Após cruzarem a barreira da obra, os dois se viram flutuando no vazio absoluto, com o Big Bang explodindo bem diante de seus olhos. Em perfeita sincronia, os dois irmãos disseram ao mesmo tempo:
- Fala sério... Por que as histórias sempre começam dessa forma? Isso é sempre tão entediante!
Penny olhou brevemente para o lado, arqueando uma sobrancelha. Seu irmão nunca fora de chamar o início de uma história de "entediante".
Sem perder tempo, Neon ativou seu próprio Fast Forward, fazendo com que suas pupilas brilhassem em um tom azul vívido.
No milésimo de segundo seguinte, o breu do espaço foi substituído por uma metrópole altamente tecnológica. Arranha-céus monumentais feitos de ligas metálicas desconhecidas e painéis de néon reluzentes que rasgavam as nuvens. Naves espaciais aerodinâmicas cruzavam os céus em todas as direções, cortando o ar com zumbidos agudos. Ao redor deles, uma multidão de cidadãos apressados caminhava em direção a um imenso complexo governamental. Perto dali, uma nave de transporte recebia uma fileira de androides humanoides que subiam a bordo de forma militarizada.
Penny franziu o cenho, cruzando os braços com uma expressão de pura incompreensão.
- Mas o que é isso? - resmungou ela, batendo o pé no chão metalizado. - Pensei que você fosse me mostrar monstros e criatura interessantes! Isso daqui é o quê? Uma história sobre exploração espacial ou algo do tipo? Quando você prometeu algo divertido, achei que iríamos para um mundo de magia medieval. Aqui não tem nada que me prenda. Vejo que estou apenas perdendo o meu tempo.
- Acalme-se, Penny - confortou Neon, exibindo um sorriso brando. - Eu nos trouxe um pouco antes de a criatura que mencionei aparecer. Queria dar um passeio por este mundo com você primeiro.
Penny virou o rosto com uma careta claramente irritada, pensando: "Ele está tirando uma com a minha face. Quem foi que disse que eu tenho tempo ou paciência para um passeio?"
- Sei que você deve estar me xingando mentalmente - descontraiu Neon, caminhando ao lado dela -, mas eu te prometo: quando a criatura surgir, você vai adorá-la.
- Eu espero que sim - limitou-se a dizer a garota, com zero animação na voz.
Os dois Daftardars começaram a vagar pelas calçadas polidas da imensa cidade cibernética. No meio da multidão, um homem vestindo trapos tecnológicos que lembravam as roupas de um marginal esbarrou brutalmente contra o ombro de Neon.
- Ei, moleque! Olhe por onde anda! - esbravejou o homem, parando e exibindo os dentes cerrados.
- Peço desculpas, senhor - respondeu Neon, mantendo o tom calmo e educado.
O sujeito resmungou algo incompreensível, virou as costas e continuou seu rumo. As pupilas amarelas de Penny faiscaram em puro ódio, e sua mente ironizou: "Esse merda é maluco? Ele esbarra na gente, vai embora sem pedir desculpas e você ainda se humilha pedindo perdão, Neon?"
A garota ergueu a mão direita, posicionando os dedos para desferir um estalo estraçalhador. Mas antes que as polpas dos dedos se chocassem:
- Não faça isso, Penny - interveio Neon, segurando suavemente o pulso da irmã. - De qualquer forma, logo, logo ele e todos os outros neste planeta vão morrer, mesmo que você não mova um único dedo.
- Ok... - murmurou Penny, abaixando a mão, genuinamente intrigada com o comentário do irmão.
Continuando a marcha, os irmãos avistaram estruturas colossais que dominavam a linha do horizonte. Eram torres de defesa planetária com centenas de metros de altura, construídas em aço negro fosco. No topo de cada uma delas, imensos canhões de plasma giravam lentamente, apontados para o espaço. Penny estendeu sua percepção e notou que aquelas armas monumentais estavam espalhadas por toda a superfície do globo.
- Nossa... Para que eles querem algo desse tamanho? - Penny semicerrou os olhos, surpresa. - Não acredito que construiriam defesas tão brutais apenas para abater invasões de frotas inimigas comuns.
- Tem toda razão, Penny - concordou Neon, assumindo uma postura mais séria. - Vou te explicar o mais breve possível o roteiro desta história.
Neon revelou que, logo após o Big Bang e a formação das primeiras galáxias, a explosão de energia primordial acabou despertando entidades ancestrais que dormiam no vazio profundo antes mesmo de o universo existir. Aquelas abominações eram conhecidas como Os Deuses do Caos. Ao acordarem, seu único propósito era consumir mundos e estrelas, revertendo toda a matéria ao nada absoluto. Os mais poderosos entre eles eram capazes de apagar galáxias inteiras como se fossem velas.
Contudo, o Deus Criador daquele universo travou uma guerra cataclísmica contra os invasores. Ele conseguiu expulsá-los e selar o cosmos com uma barreira dimensional intransponível. O preço, porém, foi alto: o Criador foi mortalmente ferido ao enfrentar o líder dos Deuses do Caos, conhecido como Vreid, O Senhor do Fluxo Escuro. O Deus daquela realidade faleceu logo após concluir o selo, e Vreid recuou para a escuridão profunda, gravemente mutilado.
Eras se passaram. A humanidade evoluiu, colonizou sistemas solares e fundou impérios galácticos que guerrearam entre si por milênios. Tudo mudou há poucos dias, quando um dos Deuses do Caos conseguiu romper uma fissura na barreira e ressurgiu no espaço observável, pulverizando um mundo habitado instantaneamente.
- Estas torres de plasma que você está vendo foram construídas às pressas pelos governantes para tentar diminuir o pânico da população - explicou Neon. - Embora eles saibam que estas armas não são capazes de causar sequer um arranhão em um Deus do Caos, e tam...
- Tá bom, tá bom! Já chega dessa explicação tediosa! - Penny o interrompeu, batendo a mão na testa, irritada com a enrolação. - Resumindo: esta é uma daquelas histórias trágicas onde, no final, esses tais Deuses do Caos vencem e destroem tudo, certo?
- E, resumindo tudo, é basicamente isso mesmo - disse Neon.
- Certo. E quando é que esses tais Deuses do Caos vão aparecer? - perguntou Penny, já irritada e entediada de tanto esperar.
- Não vai demorar muito não, é só...
Antes que Neon completasse sua frase, o sol sumiu repentinamente, engolindo o mundo inteiro em uma escuridão absoluta. Os cidadãos, já sabendo o que aquilo significava, entraram em desespero. Uma gritaria generalizada ecoou por todos os lados enquanto as pessoas corriam em pânico pelas calçadas cegas. No topo das colossais estruturas de aço, as imensas torres de defesa planetária começaram a disparar contra o vácuo do espaço, cortando o breu com projéteis massivos de plasma e energia pura.
Penny e Neon olharam para o céu. Do meio do nada cósmico, dois imensos olhos cinzentos surgiram, brilhando fixamente na direção do planeta como se fossem estrelas frias.
- Certo. Pelo visto, a hora já chegou - disse Neon.
Com um único pensamento, Neon transportou a si mesmo e sua irmã para o vácuo do espaço. Eles ficaram flutuando a uma distância gigantesca da órbita, uma posição privilegiada que lhes permitia contemplar perfeitamente a magnitude da criatura que acabara de se manifestar.
Ao olhar para a frente, Penny deparou-se com um ser monumental de quase dois milhões de quilômetros de altura. A entidade possuía um contorno humanoide inteiramente negro, moldado por um tipo de energia desconhecida que não se assemelhava a matéria ou à física convencional; era como se a própria escuridão primordial tivesse se solidificado em um corpo físico.
Lentamente, a abominação moveu sua mão titânica. Seus dedos envolveram o diâmetro do planeta com uma facilidade assustadora, segurando o globo habitado como se fosse uma mera bola de golfe. Instantaneamente, o planeta transformou-se em uma imensa bola de fogo e, no milésimo de segundo seguinte, explodiu violentamente. A criatura, por meio de sua mera presença, forçara o núcleo e toda a matéria do mundo a entrarem em um colapso de fissão atômica absoluta.
Assistindo àquele espetáculo cataclísmico bem diante de seus olhos, o rosto de Penny iluminou-se. Ela ficou completamente fascinada e empolgada.
- Essas criaturas realmente são magníficas! - exclamou Penny, soltando um grito de genuína admiração. - Nunca tinha visto nas histórias da minha torre uma criatura tão bela e fascinante como essa!
Logo após a destruição ser concluída, o próprio tecido do espaço ao redor do titã de energia dobrou-se sobre si mesmo, engolindo o monstro e arremessando-o de volta para o vazio esquecido de onde surgira.
- Eu te disse que você iria gostar - comentou Neon, com um tom de nítido orgulho inflado em sua voz. - Afinal, eu sou o seu irmão mais velho.
Ao ouvir aquele comentário, a expressão de deslumbramento de Penny desfez-se, retornando à sua habitual frieza. Seus pensamentos imediatamente ironizaram: *"Como é que é? Que porra é essa que ele acabou de dizer sobre ser o mais velho, sendo que ele é apenas seis quatrilhões de anos mais velho do que eu e, no fim das contas, nós temos exatamente a mesma altura?"*
- Tá bom, deixa disso. Desde quando você tem um livro com uma história como essa, Neon? - perguntou Penny, genuinamente curiosa.
- O Mestre me deu ela há não muito tempo - revelou Neon, dando de ombros.
A mente de Penny voltou a fervilhar em pensamentos competitivos: *"Como ele pode ter uma história dessas? O Mestre nunca me agraciou com um livro de tal nível... Por que o Neon já tem acesso a algo assim?"*
- Certo, agora vamos voltar - determinou Neon, estalando os dedos.
O espaço-tempo contraiu-se e, em um piscar de olhos, os irmãos reapareceram no interior da torre de Neon. O livro físico fechou-se com um baque seco no ar e flutuou suavemente até pousar na palma da mão de Neon.
- Certo. Agora que já voltamos, estou indo direto para a minha torre - avisou Penny, sentindo o tédio começar a rastejar de volta.
- O quê? Você já vai? Não vai ficar mais nem um pouquinho com o seu querido irmão? - descontraiu Neon, esboçando um sorriso pidão.
- Pare de palhaçada - cortou Penny, implacável. - Eu tenho que retornar para a história que eu estava observando.
- Tá bom, então... - cedeu Neon, com um semblante meio triste e desanimado. - A propósito, qual é o enredo desse livro que você está lendo, Penny?
- Estou acompanhando uma história sobre um apocalipse zumbi - respondeu a garota.
- Zumbis? - indagou Neon, piscando os olhos, confuso com a escolha.
- Sim. É uma realidade cheia de zumbis mutantes e criaturas grotescas. É bem interessante - explicou Penny.
- Tudo bem, então. Qualquer hora dessas eu dou uma passada na sua torre e entro nessa história junto com você para dar uma olhada - propôs Neon, animado. - Você me concede a permissão de entrada, Penny?
- Tanto faz. Se você quiser ir, eu permito - desdenhou a menina, fingindo indiferença.
No mesmo instante em que a palavra foi dita, a estrutura da torre de Neon emitiu um leve brilho dourado, selando o acordo metafísico.
- Em troca, exijo a permissão para ir e vir da sua torre quando eu quiser também. Você não faz ideia da chatice e da perda de tempo que é caminhar até aqui por aquelas pontes - exigiu Penny.
- Sem problemas, eu permito - concordou Neon, sorrindo.
Os dois irmãos despediram-se com um aceno sutil e, com um único pensamento focado, Penny desfez sua presença física na ala vizinha, reaparecendo instantaneamente em um dos andares silenciosos de sua própria Torre Negra.
Fim do Capítulo 5