Após todos pegarem no sono, o silêncio pesado da sala de concreto foi quebrado apenas pelo estalar das últimas brasas. Maria, contudo, não conseguia dormir. Inquieta, ela se virou no saco de dormir e avistou Arthur. O veterano mantinha o olhar fixo no fogo, com uma expressão profundamente melancólica, claramente revivendo alguma memória dolorosa de seu passado.
Com cuidado para não acordar os outros, Maria se levantou e caminhou silenciosamente até ele.
— Arthur... Você está bem? — perguntou ela, com a voz mansa.
Ao ouvir a voz dela, Arthur piscou, despertando de seus pensamentos. Num reflexo mecânico, ele tensionou os ombros e forçou sua feição a ficar séria novamente, tentando esconder a própria tristeza.
— Claro que estou bem. Por que não estaria? — respondeu ele, desviando o olhar.
Maria não se deu por vencida. Ela se aproximou da fogueira e sentou-se no chão de concreto, bem ao lado dele.
— Você não está bem, Arthur. Eu consigo perceber isso só de olhar para a sua expressão — insistiu Maria, fixando seus olhos nos dele. — Você estava fazendo essa mesma cara na noite passada.
— Não era nada, sério... — murmurou o veterano, cutucando uma brasa com o bastão, deixando claro que não queria tocar no assunto.
Maria continuou a encará-lo por alguns segundos. O silêncio entre os dois se estendeu e, aos poucos, o semblante da jovem também foi tomado por uma leve melancolia.
— Sabe, Arthur... — começou ela, a voz baixa.
— Sim?
— Desde que nos conhecemos, eu nunca lhe contei o verdadeiro motivo de eu me voluntariar para vir a essas expedições, não é? — disse Maria.
— Sim, você nunca mencionou — ponderou Arthur. — Mas eu também não pergunto. Assim como não quero que ninguém fique cavando o meu passado, prefiro não bisbilhotar o dos outros. Todo mundo aqui tem suas mágoas.
— Na verdade... O motivo de eu vir para esse inferno na superfície é o meu pai — revelou ela.
No mesmo instante, a mente de Maria foi puxada para um breve flashback de sua infância. Na memória difusa, ela viu seu pai, um homem que aparentava ter uns vinte e sete anos na época, vestindo um jaleco branco de cientista. Ele caminhava na direção dela e de seu irmão, Carlos — que na época tinham por volta de sete anos. O homem colocava as mãos sobre a cabeça dos dois e os puxava para um abraço caloroso. Ele dizia algumas palavras, mas Maria não conseguia ouvi-las na lembrança, pois o tempo havia apagado o som de sua voz. Logo após falar, o cientista dava um sorriso terno, dava meia-volta e cruzava uma porta. Aquela havia sido a última vez.
— Você não precisa falar disso se não quiser, Maria — interrompeu Arthur, percebendo o peso na voz da garota.
Ignorando gentilmente o aviso do veterano, Maria engoliu em seco e continuou a desabafar:
— Após o falecimento da minha mãe, quando o Carlos tinha acabado de nascer, meu pai quase nunca parava em casa. Tinha vezes em que eu só o via nos finais de semana, e, mais tarde, apenas de mês em mês... — Uma lágrima solitária brilhou nos olhos de Maria, mas ela a segurou. — Eu nunca mais o vi depois que fiz dez anos. Ele simplesmente nos deixou com uma babá encarregada de cuidar de nós e sumiu. Eu tentava ligar para o laboratório dele, mas ele nunca respondeu a nenhuma das minhas ligações. Então, quando fiz dezenove anos, o apocalipse aconteceu. Desde aquele dia, eu venho procurando por ele, tentando descobrir se ele sequer está vivo. O nome do meu pai... é Leon.
Arthur arregalou levemente os olhos, processando o impacto da informação.
— Então... Você e o Carlos são filhos do Doutor Leon? — perguntou ele, chocado.
— Sim. Isso mesmo — respondeu Maria, abraçando os próprios joelhos.
O silêncio retornou, ainda mais denso. Arthur fechou os olhos devagar. Ao fazer isso, as comportas de sua mente se abriram, projetando as cenas sangrentas de seu próprio passado.
— O motivo de eu vir nessas expedições... — começou Arthur, a voz trêmula, enquanto uma lágrima pesada finalmente escapava e escorria por seu rosto. — É que, no dia em que o mundo acabou, eu, minha filha e minha esposa tentamos fugir em direção a um abrigo militar. Mas, no meio do caminho, fomos cercados. Minha esposa foi severamente dilacerada pelos zumbis... Enquanto sangrava, ela chorou e entregou a nossa filhinha nos meus braços, implorando para que eu a salvasse. Eu... eu tive que deixá-la para trás para morrer.
Arthur pausou por um longo segundo, respirando fundo para conter o soluço que subia por sua garganta.
— E, no fim, eu nem sequer pude salvar a nossa filha. Pouco antes de chegarmos ao abrigo, ela adoeceu gravemente. Eu tentei tudo o que estava ao meu alcance, Maria. Cacei medicamentos em farmácias abandonadas, invadi hospitais vazios no meio do pânico... Mas as pessoas já tinham saqueado tudo. No estado em que o mundo ficou, os recursos mais disputados eram munições e remédios. Sem o tratamento, minha menininha, de apenas três anos, também me deixou. Pouco tempo depois que a enterrei, surgiram os mutantes — versões infinitamente superiores aos zumbis comuns — e, logo em seguida, os humanos com habilidades elementares. Coisas que eu nunca imaginei que poderiam existir.
Arthur limpou o rosto com o dorso da mão fardada, o olhar fixo no chão arenoso.
— Depois de enterrar minha filha, eu jurei que voltaria para buscar os restos mortais da minha esposa, para dar a ela um enterro digno ao lado da nossa menina. Mas o tempo passou... O cenário da cidade mudou tanto com as ruínas que eu acabei esquecendo o local exato onde ela morreu. Por isso venho nessas missões. Estou procurando o corpo dela.
— Eu sinto muito, Arthur... — disse Maria, com o coração apertado, compartilhando daquela dor genuína.
Afastado dali, na escuridão além do alcance da luz da fogueira, o Soldado Enrique permanecia deitado de costas. Ele estava acordado, ouvindo cada palavra em absoluto silêncio. Uma expressão de profunda e sincera empatia tomou conta de seu rosto de recruta. Enquanto as lágrimas dos companheiros caíam, a mente de Enrique projetou, de forma dolorosa, a imagem de sua própria mãe, que também havia sido arrancada dele no primeiríssimo dia do apocalipse.
Após o amanhecer, o grupo partiu para a fase final da expedição. Cruzando as ruelas tomadas pelo silêncio, eles finalmente encontraram o laboratório do Doutor Leon. O prédio em ruínas estava quase completamente camuflado por raízes imensas e cipós grossos que haviam crescido e engolido o concreto com o passar do tempo.
Eles adentraram a estrutura com cuidado até localizarem, no centro do edifício, a antiga sala do cientista. Sem perder tempo, começaram a revistar as mesas e gavetas caídas, procurando pelos arquivos de suas pesquisas.
— Pessoal, encontrei algo! — anunciou Carlos, puxando uma folha de uma gaveta emperrada.
— O que foi que você encontrou? — perguntou Katerina, aproximando-se com passos rápidos.
— Não sei... É um papel estranho.
Todos se reuniram ao redor de Carlos para examinar o achado. Para a surpresa do grupo, não se tratava de uma fórmula química ou relatório biológico; o documento parecia o fragmento de um texto de história antigo, escrito à mão pelo próprio Doutor Leon. O texto dizia:
“Há muito tempo, o mundo já foi um lugar no qual a raça humana dominava um tipo de poder místico. Nesses tempos antigos, existiam criaturas mitológicas que hoje só vemos em livros, como dragões, trolls, entre diversas outras abominações. Mas tudo mudou dep—”
A folha estava brutalmente rasgada na parte inferior, interrompendo a explicação no meio. Contudo, no verso do papel, havia uma série de números anotados com pressa.
— Porra! Por que essa droga de papel tinha que estar faltando justamente a melhor parte?! — esbravejou Enrique, socando o ar, irritado por a explicação ter acabado em nada.
— Bem... Deve ser apenas um texto de ficção ou de história qualquer. Quem se importa com isso? — desdenhou Katerina, acreditando que o cientista guardava apenas anotações de um livro velho. — Certo, pessoal. Pelo visto, viemos até aqui para nada. O laboratório está todo detonado e só restaram papéis inúteis que não explicam o que causou a grande queda do mundo. Vamos dar meia-volta e relatar aos outros comandantes.
— Comandante Katerina, espere. Tem uns números aqui atrás deste papel — interveio Maria, virando a folha.
Katerina pegou o documento e semicerrou os olhos ao analisar a sequência numérica.
— Isso são coordenadas geográficas... — deduziu a comandante, pensativa. — Mas sem um mapa adequado, não dá para saber de onde são. Pelo que estou vendo, com certeza não pertencem a esta cidade. Nós temos o mapa tático desta região inteira e esses números não correspondem a nenhum perímetro conhecido.
— Então o que nós vamos fazer agora? — perguntou Enrique, cruzando os braços.
— Nós iremos retornar ao bunker, relatar o que descobrimos sobre estas coordenadas e pesquisar nos arquivos centrais por informações que nos ajudem a descobrir o que há nesse local — determinou Katerina, guardando o papel no colete.
O grupo iniciou a marcha de retorno. Antes de cruzar a soleira da porta, Maria avistou uma foto antiga caída e amassada sob a poeira do chão. Era o rosto de seu pai. Com o coração apertado, ela pegou a imagem, limpou-a rapidamente contra a farda e correu para alcançar os outros que já haviam tomado a dianteira no corredor.
Para encurtar o caminho de volta, eles decidiram arriscar uma rota por uma grande ponte sobre o rio — um trajeto que deveriam ter pegado desde o início da missão, mas que antes estava completamente bloqueado por hordas maciças de zumbis comuns.
***
Enquanto isso, a quilômetros dali, na superfície do abrigo militar, Penny permanecia deitada de forma preguiçosa no velho banco de madeira, sob a sombra da árvore.
"Que tédio...", refletia a garota, encarando o céu com os braços cruzados atrás da cabeça. "Se eu não fizer algo drástico para me divertir logo, vou acabar morrendo com todo esse tédio."
A poucos metros dali, o Soldado Lucios — que havia recebido ordens estritas de Maria para vigiar a menina — ignorava completamente o seu dever fardado. Ele estava ocupado demais tentando dar em cima de duas jovens sobreviventes que aparentavam pouco mais de vinte anos. Lucios tagarelava galanteios estranhos e inconvenientes, incomodando visivelmente as mulheres. Penny observava a cena com um desdém profundo. A paciência da divindade esgotou-se quando Lucios, abusando da intimidade, colocou a mão de forma ousada sobre o ombro de uma das garotas.
*ESTALO!*
A jovem desferiu um tapa violento e certeiro contra a cara do soldado, fazendo o som ecoar pelo pátio. Ofendidas, as duas viraram as costas e saíram pisando fundo, deixando o pervertido para trás. Penny soltou um suspiro, girou o corpo com os olhos cheios de irritação e sentou-se no banco.
"Nem ferrando que eu vou ficar na porra deste lugar entediante vendo esse maluco pervertido passar vergonha e dar em cima de garotas o dia inteiro", enfureceu-se Penny mentalmente. "Eu já pensei seriamente em matá-lo. Mas seria estranho demais um soldado do esquadrão de elite sumir do nada, ainda mais dentro de uma base militar superlotada. A Comandante Lara faria uma investigação. Então, a única opção que me resta é apagar temporariamente esse infeliz."
Assim que as garotas sumiram de vista, Penny levantou-se e caminhou calmamente até Lucios, que ainda massageava a bochecha vermelha.
— Ahn? O que foi, garotinha? — perguntou Lucios, olhando para baixo e deparando-se com o rosto de Penny, que exibia um enorme e dócil sorriso inocente.
— Durma — ordenou Penny, a voz mansa carregando um peso metafísico incompreensível.
No mesmo milésimo de segundo em que a palavra foi dita, os olhos de Lucios reviraram. Ele apagou instantaneamente, desabando no chão arenoso como se fosse um boneco de pano que teve suas cordas cortadas.
— Certo. Agora só preciso esconder o corpo desse imbecil em algum arbusto — comentou Penny, limpando as mãos invisíveis com total indiferença.
Olhando para o homem roncando no chão, ela soltou um suspiro pesado: "Agora eu fico pensando... Por que raios eu não fiz isso antes, ao invés de ter que aguentar as palhaçadas e o falatório desse estorvo por tanto tempo? Se bem que eu ainda acho que deveria ter arrancado a alma dele por ter torrado tanto da minha preciosa paciência."
Fim do Capítulo 11