- Vruuummm!
Após deixar as muralhas de pedra do abrigo, a expedição ganhou velocidade, avançando pela estrada de terra em direção à sua perigosa jornada de reconhecimento. Dentro do veículo de transporte, o silêncio tenso era quebrado apenas pelo ronco do motor utilitário.
- A propósito, Maria... - Arthur quebrou o silêncio, de olho na estrada à frente. - Você deixou a Penny sozinha na cabana?
- Deixei... - respondeu Maria, embora um vinco de preocupação tenha surgido em seu rosto. - Mas eu pedi para o pessoal do alojamento local ficar de olho nela. Ela vai ficar bem. Afinal, a Penny é uma garota extremamente esperta.
Enquanto isso, no segundo jipe que vinha logo atrás, o Soldado Enrique estava estático. Sentado incrivelmente perto da Comandante Katerina, sua mente martelava em um desespero silencioso e frenético: "Eu vou morrer... Meu Deus, eu vou morrer..."
- Será que dá para você parar de pensar tão alto, Soldado Enrique? - A voz da Comandante Katerina cortou o ar de forma gélida e extremamente irritada. Como sua habilidade mental permitia escutar os fluxos de memória de quem ela tocasse, o fato de o ombro do recruta estar encostado no dela era uma tortura. - Se você não conseguir controlar essa enxurrada de bobagens na sua cabeça, é melhor trocar de lugar com o soldado ali da frente, que está quase rindo da sua cara.
- D-Desculpe, Comandante Katerina! - gaguejou Enrique, o suor frio escorrendo pela nuca. - É que... eu acabei lembrando daqueles monstros voadores que pulverizaram a base na madrugada anterior.
- Não há necessidade de pavor - Katerina respondeu, ajeitando a aba escura de seu quepe militar. - Aquele tipo específico de mutante alado possui hábitos noturnos. Eles dormem durante o dia e só despertam com o cair da noite.
- Se a senhora diz... - murmurou Enrique, tentando forçar sua mente a se acalmar, embora o ritmo de seu coração continuasse acelerado.
Enquanto os veículos seguiam viagem em direção ao horizonte cinzento, a realidade a quilômetros dali era completamente diferente. Na superfície do abrigo, Penny permanecia sentada no velho banco de madeira, sob a sombra de uma árvore alta.
- Que chatice... - resmungou Penny, cruzando os braços miúdos e batendo a ponta do sapato no chão de terra. - Eles saíram para uma expedição de verdade e me deixaram para trás. Se bem que, considerando que eu aparento ter apenas dez anos, é uma decisão compreensível para humanos comuns. Mas de jeito nenhum eu vou ficar trancada neste abrigo de merda. É entediante demais.
Penny levantou-se, correndo os olhos amarelos e afiados pelos arredores para garantir que nenhuma sentinela a observava. No milésimo de segundo em que se preparava para distorcer o espaço e se teleportar, um garotinho da mesma idade aproximou-se a passos tímidos.
- O-Oi... - gaguejou o menino, com as bochechas coradas de pura vergonha ao vê-la sozinha. - Eu notei que você estava sem ninguém e vim aqui para te fazer companhia. Meu nome é Jo...
Antes que ele pudesse concluir o próprio nome, a fala morreu em sua garganta. Ao erguer os olhos, deparou-se com a expressão de Penny: um semblante tomado por uma fúria gélida e um par de pupilas amarelas que pareciam facas prontas para retalhá-lo.
- Cai fora daqui, moleque catarrento - sibilou ela, a voz destilando puro veneno.
O garoto paralisou em choque traumático, deu meia-volta e correu em pânico para longe dali. Penny estalou a língua, ajeitando as dobras de seu vestido limpo enquanto sua mente fervilhava em indignação: "Era só o que me faltava... Uma criança de verdade querendo torrar a paciência de uma entidade milenar."
Com um gesto sutil de suas mãos, o espaço ao redor de Penny dobrou-se sobre si mesmo. Ela desfez sua presença física na base e, no milésimo de segundo seguinte, materializou-se flutuando alto no céu, bem acima da cidade em ruínas.
- Ótimo. Finalmente longe daquele refúgio tedioso.
Penny começou a descer lentamente pelas correntes de vento até pousar com leveza no topo de um imenso arranha-céu condenado. Ao estender sua percepção divina pelo concreto colapsado, ela sentiu imediatamente três assinaturas biológicas familiares ocultas nos andares inferiores de um prédio vizinho.
- Meus bebês... - Um sorriso empolgado e sádico iluminou as feições da garota. "Então esses três fugiram e se esconderam covardemente aqui quando aquela comandante da katana liberou sua aura de combate no pátio", deduziu mentalmente.
Antes que pudesse saborear o reencontro, gritos estridentes de desespero ecoaram de um beco sujo a poucos metros dali. Penny caminhou até a borda do terraço e olhou para baixo.
No chão batido da rua em ruínas, um grupo de cinco bandidos maltrapilhos cercava uma mulher sobrevivente. Com risadas brutais, eles agarravam e rasgavam suas roupas rústicas com violência.
- Não! Não! Socorro! Alguém me ajude, por favor! - A mulher berrava, tentando cobrir o próprio corpo enquanto lutava desesperadamente contra as mãos que a prendiam.
Penny, empoleirada no topo do edifício onde as feras dormiam, apenas inclinou a cabeça para o lado. Sua expressão transbordava um tédio profundo.
- Que clichê... - comentou a garota, soltando um suspiro de desdém. - Em absolutamente toda história de apocalipse existe uma cena idêntica a esta. É previsível demais. Não tem originalidade nenhuma.
Decidida a quebrar o roteiro entediante daquela realidade, as pupilas de Penny incendiaram-se em um dourado divino e cortante. Nas entranhas escuras do prédio atrás dela, as três criaturas aladas que dormiam empilhadas em meio aos escombros abriram os olhos injetados de sangue ao receberem o comando mental.
- GRRRRAAAARGH!
O rugido de fúria uníssono das feras foi tão violento que a estrutura de concreto estremeceu, desabando em estilhaços enquanto os monstros de quinze metros de envergadura erguiam voo em direção ao céu diurno. Sob a autoridade invisível de Penny, eles mergulharam como mísseis na direção do beco.
Lá embaixo, o som estridente fez os criminosos congelaram.
- Vocês... Vocês ouviram esse barulho? - perguntou um dos homens, a voz vacilando.
- Não deve ser nada, só o concreto de algum prédio cedendo - desdenhou o líder do grupo.
- E se for um daqueles mutantes alados que os boatos mencionaram? - insistiu o terceiro bandido, olhando para os lados com pavor.
- Não viaja, idiota! - rebateu o outro em um tom carregado de sarcasmo. - Desde quando uma daquelas abominações andaria sob a luz do dia? Elas de...
A frase foi brutalmente interrompida. Aproveitando a distração dos homens que discutiam, a mulher reuniu o resto de suas forças e desferiu um chute certeiro e violento diretamente nas partes íntimas do bandido que a segurava.
- Seus desgraçados! Eu espero que todos vocês morram no inferno! - ela gritou.
O homem perdeu o ar instantaneamente. Ele desabou de joelhos, rolando no chão de terra batida enquanto gemia de pura agonia. Furioso com a reação, um segundo bandido avançou por trás da mulher, agarrando seus cabelos com força total.
- Me solta, seu maldito!
O criminoso desferiu um soco brutal contra o rosto da mulher. O impacto seco quebrou seu nariz instantaneamente, fazendo o sangue jorrar e salpicar o chão. Seus dentes da frente estilhaçaram-se e sua boca encheu-se de um gosto metálico enquanto sua visão ficava completamente zonza e turva.
- Sua vadia imunda! - O bandido esbravejou, arrancando uma faca tática e afiada da cintura, posicionando a lâmina contra a garganta da vítima. - Era só ter ficado quieta! Depois que a gente se divertisse, iríamos te deixar ir em paz. Agora, você vai morrer!
Contudo, antes que a lâmina pudesse rasgar a carne:
- GRRRRAAAARGH!
Uma sombra colossal e repentina cobriu o sol acima do beco. O ar foi cortado por um bater de asas massivo. No milésimo de segundo seguinte, o primeiro mutante alado despencou das nuvens com as mandíbulas escancaradas. Os dentes podres e colossais fecharam-se com um estalo seco, partindo o corpo do bandido armado ao meio em uma chuva violenta de sangue negro e vísceras.
- GRRRRAAAARGH!
A segunda criatura alada rugiu furiosamente, cravando suas garras afiadas direto no peito de um dos bandidos. Erguendo o homem no ar enquanto ele gritava desesperado em direção às suas mandíbulas, o monstro arrancou sua cabeça com uma única e brutal mordida.
- Eu avisei que aquele maldito som era um mutante! - gritou o outro bandido, com o rosto pálido e tomado pelo pavor absoluto ao testemunhar a cena.
O pânico desestruturou o grupo. Dois dos criminosos sobreviventes saíram correndo em direções opostas, enquanto o terceiro tentou se refugiar no interior de um prédio em ruínas próximo. Contudo, um dos monstros colidiu violentamente contra a fachada da estrutura na tentativa de devorá-lo. O impacto fez o teto de concreto desabar, esmagando o bandido instantaneamente e prendendo de forma temporária a cabeça do monstro em meio aos escombros.
A fera sacudiu-se com violência, libertando-se dos detritos e erguendo voo logo em seguida. Como uma águia caçando sua presa, ela mergulhou sobre um dos bandidos em fuga, agarrando-o com as garras das patas traseiras. O homem berrou de dor ao ser içado no ar, mas seu sofrimento durou pouco: com uma única bocada, a criatura decepou e engoliu sua cabeça, arremessando o resto do corpo sem vida no chão, bem ao lado da mulher.
A sobrevivente permanecia estática, paralisada pelo choque térmico do medo e do puro pavor.
- Socorro... - a mulher sussurrou entre lágrimas pesadas, antes que a terceira criatura avançasse sobre ela, devorando-a por inteiro. Enquanto isso, o monstro que havia soltado o cadáver voltou a caçar os últimos fugitivos pelas vielas, dilacerando-os sem piedade.
No topo do arranha-céu, Penny assistia a tudo de braços cruzados, um sorriso radiante iluminando seu rosto infantil.
- Que visão maravilhosa... - comentou ela, balançando as pernas no ar. - Isso sim é entretenimento de verdade para acabar com o meu tédio.
Olhando para o local onde a mulher acabara de desaparecer na garganta do mutante, Penny soltou um suspiro entediado e deu de ombros.
- Fala sério... Eu tentei ajudar, mas a culpa é dessa idiota por não ter corrido enquanto os meus bebês matavam os bandidos. Em vez de fugir para salvar a própria pele, preferiu ficar aí paralisada. Bem, que seja. Não dou a mínima para isso de qualquer forma. Acho que já está na hora de eu voltar antes que alguém note a minha ausência.
Com um único comando mental, o espaço-tempo ao redor de Penny distorceu-se. Ela desapareceu instantaneamente daquela zona de massacre urbano e reapareceu sentada calmamente no velho banco de madeira sob a sombra da árvore do abrigo, como se nunca tivesse saído dali.
Enquanto isso, a quilômetros de distância, os motores dos jipes utilitários finalmente começaram a desacelerar. Sob o céu cinzento da tarde, o grupo da expedição militar acabava de alcançar os limites periféricos da perigosa cidade em ruínas.
Fim do Capítulo 7