Capítulo 10: Sinais na Escuridão
Após a batalha, Katerina fechou os olhos e, de cima do prédio onde estava, estendeu sua percepção pela cidade. Viu em sua mente monstros aterrorizantes que antes dormiam na escuridão dos prédios; agora estavam acordados. Ela viu não apenas um, mas centenas de monstros que pareciam ser ainda mais fortes do que o que eles acabaram de enfrentar.
Enquanto Katerina fazia a varredura do local pós-batalha, lá embaixo Maria já estava quase enfaixando os ferimentos de Enrique. Mas, do nada, as feridas dele, que ainda estavam abertas, se fecharam.
— Acho que eu nem precisava ter gasto tanto tempo enfaixando os ferimentos dele — disse Maria, olhando para os buracos de dentes no ombro de Enrique se regenerarem e se fecharem em segundos.
— Gente, onde está a Comandante Katerina? — perguntou Carlos, olhando para os lados, caçando onde a comandante estava.
Enquanto isso, empoleirada de forma descontraída na borda de um andar macabro e escuro, estava Penny sentada. Ela parecia ter observado tudo o que aconteceu lá embaixo desde o início da batalha. Suas pupilas amarelas acompanhavam cada movimento do grupo da expedição lá embaixo.
— Hum… Até que essa lutinha foi bem divertida, só é uma pena que ninguém morreu — comentou Penny consigo mesma, balançando as perninhas enquanto observava lá embaixo. — Eu nunca imaginaria que essa mulher do chapéu teria todo esse poder destrutivo em um mundo que parece ser tão limitado como esse. Bem... Isso me lembra que aquela comandante do tapa-olho, que utiliza uma katana, era consideravelmente mais sinistra. O jeito que ela fatiou os meus bebês sem nem se esforçar realmente me intriga bastante. Essa história está cada vez mais interessante.
Lá embaixo, Arthur ergueu Enrique, colocando-o em seu ombro com extrema dificuldade.
— Que cara pesado, que merda esse maluco come — resmungou Arthur após levantar Enrique. — Se bem que eu acho que todo esse peso dele deve ser por causa de seu corpo, que foi modificado.
— Se estiver muito pesado, quer que eu te ajudo? — propôs Maria, olhando para Arthur.
— Gente, vocês não estão me ouvindo — gritou Carlos, interrompendo a conversa dos dois. — Onde diabos está a comandante Katerina? Eu não consigo achar ela em canto nenhum.
— Agora que você falou, realmente ela não está em lugar nenhum — respondeu Maria, olhando rapidamente para os lados à procura de Katerina.
Do alto do andar escuro do prédio, a visão de Penny encarava o corpo desmaiado de Enrique, que estava no ombro de Arthur.
“Eu fiquei bastante surpresa que esse idiota, que parecia ser apenas mais um figurante, fosse ser alguém tão forte a esse ponto.“ ponderou Penny, estreitando os olhos com um sorriso leve e sádico aparecendo nos cantos de seu rosto.
—Eu sinceramente esperava que ele morresse... Isso tirou toda a diversão que eu havia planejado para esse espetáculo. Se bem que ele não demonstrou ter poderes elementais, igual aos humanos que eu vi antes, o que e bem decepcionante, mas suas habilidades físicas são realmente diferentes das de um humano normal, e aquela regeneração bizarra deve compensar isso perfeitamente — disse Penny, ativando brevemente seus poderes, fazendo seus olhos brilharem.
“Mesmo assim, ninguém ter morrido fez todo o esforço que tive para ocultar a presença daquele monstro não ter valido de nada.“ pensou Penny, olhando para os pedaços do cadáver do monstro que estavam no chão.
—Tsc… Maldição… Parece que eu já tenho que voltar. Aquele humano maldito já está quase chegando, já sinto que vou passar novamente por um inferno por causa daquele humano. Mas se ele tirar minha paciência dessa vez, eu vou matá-lo — disse Penny, arregalando os olhos no final de suas palavras.
Logo em seguida, Penny fechou os olhos e desapareceu do prédio onde estava.
E do alto de um dos prédios, após ter feito a varredura completa do local, Katerina organizou seu rifle no ombro enquanto pensava: “Merda, tem centenas de monstros vindo em nossa direção por causa do barulho dessa luta. E, para piorar tudo, tem uns deles que são muito fortes. Nós temos que sair logo daqui ou vamos passar por sérios problemas.“
No mesmo instante, ela saltou do topo do prédio, canalizando energia em suas pernas para amortecer o impacto. A queda livre de dezenas de metros terminou em um impacto brutal: suas botas militares colidiram contra o asfalto, causando um barulho ensurdecedor que fez o solo rachar em teias de aranha sob seus pés. Grossas nuvens de poeira e fuligem ergueram-se ao redor de sua silhueta. Logo em seguida ela caminhou rapidamente em direção a Arthur e Maria.
— Certo, pessoal. Vamos sair rápido daqui — ordenou ela, o tom de voz tenso contrastando com sua habitual frieza militar. — Consigo sentir a assinatura de centenas de monstros vindo em nossa direção. Eles foram atraídos pelos estrondos da batalha, e tenho certeza de que nenhum de nós vai querer estar aqui quando eles chegarem. Então, vamos dar o fora daqui logo.
— Entendido, senhora — consentiu Arthur, ajeitando o peso de Enrique nas costas enquanto o suor escorria por sua testa após receber essa notícia.
— Ótimo… Então nós vamos descansar e nos organizar em um prédio que está a não muito longe daqui. Já vasculhei aquela área e, de todos os lugares que eu vi, ele é o que parece ser o mais seguro — determinou Katerina, começando a liderar a marcha.
Após poucos minutos de caminhada, eles chegaram ao prédio. O edifício exibia uma entrada escura que levava em direção a uma antiga garagem subterrânea. O perímetro ao redor da entrada era desolador, cercado por carcaças retorcidas de carros enferrujados e ossos de cadáveres humanos que apodreceram com o passar dos anos.
— Certo, pessoal, o lugar é aqui. Vamos entrar logo antes que algum monstro apareça — gritou Katerina, olhando para o grupo, que já estava cansado.
Carlos, Maria e Arthur olharam para a escuridão da entrada do prédio e pensaram juntos: “Ela tem certeza de que não tem nenhum monstro dentro desse lugar?“
Então Maria e Carlos tiraram lanternas de suas bolsas e as distribuíram para o grupo. Enquanto iluminavam o lugar tenebroso, Carlos pensava: “Ela disse que esse lugar é seguro, mas sinto como se algum monstro fosse aparecer do nada e partir todos nós ao meio.“
Enquanto caminhavam pela escuridão da garagem, cortando a escuridão do lugar com lanternas velhas movidas a pilha, indo na frente, Katerina parecia preocupada com algo.
“Hum… Quando eu estava fazendo a varredura, tenho certeza de que senti uma presença sinistra de um dos prédios vizinhos. Tenho certeza também de que não era de um monstro. Eu conheço muito bem a presença dos monstros, e nenhum deles me deu tanto medo quanto àquela sensação fria que senti vindo daquele prédio.“ — pensou Katerina enquanto caminhava pela garagem escura, iluminando seu caminho com uma lanterna.
— Comandante Katerina, o que foi que houve? — perguntou Maria, percebendo a preocupação da comandante enquanto caminhava atrás de Katerina. — A senhora está preocupada com algo?
Katerina continuou olhando para a escuridão da garagem à sua frente enquanto caminhava, com sua mente martelando freneticamente, tentando saber que presença foi aquela que ela sentiu.
— Não é nada não... Eu só... estou pensando em algo que eu havia sentido quando estava fazendo a varredura — disse Katerina, sem nem olhar para trás. — De qualquer forma, vamos continuar. Já estamos quase chegando.
Então o grupo apressou o passo, engolidos pela escuridão úmida da garagem subterrânea, que parecia um labirinto povoado por veículos velhos, cobertos por grossas camadas de poeira e ferrugem. O grupo finalmente alcançou o local onde ficariam. Arthur caminhou até o canto da garagem e, com cuidado, colocou o corpo inerte de Enrique deitado no chão. O grupo acendeu uma fogueira para espantar a escuridão e sentaram ao redor dela.
Longe dali, em um velho prédio da cidade em ruínas, o homem de capuz ainda observava a orda de zumbis lá embaixo. Entrando novamente pela porta estava a mulher de capuz. Ela parecia tensa e apavorada com algo.
— Se… senhor, aquele monstro já está vindo em nossa direção — disse a mulher, olhando para o homem encapuzado no parapeito da janela quebrada.
— Hum… não precisa ficar com tanto medo assim. Afinal, aquele monstro foi criado pelo líder de nossa organização — disse o homem, virando a cabeça e observando a mulher. — Agora só precisamos esperar aquele grupo passar por aqui novamente para ser morto pelo monstro, haha. Sinto que logo, logo eu vou ser o novo líder daquela ilha, e quando isso acontecer a primeira coisa que farei será matar o maldito do líder atual, que vive me ameaçando utilizando a autoridade dele, que foi dada pelo líder de nossa organização.
O homem olhou novamente para fora da janela quebrada enquanto pensava: “Tudo está indo tão bem, hahaha. Sinto que minha promoção já está garantida se eu terminar essa missão.“
Após o cair da noite, de volta à escuridão da garagem, afastada por alguns metros, a Comandante Katerina estava perto de um dos velhos carros. Ela cruzou os braços, mantendo a guarda alta enquanto olhava pela escuridão da garagem, sua mente trabalhava em ritmo frenético. Ela projetou em sua mente as imagens do massacre que ocorreu no bunker e começou a compará-las com suas memórias da batalha recente que tiveram.
“Isso é extremamente estranho... O que raios está acontecendo nesse lugar? Agora que parei para pensar nisso, tenho certeza absoluta de que não havia monstro nenhum quando utilizei minha percepção antes. Então, do nada, quando abro meus olhos, aquele monstro estava na minha frente me encarando. E logo em seguida, quando utilizo minha percepção novamente, eu sinto aquela presença sinistra no prédio vizinho... O mais estranho de tudo é que agora eu sinto que já havia sentido essa mesma presença sinistra e fria naquele dia do massacre no bunker. Isso não pode ser apenas uma coincidência. Tem algo acontecendo, e eu ainda não sei o que é.“
Observando a comandante ao longe, Maria ficou preocupada ao vê-la sozinha, perdida em seus pensamentos. Então, na primeira chance que teve de quebrar o silêncio que sufocava a todos naquela garagem:
— Comandante Katerina! O Enrique está acordando! — gritou Maria, cortando o fluxo de pensamentos da líder.
Nas profundezas da mente inconsciente de Enrique, o pior cenário de seu trauma recente repetia-se em um loop sangrento. Ele via, em projeções nítidas e aterrorizantes, os dentes afiados do cervo mutante perfurando a carne profunda de seu ombro, esmagando seus ossos, enquanto seu sangue escorria em direção à garganta escancarada do monstro. Em sua mente, ele lembrava de quando suas mãos perderam as forças e sua espada caiu pesadamente no chão. Ele ainda se lembrava de seus olhos se fechando enquanto Maria e Arthur corriam em seu socorro.
Após alguns minutos tendo esses pesadelos, os olhos de Enrique finalmente começavam a abrir, mas logo se fechavam em seguida. Quando seus olhos abriam brevemente, sua visão era completamente embaçada. E, quando seus olhos se fechavam, eles abriam rapidamente ao acompanhar o som da voz que chamava pelo seu nome.
— Enrique! Enrique! Acorda! — chamava Maria, observando os olhos de Enrique abrirem e se fecharem.
— Aaaaah! — Enrique despertou, dando um berro ensurdecedor, impulsionando o tronco para a frente de uma vez, quase batendo sua cabeça na de Maria.
Maria, que estava com o rosto a poucos centímetros do dele, chamando pelo seu nome, levou um susto que a fez saltar para trás com a mão no peito.
— Ai, meu Deus! Você está maluco?! — exclamou ela, o coração disparado. — Você quase me matou do coração! Para que um escândalo desses, se você já está em um lugar seguro?
Antes que Enrique pudesse dizer qualquer palavra de desculpas, uma sombra projetou-se atrás dele. A Comandante Katerina desferiu um soco seco e violento diretamente contra o topo da cabeça do recruta.
THUD!
— Aiii! — gritou Enrique, encolhendo os olhos e massageando o couro cabeludo atingido, enquanto as lágrimas de dor brotavam nos cantos dos olhos. — Por que a senhora fez isso?! Está querendo me matar? A senhora quase rachou meu crânio?!
— Deixe de ser dramático. Você, por acaso, é um jarro ou uma flor para ser tão fraco assim, ao ponto de morrer só com isso? — debochou Katerina, o tom de voz banhado em um sarcasmo cortante, enquanto ela cruzava os braços e voltava a ficar séria. — Você está tentando atrair todas as hordas de monstros que estão vagando lá fora para nos triturar, dando esses gritos histéricos? Controle-se.
— Desculpa... É que eu acabei lembrando do monstro e de como ele me...
A justificativa de Enrique foi brutalmente interrompida por um som catastrófico e ensurdecedor.
BOOM... THUD... BOOM...
Um estrondo massivo e ritmado fez toda a estrutura da garagem subterrânea estremecer violentamente. Pedaços de reboco do teto de concreto desabaram como chuva sobre os carros velhos, e a poeira secular subiu, nublando a visão de todos. Do lado de fora, cruzando a avenida em frente à entrada do prédio, uma silhueta titânica e colossal caminhava lentamente.
O monstro era uma abominação de sessenta metros de altura, sendo mais de três vezes maior do que o Colosso que havia perseguido Maria, Carlos e Arthur na última expedição. Sua altura era o equivalente à de muitos arranha-céus vizinhos. À medida que o Titã seguia seu rumo pela escuridão diurna, o terremoto gerado por seus passos fazia com que vários prédios, já prestes a colapsar, caíssem aos pedaços no chão.
Dentro da garagem, todos já estavam horrorizados após ouvir aqueles estrondos. E, após o barulho passar, o silêncio tomou conta do lugar, sendo quebrado apenas por Enrique.
— Mas que porra foi essa?! — gritou Enrique, encarando o teto do lugar após o tremor passar.
— Será que dá para falar mais baixo? — sussurrou Carlos, irritado pela gritaria de Enrique. — Você quer que aquela coisa volte aqui e nos mate?
— Foi mau — disse Enrique, após olhar e notar que Carlos, Maria e Arthur estavam encarando-o. — Mas, então, o que foi isso agora pouco? — perguntou novamente Enrique, olhando para Katerina.
— Eu não sei, mas, seja lá o que for, eu garanto que não quero estar mais aqui quando esse monstro resolver voltar — respondeu Katerina, com o rosto sério, enquanto pensava: “Eu consegui sentir um pouco da presença dessa criatura do lado de fora. Sem dúvidas, ela está em um nível que eu tenho sérias dúvidas se conseguiria derrotá-la. É melhor darmos logo o fora para o mais longe possível daqui.“
— Certo, pessoal, todos de pé. Vamos sair logo desse lugar antes que aquela coisa volte — comandou Katerina, olhando para o grupo.
Então, após quarenta minutos desde a passagem do monstro, o grupo saiu do prédio para o lado de fora. Já era noite; a cidade era iluminada pela lua cheia. Katerina não perdeu tempo e logo utilizou sua percepção. Ela viu que, ao redor, não tinha nenhum monstro. todos fugiram apos a passagem do mutante gigante.
— Não tem nenhum monstro ao redor — disse Katerina para si mesma, após abrir seus olhos. — Ok, pessoal… Parece que, por enquanto, estamos seguros. Mesmo assim, só por precaução, vamos nos mover em silêncio. Precisamos seguir em frente e sair o mais longe possível deste lugar.
— Eu concordo plenamente, senhora — disse Enrique, sua voz ecoando alto como sempre, enquanto olhava para Katerina.
— Dessa vez eu vou concordar com o barulheto. Nós devemos sair logo daqui — respondeu Arthur, onde, em sua mente, ele revivia as memórias do monstro da última expedição aparecendo do nada, matando o soldado de elite e esmagando a infantaria.
Então o grupo seguiu viagem e, após alguns minutos, eles já tinham deixado para trás a garagem escura. O grupo apressou o passo e, após alguns minutos de caminhada, eles começaram a se depararem novamente com monstros, mas facilmente os evitavam graças às habilidades de Katerina.
Quanto mais eles caminhavam, pelas ruas da cidade em ruínas, mais frio parecia ficar.
— Caralho, mas que merda de frio é esse do nada? — resmungou Enrique, esfregando os braços e soprando as mãos. — Eu nunca ouvi falar que a cidade em ruínas era um lugar frio à noite. Se bem que raramente temos alguma expedição que nos faça vir para cá, com exceção do Comandante Raven, que parece vir para cá com frequência nas missões de coletar materiais de pesquisa para o tal chefe de pesquisas do bunker. Se bem que eu nunca vi esse cara. Ainda bem que não estou no pelotão daquele cara. Tenho pena dos coitados que ele arrasta para esse inferno.
— Santo Deus… Será que dá para você calar a merda da sua boca? — gritou Carlos, irritado por causa de todo aquele falatório. — Quem aqui perguntou alguma coisa para você ficar tagarelando esse monte de merda?
— Eu, hein, que cara histérico — disse Enrique, com as duas mãos atrás da cabeça, enquanto continuava a caminhar.
— Calem a boca os dois. Se algum mutante aparecer por causa desse barulho de vocês, eu juro que irei jogar os dois para o primeiro monstro que aparecer — falou Katerina, enquanto caminhava, já irritada com o barulho de Carlos e Enrique.
— Esse pessoal não cansa de discutir, não — disse Maria, ajeitando as alças de sua mochila, enquanto bocejava.
O grupo continuou a marcha forçada pela noite fria que se abatia sobre a cidade em ruínas. E, após mais de uma hora de caminhada, Katerina, utilizando sua percepção, localizou um edifício abandonado. Era um armazém comercial completamente fechado e desprovido de janelas externas.
— Certo, pessoal, nós iremos nos refugiar naquele lugar — disse ela, apontando a mão em direção ao edifício.
— Finalmente! Eu já não aguentava mais essa tortura — resmungou Enrique, olhando para o edifício.
Após alguns minutos, eles entraram no armazém. O lugar era imenso. Eles acenderam suas lanternas e começaram a caminhar pela escuridão daquele lugar. Dentro do armazém, era cheio de prateleiras imensas. Enrique começou a observar o lugar, que parecia um lugar mal-assombrado.
— Que lugar horrível — disse Enrique, olhando para as teias de aranha e a sujeira do lugar. — Tomara que, quando estivermos dormindo, não apareça um fantasma para puxar nossos pés e dizer algo como: "Vou levar vocês para o inferno".
— Nós já estamos em um inferno cheio de monstros, seu imbecil. Comparando aos monstros, quem é que teria medo de fantasmas? Sinceramente, não sei como um idiota como você arranja tanta energia para desperdiçar conversando bobagens — disse Carlos, iluminando sua frente com uma lanterna, ainda irritado com Enrique pela discussão anterior.
— Eu já disse antes: calem a porra da boca de vocês, ou, da próxima vez, eu vou espancar os dois — falou Katerina, com sua voz denunciando o seu cansaço.
Após alguns minutos, o grupo alcançou o centro do armazém. Eles entraram em uma antiga sala de gerência e, após limparem a poeira, acenderam uma pequena fogueira, cujas brasas projetavam sombras dançarinas nas paredes. Eles não perderam tempo e pegaram seus sacos de dormir, colocando-os no chão.
Antes de irem dormir, a Comandante Katerina aproximou-se das paredes, onde colocou sua mão e fechou seus olhos. Sua percepção se expandiu por quilômetros de distância fora do armazém, onde ela viu monstros menores brigando uns com os outros e monstros maiores se alimentando dos menores.
— O que a Comandante Katerina está fazendo? — perguntou Enrique, olhando para ela parada com a mão na parede. — Ela não vai dormir não?
— Ela está verificando o perímetro para ver se não tem monstro — respondeu Maria, terminando de se ajeitar em seu saco de dormir.
— Atá… Pensei que ela já estivesse ficando louca — disse Enrique, olhando para Maria.
— Calem a boca, estou tentando me concentrar aqui — resmungou Katerina, irritada por ter sido interrompida.
Katerina estendeu sua percepção para centenas de metros no céu noturno, e uma cena grotesca ganhou forma em seus pensamentos. Um enxame massivo de criaturas aladas cortava as nuvens escuras, emitindo rugidos estridentes. Num movimento mecânico e brutal, um dos monstros alados fechou as asas e mergulhou em direção ao chão como uma águia caçando sua presa. O monstro cravou suas garras afiadas nas costas de um mutante terrestre de três metros de altura que estava brigando com outro monstro lá embaixo.
O mutante alado bateu as enormes asas e levantou o monstro terrestre no ar. O monstro terrestre urrou em puro desespero, debatendo-se em vão enquanto o mutante alado o levava cada vez mais alto em direção aos céus. Quando chegou onde queria, o monstro alado deu fim ao sofrimento do pequeno, arrancando e engolindo sua cabeça. No mesmo instante seguinte, o restante do bando de monstros alados avançou sobre a presa. Garras e mandíbulas colossais rasgaram a carne, despedaçando e devorando o monstro menor, onde o sangue e as vísceras do monstro menor caíam como chuva no asfalto da cidade em ruínas.
Assistindo a toda aquela violência através de sua percepção, Katerina sentiu um misto de nojo e satisfação.
“Que bando de monstros imundos… É muito bom que se matem entre si. Isso nos poupa do trabalho de matá-los enquanto seguimos nossa expedição.“ — pensou Katerina, abrindo levemente seus olhos, após sua energia mística se esvaziar pelo uso excessivo de sua percepção em longas áreas, o que a fez ficar exausta.
— Certo, pessoal. Amanhã sou eu quem vai ter que mapear todo o nosso caminho, então vou dormir — anunciou Katerina, a voz arrastada pelo cansaço. — Eu já verifiquei o perímetro externo com a minha percepção, mas, com tanta bizarrice acontecendo ultimamente, o mais seguro é alguém ficar de vigia. Portanto, manteremos vigilância estrita durante a noite toda. Arthur, você ficará como a primeira sentinela da noite. Depois, o Carlos assumirá o posto, e o último turno será seu, Enrique.
— Como é que é?! — exclamou Enrique, dando um salto e endireitando o corpo em pura indignação. — Por que a senhora não vai vigiar um turno também? Até onde eu sei, fui eu quem quase foi morto por aquele monstro que tinha a cara do capeta! Eu sou o único aqui que deveria ter o direito de dormir até o amanhecer para me recuperar!
A reclamação de Enrique foi cortada no exato instante em que Katerina inclinou a cabeça em direção a ele. Seus olhos semicerraram-se e ela liberou uma onda gélida de intenção assassina diretamente na direção do soldado.
— Soldado Enrique... — sibilou Katerina, a voz mansa e mortalmente gélida.
— S-Sim...? — respondeu Enrique, engolindo em seco, enquanto o pavor paralisava seus músculos sob a aura sufocante da superior.
— Eu sou a sua superior nesta missão, certo? — perguntou Katerina, enquanto encarava Enrique.
— Sim… Mas é claro que a senhora é Comandante Katerina! — gaguejou ele, sentindo o suor frio brotar em sua nuca.
— Então, se eu decretei que você vai vigiar o último turno, você vai cumprir a porra da sentinela — determinou Katerina, irritada após ter dado tudo de si para levar o grupo em segurança até ali. — Ou, se preferir, quando nós voltarmos ao bunker, eu irei colocar em meu relatório para a Comandante Lara que você não ajudou em nada e ainda desobedeceu às ordens de um superior.
Ouvindo tudo aquilo, Enrique pensou: “Essa maldita está usando isso de novo para me pressionar a fazer o que ela quer. Eu realmente espero que ela morra.“
— Você ainda não me respondeu, soldado Enrique — perguntou Katerina, olhando para Enrique, que estava com os olhos fechados, perdido em seus pensamentos.
— Tudo bem, eu fico com a droga do último turno, que saco — resmungou Enrique, irritado, encarando Katerina.
— Excelente — concluiu Katerina, se ajeitando em seu saco de dormir.
Sem perder mais tempo, Carlos, Katerina e Maria ajeitaram-se em seus respectivos sacos de dormir ao redor das brasas. Enrique, resmungando palavrões mentalmente, também deitou-se para aproveitar as poucas horas de descanso que lhe restavam. Em poucos minutos, o cansaço venceu a todos. O silêncio pesado do edifício foi quebrado apenas pela respiração pesada dos que dormiam.
Sentado próximo à fogueira, Arthur permaneceu estático no posto de sentinela. Segurando seu bastão de pregos, ele inclinou a cabeça para baixo, deixando que as sombras cobrissem seus olhos. Totalmente sozinho, enquanto os outros dormiam, sua mente começou a arrastá-lo inevitavelmente de volta às lembranças dolorosas de seu passado.
Fim do Capítulo 10
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📝 Nota do Autor
Oi, pessoal! Queria avisar que ainda não sei quando conseguirei fazer as melhorias dos capítulos 11 ao 15. Usei todo o meu tempo livre nestes últimos dias para revisar os capítulos anteriores, e agora que volto à minha rotina de trabalho, vai ficar bem mais difícil arrumar tempo para escrever.
Não se preocupem: não vou abandonar a história! Já escrevi até o capítulo 23, mas parei tudo para voltar e reescrever e aprimorar os capítulos antigos — e isso me desgastou bastante. Pode demorar meses até eu conseguir fazer essas melhorias, mas não desistirei!
Espero que tenha valido a pena. Se vocês perceberam a diferença e gostaram das mudanças, deixa aí nos comentários! Saber que ficou melhor me dá muita força pra continuar. Obrigado por acompanharem!