- Senhorita, você já chegou - disse Alter, cumprimentando Penny com uma reverência impecável.
- Sim, Alter. Já cheguei - respondeu Penny, soltando um suspiro pesado de cansaço, com a voz totalmente desanimada.
- Se a senhorita estiver muito exausta, deveria esperar um pouco antes de retornar para a sua história - propôs o assistente, mantendo seu habitual sorriso acolhedor.
- Não precisa, Alter - rebateu Penny, ajeitando o vestido. - Você já se esqueceu de que eu não preciso dormir, descansar ou comer?
- Isso é verdade, senhorita. Mas não significa que a sua mente não possa se cansar.
- Está bem, Alter... Vou descansar apenas um pouco antes de voltar para o meu livro.
Penny permitiu-se passar algum tempo no silêncio de sua Torre Negra, até que a hora de seu retorno finalmente chegou. Com um comando mental, sua presença física desfez-se no ar, transmigrando de volta para o exato milésimo de segundo em que havia deixado a Terra.
Apenas alguns minutos após ela se materializar na beliche, a porta do alojamento subterrâneo abriu-se com um rangido. Maria entrou no quarto, exibindo um olhar cansado, mais caloroso.
- Oi, Penny! Já voltei. Você não ficou muito entediada de ficar trancada sozinha aqui, não né? - perguntou Maria, aproximando-se.
- Não, foi muito divertido! - respondeu Penny, abrindo um sorriso brilhante e inocente, enquanto sua mente ironizava: "Se ela soubesse o que eu fiz nesse meio tempo, veria que é simplesmente impossível eu ter ficado entediada."
- Certo, então - disse Maria, sorrindo de volta. - Agora, você poderia me ajudar a ajeitar as coisas que nós vamos levar para a superfície?
- Tudo bem, eu ajudo - consentiu a garota, levantando as mãos pequenas com falsa animação.
À medida que as duas começavam a empacotar velhas caixas de papelão e amarrar tralhas com cordas gastas, a mente de Penny fervilhava em pura indignação: "Fala sério... Que merda eu estou fazendo da minha vida embrulhando essas tralhas?"
Pouco tempo depois, a mudança foi concluída. Elas se estabeleceram em uma das cabanas rústicas da superfície, um barraco de madeira antiga, cinzenta e tomada por grossas teias de aranha nos cantos do teto.
Olhando para o chão de tábuas empenadas, Penny pensou, furiosa: "Porra, que droga de lugar é esse? Esse lixo não vai desabar na nossa cabeça, não? Por que diabos ela quis se mudar para cá, sendo que poderíamos ter ficado no bunker, onde era mil vezes mais confortável e limpo?!"
- Nossa, esse lugar está caindo aos pedaços... - comentou Maria, soltando uma risada leve e otimista apesar do cenário caótico. - Que bom que o Arthur e o Carlos prometeram nos ajudar a consertar tudo.
Internamente, contudo, os pensamentos de Maria transbordavam pura empatia protetora: "A Penny é uma criança muito nova... Eu precisava trazê-la para a superfície. Aqui em cima existem outras crianças da mesma idade, onde ela poderá fazer amizades, correr sob a luz do sol e finalmente brincar de verdade."
Penny, que possuía a capacidade de ler mentes, captou o fluxo de pensamentos de Maria no mesmo instante. Seus olhos amarelos arregalaram-se em um choque de pura incredulidade, que logo se transformou em uma ira monumental:
"Que porra ela acabou de pensar?! Nós saímos do bunker confortável para vir morar nesse chiqueiro por causa de um motivo imbecil desses?! Eu deveria quebrar as pernas dessa mulher agora mesmo! Como ela ousa me chamar de criança, sendo que, comparada a mim, ela é quem acabou de nascer? Nas próximas histórias que eu for observar, vou moldar o meu corpo para a minha versão adulta. Isso é humilhante... Ser tratada como um bebê por alguém que mal tem vinte anos de idade!"
Algumas horas mais tarde, Arthur e Carlos chegaram trazendo ferramentas improvisadas. Eles cumprimentaram as duas e imediatamente começaram o trabalho duro. Pregaram novas tábuas nas paredes onde o vento frio passava, reforçaram a estrutura e consertaram o telhado que exibia goteiras antigas.
Após finalizar a reforma, o grupo caminhou até um velho banco de madeira posicionado sob a sombra de uma árvore alta. À frente deles, o pátio da superfície exibia uma rotina quase normal: crianças sobreviventes corriam e brincavam com bolas de pano entre as fileiras de cabanas, alheias ao terror além dos muros.
- Finalmente terminamos... - resmungou Carlos, desabando no banco, completamente exausto e suado.
- Pessoal, muito obrigada pela ajuda de verdade - agradeceu Maria, com um sorriso sincero.
- Não foi nada. Se precisar de mais alguma coisa, é só dizer que eu dou um jeito - respondeu Arthur, limpando a fuligem dos braços.
- Eu sou o seu irmão, Maria. É claro que eu te ajudaria - brincou Carlos, tentando recuperar o fôlego.
O momento de calmaria durou pouco. Um soldado de guarda aproximou-se a passos rápidos, cochichando algo a sós no ouvido de Arthur. O veterano assentiu, sua expressão tornando-se severa imediatamente.
- Maria, preciso ir. Volto outra hora... A Comandante Lara está me chamando na sala de comando - avisou Arthur, despedindo-se com um aceno tenso.
- Tudo bem, tome cuidado - respondeu ela.
Arthur marchou pelos corredores profundos do subsolo até alcançar a sala de comando da base, um local austero, repleto de mapas táticos rasgados e mesas cobertas de poeira e relatórios militares. Atrás da mesa principal, a Comandante Lara o aguardava de pé, a mão direita repousando na katana.
- Arthur, quero um relatório detalhado do que aconteceu na primeira expedição ao laboratório do Doutor Leon - ordenou Lara, sua voz gélida ecoando no recinto.
- Sim, senhora... - começou Arthur, engolindo em seco enquanto as memórias daquele pesadelo vinham à tona. - Para ser exato, nós sequer conseguimos alcançar as coordenadas do laboratório. O mapa e as informações que nos forneceram eram completamente falsos. No perímetro indicado, o que encontramos foi o território de um acampamento massivo de sobreviventes... Mas, pelo perfil tático e o armamento que exibiam, pareciam bandidos altamente perigosos. Então recuamos.
Arthur fez uma pausa, fechando os olhos por um segundo enquanto o pavor do passado invadia sua mente. Em seus pensamentos, uma imagem sangrenta projetou-se: ele viu o soldado de elite empunhando sua espada reluzente, desferindo um corte preciso que decepou parcialmente o braço do zumbi mutante gigante. Porém, antes mesmo que a lâmina terminasse o arco, o tecido muscular da criatura borbulhou e o ferimento fechou-se instantaneamente, ignorando o golpe. No milésimo de segundo seguinte, o Colosso Putrefato ergueu sua mão de vinte metros, esmagou os soldados de infantaria comuns que atiravam desesperados e agarrou o soldado de elite pelo tronco, devorando-o vivo com uma mordida brutal.
- O soldado de elite e toda a nossa escolta de infantaria foram sumariamente dilacerados por aquele mutante gigante - continuou Arthur, a voz trêmula com o remorso. - Carlos, Maria e eu só conseguimos escapar com vida porque batemos em retirada imediata. Nós não possuíamos poderes elementares para ferir aquela abominação.
- Tudo bem, já chega. Eu já entendi a gravidade da situação - interrompeu Lara, sem alterar o semblante severo, embora seus olhos tenham se estreitado. - Nós já interrogamos o informante que nos vendeu essas coordenadas falsas para o que deveria ter sido uma expedição suicida. Graças à Comandante Katerina e suas habilidades mentais, ela invadiu e leu a mente daquele traidor. Descobrimos que ele é um espião infiltrado, pertencente a essa grande facção de bandidos. E o território principal deles fica localizado justamente na cidade em ruínas onde o verdadeiro laboratório do Doutor Leon está escondido.
Lara fez uma pausa por um segundo, seus pensamentos recuando para o aviso sombrio que Katerina havia lhe dado poucas horas antes. A comandante de cabelos ocultos pelo quepe fora cirúrgica: após vasculhar as memórias do traidor, ela não conseguiu identificar quem o havia ajudado a entrar na base. No entanto, Katerina foi categórica ao afirmar que existia uma probabilidade altíssima de que alguém do alto escalão daquele acampamento estivesse facilitando a infiltração de inimigos. Era vital ter cuidado extremo com o vazamento de qualquer informação.
Retornando o olhar severo para o veterano à sua frente, a líder militar retomou a palavra.
- Arthur, eu sei perfeitamente que na expedição anterior você se voluntariou para ir apenas por causa de Maria e de Carlos. Portanto, vou te passar as ordens diretamente e você será o responsável por repassá-las a eles - determinou Lara. - Estou organizando uma nova missão oficial. Vocês três, juntamente com o Soldado Enrique e a Comandante Katerina, irão a campo para confirmar as coordenadas reais do laboratório e coletar o máximo de informações possível sobre o acampamento de bandidos que se instalou naquele perímetro.
- Entendido, senhora - respondeu Arthur, mantendo a postura firme. - Eu vou avisar Maria e Carlos sobre os detalhes da nova expedição imediatamente.
- Tudo bem. Agora você já está dispensado - concluiu Lara, fazendo um leve aceno com a cabeça.
Arthur prestou uma rápida continuação, deu meia-volta e deixou a sala de comando. Ao cruzar os corredores de concreto úmido do bunker profundo, ele quase colidiu de frente com um homem de postura imponente e uniforme negro de gala. Era o Comandante Raven.
- Arthur! Quanto tempo não te vejo por aqui... Desde que você partiu para aquela maldita expedição - cumprimentou Raven, abrindo um sorriso descontraído que contrastava com sua habitual severidade militar.
- Comandante Raven - respondeu Arthur, erguendo a mão para o cumprimento formal padrão.
- Fala sério, Arthur, deixa disso! - Raven cortou o gesto com uma risada leve, batendo no ombro do amigo. - Você sabe muito bem que somos amigos de longa data. Não precisa me chamar de comandante e muito menos me saudar formalmente enquanto estivermos a sós. Mas me diga... Você estava conversando com aquela Ogr... Quero dizer, com a Comandante Lara?
- Sim - respondeu Arthur, enquanto sua mente ironizava o deslize do superior: "Ele ia mesmo chamar a Comandante Lara de Ogra bem aqui no meio do corredor?" - Ela me chamou para repassar as diretrizes de uma nova expedição que está montando.
- Entendo. Deve ser por isso que ela mandou me chamar também. Provavelmente quer que meu esquadrão dê suporte ou seja informado sobre o trajeto - comentou Raven, cruzando os braços.
Antes que pudessem estender a conversa, um soldado de elite portando uma imensa espada na cintura aproximou-se a passos rápidos. Ele prestou reverência e cochichou algumas palavras urgentes diretamente no ouvido de Raven. O general de fogo assentiu, sua expressão retornando à frieza de sempre.
- Peço desculpas, Arthur, mas o dever chama. Preciso ir agora - despediu-se Raven, já se virando. - A gente se esbarra por aí em qualquer hora dessas!
Os dois se despediram com um aceno sutil e o Comandante Raven empurrou as pesadas portas de ferro, entrando na sala de Lara.
Nas primeiras horas da manhã do dia seguinte, a superfície do abrigo transformou-se em uma zona de preparação frenética. Próximo aos muros altos de pedra, um esquadrão de infantaria terminava de ajustar os últimos detalhes de um jipe militar utilitário antigo - um veículo desgastado, coberto de ferrugem e remendos de solda que, sabe-se lá como, ainda mantinha o motor roncando de forma funcional.
Soldados de apoio erguiam pesadas caixas de madeira repletas de rações desidratadas, munição e galões de água, acomodando-as na caçamba do jipe de suprimentos. Logo atrás, um segundo veículo blindado de transporte recebia os membros da força-tarefa principal.
O clima era de pura tensão palpável. O Soldado Enrique, com as mãos trêmulas e o rosto pálido pelo trauma recente, apertava o cabo de sua espada com tanta força que os nós de seus dedos estavam brancos. Ao seu lado, a Comandante Katerina mantinha os olhos semicerrados sob a aba escura de seu quepe, observando silenciosamente o fluxo mental de pavor que emanava do jovem recruta.
Maria e Carlos trocaram um olhar cúmplice e determinado, ajustando suas mochilas antes de subirem a bordo.
Com o bater pesado das portas de ferro dos veículos, os motores rugiram mais forte. A expedição finalmente cruzou os portões da barreira de pedra, partindo em velocidade constante em direção à silhueta cinzenta e mortal da cidade em ruínas.
Fim do Capítulo 6