Logo após o amanhecer, o grupo preparou-se para continuar a expedição rumo ao laboratório.
- pessoal, vocês não estão achando tudo muito quieto por aqui? - perguntou o Soldado Enrique, com desconfiança pelo fato de não terem encontrado nenhum monstro.
- Bem, isso se deve graças às habilidades de percepção da Comandante Katerina - respondeu Maria.
- Como assim? - perguntou o Soldado Enrique, confuso. - As habilidades da Comandante Katerina não deveriam ser apenas a de ler mentes?
- Sim, isso é verdade - respondeu Maria. - Eu também não entendo muito bem o funcionamento dos poderes dela. Só estou comentando o que ouvi os soldados dizerem lá no bunker.
- Mas então... Eu também não perguntei antes, mas por que a Comandante Katerina não mandou nenhum de nós ficar de vigia na noite passada? - insistiu o Soldado Enrique. - Afinal, a cidade em ruínas é um dos lugares mais perigosos do mundo.
- Eu não sei - responded Maria. - Mas talvez isso confirme que as habilidades dela envolvam justamente a percepção avançada, além de sua capacidade de ler mentes.
- Nossa, isso é bem fantástico. Nunca tinha visto uma pessoa com duas habilidades antes - comentou Enrique.
***
O grupo parou por um instante em uma esquina, onde a Comandante Katerina sentiu um forte cheiro de sangue e podridão vindo de um beco próximo.
- Por que paramos? - perguntou Carlos. - Não seria melhor conti...
Antes que ele terminasse a frase, a Comandante Katerina fez um gesto firme para que ele calasse a boca.
- Estou sentindo cheiro de sangue e de podridão vindo daquele beco. Vamos verificar - ordenou a comandante.
- Senhora, eu acho melhor não irmos. Vai que é um monstro? - disse o Soldado Enrique, já tomado pelo medo e tentando hesitar. - Se for um monstro, ele vai nos matar!
Ignorando o restante das bobagens que o recruta dizia, Katerina caminhou decidida em direção ao beco. Lá dentro, deparou-se com um corpo sem cabeça exalando um odor insuportável no chão, rodeado por marcas profundas de garras e sangue espalhado por todos os lados.
- Nossa... O que será que aconteceu aqui? - perguntou Arthur.
- Não sei, mais provavelmente foi obra dos mutantes - respondeu a Comandante Katerina.
- Mutantes?! - exclamou o Soldado Enrique, horrorizado com o comentário enquanto roía as unhas.
- Que tipo de mutante teria feito isso? - perguntou Carlos.
- Difícil dizer - respondeu Katerina. - Mas talvez tenham sido os mutantes alados, já que esta é a área de caça deles.
- Mas a senhora não disse que os mutantes alados não ficam acordados durante o dia? - perguntou o Soldado Enrique.
- Sim, eu disse. Mas isso não significa que essas pessoas mortas não tenham andado por aqui durante a noite.
- E quem é o maluco de andar por uma cidade ferrada dessas à noite? - rebateu Enrique.
- Talvez essas pessoas fizessem parte do grupo de bandidos que se instalou na região - sugeriu Maria.
- Sim, isso é bem provável - concordou Katerina. - De qualquer forma, vamos seguir com a nossa expedição.
***
O grupo continuou a caminhada até alcançar uma área mais central da cidade, onde avistaram, de longe, grandes hordas de zumbis comuns vagando pelas avenidas.
- Comandante Katerina, eu pensei que não houvesse mais zumbis comuns neste lugar - pontuou Arthur.
- Eu também achava. Como os mutantes agem como animais selvagens, eles costumam comer uns aos outros. Por isso, era para os mutantes terem limpado os zumbis comuns desta área a essa altura.
- Então como ainda pode existir essa quantidade de zumbis normais por aqui? - perguntou Maria.
- Eu não sei - admitiu Katerina. - Esqueçam isso por enquanto. Vamos dar a volta para encontrar uma rota mais segura.
- Certo - respondeu Arthur.
O grupo mudou de direção e pegou um novo trajeto, seguindo em direção a uma parte da cidade que havia sido completamente tomada por raízes imensas e árvores gigantescas, assemelhando-se a uma floresta urbana.
- Nossa, como é que existem árvores desse tamanho no meio de uma cidade? - perguntou Carlos, impressionado.
- Eu não sei - disse Arthur. - Acho que devem ter crescido de forma anormal com o tempo. Afinal, não há nada de normal restando neste mundo.
***
O grupo parou por um breve momento. A Comandante Katerina fechou os olhos e iniciou uma sequência de respirações profundas, expandindo sua percepção mística. Seu radar invisível cobriu centenas de metros em uma área de 360 graus ao redor, mapeando o ambiente como o sonar de um submarino. Após concluir a checagem, ela abriu os olhos.
- Certo, pessoal. Parece que não há perigo por perto, então vamos avan...
Ela foi abruptamente interrompida por um mutante que surgiu do nada por entre a folhagem. A criatura tinha a silhueta deformada de um cervo, era totalmente desprovido de olhos e exibia uma boca principal cheia de dentes afiados na cabeça, além de uma segunda boca enorme e escancarada bem no meio do peito.
- Comandante! Tem um mutante bem ali! - gritou o Soldado Enrique, em pânico.
- Eu estou sabendo, também estou vendo ele. Não precisa gritar! - respondeu Katerina, tensa. - Maria, Carlos e Arthur, recuem e tentem se abrigar em algum lugar seguro enquanto lidamos com este mutante.
- Certo! - responderam os três em uníssono, afastando-se rapidamente.
- Ok, Soldado Enrique, vamos matar esse mutante! - ordenou a Comandante Katerina, puxando um rifle pesado que trazia preso às costas.
- Mas, Comandante, a senhora não disse que armas normais não funcionavam contra os mutantes? - perguntou o Soldado Enrique, confuso.
Sem responder, Katerina mirou e disparou um projétil massivo de energia mística. Contudo, antes que o feixe luminoso pudesse atingir o alvo, o cervo mutante moveu-se em uma velocidade assustadora, desviando do golpe. Embora ainda fosse ligeiramente mais lento que a velocidade total da Comandante Lara, o monstro era rápido demais. O disparo do rifle de Katerina errou o alvo e perfurou diversos prédios à frente, fazendo com que várias estruturas de concreto desabassem com um estrondo ensurdecedor.
- Droga! - esbravejou a Comandante Katerina, frustrada por seu disparo não ter atingido o alvo de primeira. - Soldado Enrique, pare de enrolar e faça alguma coisa! Ou eu juro que farei questão de relatar à Comandante Lara que você é um estorvo inútil que não serve para nada!
- Tudo bem... - respondeu Enrique em voz alta, embora sua mente fervilhasse em puro ódio: "Essa maldita... Vive ameaçando a gente para conseguir o que quer. Eu genuinamente espero que esse mutante arranque a cabeça dela!"
- Certo. Você vai me ganhar tempo para que eu planeje uma estratégia para abater esse monstro - ordenou a Comandante Katerina.
- O quê?! Eu sozinho? - desesperou-se Enrique. - Eu vou morrer!
Sem receber qualquer resposta ou apoio, já que Katerina havia se movido para buscar uma posição melhor, Enrique forçou-se a focar no perigo à sua frente. Era matar ou morrer. Ele avançou em velocidade sobre-humana, empunhando sua espada com força. Contudo, sendo massivamente mais rápido, o cervo mutante abaixou a cabeça cornuda e investiu como um aríete.
Os chifres colossais perfuraram o abdômen do soldado, içando-o no ar antes de arremessá-lo violentamente contra a parede de concreto de um monumento em ruínas. Ao colidir contra a estrutura, o impacto foi tão bruto que o ar escapou de seus pulmões e o sangue jorrou de sua boca.
"Droga... Esse maldito é rápido demais! Eu sequer consegui registrar os movimentos dele", pensou Enrique, o pavor misturando-se à adrenalina. "Como a Katerina planeja matar essa coisa? Meu Deus, eu vou morrer aqui... Não! De jeito nenhum eu vou morrer para a porra de um mutante de merda desses! Não depois de ter sobrevivido ao treinamento infernal da Comandante Lara!"
Mordendo os lábios para conter o gemido de agonia, ele se ergueu dos escombros. Sentiu imediatamente o estalo agudo de várias costelas quebradas.
- Droga... Isso dói demais! - resmungou.
Felizmente, a dor logo começou a diminuir. Como um soldado do esquadrão de elite, seu corpo possuía capacidades regenerativas, força, resistência e velocidade sobre-humanas. Em poucos segundos, uma onda de calor místico fluiu por seu torso: os ossos partidos alinharam-se sozinhos com estalos secos e os ferimentos de perfuração fecharam-se, expelindo o sangue sujo enquanto a pele se reconstruía do zero.
Totalmente curado, Enrique avançou novamente em um contra-ataque feroz. Sua lâmina cortou o ar em um arco preciso, desferindo um golpe potente contra as pernas dianteiras do monstro. O corte foi profundo, mas em um breve milésimo de segundo, o tecido muscular do mutante borbulhou e regenerou-se instantaneamente, impedindo que o membro fosse decepado.
- HRRRRR-SKEEEEEEEE-RRRAAAAAAAAH-HHKT!
O cervo mutante rugiu em pura fúria elemental. Erguendo as patas dianteiras com uma força avassaladora, ele golpeou o chão batido. O impacto estremeceu a terra, criando uma onda de choque que desestabilizou o equilíbrio de Enrique por um instante. Aproveitando a brecha, a criatura avançou como um raio e cravou as mandíbulas no ombro direito do soldado.
Os dentes afiados perfuraram a carne profunda. A dor insuportável fez os dedos de Enrique perderem a força, deixando sua espada cair pesadamente no chão arenoso. Desesperado, ele usou o braço esquerdo livre para empurrar o focinho sangrento da criatura, desferindo socos brutais contra a cabeça do monstro.
- Aaah! - gritou Enrique, em puro desespero. - Monstro maldito! Me solta! Solta!
Enquanto o recruta lutava pela vida no chão, no topo de um edifício vizinho, a Comandante Katerina estabilizava sua postura, apontando a mira de seu rifle pesado diretamente para o crânio da abominação.
- Agora eu peguei você, seu desgraçado... - sussurrou Katerina.
Ela puxou o gatilho, disparando uma rajada de energia concentrada. O feixe luminoso foi ligeiramente mais fraco que o anterior para não obliterar o próprio soldado, mas atingiu o alvo com precisão cirúrgica. O impacto místico fez a cabeça do cervo mutante explodir em uma chuva de carne podre e sangue negro.
O corpo massivo da criatura desabou sem vida para o lado. Exausto, traumatizado e com os níveis de energia esgotados, o Soldado Enrique revirou os olhos e desmaiou imediatamente, caindo inerte sobre o concreto.
Ao perceberem o fim do combate, Arthur, Maria e Carlos deixaram o esconderijo entre as raízes e correram em direção ao pátio para prestar socorro.
- Você está bem?! - perguntou Maria, ajoelhando-se ao lado do recruta com os olhos arregalados de preocupação.
- Maria, ele apagou completamente - pontuou Carlos, aproximando-se logo atrás de Arthur com um semblante tenso.
Fim do Capítulo 9