Capítulo 5: Os Deuses do Caos
Após entrarem no livro, os dois irmãos viram-se flutuando no vazio absoluto. Segundos depois, o Big Bang explodiu bem diante de seus olhos. Penny e Neon observaram o espetáculo com feições sérias, encarando a energia luminosa primordial rasgar a escuridão do nada. Em perfeita sincronia, os dois disseram ao mesmo tempo:
— Fala sério... Por que as histórias sempre começam dessa forma?
“Hum… Eu não sabia que meu irmão também não gostava de observar as histórias desde o início. Afinal, ele nunca havia reclamado dessas coisas antes” — pensou Penny, olhando surpresa para o garoto ao seu lado.
Sem perder tempo, Neon ativou seus poderes. Seus olhos incendiaram-se em um azul brilhante e a dimensão inteira tornou-se branca. Ele havia executado o seu próprio Fast Forward.
Quando Neon e Penny reabriram os olhos, o breu do espaço havia sido substituído por uma metrópole altamente tecnológica. Arranha-céus monumentais feitos de ligas metálicas desconhecidas e painéis de néon reluzentes rasgavam as nuvens. Naves espaciais aerodinâmicas cruzavam os céus em todas as direções, cortando o ar com zumbidos agudos. Ao redor deles, uma multidão de cidadãos apressados caminhava em direção a um imenso complexo governamental. Perto dali, uma nave de transporte recebia uma fileira de androides humanoides que subiam a bordo de forma militarizada.
— Atenção, todos subam a bordo! Nós já vamos partir! — ordenou um oficial, acenando com a mão para um grupo de soldados humanos que vinha logo atrás dos androides.
— Cara, por que o capitão está tão apressado para essa patrulha? — perguntou um dos soldados para o companheiro ao seu lado, enquanto marchavam logo atrás de uma das máquinas. — Até onde eu sei, nosso império nem está mais em guerra contra o império galáctico vizinho. Hum… E falando nisso, você por acaso sabe por que eles pediram por uma trégua, sendo que foram eles quem começaram esse conflito?
— Atenção, repito esse e o último aviso: todos a bordo imediatamente! Vamos partir em cinco minutos! — gritou o comandante, postado ao lado da escotilha de uma enorme nave de guerra.
— Não estou sabendo de nada, não — respondeu o soldado, que vestia uma armadura cibernética e carregava um rifle de alta tecnologia. — Mas ouvi dizer que esse acordo de cessar-fogo ocorreu após um planeta inteiro ter sido aniquilado por algo desconhecido.
— Onde você ouviu isso? Eu não fiquei sabendo de nada — indagou o parceiro, encarando o rosto do colega.
— Eu ouvi o comandante conversar sobre isso com o alto escalão. Disseram que não era para deixar a informação vazar, por isso não contei para mais ninguém. E mesmo asim os rumores do planeta que foi destruído ja se espalhou por todos os impérios galácticos do cosmos.
— Entendi…
Os dois ficaram em silêncio ao notar que o comandante marchava a passos largos na direção deles, encarando-os com severidade.
— Merda, fudeu! O comandante está vindo em nossa direção e a culpa disso é sua por ter nos feito perder tanto tempo — cochichou o soldado para seu companheiro, enquanto os dois observavam a aproximação do superior.
— Vocês dois! Faz tempo que estou mandando subirem a bordo! Então parem de perder tempo e mexam suas carcaças imundas para dentro daquela nave agora mesmo!
— Entendido, senhor! — responderam os dois em sincronia, saudando o superior antes de correrem para a rampa.
Penny, que observava o lugar, franziu o cenho e cruzou os braços com uma expressão de pura incompreensão.
— Mas o que é isso? — resmungou ela, batendo os pés no chão metalizado. — Pensei que você fosse me mostrar alguma criatura interessante! Mas que merda de lugar é esse? Isso daqui é o quê? Uma história sobre exploração espacial ou algo do tipo? Quando você disse que me mostraria monstros interessantes, achei que iríamos para um mundo de magia medieval, onde existem dragões e feras incríveis. Aqui não tem nada de bom. Vejo que estou apenas perdendo o meu tempo ao ter concordado em vir com você.
— Acalme-se, Penny — confortou Neon, exibindo um sorriso brando. — Não precisa de pressa. O que acontece é que eu apenas nos trouxe um pouco antes de a criatura que mencionei aparecer. Queria dar um passeio por este mundo com você primeiro.
Penny virou o rosto com uma careta claramente irritada, pensando: “Ele está tirando uma com a minha cara, não é? Quem foi que disse que eu tenho tempo ou paciência para perder passeando? Ainda mais com alguém como ele.”
— Não consigo ler sua mente, mas tenho quase certeza de que você deve estar me xingando mentalmente — descontraiu Neon, caminhando ao lado dela. —, mas eu te garanto que, assim que a criatura surgir, você vai adorá-la.
Penny o acompanhou a contragosto, bufando internamente: “Mas que droga de lugar irritante. Detesto histórias como essa.”
— Eu espero que você esteja certo — limitou-se a dizer a garota, com zero animação na voz.
Então, os dois começaram a vagar pelas calçadas metálicas da imensa cidade cibernética. No meio da multidão, um homem vestindo trapos tecnológicos que lembravam as roupas de um marginal esbarrou brutalmente contra o ombro de Neon.
— Seu moleque! Olhe por onde anda! — esbravejou o homem, parando e exibindo os dentes cerrados.
— Peço desculpas, senhor — respondeu Neon, mantendo o tom calmo e educado.
O sujeito resmungou algo incompreensível, virou as costas e continuou seu rumo. As pupilas amarelas de Penny faiscaram em puro ódio. Em sua mente, ela ferveu: “Esse humano só pode ser maluco. Ele esbarra na gente e espera sair vivo daqui? Neon, qual é o seu problema pedindo desculpas a um inseto desses? De jeito nenhum eu vou deixar esse verme ir embora vivo daqui.”
A garota ergueu a mão direita, posicionando os dedos para desferir um estalo com a intenção de explodir o corpo do marginal. Mas, antes que pudesse completar o movimento, foi interrompida.
— Você não precisa fazer isso, Penny — interveio Neon, com os olhos fechados e um leve sorriso no rosto. — De qualquer forma, logo, logo ele e todos os outros neste planeta vão morrer, mesmo que você não mova um único dedo. Apenas assista e aproveite o espetáculo.
— Hum... Não sei o que você quer dizer com isso, mas pouco me importa — murmurou Penny, abaixando a mão. Ela ficou confusa, tentando entender o que seu irmão planejava.
Os dois continuaram a marcha enquanto observavam a estrutura do lugar, até que, após uma longa caminhada, os irmãos avistaram monumentos colossais que dominavam a linha do horizonte. Eram torres de defesa planetária que se erguiam do chão como montanhas de aço negro fosco, com milhares de metros de altura. No topo de cada uma dessas estruturas, imensos canhões de plasma giravam lentamente, apontados para o espaço sideral.
Penny ficou curiosa. Ela fechou os olhos e estendeu sua percepção, que cobriu o planeta inteiro no mesmo instante. Em sua mente, projetou imagens de milhões de outras instalações: aquelas mesmas armas monumentais estavam espalhadas por toda a superfície do globo.
— Hum… Para que esses humanos querem algo desse tamanho? — questionou Penny, abrindo os olhos com uma expressão intrigada. — Não acredito que esses mortais construiriam defesas tão brutais, que parecem armas de destruição em massa, só para abater invasões de frotas inimigas comuns.
— Eu sabia que você iria acabar percebendo. E você tem toda razão, Penny — concordou Neon, mantendo os olhos fechados enquanto caminhava. — Vou te explicar o mais breve possível do que realmente essa história se trata.
Enquanto andavam, Neon começou a contar que, logo após o Big Bang e a formação das primeiras galáxias, a explosão de energia primordial do início de tudo acabou despertando entidades antigas que estavam adormecidas na escuridão absoluta do vazio. Ele explicou que, antes mesmo de o universo existir, aqueles seres cósmicos já habitavam o nada e eram chamados de Os Deuses do Caos. Quando eles acordaram, seu único propósito passou a ser aniquilar mundos e estrelas, revertendo toda a matéria ao esquecimento. As entidades mais poderosas entre eles eram capazes de apagar galáxias inteiras como se fossem velas.
Contudo, o Deus Criador daquele universo travou uma guerra cataclísmica contra os invasores. Ele conseguiu expulsá-los e selar o cosmos com uma barreira dimensional intransponível que impedia a vinda das criaturas ao universo. Mas o preço para isso, porém, foi alto: o Criador ficou mortalmente ferido ao enfrentar o líder dos Deuses do Caos, conhecido como Vreid, O Senhor do Fluxo Escuro. O Deus daquela realidade perdeu seus poderes e entrou em um estado de sono eterno, mas ele conseguiu expulsar Vreid, que recuou para a escuridão profunda, gravemente ferido pela batalha dos dois.
E, após essa guerra cósmica, bilhões de anos se passaram. A humanidade evoluiu, colonizou incontáveis sistemas solares e fundou impérios galácticos que guerrearam entre si por milênios. Mas recentemente tudo mudou, pois, há poucos dias, uma dessas entidades do caos conseguiu romper uma fissura na barreira e ressurgiu novamente no universo. E a primeira coisa que essa criatura fez ao retornar foi pulverizar um planeta inteiro, habitado por bilhões de seres vivos.
— Essas torres de plasma que você está vendo foram construídas recentemente às pressas pelos governantes desse mundo, para tentar diminuir o pânico da população devido aos diversos rumores sobre a destruição recente de um planeta — explicou Neon, olhando em direção a uma das estruturas. — Embora eles mesmos saibam que estas armas não são capazes de causar sequer um arranhão em uma daquelas entidades, e tam...
— Tá bom, tá bom! Já chega dessa explicação tediosa! — Penny o interrompeu, batendo a mão na testa, irritada com a enrolação. — Resumindo: esta é uma daquelas histórias entediantes onde, no final, esses tais Deuses do Caos vão destruir tudo, certo? Isso não é nada interessante de se observar.
— E, resumindo tudo, é basicamente quase isso mesmo — disse Neon, olhando para o rosto de sua irmã.
— Certo. E quando é que esses tais Deuses do Caos vão aparecer? — perguntou Penny, já irritada e entediada de tanto esperar. — Se eles forem demorar a aparecer, eu já estou indo embora, não tenho tempo a perder aqui não.
— Não vai demorar muito não, é só...
Antes que Neon completasse sua frase, o sol sumiu repentinamente do nada, engolindo o mundo inteiro em uma escuridão absoluta. Os cidadãos, já sabendo o que aquilo significava por causa dos rumores, entraram em desespero. Uma gritaria generalizada ecoou por todos os lados enquanto as pessoas corriam em pânico pelas calçadas as cegas. Crianças e seus pais corriam em direção aos prédios de metal para buscar abrigo.
No topo das colossais estruturas de aço, as imensas torres de defesa planetária começaram a disparar contra o vácuo do espaço, cortando o breu com projéteis luminosos massivos de plasma de pura energia.
Penny e Neon olharam para o céu. Do meio do nada cósmico, dois imensos olhos cinzentos surgiram, brilhando fixamente na direção do planeta como se fossem luas.
— Certo. Pelo visto, a hora já chegou — disse Neon, dando um sorriso de leve enquanto olhava para aqueles olhos cinzentos no céu.
Com um único pensamento, Neon transportou a si mesmo e sua irmã para o vácuo do espaço sideral. Eles ficaram flutuando a uma distância gigantesca da órbita do planeta, uma posição privilegiada que lhes permitia contemplar perfeitamente a magnitude da criatura que acabara de se manifestar.
Ao olhar para a frente, Penny deparou-se com um ser monumental de quase dois milhões de quilômetros de altura. A entidade possuía um contorno humanoide inteiramente negro, moldado por um tipo de energia desconhecida que não se assemelhava à matéria ou à física convencional; era como se a própria escuridão primordial tivesse se solidificado em um corpo físico.
Lentamente, a abominação moveu sua mão titânica. Seus dedos envolveram o diâmetro do planeta com uma facilidade assustadora, segurando o globo habitado como se fosse uma mera bola de golfe. E, instantaneamente, o planeta transformou-se em uma imensa bola de fogo e, no milésimo de segundo seguinte, explodiu violentamente, espalhando uma imensa onda de energia por todo o vácuo do espaço, como se toda a matéria daquela esfera tivesse entrado em fissão atômica.
Assistindo àquele espetáculo cataclísmico bem diante de seus olhos, o rosto de Penny iluminou-se. Ela ficou completamente fascinada e empolgada.
— Hahaha! Essas criaturas são realmente magníficas! — disse Penny, encarando a monstruosidade. — Tenho que admitir, nunca teria pensado que essa história seria tão boa.
E essa criatura eu irei levar ela para mim. Irei adicionar ela junto aos meus pets.
Logo após a destruição ser concluída, os olhos de Penny se incendiaram, brilhando no vácuo do espaço. Ela fez o próprio tecido da realidade ao redor do titã de energia dobrar-se sobre si mesmo, engolindo o monstro como se o tivesse mastigado.
— Eu te disse que você iria gostar — comentou Neon, com um tom de nítido orgulho inflado em sua voz. — Eu sei perfeitamente o que minha adorável irmãzinha gosta, afinal, eu sou o seu irmão mais velho.
Ao ouvir aquele comentário, a expressão de fascínio de Penny desapareceu no mesmo instante, retornando à sua habitual frieza. Seus pensamentos imediatamente ironizaram: “Como é que é? Que porra é essa que ele acabou de dizer sobre ser o mais velho, sendo que ele é apenas seis quatrilhões de anos mais velho do que eu e, no fim das contas, nós ainda temos exatamente a mesma altura?”
— Estou de bom humor após conseguir um novo pet e só por isso não vou discutir desta vez — disse Penny, com os olhos fechados, enquanto seu irmão olhava para ela. — A propósito, desde quando você tem um livro como esse, Neon? — perguntou Penny, curiosa, abrindo os olhos amarelos que encaravam seu irmão.
— O Mestre deu ele para mim há não muito tempo — revelou Neon, dando de ombros.
A mente de Penny voltou a fervilhar em pensamentos competitivos: “Como ele pode ter uma história dessas? Ja faz milênios desde a última vez que o Mestre me agraciou com uma nova história...”
— Certo, agora vamos voltar — determinou Neon. Seus olhos brilharam intensamente em azul, o espaço-tempo ao redor deles contraiu-se e, em um piscar de olhos, os irmãos reapareceram no interior de sua torre. O livro físico fechou-se com um baque seco no ar e flutuou suavemente até pousar na palma da mão de Neon.
— Certo. Agora que já voltamos, estou indo direto para a minha torre — avisou Penny, sentindo o tédio começar a rastejar de volta.
— O quê? Você já vai? Não vai ficar mais nem um pouquinho com o seu querido irmão? — descontraiu Neon, esboçando um sorriso como se tentasse irritá-la com suas palavras.
— Pare de palhaçada — cortou Penny, implacável. — Eu tenho que retornar para a história que eu estava observando.
— Tá bom, então... — cedeu Neon, fingindo um semblante triste e desanimado. — A propósito, qual é o tipo de história desse livro que você está lendo, Penny?
— Estou acompanhando uma história sobre um mundo dominado por aberrações mutantes em um pós-apocalipse — respondeu Penny, encarando Neon.
— Um mundo pós-apocalíptico? — disse Neon, piscando os olhos, confuso com a escolha.
— É uma realidade cheia de monstros mutantes belíssimos. É bem interessante de se observar — explicou Penny com os olhos fechados, enquanto levantava uma de suas mãos na hora da explicação.
— Parece realmente interessante. Qualquer hora dessas eu dou uma passada na sua torre e entro nessa história junto com você para dar uma olhada — propôs Neon, enquanto colocava o livro que estava em sua mão na estante à sua frente. — Você me concede a permissão de entrada, Penny? Assim eu não precisarei passar quarenta e sete anos para ir até sua torre e poderei me mover livremente da minha torre para a sua.
— Tanto faz. Se você quiser ir até minha torre, eu permito — disse Penny, dando um leve suspiro.
No mesmo instante em que a palavra foi dita, a estrutura da torre de Neon emitiu um leve brilho dourado, selando o acordo metafísico.
— Em troca, exijo a permissão para ir e vir da sua torre quando eu quiser também. Você não faz ideia da chatice e da perda de tempo que é caminhar até aqui por aquele maldito palácio que parece não ter fim — exigiu Penny, olhando no rosto de Neon.
— Sem problemas, eu permito — concordou Neon com um leve sorriso.
Os dois irmãos despediram-se com um aceno sutil e, com um único pensamento focado, Penny desfez sua presença física na ala vizinha, reaparecendo instantaneamente em um dos andares silenciosos de sua própria Torre Negra.
Fim do Capítulo 5.