Capítulo 8: Um Passado Sangrento
Após retornar para o banco sob a árvore onde estava, Penny olhou para o longe e viu um soldado correndo em sua direção. O homem aparentava ter uns vinte e oi-to anos, cabelos loiros e olhos verdes.
“Hum… Sinto que vou passar por sérias situações irritantes por causa desse humano.”
— Garotinha, onde você estava? — perguntou o soldado esbaforido, arqueando o corpo e apoiando as mãos nos joelhos, como se tivesse acabado de correr uma maratona.
— Eu estava passeando — respondeu Penny, com a voz mais mansa que conseguiu fingir, enquanto olhava friamente para o soldado à sua frente. — E quem seria você mesmo?
— Ah, é mesmo! Desculpe por não ter aparecido antes. Eu sou um amigo da senhorita Maria — respondeu o homem. Suas bochechas ganharam um tom vermelho-vivo enquanto ele fechava os olhos, perdendo-se em um devaneio onde Maria, com um olhar carente, pedia para ele cuidar de Penny. Na fantasia dele, quando Maria retornava da expedição, corria ao seu encontro com um sorriso apaixonado, chamando seu nome antes de lhe dar um beijo caloroso.
Assistindo àquela cena patética, as pupilas de Penny estreitaram-se, e um de seus olhos piscou de irritação. Em seus pensamentos, a garota bufou: “Que nojo... Os pensamentos desse humano são grotescos. Agora eu me lembro do porquê de nunca mais utilizar minha versão adulta. Quando eu usava minha forma mais velha, sempre apareciam seres nojentos iguais a esse para acabar com a minha paciência. Eu matei a maioria deles ja que me irritavam, mas eles sempre surgiam de novo, como uma praga sem cura. Por isso prefiro passar pela humilhação de parecer uma criança a voltar à minha versão adulta e ter um monte de criaturas iguais a esta me importunando...”
O homem finalmente parou de fantasiar acordado e olhou atentamente para a garotinha loira à sua frente, pensativo: “Hum… Por que a Maria está cuidando de uma criança que nem é dela? Bem, tanto faz, pelo menos não é um garoto.”
— É um prazer conhecer você. Meu nome é Lucios, sou um soldado sob o comando do senhor Raven — apresentou-se, estufando o peito com orgulho militar. — A Maria me pediu para cuidar de você, então solicitei uma licença especial ao Comandante Raven. Só consegui vir agora para te ver.
Lucios começou a tagarelar sobre uma infinidade de assuntos irrelevantes e histórias de caserna. Penny, contudo, nem sequer se dava ao trabalho de escutar; mantinha um olhar vago e entediado fixo no horizonte, observando as pessoas ao longe.
Enquanto isso, a quilômetros dali, o ronco abafado do jipe utilitário cessou por completo. O veículo da expedição estacionou na sombra projetada por árvores imensas, a centenas de metros da cidade em ruínas. Como estava começando a escurecer, o silêncio que antes dominava o lugar logo foi quebrado por rugidos e grunhidos distantes; os monstros já podiam ser escutados, mesmo longe da cidade.
— Certo. Todos para fora do jipe, agora — ordenou a Comandante Katerina, levantando-se de forma imponente do banco do passageiro e olhando em direção aos prédios em ruínas.
— Senhora, por que paramos aqui? — perguntou o Soldado Enrique, olhando desconfiado para os lados.
— Não seja idiota, Soldado Enrique — retrucou Katerina, a voz transbordando uma impaciência gélida. Ela ajeitou a aba de seu quepe militar antes de continuar: — Creio que você saiba que, embora os zumbis comuns tenham sido limpos desta área, as ruínas desta cidade são infestadas de mutantes. Se avançarmos fazendo o barulho desse motor velho, seremos caçados e cercados em minutos.
— Ah... Entendi agora — murmurou Enrique, engolindo em seco.
— Certo, pessoal — disse Katerina, virando as costas para a cidade morta. — Como já está quase de noite, iremos acampar aqui e seguir jornada amanhã.
— Entendido, Comandante Katerina! — gritaram todos os soldados de infantaria, batendo continência.
O grupo montou uma fogueira. A noite finalmente caiu, e os gritos das criaturas ecoaram mais fortes vindos das ruínas. Os guardas que estavam de vigilância ouviam aquilo engolindo em seco.
— Será que nenhum desses monstros vai vir atrás da gente? — perguntou um dos soldados ao seu companheiro de posto.
— Eu não faço a menor ideia — respondeu o outro, encarando-o de volta.
— Não precisam se preocupar — disse Katerina, surgindo das sombras atrás dos dois. — Desde que fiquemos bem longe daquele lugar, tudo irá ficar bem. Mas, por precaução, mantenham-se atentos.
— Certo, Comandante Katerina — responderam os dois, cumprimentando a superior.
Após algumas horas conversando perto do fogo, os soldados de infantaria, juntamente com Maria, Carlos, Katerina e Arthur, foram dormir. Ficaram acordados apenas os dois soldados que vigiavam o perímetro. As horas se passavam, os guardas trocavam de turno enquanto os outros, exaustos, iam deitar. Logo pela manhã do dia seguinte:
— Muito bem, pessoal. Cada um pegue apenas o essencial. Vamos seguir a pé a partir daqui — comandou Katerina, sob o olhar atento de todos.
O grupo iniciou uma preparação rápida e silenciosa. Separaram rações desidratadas, kits médicos de emergência e água. Próximo à caçamba, os soldados comuns, armados com fuzis de assalto, batiam seus pentes de munição e ajustavam os coletes.
— Vocês não precisam ajeitar seus equipamentos — interveio Katerina, cortando o som metálico das armas com sua voz firme. — Somente eu, o Soldado Enrique e os outros três ali da frente iremos prosseguir. Vocês ficarão aqui na retaguarda, guardando os veículos.
— Mas, Comandante, nós também queremos apoiar na linha de frente da expedição! — protestou um jovem soldado, segurando firme sua arma de fogo.
— Se vocês forem, serão apenas um estorvo — respondeu Katerina, implacável, olhando de canto para onde Maria, Carlos e Arthur se preparavam. — Armas de fogo são completamente inúteis contra a capacidade de regeneração dos mutantes. Um único disparo pode acabar acordando algum monstro que deveria estar dormindo sob a luz do dia. Portanto, permaneçam aqui e nos esperem. Se não retornarmos em alguns dias, voltem para o abrigo e relatem aos superiores que fomos mortos ou capturados pela facção de bandidos. Estamos combinados?
— Sim, senhora — disse o soldado, com o olhar derrotado.
Katerina virou-se para Carlos, Maria e Arthur.
— Todos prontos?
— Sim — respondeu Maria, ajustando com firmeza as alças de sua mochila tática nas costas.
— Tudo pronto por aqui — disse Arthur. Ele mantinha uma postura calma, empunhando um bastão cravejado de pregos oxidados.
— Eu também terminei — confirmou Carlos, ajeitando sua bolsa.
Enquanto o trio se alinhava, o Soldado Enrique continuava parado ao lado do jipe, mexendo em sua mochila, enrolando deliberadamente na esperança de atrasar a marcha. “Mas de jeito nenhum que eu vou entrar nessa cidade fudida.”
Percebendo a artimanha, a Comandante Katerina caminhou silenciosamente por trás dele e espalmou a mão diretamente sobre o ombro do recruta.
— Ei.
— Aaah! — gritou Enrique, virando a cabeça num sobressalto e dando de cara com Katerina. — A senhora quer me matar?! Eu quase tive um colapso cardíaco agora!
— Pare de enrolar e mova-se logo. Do contrário, você vai ficar aqui guardando os jipes junto com a infantaria — disse Katerina, encarando Enrique com frieza.
Ao ouvir aquelas palavras, os olhos de Enrique brilharam. Um sorriso enorme e aliviado surgiu em seu rosto, e ele imediatamente agarrou as mãos de Katerina, assustando-a por um breve milésimo de segundo com aquele surto de intimidade.
— Sério?! A senhora vai mesmo me deixar ficar aqui em segurança? — perguntou ele, radiante, enquanto pensava: “Eu sabia! Se eu ficasse enrolando, ela perceberia que eu não quero ir e me deixaria com os outros.”
Katerina encarou o recruta com profundo desprezo, enquanto sua mente processava o absurdo da situação: “Como a Comandante Lara permitiu que alguém tão patético viesse nessa expedição? Ele implora para ficar para trás, enquanto civis comuns como o Arthur e o Carlos, que sequer possuem corpos modificados, estão motivados para avançar.”
Afastando as mãos dele com firmeza, Katerina fechou os olhos e forçou um sorriso falso, transbordando uma doçura perigosa:
— Mas é claro que você pode ficar, Enrique. Eu jamais forçaria um soldado a ir a campo contra a própria vontade... — Ela fez uma breve pausa, abrindo as pálpebras lentamente. — Mas é claro que, assim que cruzarmos os portões de volta, farei questão de relatar pessoalmente à Comandante Lara que você não contribuiu em absolutamente nada para o sucesso desta missão.
O sorriso de Enrique desmoronou instantaneamente. Seu rosto empalideceu tanto que ele parecia um cadáver, e sua boca abriu-se em puro choque. Em sua mente traumatizada, uma projeção terrível ganhou forma: ele imaginou seu treinamento com a Comandante Lara, vendo-a com os olhos incendiados de fúria, fechando os punhos enquanto o espancava violentamente, deixando-o à beira da morte.
— Ha... Ha-Ha... Eu só estava brincando, Comandante Katerina! — gaguejou Enrique, limpando o suor gélido que brotou em sua testa, enquanto seu corpo tremia da cabeça aos pés. Ele deu um passo à frente, forçando uma postura corajosa, embora sua mente chorasse em desespero: “Droga... Maldita Comandante Katerina! Eu tenho um pavor mortal daqueles mutantes alados, mas a Comandante Lara me dá muito mais medo!”
O grupo finalmente partiu em direção à cidade, deixando para trás os soldados de infantaria que guardavam os jipes. No andar superior de um prédio em ruínas, um homem observava a partida do grupo através de um binóculo.
— Parece que ficaram alguns vermes para trás. Vou ter que esmagar esses insetos primeiro antes de ir atrás do grupo principal — disse o homem, afastando o binóculo dos olhos com um leve sorriso aparecendo nos cantos de sua boca.
À medida que o grupo avançava na expedição, o cheiro de podridão tornava-se insuportável. Os prédios abandonados ao redor projetavam sombras longas, transmitindo uma sensação sinistra por conta da escuridão absoluta que habitava suas janelas quebradas. De repente, um estalo fraco de concreto ecoou de um beco próximo. Assustado, o Soldado Enrique recuou rapidamente de costas, esbarrando com força em Carlos, que quase caiu no chão.
— Porra, cara, qual é o seu problema?! — exclamou Carlos, com a voz carregada de raiva e desprezo. — Você é um soldado de elite que tem habilidades sobre-humanas graças ao seu corpo modificado! Por que diabos está com tanto medo assim?
Enrique observava as bordas dos andares escuros que transmitiam uma sensação macabra enquanto Carlos falava. Ele abaixou a cabeça e encarou o companheiro.
— Você está dizendo isso porque não faz a menor ideia dos monstros que vivem neste lugar! — rebateu Enrique.
Carlos, que antes dava uma bronca em Enrique, calou-se, e o grupo continuou sua marcha. Alguns minutos depois de caminhada, Enrique olhou para as mãos de Arthur e de Carlos.
— Para que vocês estão levando esses bastões com pregos? Até onde eu sei, isso só seria eficiente para matar zumbis. Não vai fazer nem cócegas nos mutantes daqui!
— Estamos levando os bastões como uma ferramenta de segurança extra, caso encontremos zumbis no caminho, já que na última expedição nós topamos com alguns — explicou Arthur, mantendo o tom calmo e pragmático de sempre enquanto continuava a caminhar.
— Certo... Entendi — resmungou Enrique, ainda olhando desconfiado para os lados e para dentro dos escuros e tenebrosos andares dos prédios.
De volta ao acampamento, os soldados de infantaria que ficaram para trás sorriam e conversavam entre si para passar o tempo.
Alguns estavam perto dos jipes enquanto outros estavam perto das árvores jogando algum tipo de jogo. Perto de um dos jipes estavam um homem de uns trinta anos, e um jovem soldado de uns vinte.
— Ei, que tipo de mulher você gosta? — perguntou o jovem soldado ao companheiro sentado ao seu lado.
— Pare de me encher com perguntas bestas — respondeu o outro, friamente enquanto comia algum tipo de comida enlatada.
— Hum… Não me diga que você gosta de homens… Haha — provocou o soldado, encarando o companheiro para ver sua reação.
— Não é nada disso, seu imbecil — retrucou o soldado, sério. — Eu já sou casado e tenho dois filhos. Então pare de me amolar e vá conversar com aqueles soldados ali que tem a mesma idade que você — disse ele, apontando para um grupo mais afastado, que balançou a cabeça em negação, sinalizando para o jovem não se aproximar.
— Não brinca que você já é casado, haha… — respondeu o jovem com um sorriso genuíno, continuando a conversa.
Enquanto os companheiros jogavam conversa fora, um jovem soldado os encarava de longe, sentado no banco de um jipe que estava com a porta aberta.
— Droga, eu também queria ter ido na expedição — resmungou o jovem soldado, olhando para os companheiros. “Tsc… Esses caras ficam conversando baboseiras enquanto a Comandante Katerina e os outros podem acabar morrendo naquela maldita cidade.”
— Olá, meu jovem — disse uma voz vinda do nada. Um homem encapuzado surgiu atrás do vidro da janela do outro banco do jipe onde o soldado estava sentado. — Você não precisa ficar ansioso para ir a essa expedição. Afinal, tanto você quanto os que saíram irão morrer de qualquer forma.
— Quem… Quem é você? E como apareceu assim do nada?! — perguntou o jovem soldado, sobressaltado, pulando para longe do veículo.
— Não importa quem eu sou — respondeu o homem sob o capuz, que cobria completamente seu rosto. — Pessoal, matem todos eles.
Um grupo de homens armados emergiu das sombras, abrindo fogo impiedosamente. O homem de trinta anos e o jovem que conversavam com ele foram os primeiros a cair, atingidos por disparos certeiros que estouraram suas cabeças. Os outros soldados gritavam tentando fugir antes de serem mortos também. E o jovem soldado perto do jipe parou por um instante, paralisado ao ver os invasores encapuzados massacrando seus companheiros.
— Desgraçados! — rugiu o jovem, puxando uma adaga da cintura. Ele virou o rosto na direção onde o homem do capuz estava segundos atrás. — Para onde você foi?!
— Estou aqui — sussurrou uma voz logo atrás dele.
O jovem soldado tentou girar o corpo para revidar, mas uma lâmina fria cortou sua garganta de orelha a orelha. Ele caiu de joelhos no chão, o sangue jorrando quente de seu pescoço e banhando seu peito. Seus olhos lentamente começaram a embaçar, perdendo o foco enquanto encarava o assassino à sua frente. Segundos depois, seu corpo desabou sem vida no chão.
— Ótimo trabalho, pessoal. Agora vamos atrás daqueles que saíram na frente e vamos matá-los também — ordenou o líder, limpando a faca coberta pelo sangue viscoso do jovem soldado. “Perfeito. Até agora, tudo está indo de acordo com o plano do chefe”, pensou, chutando de leve o cadáver a seus pés.
Longe dali, o grupo da expedição continuava a marchar pelas avenidas devastadas. O cenário era desolador: esqueletos cobertos por um muco espesso e esverdeado estavam espalhados pela calçada, restos mortais de pessoas cujas carnes haviam sido decompostas ou devoradas ao longo dos anos. Após caminharem sem descanso desde as primeiras horas da manhã até o final da tarde, o céu começou a escurecer rapidamente, trazendo o frio cortante da noite. De longe, a sinfonia macabra dos gritos dos monstros ecoava, anunciando que eles haviam despertado.
— Certo, pessoal. Já está anoitecendo — anunciou Katerina, parando na entrada de uma antiga estação subterrânea. — Vamos procurar um lugar seguro para passarmos a noite. É perigoso demais continuar na superfície quando a escuridão cai.
— Certo — responderam Carlos, Maria, Arthur e Enrique, um após o outro. Estavam exaustos e visivelmente assustados com os urros que ganhavam força na cidade morta.
Eles desceram as escadarias até alcançarem um velho túnel de metrô. Utilizando pedaços de papelão, madeiras podres e restos de lixo espalhados pelo chão, conseguiram acender uma pequena fogueira que rasgou a escuridão do lugar. Após o cair da noite, comeram as rações enlatadas que tiraram de suas mochilas. Horas depois, estenderam seus sacos de dormir sobre o concreto esburacado, bem perto do fogo para espantar o frio da madrugada. Após alguns minutos, o cansaço venceu a maioria. Todos caíram no sono.
Exceto Arthur.
Deitado em seu saco de dormir, Arthur encarava o teto sombrio do túnel enquanto sua mente o arrastava ao seu passado. Em suas memórias, o pesadelo ganhou forma: ele viu a si mesmo correndo desesperado ao lado de uma mulher e de uma criança de uns três anos em um corredor escuro.
— Rápido, não pare! Nós já estamos quase alcançando a saída! — disse Arthur, voltando-se para trás para ajudar a mulher que carregava a criança. — Me dá ela aqui, deixa que eu a levo.
Arthur pegou a menina e correu na frente. Logo atrás deles, um enorme enxame de criaturas avançava pela escuridão, soltando grunhidos aterrorizantes e se chocando contra as paredes enquanto os perseguiam.
Após alguns segundos, eles finalmente alcançaram a saída e fecaram a porta. Eles pararam brevemente, paralisados pelo choque: a rua à frente era um cenário de horror, com criaturas massacrando pessoas, carros pegando fogo e clamores desesperados por ajuda ecoando por todos os lados. Foi nesse milésimo de segundo de hesitação que mãos decrépitas romperam da escuridão do corredor, agarrando a mulher pelos braços e ombros puxando-a em direção ao corredor. Em puro reflexo, ela se agarrou com força nos batentes da porta, usando o próprio corpo como uma barricada humana para impedir que os monstros invadissem a rua. Mais as criaturas começaram a mordela.
Ao ouvir os gritos de dor dela enquanto os dentes das criaturas a rasgavam, Arthur tentou dar um passo à frente para socorrê-la. Presa contra a porta, a mulher ergueu a mão livre e fez um gesto firme, sinalizando para ele não se aproximar. Usando o resto de suas forças para conter o avanço dos zumbis, sua voz saiu em um sussurro desesperado que Arthur jamais esqueceria: “Por favor, salve nossa filha.”
Logo em seguida, as mandíbulas dos monstros que estavam cravadas nela, rasgaram seu pescoço e arrancaram a carne de seus braços. Seus gritos de puro desespero misturavam-se ao caos da cidade. Arthur virou as costas e começou a correr para salvar a criança, os monstros que atavavam as pessoas na rua notaram a presença de Arthur e começou a persegui-lo. Ao olhar para trás uma última vez para ver a mulher, a visão foi brutal: um dos zumbis mordeu a cabeça dela com tanta força que arrancou o couro de sua cabeça, expondo o crânio enquanto o sangue jorrava em jatos banhando suas roupas em sangue. O corpo dela desabou sem vida logo em seguida. E as criaturas começaram a arrancar e mastigar suas entranhas com avidez.
— Arthur... Você ainda está acordado? — A voz sussurrada de Maria cortou o silêncio do túnel, interrompendo abruptamente as lembranças sangrentas. Ela coçava os olhos, mas parou ao perceber que lágrimas escorriam pelo rosto dele. — No que você estava pensando? Você está com uma cara péssima.
— Não era nada de mais... — respondeu Arthur, limpando rapidamente os olhos e virando-se para o outro lado, tentando disfarçar o tremor na voz. — Eu só estou extremamente cansado de tanto caminhar hoje. Então... Boa noite, Maria.
Arthur deu as costas para a fogueira e fechou os olhos, mas, por mais que tentasse evitar, o choro silencioso persistia. Maria permaneceu em silêncio por alguns instantes, observando as costas dele enquanto pensava: “No que será que ele estava pensando que o fez chorar? Ele nunca comentou absolutamente nada sobre o seu passado desde o dia em que nos conhecemos...”
Sem respostas, Maria ajeitou-se em seu saco de dormir e fechou os olhos, deixando que o silêncio opressor do metrô os envolvesse.
Fim do Capítulo 8