Empoleirada de forma descontraída no topo da moldura de concreto de um arranha-céu condenado, Penny observava o pátio urbano. Suas pupilas amarelas acompanhavam cada movimento do grupo de expedição lá embaixo. Ela estivera ali desde o primeiríssimo segundo da batalha.
- Nossa... Até que essa lutinha foi bem divertida - comentou Penny consigo mesma, balançando as perninhas invisíveis no vazio. - Eu nunca imaginaria que essa mulher de quepe militar teria todo esse poder destrutivo em um mundo tão limitado. Bem... Isso me lembra que aquela comandante do tapa-olho, a que utiliza a katana, era consideravelmente mais sinistra. O jeito que ela fatiou os meus bebês alados sem nem se esforçar ou apelar para suas habilidades elementares realmente me intriga bastante.
A garota inclinou a cabeça para o lado, focando sua visão divina na figura de Arthur. O veterano erguia o corpo desmaiado de Enrique com um gemido de esforço, acomodando o soldado inerte sobre os ombros robustos antes de iniciar uma marcha pesada.
"Eu também fiquei surpresa que aquele recruta medroso era forte a esse ponto", ponderou Penny, estreitando os olhos em um semissorriso sádico. "Eu genuinamente esperava que ele morresse... Isso tirou toda a diversão que eu havia planejado para o espetáculo. Se bem que ele não demonstrou ter poderes elementares, mas suas habilidades físicas sobre-humanas e aquela regeneração celular bizarra compensam isso perfeitamente."
Em seguida, segurando firmemente seu rifle pesado, a Comandante Katerina desfez sua postura de tiro e saltou do topo do prédio. A queda livre de vários metros terminou com um impacto brutal: suas botas militares colidiram contra o asfalto, causando um barulho ensurdecedor que fez o solo rachar em teias de aranha sob seus pés. Grossas nuvens de poeira e fuligem ergueram-se ao redor de sua silhueta.
Ela jogou a arma nas costas com um movimento preciso e caminhou a passos rápidos até Maria e Arthur.
- Certo, pessoal. Vamos sair rápido daqui - ordenou Katerina, o tom de voz tenso contrastando com sua habitual frieza. - Consigo sentir a assinatura biológica de muitos monstros vindo na nossa direção através da minha percepção. Eles com certeza foram atraídos pelos estrondos da batalha.
- Certo - consentiu Arthur, ajeitando o peso de Enrique nas costas enquanto o suor escorria por sua testa.
- Ótimo. Então nós vamos descansar e nos organizar logo ali, naquele prédio - determinou a comandante, estendendo o braço englobado pela farda para apontar em direção a uma estrutura cinzenta logo à frente.
O edifício exibia a entrada escura de uma antiga garagem subterrânea. O perímetro ao redor era desolador, cercado por carcaças retorcidas de carros enferrujados e prédios vizinhos com vidraças quebradas e fachadas chamuscadas, onde outrora funcionara um antigo restaurante popular da cidade.
Lá no alto do arranha-céu, Penny soltou um suspiro pesado de desdém, cruzando os braços miúdos sobre o vestido impecavelmente limpo.
- É... Acho que a diversão acabou por agora - resmungou ela, fazendo um bico emburrado. - Nem valeu a pena o esforço que tive para ocultar a presença daquele monstro em forma de cervo. Ele morreu fácil demais. Que perda de tempo.
Com um estalo mental, Penny distorceu o espaço-tempo ao redor de seu corpo e desapareceu por completo.
No exato milésimo de segundo de sua partida, a Comandante Katerina travou os passos no meio do pátio urbano. Seus olhos semicerraram-se sob a aba escura de seu quepe militar e ela girou o pescoço bruscamente, cravando o olhar diretamente no topo do arranha-céu onde a garota estivera segundos atrás.
- O que a senhora está fazendo? - perguntou Maria, parando logo atrás e olhando com os olhos arregalados para a comandante distraída. O pânico de ser cercada por monstros começava a transparecer em sua voz. - Nós não íamos sair daqui por causa das criaturas? Por que você está encarando aquele prédio de forma tão fixa? Tem algum mutante lá em cima?
Katerina permaneceu estática por mais um instante, piscando os olhos para quebrar o transe antes de responder de forma gélida:
- Não... Eu só... senti uma presença bizarra naquela direção. Mas acho que foi apenas coisa da minha cabeça. Certo, esqueçam isso. Vamos seguir em frente imediatamente.
O grupo apressou o passo, engolido pela escuridão úmida da garagem subterrânea. O interior era um labirinto sombrio povoado por veículos velhos, cobertos por grossas camadas de poeira e ferrugem. Arthur caminhou até uma clareira de concreto arenoso e, com cuidado, colocou o corpo inerte de Enrique deitado no chão.
Afastada por alguns metros, a Comandante Katerina cruzou os braços, mantendo a guarda alta enquanto sua mente trabalhava em ritmo frenético. Ela projetou as imagens mentais da luta anterior, cruzando-as com as memórias da batalha contra o enxame alado no bunker militar.
"Isso é extremamente estranho...", refletiu Katerina, o cenho franzido sob o chapéu. "O que raios está acontecendo nesse perímetro? Eu tenho certeza absoluta de que não havia monstro nenhum quando utilizei minha percepção mística antes da emboscada do mutante em forma de cervo. E logo em seguida... eu sinto exatamente a mesma presença sinistra, fria e alienígena que senti no bunker no dia em que os monstros voadores atacaram. Isso não pode ser so coincidência."
- Comandante Katerina! O Enrique está acordando! - o grito sussurrado de Maria cortou o fluxo de pensamentos da líder.
Nas profundezas da mente inconsciente do recruta, o pior cenário do trauma recente repetia-se em um loop sangrento. Ele via, em projeções nítidas e aterrorizantes, os dentes afiados do cervo mutante perfurando a carne profunda de seu ombro, o sangue jorrando em jatos violentos diretamente para dentro da garganta escancarada do monstro, enquanto sua espada caía pesadamente no chão arenoso e suas mãos perdiam totalmente as forças. A escuridão final cobria sua visão, acompanhada pelo som distante dos passos de Maria e Arthur correndo em seu socorro.
- Aaaaah! - Enrique despertou dando um berro ensurdecedor, impulsionando o tronco para a frente de uma vez.
Maria estava com o rosto a poucos centímetros do dele, inspecionando seus ferimentos fechados em silêncio enquanto chamava seu nome. Quando ele acordou berrando, ela deu um salto para trás, levando as mãos ao peito pelo susto brutal.
- Ai, meu Deus! Você está maluco?! - exclamou ela, o coração disparado. - Você quase me mata do coração com esse grito de terror!
Antes que Enrique pudesse balbuciar qualquer palavra, uma sombra projetou-se atrás dele. A Comandante Katerina desfechou um soco seco e violento diretamente contra o topo da cabeça do recruta.
*THUD!*
- Aiii! - gritou Enrique, encolhendo os ossos e massageando o couro cabeludo atingido enquanto as lágrimas de dor brotavam nos cantos dos olhos. - Por que a senhora fez isso?! Você enlouqueceu de vez?! Está querendo me matar de traumatismo craniano por acaso?!
- Deixe de ser dramático, sua florzinha - debochou Katerina, o tom de voz banhado em um sarcasmo cortante enquanto ela cruzava os braços. - Você está tentando atrair todas as hordas de monstros que estão vagando lá fora para nos triturar dando esses gritos histéricos? Controle-se.
- D-Desculpe... É que eu acabei lembrando do monstro e de como ele me...
A justificativa de Enrique foi brutalmente interrompida por um som catastrófico.
*BOOM... THUD... BOOM...*
Um estrondo massivo e ritmado fez a estrutura inteira da garagem subterrânea estremecer violentamente. Pedaços de reboco do teto de concreto desabaram como chuva sobre os carros velhos, e a poeira secular subiu, nublando a visão de todos. Do lado de fora, cruzando a avenida em frente à entrada do prédio, uma silhueta titânica e colossal caminhava lentamente.
O monstro era uma abominação três vezes maior do que o Colosso que havia perseguido Maria, Carlos e Arthur no primeiro capítulo - sua altura era equivalente à do próprio arranha-céu vizinho. À medida que o Titã seguia seu rumo pela escuridão diurna, o terremoto gerado por seus passos fazia com que vários prédios residenciais ao redor colapsassem em estilhaços de concreto e ferro.
- O... O que foi isso?! - gaguejou o Soldado Enrique, paralisado em puro pavor enquanto encolhia o corpo contra o chão arenoso.
- Eu não sei, mas seja lá o que for, eu garanto que não quero estar aqui quando esse monstro resolver olhar para trás - respondeu Katerina, a respiração ligeiramente ofegante. Seus níveis de energia mística estavam esgotados devido ao uso excessivo e contínuo de sua percepção, e de seus poderes na batalha anterior. - Vamos nos mover em silêncio absoluto. Precisamos seguir em frente e sair o mais longe possível deste perímetro.
- Eu concordo plenamente - endossou Arthur, sua voz firme vacilando de leve ao sofrer um breve flashback do monstro de vinte metros da primeira expedição. O veterano apertou o cabo de seu bastão com força. - Nós já fomos perseguidos por um mutante colossal antes, e eu garanto: o barulho do caminhar dessa abominação lá fora é massivamente mais alto e pesado do que o daquele que nos caçou. Essa coisa está em outro nível.
Deixando para trás a garagem escura, o grupo apressou o passo, contornando os escombros da avenida enquanto o gigantesco Titã se afastava na direção oposta. Eles continuaram a marcha forçada pelas ruelas labirínticas até que o cair da noite finalmente engoliu a cidade em ruínas em um frio congelante. Longe do perímetro de caça dos monstros maiores, Katerina localizou um edifício comercial completamente fechado e desprovido de janelas externas - o esconderijo perfeito para camuflar a presença humana. No centro de uma sala de concreto, eles limparam a poeira e acenderam uma pequena fogueira, cujas brasas projetavam sombras dançarinas nas paredes táteis.
Antes de recolher-se, a Comandante Katerina sentou-se encostada à parede e fechou os olhos, expandindo as últimas frações de sua percepção mística para mapear o perímetro lá fora. Em sua mente, o radar projetou imagens nítidas do ambiente externo em 360 graus: avenidas desertas, blocos de concreto colapsados e dezenas de mutantes humanoides decrépitos vagando sem rumo pelas ruas escuras, bem distantes de onde o grupo se abrigava.
Subitamente, sua percepção mística elevou-se a centenas de metros no céu noturno, e uma cena grotesca ganhou forma em seus pensamentos. Um enxame massivo de criaturas aladas cortava as nuvens escuras, emitindo rugidos estridentes. Num movimento mecânico e brutal, um dos monstros alados fechou as asas e mergulhou em direção ao chão como uma águia faminta, cravando as garras afiadas nas costas de um mutante terrestre de três metros de altura. A criatura terrestre urrou em puro desespero, debatendo-se em vão enquanto a arrancada violenta do monstro voador o içava violentamente do asfalto, arrastando-o para os céus. No milésimo de segundo seguinte, o restante do bando avançou sobre a presa indefesa. Garras e mandíbulas colossais rasgaram a carne, despedaçando e devorando o monstro menor em meio a uma chuva de sangue negro.
Assistindo àquela demonstração selvagem através de seu radar, Katerina sentiu um misto de nojo e satisfação.
"Que bando de monstros imundos...", refletiu a comandante, estreitando os olhos sob as pálpebras fechadas. "É muito bom que se matem entre si, isso nos poupara bastante trabalho futuro."
Com esse último pensamento, o fluxo de energia mística esgotou-se por completo, e seu radar invisível desfez-se no ar. Exausta, Katerina abriu os olhos e soltou um suspiro pesado, encarando os civis e o recruta ao redor da fogueira.
- Certo, pessoal. Eu já estou no meu limite de exaustão, então vou dormir - anunciou Katerina, a voz arrastada pelo cansaço. - Eu já mapeei o perímetro externo com a minha percepção, mas, após o que aconteceu com aquele cervo mutante, sei que minhas habilidades não são cem por cento confiáveis neste lugar. Portanto, manteremos vigilância estrita. Arthur, você ficará como a primeira sentinela da noite. Depois, o Carlos assumirá o posto, e o último turno será seu, Enrique.
- Como é que é?! - exclamou Enrique, dando um salto e endireitando o corpo em pura indignação. - Por que a senhora não vai vigiar um turno também? Até onde eu saiba, fui eu quem quase foi morto por aquela abominação na floresta urbana! Eu sou o único aqui que deveria ter o direito de dormir até o amanhecer para me recuperar!
A reclamação do recruta foi cortada no exato instante em que Katerina inclinou a cabeça para a frente. Seus olhos semicerraram-se e ela liberou uma onda gélida de intenção assassina diretamente na direção do soldado.
- Soldado Enrique... - sibilou Katerina, a voz mansa e mortalmente gélida.
- S-Sim...? - respondeu Enrique, engolindo em seco enquanto o pavor paralisava seus músculos sob a aura sufocante da superior.
- Eu sou a sua superior hierárquica nesta missão oficial, estou certa? - perguntou Katerina, arqueando uma sobrancelha.
- Sim, é claro que sim, Senhorita Katerina! - gaguejou o recruta, sentindo o suor frio brotar em sua nuca enquanto suas mãos começavam a tremer involuntariamente.
- Ótimo. Então, se eu decretei que você vai vigiar o último turno, você vai cumprir a porra da sentinela - determinou Katerina, cruzando os braços de forma implacável. - Ou, se preferir, posso fazer questão de relatar pessoalmente à Comandante Lara, assim que cruzarmos os portões de volta, que você é um soldado insolente que se recusa a seguir as diretrizes táticas de seus superiores. O que me diz?
O sorriso de deboche do recruta sumiu instantaneamente de suas feições. O rosto de Enrique empalideceu tanto que ele parecia uma das carcaças de zumbis da rua. Em sua mente traumatizada, uma projeção terrível e realista ganhou forma: ele viu a Comandante Lara com os olhos incendiados em fúria divina, fechando os punhos massivos enquanto gritava com os dentes cerrados: "Você ousou desobedecer às ordens diretas de um superior na linha de frente?! Você está querendo morrer, Soldado Enrique?!" Na fantasia mental, Enrique assumia uma postura desesperada de autodefesa enquanto a comandante o espancava violentamente, fazendo-o implorar de joelhos e jurar que nunca mais repetiria o erro.
Retornando à realidade da sala fechada, Enrique limpou o suor da testa e forçou uma postura rígida.
- Então... Você vai ficar de sentinela após o turno do Carlos, correto? - perguntou Katerina, reforçando a pressão do olhar.
- Sim! Mas é claro que sim, senhorita Katerina! - gaguejou Enrique, com o coração batendo feito um tambor ensandecido devido ao medo duplo.
- Excelente - concluiu Katerina, desfazendo a aura de combate com total indiferença.
Sem perder mais tempo, Carlos, Katerina e Maria ajeitaram-se em seus respectivos sacos de dormir ao redor das brasas. Enrique, resmungando impropérios inaudíveis mentalmente, também deitou-se para aproveitar as poucas horas de descanso que lhe restavam. Em poucos minutos, o silêncio pesado do edifício foi quebrado apenas pela respiração compassada dos que dormiam.
Sentado próximo à fogueira moribunda, Arthur permaneceu estático no posto de sentinela. Com o bastão de pregos apoiado entre as pernas, o veterano inclinou a cabeça para baixo, deixando que as sombras cobrissem seus olhos. Totalmente sozinho no escuro, sua mente começou a arrastá-lo inevitavelmente de volta às lembranças melancólicas de seu passado trágico, revivendo as dores e os mistérios que guardava a sete chaves dentro de sua alma.
Fim do Capítulo 10