Faltavam apenas trezentos metros para o grupo alcançar o perímetro onde os soldados da retaguarda haviam ficado encarregados de proteger os veículos da expedição. O vento do fim de tarde trazia um silêncio incômodo.
— Tem algo errado... — sussurrou a Comandante Katerina, travando os passos.
Antes que os outros pudessem questionar, suas botas militares estalaram contra o asfalto. Ela disparou para a frente em velocidade sobre-humana, rasgando a neblina rasteira para chegar o mais rápido possível ao local dos jipes.
Ao cruzar a última curva, o horror chocou-se contra seus olhos. O perímetro havia se transformado em um abatedouro silencioso. Caídos sobre a terra batida e escorados contra as rodas de ferro dos jipes, estavam os cadáveres de seus soldados de infantaria.
A decomposição avançava de forma anormal, acelerada pelo muco esverdeado do ambiente; as peles exibiam tons cinzentos, as órbitas oculares continuavam abertas em expressões estáticas de puro terror e os uniformes rasgados revelavam marcas brutais de fuzilamento. Próximo ao motor, dois corpos jaziam com cortes precisos na garganta, onde o sangue coagulado havia manchado o metal.
Analisando a mecânica do massacre, Katerina deduziu a verdade instantaneamente: os monstros jamais usariam armas de fogo ou fariam cortes tão cirúrgicos. Aquilo foi obra da facção de bandidos.
— Merda...! — esbravejou Katerina, fechando o punho com tanta força que os nós de seus dedos estalaram. Suas feições transbordavam uma irritação gélida. — Eu os deixei para trás justamente para que não morressem nas profundezas da cidade... Mas aqueles bandidos desgraçados os caçaram aqui fora também. Pelo visto, o maldito traidor do bunker planejou cada detalhe desta expedição. Na hora em que eu descobrir quem é esse infeliz, ele vai me pagar caro.
Logo em seguida, Maria, Carlos, Enrique e o pequeno Neon finalmente alcançaram o local, ofegantes. O Soldado Enrique arregalou os olhos diante da carnificina.
— Senhorita Katerina... O que... O que foi que aconteceu aqui? — perguntou Enrique, a voz vacilando enquanto o trauma recente de quase ter morrido voltava a assombrá-lo.
— Como você mesmo pode ver, Enrique... Eles foram mortos pelos mesmos bandidos que tentaram nos emboscar na ponte — falou Katerina, sem desviar os olhos dos cadáveres.
O grupo começou a caminhar lentamente entre os corpos, engolindo em seco diante do odor insuportável de carne podre. Maria abraçou os próprios braços, sentindo o peito apertar de angústia. Ela olhou para a comandante de quepe negro.
— Senhorita Katerina... Já que nós estamos bem distantes do perímetro de caça dos monstros maiores, nós poderíamos enterrá-los, não é? — pediu Maria, com a voz embargada ao ver a irritação no rosto de Katerina. Ela lembrou que haviam sido forçados a abandonar o cadáver de Arthur e queria dar dignidade àqueles homens.
— Não — cortou Katerina, implacável, embora um vinco de amargura cruzasse sua testa. — Abrir covas para todos eles vai demorar horas e consumir uma disposição que nós simplesmente não temos. Apenas juntem os corpos e os queimem. Isso por si só já é muito melhor do que deixar que seus cadáveres virem banquete para qualquer mutante que esteja rondando esta periferia.
Caminhando em direção ao primeiro veículo, os olhos de Katerina pousaram sobre o rosto rígido de um jovem recruta. Na penumbra de suas memórias, ela relembrou o instante antes da partida, quando aquele mesmo soldado havia batido no peito, orgulhoso, dizendo que queria ir na expedição para apoiar o grupo como linha de frente.
— Droga... — murmurou ela entre dentes, interrompendo o fluxo de pensamentos para focar na sobrevivência.
Afastados dali, Enrique tentava erguer o tronco de um dos militares falecidos, mas o cadáver escorregava de suas mãos por estar banhado em sangue.
— Maria... Você pode me ajudar com os corpos? — pediu Enrique, limpando o suor com o dorso de sua farda. — Como o Carlos está com o ombro e a perna machucadas, eu vou precisar de um apoio aqui para mover todos os corpos.
— Claro! — respondeu Maria, puxando um kit de primeiros socorros que acabara de vasculhar no interior do jipe de suprimentos. Ela correu até Carlos, aplicando um curativo rápido e compressivo para estancar o sangue do ombro dele. — Carlos, fique aqui firme. Enrique, vamos logo com isso.
— Claro, me ajude aqui. — concordou Enrique, arrastando o primeiro cadáver pesadamente sobre a areia enquanto Maria se juntava a ele para puxar os outros pelos braços, ignorando o cansaço dos músculos de seu corpo.
Enquanto os dois organizavam a incineração dos corpos sob o olhar atento e curioso de Neon, Katerina subiu no banco do motorista e agarrou o rádio de comunicação militar. Ela girou os seletores de frequência tática na tentativa desesperada de contatar a Comandante Lara no bunker subterrâneo.
O aparelho emitia apenas um chiado estático e gélido. A fiação interna havia sido cortada de propósito.
— Inferno...! Por que absolutamente nada funciona como eu quero neste maldito lugar?! — esbravejou Katerina, esmagando o rádio na mão e arremessando-o para longe. O metal colidiu contra o asfalto com um estrondo.
Lá fora, Maria e Enrique arrastaram as carcaças humanas, empilhando-as à beira da estrada. Enrique pegou um tambor de gasolina no jipe e o despejou sobre os cadáveres.
— Maria, você tem isqueiro? — perguntou Enrique, olhando para ela e jogando o galão vazio para o lado.
— Não, não tenho isqueiro não — respondeu Maria, encarando-o. — E pare de me olhar como se eu fosse algum tipo de fumante!
— Desculpa — disse Enrique, virando os olhos para os lados.
— Eu tinha um isqueiro que trouxe para acender as fogueiras… mas não está comigo. Acho que o perdi — disse Maria, vasculhando os bolsos.
— Tudo bem. Já que não tem isqueiro, vou ter que usar outra coisa para fazer fogo — disse Enrique, procurando algo ao redor. — Já sei.
Com um movimento rápido, ele sacou a espada das costas e a raspou no chão. A lâmina produziu faíscas que caíram sobre os cadáveres, ateando fogo neles.
As chamas avermelhadas irromperam com violência, consumindo os tecidos e projetando sombras dançarinas na fachada dos jipes. No topo da pilha, o rosto do jovem soldado que Katerina relembrara estava de lado. Seus olhos vidrados pareciam encarar fixamente a figura do pequeno Neon, que assistia ao fogo de braços cruzados.
Nas entranhas da mente milenar do Daftardar, contudo, o disfarce infantil dava lugar ao puro deboche cósmico: “Esse cadáver estático parece estar me encarando… Que desagradável. Eu poderia facilmente trazer cada um desses humanos que morreram de volta à vida. Mas de jeito nenhum vou interferir nas páginas desta história. Preciso respeitar a autoridade da Penny como mestra desta Torre, mesmo que ela própria não respeite a minha autoridade quando está na minha torre… Bem, eu não vou fazer nada, pelo menos até eu encontrá-la e ver o que ela está aprontando nesta história.”
Após a incineração ser concluída e o calor das brasas espantar o frio congelante da noite, o grupo permitiu-se descansar sob a guarda estrita de Katerina. Logo nas primeiras horas da manhã, assim que o sol iluminou a estrada, os motores rugiram e os jipes finalmente partiram de volta ao bunker.
A quilômetros dali, no interior dos níveis mais profundos do abrigo militar, a realidade era completamente diferente. Penny já havia desfeito sua presença física na praia costeira e transmigrado de volta para o galpão abandonado e tomado pela poeira nos fundos da base.
Ela empurrou a pesada porta de ferro, que rangeu ecoante na penumbra.
— Ótimo… Ele está exatamente do jeitinho que eu deixei — comentou Penny, abrindo um sorriso sádico ao ver o corpo inerte do Soldado Lucios estirado no chão. — Agora eu só preciso fazer uma pequena alteração e apagar as memórias desse humano de mentalidade asquerosa. Assim, quando ele acordar, não vai se lembrar que eu o fiz dormir. Sinceramente, acho que seria mais fácil matá-lo… mas se ele desaparecesse do nada, seria estranho e os outros humanos fariam uma confusão enorme procurando por ele. Afinal, ele parece ser um soldado importante, se comparado aos soldados comuns que utilizam armas de fogo nesse lugar.
Num movimento mecânico, as pupilas de Penny incendiaram-se em seu dourado divino. Uma onda de estática invisível tocou o cérebro de Lucios.
O soldado deu um salto abrupto no chão, expandindo os pulmões e acordando espantado, com o coração batendo feito um tambor ensandecido, como se tivesse acabado de despertar de um pesadelo terrível. Quando abriu as pálpebras lentamente e limpou a visão zonza, olhou para os lados. Na direção da porta, Penny já havia sumido antes mesmo dele acordar.
— Mas… O que raios eu estou fazendo aqui dentro?! — murmurou Lucios, massageando a nuca dolorida, com baba escorrendo pela boca, enquanto olhava confuso ao redor da estrutura escura, deparando-se apenas com caixas enormes de madeira e teias de aranha no teto.
Penny reapareceu instantaneamente no interior da cabana de madeira da superfície. Ela caminhou até a janela empenada e cruzou os braços. A janela se abriu sozinha. Ela encarou a calmaria do pátio, observando as pessoas andarem lá fora.
“Certo… Tudo está correndo exatamente como eu planejei”, refletiu, abrindo um sorriso cortante. “Logo, logo o grupo da expedição militar vai retornar. Eu já enviei o comando para que aqueles monstros gigantes marchem em direção a este bunker. Se bem que eles são grandes e lentos, por isso vai demorar dias até que alcancem esta montanha… Eu poderia facilmente teletransportá-los diretamente para cá, mas o espetáculo perderia toda a graça. Acho que dessa vez vou apenas esperar o ritmo natural da história. E… vejam só. Agora que prestei atenção, sinto uma flutuação familiar. Parece que o meu irmão irritante também resolveu entrar na minha Torre. Que inesperado… Não achei que o Neon realmente viria. Bem, tanto faz.”
A quilômetros dali, cortando a estrada poeirenta sob a claridade do dia, o jipe utilitário avançava em velocidade constante. O Soldado Enrique mantinha as mãos firmes no volante, concentrado na pista esburacada, enquanto a Comandante Katerina ocupava o banco do passageiro ao seu lado, de braços cruzados. Na parte traseira, Carlos, Maria e o pequeno Neon acomodavam-se no banco.
— Carlos… Parece que os seus ferimentos estão piorando — comentou Maria, olhando as bandagens do ombro e da perna do irmão, seu tom de voz trêmulo denunciando sua angústia extrema.
Ela afastou brevemente os panos para inspecionar os cortes profundos, notando que a carne exibia um inchaço arroxeado e feio, sinalizando o início de uma infecção bacteriana.
— Enrique, será que dá para ir mais rápido?! O estado do Carlos está decaindo e ele precisa ser avaliado com urgência pelos médicos da ala hospitalar do bunker! — disse Maria, passando um antisséptico nos ferimentos e trocando as bandagens mesmo com o veículo em movimento.
— Entendido! — respondeu Enrique.
O recruta pisou fundo no acelerador, fazendo o motor rugir forte e o veículo saltar sobre as pedras da estrada, ganhando velocidade.
— Não precisa se desesperar, Maria… Eu garanto que consigo aguentar firme até cruzarmos os portões — interveio Carlos.
Sua feição estava pálida e debilitada devido à perda de sangue, e o suor gélido escorria por sua têmpora. Ele forçou um sorriso fraco para acalmá-la.
— Não está nem doendo tanto assim… É sério.
— Parece que você realmente está tomando gosto em mentir, né, Carlos? Você diz que não está doendo mesmo com a sua cara estando péssima, como se fosse desmaiar a qualquer momento! — rebateu Maria, sentindo as lágrimas quentes marejarem seus olhos.
Antes que a jovem pudesse concluir a bronca, Katerina ergueu a mão enluvada em um gesto firme, cortando a conversa. Seus olhos semicerraram-se sob a aba escura de seu quepe militar.
— Enrique, pare o jipe agora — ordenou a comandante, a voz gélida ecoando na cabine.
— Senhorita Katerina… Por que nós estamos parando? Há algum monstro no caminho? — perguntou o recruta, pisando no freio bruscamente e fazendo os pneus cantarem na estrada de terra.
— Estou sentindo uma assinatura biológica estranha logo à frente… Não se assemelha à energia de um mutante. Permaneçam todos no interior do veículo e guardem a retaguarda. Eu vou verificar o perímetro sozinha — determinou Katerina, empurrando a porta e saltando para a estrada a passos rápidos.
Avançando por entre as fendas do asfalto, Katerina alcançou o local que sua percepção alertava. O pavor visual do cenário chamou sua atenção instantaneamente: capotado brutalmente no centro da avenida, estava o jipe militar utilitário pertencente ao esquadrão do Comandante Gideon. O metal estava completamente retorcido e os vidros estilhaçados cobriam o chão como diamantes sujos.
Katerina aproximou-se dos escombros e deparou-se com o cadáver do motorista preso ao cinto, mas seus olhos focaram nas rachaduras massivas e fendas profundas que rasgavam a avenida ao redor.
“Mas que merda aconteceu aqui?”, refletiu a líder militar, o cenho franzido enquanto sua mente processava os estragos ao redor. “A terra colapsou por inteiro, como se um terremoto devastador tivesse atingido unicamente esta área. E este motorista… Eu tenho certeza de que ele era um dos soldados do Gideon.”
Cruzando as pistas lógicas em sua mente, a verdade materializou-se com clareza absoluta, fazendo uma expressão de pura fúria e repulsa tomar conta de suas feições.
— Hahaha… Maldito Gideon! — esbravejou Katerina, soltando uma risada nasalada e gélida que destilava puro veneno. — Aquele desgraçado, sem dúvida alguma, era o traidor do alto escalão! Eu já deveria ter desconfiado dele logo no início… Mas ele era tão pateticamente arrogante e fraco que eu não achei que tivesse cérebro o suficiente para coordenar um plano desse nível. Vendo esta cena de destruição, ele com certeza foi emboscado e morto no caminho. Que pena… Eu queria muito que ele ainda estivesse vivo para eu mesma matar esse miserável com as minhas próprias mãos. Mas, vendo agora, o corpo dele não está aqui. Bem, tanto faz. Algum monstro deve ter comido o cadáver daquele inseto.
Katerina deu meia-volta, controlando o fluxo de sua energia mística para estabilizar as emoções, e caminhou com passos firmes de volta ao jipe utilitário da expedição. Ela bateu a porta de ferro com um estrondo seco.
— E então, comandante? A senhora achou algum monstro lá fora? — perguntou Enrique, com a chave na ignição e o corpo tenso.
— Não era nada relevante. Vamos embora imediatamente — respondeu Katerina, encarando o horizonte cinzento com sua habitual frieza militar.
— Tudo bem então… — consentiu o recruta, engatando a marcha.
O motor voltou a roncar. O jipe disparou pela estrada de terra batida, cruzando os últimos quilômetros da jornada de retorno que durou três dias. Após passarem por vales áridos e desviarem das sombras dos prédios condenados, os olhos exaustos do grupo finalmente avistaram as grandes muralhas de pedra e os imensos portões de ferro que protegiam a entrada do bunker subterrâneo.
A expedição havia terminado.
Fim do Capítulo 17