que você estava pensando, seu merda? Sério, eu jamais gostei de você.
Penny começou a caminhar lentamente na direção do homem mutilado, com a clara intenção de arrancar o que restava de sua vida. Contudo, antes que pudesse desferir o golpe final, o espaço ao lado se distorceu e seu irmão materializou-se do nada.
- O que você está fazendo, Penny? - perguntou Neon, mantendo uma expressão séria e o tom de voz calmo, porém firme.
O garoto melancólico caminhou calmamente até o servo agonizante. Com um toque leve de seus dedos no ombro do homem, uma energia invisível fluiu: os ossos, músculos e tecidos dos braços e pernas de Isaac se reconstruíram instantaneamente do zero absoluto, sem deixar uma única cicatriz.
- Isaac, agora que você já está curado, vá arrumar o que fazer e limpe essa bagunça - ordenou Neon, sem alterar o semblante.
- C-Certo, mestre Neon! - gaguejou Isaac, tremendo da cabeça aos pés enquanto se levantava e caminhava a passos trôpegos, quase caindo de puro choque traumático.
Penny cruzou os braços, estalando a língua em descontentamento.
- Se você não tivesse aparecido, eu teria arrancado cada pedaço da alma daquele servo insolente.
Neon olhou para a irmã menor e suspirou mentalmente: "Cara, ela não muda nunca... Mas essa carinha emburrada dela é tão fofinha que eu simplesmente não consigo brigar com ela por muito tempo."
- Certo, esqueça isso. Eu te chamei aqui para outra coisa - disse Neon, retomando a postura.
- E o que seria tão importante?
- Ora, o que seria? Eu te chamei porque queria te ver. Afinal, já faz centenas de anos que não nos encontramos no Reino - explicou ele, com total naturalidade.
- Annn?! - Penny semicerrou os olhos, com veias de pura frustração saltando em sua testa de porcelana. - Você me fez abandonar a minha história e vir até aqui para a porra de uma bobagem dessas?
- O que foi? Você não estava com nem um pouco de saudades de rever o seu querido irmão? - descontraiu Neon, fingindo uma expressão de profunda mágoa e surpresa.
- Não, nem um pouco - rebateu Penny, com uma frieza cortante e zero empatia.
- Calma, eu só estou brincando. Na verdade, eu te chamei porque queria te mostrar um novo livro que o mestre me deu recentemente - revelou Neon, abrindo um sorriso genuíno. - Eu já assisti à história por completo e notei que existem algumas criaturas absurdamente bizarras e interessantes nele. Como eu sei que você adora monstros estranhos, pensei que gostaria de ver de perto.
- Eu não tenho tempo a perder com isso - respondeu Penny, virando o rosto com desdém, embora uma faísca de curiosidade tenha surgido em suas pupilas amarelas.
- Por favor, Penny. Vai ser só por um tempinho curto, tenho certeza absoluta de que você vai adorar o conceito desse mundo - pediu Neon, estendendo o livro de capa misteriosa.
- Tudo bem... Vamos logo antes que eu mude de ideia e decida explodir mais alguém nesta torre - cedeu a garota, com um tom de completa indiferença.
No instante seguinte, o corpo dos dois irmãos começou a emitir um brilho dourado e intenso. O espaço-tempo ao redor se contraiu e ambos foram violentamente sugados para dentro das páginas da obra. O livro físico fechou-se com um baque seco flutuando no ar, desaparecendo logo em seguida junto com os dois Daftardars.
O novo jogo havia começado.
Fim do Capítulo 4