Capítulo 4: Entre Torres e Gigantes de Pedra
*BOOM-THUD... KRA-KAAAAAK... THWAMP!*
A estrutura colossal da Torre Negra estremeceu violentamente, fazendo a própria ilha flutuante onde ela repousava vibrar em resposta. Lentamente, o concreto secular começou a se mover por conta própria, como um organismo vivo. As imensas fendas abertas nas paredes da estrutura foram se fechando e se selando automaticamente, apagando os vestígios da anomalia recém-resolvida à medida que a torre se autorreparava.
— Que barulho mais desagradável... — Penny resmungou, estreitando os olhos amarelos enquanto assistia ao processo de regeneração.
Ao observar que as paredes estavam prestes a se fechar por completo, Penny passou as pontas dos dedos sobre a bochecha, revelando a rachadura em seu rosto que havia ocultado. No mesmo instante, a fina fenda de luz que cortava sua face como se ela fosse uma boneca de porcelana começou a sumir, curando-se em perfeita sincronia com a estrutura. Assim que o processo terminou, Penny deu meia-volta, caminhou até as escadarias e começou a descer para os andares inferiores.
Após uma hora descendo os degraus, ela avistou Alter no pavimento de baixo. Ele estava limpando os restos de concreto que haviam caído durante a autorreparação. Ao notar Penny se aproximando, o mordomo caminhou até ela.
— Senhorita! Vejo que já resolveu a anomalia. É ótimo ver que retornou tão rápido — disse Alter com os olhos fechados, cumprimentando Penny respeitosamente assim que ela pisou no último degrau.
— Obrigada, Alter — respondeu Penny, contendo um suspiro de tédio. Ela observou os arredores e viu o esforço do assistente para recolher os detritos espalhados. — Hum… Agora que terminei de resolver a anomalia, você terá muito trabalho pela frente para limpar e organizar tudo isso. Se você precisar de ajuda, me diga. Eu posso arranjar alguns servos para auxiliá-lo.
— Hum… Não há necessidade, senhorita. Eu faço isso sozinho com o maior prazer. Afinal, este é o meu único passatempo por aqui — respondeu ele, exibindo um leve sorriso enquanto olhava para Penny e pensava: “É bem melhor eu mesmo limpar tudo sozinho do que ter ajudantes como antigamente, que não faziam nada além de ficar reclamando do trabalho.” — Já que a senhorita praticamente não fica na torre, e não sobra mais ninguém além de mim habitando este lugar, o único divertimento que me resta é o trabalho quando ele aparece.
Penny revirou os olhos mentalmente: “Hum… Se ele não queria ajuda, era só ter dito não. Para que me encher o saco com explicações sobre ficar sozinho? Se ele se sente tão solitário neste lugar, era só pedir que eu arranjaria alguns servos para lhe fazerem companhia.”
— Hum… Tudo bem então, Alter — disse Penny, cortando o assunto. — Estou indo até a torre do meu irmão para saber o que ele quer.
— Certo, senhorita — assentiu Alter, curvando-se em uma reverência antes de retornar à sua limpeza.
Penny marchou em direção aos imensos portões de sua torre. Ao se aproximar, as pesadas portas de ferro negro se abriram sozinhas com um rangido ecoante, como se a própria estrutura estivesse viva e ciente de sua passagem. Assim que seus pés cruzaram o limite para o lado de fora, os portões se fecharam atrás de suas costas com um estrondo.
Do lado de fora, ela se viu em uma imensa ilha que flutuava alto no céu, de frente para uma enorme ponte suspensa que levava em direção a um palácio colossal que rasgava as nuvens. Acima dela, o céu daquela dimensão exibia nuvens escuras e densas que giravam em um redemoinho eterno, como se estivessem prestes a desabar em uma tempestade apocalíptica. Penny começou a marchar sobre a ponte de pedra.
No meio do caminho, ela parou por um instante e olhou para baixo, observando um gigantesco jardim em forma de labirinto que cercava o palácio inteiro. Voltou a caminhar logo em seguida, frustrada: “Que saco... Por que eu tenho que passar por tudo isso só para ir ver aquele maldito do meu irmão?”
Após percorrer a longa e silenciosa extensão da ponte, ela finalmente adentrou os limites do palácio que pertencia ao seu Mestre.
— Hum… — rosnou Penny, observando o lugar imenso que parecia infinito por dentro. — O Mestre deve estar nos andares superiores deste lugar. E, para eu ir até a torre do meu irmão, vou precisar passar por esta parte do castelo, já que este é o único ponto onde as pontes de todas as outras torres, incluindo a do meu irmão, se conectam.
Penny avançou pela imensidão do salão deserto. A cada passo dado, o eco de seus passos ricocheteava pelas paredes. Enquanto andava, ela observava figuras de pedra monumentais: eram golens colossais de mais de cem metros de altura que se erguiam como pilares divinos, sustentando o peso absurdo do castelo com seus ombros rochosos. Logo abaixo desses titãs, servindo como decoração, fileiras perfeitamente retas de golens menores, de trinta metros de altura, guardavam os lados esquerdo e direito do corredor.
A travessia foi uma jornada surreal. Cada andar daquele palácio parecia uma dimensão própria, exigindo anos de caminhada. Após quarenta e sete anos atravessando a imensidão deserta do castelo do Mestre, Penny finalmente alcançou os degraus que levavam à torre de seu irmão. Ela parou diante da nova ponte por um breve instante e deu um suspiro profundo.
“Hum… Ótimo. Mal terminei de atravessar esse palácio que parecia não ter fim e agora tenho que percorrer mais uma ponte maldita” — pensou Penny, encarando o caminho de pedra.
— Odeio ter que passar por tudo isso só para ver o irritante do meu irmão — reclamou em voz alta, virando-se brevemente para olhar o palácio que havia acabado de cruzar após tantas décadas de caminhada.
Ela encarou a vastidão vazia, irritada: “Não entendo por que o Mestre quer um castelo desse tamanho se não tem nada nem ninguém nos andares inferiores além de golens que não se movem. É cansativo ter sempre que percorrer essa distância só para chegar à torre de alguém da minha família... Mas fazer o quê... Não dá para eu me mover instantaneamente para a torre do meu irmão sem a permissão dele, ja que ele e quem e o mestre daquele lugar.”
Sem outra escolha, ela encarou a longa subida pela ponte suspensa. Levou mais algumas horas até que finalmente parasse diante dos portões colossais da torre de seu irmão.
— Certo. Agora vejamos... — murmurou Penny, extremamente irritada por ter gasto literalmente quarenta e sete anos de sua existência apenas para ir de sua casa até ali.
Com um movimento rápido e impaciente, ela desferiu um soco contra a estrutura de metal. O impacto bruto, absurdamente desproporcional ao seu tamanho infantil, fez os portões colossais estremecerem com um estrondo ensurdecedor. A força foi tamanha que provocou enormes fendas na própria ilha flutuante onde a torre estava erguida.
Alguns segundos após o estrondo, a porta finalmente se abriu. Um homem de aparência jovem, aparentando entre vinte e cinco e vinte e oito anos, com cabelos longos e negros e vestindo um terno preto impecavelmente alinhado, colocou a cabeça para fora com uma expressão de pura fúria.
— Quem foi o maldito que fez isso?! Por acaso não sabe que esta é a residência do mestre Neon?! — esbravejou o servo, olhando ao redor procurando o culpado. — Hum… Parece que não tem ninguém aqui, então quem…
A voz do homem sumiu instantaneamente na garganta assim que ele olhou para baixo e encontrou as pupilas amarelas de Penny, que o encaravam com uma intensidade macabra.
— Hum… O que foi que você disse? — perguntou Penny, encarando o servo com uma expressão fria e aterrorizante. — Você está querendo morrer? Para um mero servo, você tem bastante coragem em levantar sua voz para mim. Eu o mataria agora mesmo se não precisasse que você me mostrasse o caminho até o meu irmão.
O homem engoliu em seco, o rosto empalidecendo enquanto dava um passo para trás e assumia uma postura de boas-vindas.
— D-Desculpe pelo ocorrido... Eu não sabia que era você, Senhorita Penny. Peço humildemente que me perdoe, garanto que isso não irá acontecer novamente.
— Tanto faz. Não tenho tempo para desperdiçar com alguém como você — cortou ela, a voz transbordando irritação. — Mas se você me irritar novamente, irei arrancar os seus membros — ameaçou Penny, arregalando os olhos de forma assustadora enquanto encarava o servo. — Agora, o mais importante: onde está o meu irmão?
— O senhor Neon está nos andares superiores — disse o servo, com a voz trêmula.
— Me mostre o caminho até ele — ordenou Penny, cravando suas pupilas amarelas no homem com um olhar ameaçador e penetrante.
— Mas é claro, senhorita Penny. Por favor, me siga por aqui — respondeu o homem, fechando os portões da torre e apressando o passo enquanto o suor frio escorria pelo seu pescoço. Internamente, sua mente gritava em desespero: “Merda, o jovem mestre Neon não chegou a comentar nada que estava esperando alguém... Como eu fui me meter logo com essa baixinha? De todos os nove grandes Daftardares, ela é de longe a mais problemática e cruel. Foi essa maldita que matou meu irmão que trabalhava na torre dela… Espera, agora que me lembrei de algo! Os Daftardarse podem ouvir os pensamentos dos outros ao seu redor como se escutassem uma conversa natural… Será que ela me ouviu?”
Ele olhou rapidamente para trás e viu Penny, que mantinha os olhos fixos à frente, como se não tivesse escutado nada. Aliviado, ele pensou: “Ufa… Que alívio. Acho que o que os outros servos me disseram eram apenas rumores sem fundamento, já que essa baixinha não escutou nada do que eu falei mentalmente.”
Enquanto ele caminhava de costas, aliviado, as pupilas amarelas de Penny o encaravam de forma sinistra, igual a um predador observando uma presa. Silenciosamente, ela parou de se mover. O servo continuou andando à frente por mais uns cinco metros até notar o silêncio absoluto e congelar no lugar. Sentindo uma aura fria e macabra atrás de si, como se estivesse trancado em um congelador, ele não teve coragem de virar sua cabeça para ver atras de si. Pois o terror paralisou seus músculos.
No mesmo instante, um único pensamento cruzou sua mente: “Merda.”
No milésimo de segundo seguinte, Penny estalou os dedos.
*BOOM!*
Os braços e as pernas do servo explodiram simultaneamente em uma chuva de sangue e pedaços de carne que se espalharam por todo o piso da torre.
— AaaaAAARGH! — O homem despencou no chão, soltando um grito lancinante que ecoou violentamente pelas paredes. Lágrimas de pura agonia brotaram de seus olhos devido à dor insuportável. Ele olhou em direção a Penny com o rosto tomado pelo horror absoluto, enquanto o sangue esguichava violentamente do que restara de seu tronco, deixando-o completamente incapaz de se mover.
Penny caminhou lentamente até ele, observando que as pálpebras do homem começavam a pesar à medida que o sangue se espalhava pelo piso, como águas correndo por um rio.
— Eu te avisei que a minha paciência era curta para bobagens, mas mesmo assim você preferiu me insultar em sua mente, achando que eu não escutaria. Falar mal de mim pelas costas é o mesmo que pedir para morrer — disse Penny, com a voz calma, gélida e cortante. — Hahaha… Achei muito engraçada a parte em que você olhou para trás e pensou que eu não estava escutando. Hahaha, isso foi divertido! Compensou toda a caminhada que tive para chegar até aqui. Você está me escutando? Ei… Hum… Acho que ele já morreu. Que chatice, morreu cedo demais. Eu queria ter torturado ele um pouco mais — lamentou Penny, fitando o servo com sangue escorrendo pela boca e os olhos abertos e sem vida, como os de um peixe morto.
— Nem fodendo que eu irei deixar esse miserável ter uma morte tranquila como essa— decretou Penny, encarando o cadáver com um olhar sinistro. — Irei trazê-lo de volta e mandá-lo para o mundo dos meus bebês, para servir de entretenimento para os meus amados pets por toda a eternidade.
Antes que Penny pudesse manifestar seus poderes, um jovem que aparentava ter a mesma idade física que ela materializou-se do nada logo atrás.
— O que você está fazendo, Penny? — perguntou o jovem, mantendo uma expressão séria e um tom de voz calmo, porém firme.
O garoto caminhou calmamente até o cadáver. Ele se abaixou e tocou de leve na testa do cadaver do servo. Uma energia invisível fluiu pelo corpo e, instantaneamente, o homem voltou à vida com um suspiro de pavor, como se tivesse acabado de acordar de um pesadelo terrível. No mesmo instante, os ossos, músculos e tecidos dos braços e pernas reconstruíram-se do zero, sem deixar uma única cicatriz. Após trazê-lo de volta e curar suas feridas, o menino se levantou, olhando para o servo.
— Isaac, agora que eu já te trouxe de volta, vá arrumar algo para fazer e limpe esse monte de sangue e carne que ficaram espalhados pelo chão — ordenou o menino, sem alterar o semblante.
— C-Certo, mestre Neon! — gaguejou Isaac, tremendo da cabeça aos pés enquanto se levantava e caminhava com passos trôpegos, quase caindo devido ao profundo choque traumático das memórias da mutilação que havia sofrido.
Penny, vendo o servo ir embora, estalou a língua em descontentamento enquanto pensava: “Por que esse maldito só apareceu agora? Tenho certeza de que ele estava observando tudo, por isso tive tanto prazer em fazer aquilo com esse maldito insolente.”
Neon olhou para a irmã e suspirou mentalmente: “Pelo visto, a personalidade dela não mudou nada mesmo depois de todo esse tempo... Haha, é sempre engraçado vê-la irritada. Hum… Merda, perdi muito tempo pensando em coisas inúteis.”
— Olá, Penny. Como você tem estado após todo esse tempo? — perguntou Neon com um leve sorriso, retomando a postura.
— Pare com essa conversa fiada e diga logo o que era tão importante para você ter me feito caminhar por quarenta e sete anos para vir até aqui — exigiu Penny com uma voz gélida, cruzando os braços.
— Como assim "o que seria tão importante"? Eu te chamei aqui porque queria te ver. Afinal, já faz milênios que não nos encontramos — explicou ele, com total naturalidade.
— Annn?! — Penny semicerrou os olhos, com veias de pura frustração saltando em sua testa e em seu pescoço. — Você me fez abandonar a minha história, caminhar quarenta e sete anos para vir até aqui, e quando eu chego o motivo é a porra de uma bobagem dessas?
— O que foi? Você não estava com nem um pouco de saudades de rever o seu querido irmão após todo esse tempo? — descontraiu Neon, fingindo uma expressão de profunda mágoa e surpresa.
— Hahaha… Como se eu fosse sentir saudades de alguém como você. Você é irritante, mas admito que suas piadas são ótimas — rebateu Penny, com uma frieza cortante e zero empatia.
— Haha… É bom ver que você achou engraçado. Na verdade, eu te chamei porque queria te mostrar um novo livro que o Mestre me deu há um tempo — revelou Neon, abrindo um sorriso genuíno. — Eu já observei a história por completo e notei que existem algumas criaturas absurdamente bizarras e interessantes nela. Como eu sei que você adora colecionar monstros estranhos como pets, pensei que gostaria de ver se alguma dessas criaturas te interessa. E, claro, aproveitar para passarmos um tempo juntos, já que faz tanto tempo que não nos vemos.
— Hum… Eu não tenho tempo a perder com uma bobagem dessas — respondeu Penny, virando de costas e dando um passo à frente, embora internamente estivesse curiosa sobre os tais monstros.
— Por favor, Penny. Vai ser só por um tempinho curto, tenho certeza absoluta de que você vai adorar as criaturas desse mundo — pediu Neon, estendendo o livro de capa misteriosa.
— Hum… Tudo bem... Vamos logo com isso, eu quero voltar logo para a minha torre — disse Penny, soltando um suspiro de rendição.
No instante seguinte, o corpo dos dois irmãos começou a emitir um brilho dourado e intenso. O espaço-tempo ao redor se contraiu e ambos foram violentamente sugados para dentro das páginas da obra. O livro físico fechou-se com um baque seco enquanto flutuava no vácuo, desaparecendo logo em seguida junto com as divindades.
O novo jogo havia começado.
Fim do Capítulo 4.