- Garotinha, onde você estava? - perguntou um soldado esbaforido, arqueando o corpo e apoiando as mãos nos joelhos, como se tivesse acabado de correr uma maratona.
- Eu estava passeando - respondeu Penny, com a voz mais mansa que conseguiu fingir. - E quem seria você mesmo?
- Ah, é mesmo! Desculpe por não ter aparecido antes. Eu sou um amigo da senhorita Maria - respondeu o homem. Suas bochechas ganharam um tom vermelho-vivo enquanto ele fechava os olhos, perdendo-se em um devaneio onde Maria, com um olhar carente, pedia para ele cuidar de Penny. Na fantasia dele, quando Maria retornava da expedição, ela corria ao seu encontro com um sorriso apaixonado, chamando seu nome antes de lhe dar um beijo caloroso.
Assistindo àquela cena patética, as pupilas de Penny estreitaram-se. Em seus pensamentos, a garota bufou: "Que nojo... Os pensamentos desse cara são absurdamente grotescos. Se a Maria soubesse disso, nem chegaria perto de um maluco desses, que claramente está se aproximando com segundas intenções."
O homem finalmente parou de fantasiar acordado, pigarreou e olhou atentamente para a garotinha loira.
- É um prazer conhecer você. Meu nome é Lucios, sou um soldado sob o comando do senhor Raven - apresentou-se, estufando o peito com orgulho militar. - A Maria me pediu para cuidar de você, então solicitei uma licença especial ao Comandante Raven. Só consegui vir agora para te ver.
Lucios começou a tagarelar sobre uma infinidade de assuntos irrelevantes e histórias de caserna. Penny, contudo, nem sequer se dava ao trabalho de escutar, mantendo um olhar vago e entediado fixo no horizonte.
Enquanto isso, a quilômetros dali, o ronco abafado do jipe utilitário cessou por completo. O veículo da expedição estacionou à sombra projetada por um arranha-céu imenso e condenado.
- Certo. Todos para fora do jipe, agora - ordenou a Comandante Katerina, saltando com agilidade do banco do passageiro.
- Senhora, por que paramos aqui? - perguntou o Soldado Enrique, olhando desconfiado para as janelas escuras dos prédios ao redor. - Não seria melhor avançarmos de jipe até as coordenadas planejadas?
- Não seja idiota, Soldado Enrique - retrucou Katerina, a voz transbordando uma impaciência gélida. Ela ajeitou a aba de seu quepe militar antes de continuar: - Creio que você saiba que, embora os zumbis comuns tenham sido limpos desta área, as ruínas desta cidade são infestadas de mutantes. Se avançarmos fazendo o barulho desse motor velho, seremos caçados e cercados em minutos.
- Ah... Entendi agora - murmurou Enrique, engolindo em seco.
- Muito bem, pessoal. Cada um pegue apenas o essencial. Vamos seguir a pé a partir daqui - comandou Katerina.
O grupo iniciou uma preparação rápida e silenciosa. Separaram rações desidratadas, kits médicos de emergência e água. Próximo à caçamba, os soldados de infantaria comuns, armados com fuzis de assalto, batiam seus pentes de munição, ajustando os coletes.
- Vocês não precisam ajeitar seus equipamentos - interveio Katerina, cortando o som metálico das armas com sua voz firme. - Somente eu, o Soldado Enrique e os outros três ali da frente iremos prosseguir. Vocês ficarão aqui na retaguarda, guardando os veículos.
- Mas, Comandante, nós também queremos apoiar na linha de frente da expedição! - protestou um dos soldados, segurando firme o fuzil.
- Se vocês forem, serão apenas um estorvo - respondeu Katerina, implacável. - Armas de fogo são completamente inúteis e proibidas nas profundezas desta cidade. Um único disparo atrairia monstros que nem mesmo nós conseguiríamos conter sob a luz do dia. Portanto, permaneçam aqui e nos esperem. Se não retornarmos em três dias, voltem para o abrigo e relatem aos superiores que ou fomos sumariamente mortos ou capturados pela facção de bandidos. Estamos combinados?
Os soldados assentiram rigidamente, embora insatisfeitos. Katerina virou-se para os demais:
- Todos prontos?
- Sim - respondeu Maria, ajustando com firmeza as alças de sua mochila tática nas costas.
- Tudo pronto por aqui - disse Arthur. O veterano mantinha uma postura calma, empunhando seu bastão de pregos oxidados com a segurança de quem já esperava por aquele momento há muito tempo.
- Eu também terminei - confirmou Carlos, testando o peso de sua própria arma de madeira.
Enquanto o trio se alinhava, o Soldado Enrique continuava parado ao lado do jipe, enrolando deliberadamente para prender as fivelas de suas perneiras na esperança de atrasar a marcha. Percebendo a artimanha, a Comandante Katerina caminhou silenciosamente por trás dele e colocou uma das mãos espalmadas diretamente sobre o ombro do recruta.
- Ei.
- Aaah! - gritou Enrique. Ele deu um salto desajeitado no ar e girou o corpo bruscamente para trás, com as mãos espalmadas no peito e o coração batendo feito um tambor ensandecido. - A senhora quer me matar?! Eu quase tive um colapso cardíaco agora!
- Para de enrolar e mova-se logo. Ou, se preferir, pode ficar aqui guardando o jipe junto com a infantaria comum - disse Katerina, cruzando os braços.
Ao ouvir aquelas palavras, os olhos de Enrique brilharam intensamente. Um sorriso enorme e aliviado surgiu em suas feições, e ele imediatamente agarrou as mãos de Katerina, assustando-a por um breve milésimo de segundo com aquele surto de intimidade.
- Sério?! A senhora vai mesmo me deixar ficar aqui em segurança? - perguntou ele, radiante.
Katerina encarou o recruta com um olhar de profundo desprezo, enquanto sua mente processava a situação: "Como a Comandante Lara permitiu que alguém tão pateticamente medroso entrasse em seu esquadrão de elite? Ele implora para ficar para trás, enquanto civis comuns como o Arthur e o Carlos, que nem possuem poderes elementares, estão motivados para avançar."
Afastando as mãos dele com firmeza, Katerina fechou os olhos e forçou um sorriso falso, transbordando uma doçura perigosa:
- Mas é claro que você pode ficar, Enrique. Eu jamais forçaria um soldado a ir a campo contra a própria vontade... - Ela fez uma breve pausa, abrindo as pálpebras lentamente. - Mas é claro que, assim que cruzarmos os portões de volta, farei questão de relatar pessoalmente à Comandante Lara que você não contribuiu em absolutamente nada para o sucesso desta missão oficial.
O sorriso de Enrique desmoronou instantaneamente. Seu rosto empalideceu tanto que ele parecia um zumbi comum, e sua boca abriu-se em puro choque. Em sua mente traumatizada, uma projeção terrível ganhou forma: ele viu a Comandante Lara com os olhos incendiados em fúria divina, fechando os punhos massivos enquanto o espancava violentamente até quebrá-lo ao meio.
- Ha... Ha-Ha... Mas é claro que eu só estava brincando, Senhora Katerina! - gaguejou Enrique, limpando o suor gélido que brotou em sua testa, enquanto seu corpo tremia da cabeça aos pés. Ele deu um passo à frente, forçando uma postura corajosa enquanto sua mente chorava em desespero: "Droga... Eu tenho um pavor mortal daqueles mutantes alados, mas a Comandante Lara viva consegue me dar muito mais medo!"
Então, mordendo os lábios e fechando os punhos, o Soldado Enrique pensou, frustrado: "Droga, droga... Maldita Comandante Katerina!"
O grupo finalmente partiu em direção à cidade. À medida que avançavam, o cheiro de podridão tornava-se insuportável. Os prédios abandonados ao redor projetavam sombras longas, dando uma sensação sinistra por conta da escuridão absoluta que habitava suas janelas quebradas. De repente, um estalo fraco de concreto ecoou de um beco próximo. Assustado, o Soldado Enrique deu um salto e agarrou-se desesperadamente nas costas de Carlos.
- Ei! Será que dá para você me soltar?! - exclamou Carlos, a voz carregada de raiva e desprezo ao empurrar o recruta para longe. - Você tem poderes especiais, por que diabos está com tanto medo assim?
- Você não faz a menor ideia dos monstros que vivem neste lugar, por isso está falando essa bobagem! - gritou o Soldado Enrique, ajeitando o uniforme após ser solto. - E para que vocês estão levando esses bastões com pregos grotescos? Até onde eu sei, isso só é eficiente contra zumbis normais. Não vai fazer nem cócegas nos mutantes daqui!
- Estamos levando os bastões como uma ferramenta de segurança extra, caso encontremos hordas comuns no caminho - explicou Arthur, mantendo o tom calmo e pragmático de sempre.
- Certo... Entendi - resmungou Enrique, ainda olhando desconfiado para os lados.
O grupo continuou a marchar pelas avenidas devastadas. O cenário era desolador: esqueletos cobertos por um muco espesso e esverdeado estavam espalhados por toda a calçada, restos mortais de pessoas cujas carnes haviam sido decompostas ou devoradas com o passar do tempo. Após caminharem sem descanso desde as primeiras horas da manhã até o final da tarde, o céu começou a escurecer rapidamente, trazendo o frio da noite.
- Certo, pessoal. Já está anoitecendo - anunciou Katerina, parando na entrada de uma antiga estação subterrânea. - Vamos procurar um lugar protegido para passarmos a noite. É perigoso demais continuar na superfície no escuro.
- Certo - responderam Carlos, Maria, Arthur e Enrique, um após o outro, exaustos.
Eles desceram as escadarias em ruínas até alcançarem um velho túnel de metrô. Utilizando pedaços de papelão, madeiras podres e restos de lixo que encontraram pelo chão, conseguiram acender uma pequena fogueira para espantar o frio. Acomodaram seus sacos de dormir sobre o concreto arenoso e, após algum tempo, o cansaço venceu a maioria. Todos caíram no sono, exceto Arthur.
Deitado de lado, o veterano encarava as brasas moribundas da fogueira enquanto sua mente o arrastava de volta ao pior dia de sua vida. Em suas memórias, o pesadelo ganhou forma: ele viu a si mesmo correndo desesperado ao lado de sua esposa através de um corredor escuro, com um enxame de zumbis comuns colado em seus calcanhares. De repente, dezenas de mãos decrépitas romperam uma barreira e agarraram os ombros e os braços de sua mulher.
Antes de ser puxada para o turbilhão de dentes, ela usou suas últimas forças para estender os braços e entregar a ele a filha do casal, que aparentava ter apenas três anos de idade. Logo em seguida, os monstros cravaram as mandíbulas no pescoço e nos braços da mulher. Com uma violência brutal, a pele de sua cabeça foi arrancada, expondo a carne viva enquanto o sangue jorrava em jactos. Ela desabou no chão já sem vida, e o último vislumbre que Arthur teve antes de fugir com a criança nos braços foi o das criaturas rasgando as entranhas de sua esposa para fora.
- Arthur... Você ainda está acordado? - A voz sussurrada de Maria cortou o silêncio do túnel, interrompendo abruptamente as lembranças sangrentas. Ela o encarava com um olhar preocupado. - No que você estava pensando? Você está com uma cara péssima.
- Não era nada de mais... - respondeu Arthur, limpando discretamente uma gota de suor frio da testa e tentando disfarçar o tremor na voz. - Eu só estou extremamente cansado de tanto caminhar hoje. Então... Boa noite, Maria.
Arthur virou-se de costas para a fogueira e fechou os olhos, forçando-se a respirar compassadamente. Maria permaneceu em silêncio por alguns instantes, observando as costas do veterano enquanto pensava: "No que será que ele estava pensando com uma expressão tão triste? Ele nunca comentou absolutamente nada sobre o seu passado desde o dia em que nos conhecemos..."
Sem respostas, Maria ajeitou-se em seu saco de dormir e fechou os olhos, deixando que o silêncio pesado do metrô os envolvesse.
Fim do Capítulo 8