Em uma praça em frente ao hospital, um jovem repousava em um banco com um olhar meio perdido.
Seu nome era Kael. Ele acabara de ser diagnosticado com câncer terminal.
Seus pais morreram quando tinha quinze anos.
Como foram bons pais, guardaram dinheiro para seus estudos e, por isso, pôde se manter sem muita dificuldade.
Mas não tinha nenhum outro parente. Seus pais eram órfãos, amigos de infância que se casaram.
Agora só ele restou, o fruto dessa união, mas seus dias estavam contados.
Um longo suspiro escapou de seus lábios.
— Eu só tenho dois meses de vida... pai e mãe...
Seu corpo ainda doía por causa dos exames. A voz do médico parecia ecoar em sua mente.
“Não há mais tratamento. O máximo que podemos fazer é aliviar a dor.”
Kael apertou os punhos.
Pela primeira vez desde a morte dos pais, sentiu um profundo desespero.
Gotas cristalinas caíram entre seus pés.
— Só se passaram três anos desde que vocês se foram...
Após respirar fundo, levantou-se.
Ainda lhe restavam trinta mil das economias. Pensou em dar uma volta e gastar um pouco.
Esse era seu plano durante esses dois meses: fazer o que quisesse e gastar cada centavo.
Kael chamou um Uber pelo celular, e logo um Tesla preto parou.
Após confirmar com o motorista, seguiu seu destino.
Havia uma feira a dez quilômetros do hospital.
Enquanto estava no orfanato esperando alcançar a maioridade, ouviu algumas pessoas dizendo que, se queria gastar dinheiro com algo esquisito, aquele era o lugar.
Pessoas de todos os ramos, até de ramos obscuros, vendiam ali.
Por algum motivo, as autoridades não interferiam nem entravam lá.
Ele mesmo não sabia o motivo e, sinceramente, nem ligava mais.
Seu olhar observou as pessoas caminhando pelas calçadas, sorrindo ou até apressadas.
“Sortudos desgraçados, cheios de vida... Me pergunto se Deus tem algo contra mim?”
Apesar desse ser seu pensamento, Kael não perdeu tempo culpando ou se lamentando mais.
Seus dias eram curtos para desperdiçá-los.
O carro finalmente parou.
Ao descer, deu de cara com uma placa que parecia bem antiga. Estava na entrada.
Onde sonhos e pesadelos habitam.
— Quem fez isso tem um ego bem grande, hein! — comentou, sorrindo levemente.
Dito isso, caminhou até a entrada.
Mas, nesse momento, dois homens fortes, vestidos de terno, surgiram do nada à sua frente.
— Nome?
Um deles perguntou, puxando uma lista de nomes.
Kael foi pego de surpresa. Seu cenho se estreitou.
“Aqueles dois falaram que a entrada não era restrita...”
Já imaginando que seria impedido de entrar, ainda assim falou seu nome.
— Kael Soares.
O segurança com a lista o encarou por um curto segundo e logo conferiu.
— Seu nome consta aqui. Seja bem-vindo, Sr. Kael.
Os dois abriram caminho em seguida.
Kael se sentiu perdido, sem entender como um ninguém como ele teria seu nome ali.
Mas, pensando ser um erro da outra parte, rapidamente entrou naquela feira misteriosa, temendo que mudassem de ideia.
O segurança que estivera calado puxou o celular logo em seguida, confirmando para seus superiores a entrada dele na feira.
Já dentro do local, o olhar de Kael se estreitou ao observar os arredores.
“Todos usam grandes túnicas... Parece que esse lugar é bem perigoso.”
Ele não conseguia ver o rosto de ninguém.
Mesmo quando olhava pela abertura, era como se no lugar do rosto estivesse o vazio.
Era assustador, mas o que pode assustar um homem que não tem nada a perder?
Após alguns passos, ele parou em frente a uma tenda e olhou para o que estava sendo vendido.
Havia algumas adagas, espadas e algumas pedras brilhantes.
“Isso parece caro...”
Mesmo estando ali com a intenção de gastar, sua natureza econômica tentava dominá-lo.
Mas, com firmeza, falou:
— Quanto custam essas pedras?
A pessoa que vendia nem estava prestando atenção nele, mas, ao ouvir sua pergunta, olhou para ele por alguns segundos.
Balançou levemente a cabeça.
— Dez mil cada uma, e as armas custam a partir de vinte mil — respondeu.
Kael quase caiu para trás ao ouvir o preço.
Rapidamente puxou a mão, que estava prestes a tocar em uma das pedras.
Engolindo em seco, suspirou e, em seguida, recuperou a compostura.
A voz que ouviu era feminina e parecia jovem.
— Moça... É tão caro. Você quer me extorquir porque pareço fácil? — questionou, frustrado.
A garota bufou em desdém.
— Se não vai comprar, então siga seu rumo... mão de vaca!
Kael se sentiu ofendido, mas não perdeu tempo discutindo. Ele não tinha esse luxo.
Continuou seu caminho observando as coisas que estavam à venda.
Muitas atraíam sua atenção. Todavia, depois dessa experiência, mantinha distância das barracas.
Havia muitas das pedras que viu na primeira barraca.
Também havia armas por toda parte sendo vendidas.
Mas só avistou armas brancas, como espadas e lanças. Não havia armas de fogo, nem mesmo uma simples pistola.
Parando em frente a uma tenda, viu uma pequena gaiola.
Dentro havia um coelho esquisito, com chifres e presas.
“Será alguma mutação causada por zonas radioativas?”
Curioso, perguntou o preço, mas rapidamente saiu assustado.
“Eu aqui pensando que tinham muito dinheiro...”
Seu rosto demonstrava frustração enquanto seguia em passos longos.
“Quem vai dar cinquenta mil em um coelho mutante? Loucos!”
“Ainda sou chamado de sem-teto pelo desgraçado... Que merda!”
Seu olhar seguia de uma ponta à outra.
“Devem ser todos uma gangue de ladrões disfarçados.”
Enquanto caminhava pela redondeza, escutou algumas vendas, e eram ainda mais absurdas que as da garota e do cara de antes.
Kael já estava planejando sair daquele lugar, mas seus olhos se detiveram em um senhor.
Diferente dos outros, não usava nenhuma túnica.
Também não tinha barraca alguma. À sua frente havia apenas uma caixa prateada.
Estranhamente, ninguém passava perto daquele velho.
Era como se todas as pessoas o ignorassem naturalmente.
A barba daquele senhor era tão grande que batia no chão, e suas roupas eram desgastadas.
“Será que até os mendigos estão tentando extorquir os outros nesse lugar?”
Kael aproximou-se, porém mantendo a guarda alta.
— O que temos aqui... um jovem com os dias contados.
Sorriso.
— Será que você, meu jovem, deseja viver?
A voz desgastada e rouca do ancião pareceu bater forte contra Kael.
Seu corpo todo tremeu e seus passos cessaram.
— Como... você sabe disso, meu velho?
O ancião gargalhou.
— Eu sei de muita coisa, mas isso não importa.
Sua mão tocou a caixa à sua frente.
— Se você quer viver, recomendo que compre essa caixa.
“Esse velho está tentando me passar a perna?”
Por alguns segundos, encarou a caixa. Não parecia ter nada de especial além de parecer bem-feita.
“Sinceramente, não importa. Não sei como ele sabe, talvez algum médico tenha falado...”
— Quanto é a caixa, meu velho? E o que tem nela?
Perguntou Kael, esperando um preço absurdo.
— Hehe! O que tem nela? Nada de mais. É apenas tudo o que me restou de inestimável.
Breve silêncio.
— Eu quero, em troca da caixa, aquilo que você mais estima.
Ouvindo as palavras do ancião, tossiu levemente.
— Eu não tenho muito dinheiro — respondeu Kael, envergonhado.
Era difícil admitir ser pobre na frente de um mendigo.
O senhor riu.
— Se o que você mais estima fosse dinheiro, seria isso. Mas provavelmente não é.
“Que velho esquisito”, pensou ao refletir sobre as palavras da outra parte.
“Eu nem sei o que tem na caixa... Pode não ter nada, mas eu vim aqui decidido a gastar. Mesmo não sendo em troca de dinheiro, prefiro levar algo comigo.”
Kael tirou a carteira e, de dentro dela, retirou uma fotografia.
Havia um casal e uma criança que parecia ter dez anos.
— Isso é o que há de mais precioso para mim — falou com pesar.
Seu coração doía ao pensar em se separar da única foto que restou de seus pais.
O ancião estendeu a mão e pegou a fotografia.
Ele sorriu.
— Você é um bom garoto e, nem sempre, mas às vezes, há recompensas onde menos se espera.
Empurrou a caixa.
— Pegue. É sua. Sei que não se arrependerá de me entregar esta foto.
Kael mordeu os lábios.
Pensou em pegar a foto de volta, mas as palavras daquele ancião pareciam tão sinceras.
Seu olhar não era de alguém que o enganaria.
Ele respirou fundo, pegou rapidamente a caixa e virou-se.
Suas mãos tremeram, não porque ela era pesada, mas porque não conseguiu dar nenhum passo.
Logo se virou para devolver a caixa e pegar a foto de volta.
Apenas para encontrar o vazio.
“Ele sumiu... A única lembrança de meus pais...”
Kael pareceu desamparado. Sentiu como se tivesse traído sua família.
Como não podia fazer nada e nem encontrava o ancião em lugar algum, voltou para casa.
Era uma casa de dois andares que ficava afastada da cidade.
A tristeza estampava o rosto de Kael ao entrar.
Deixando a caixa em cima da cama, foi tomar um banho.
Só então pareceu um pouco melhor.
— Deixe-me ver por que porcaria troquei o que me era mais importante... — seus lábios se moveram em um murmúrio.
Ele virou a caixa, procurando onde abria.
Ela parecia completamente vedada. Quando estava prestes a xingar toda a linhagem do ancião, seu dedo tocou uma pequena elevação.
Apertando a parte de cima, ela se abriu.
“Um botão da mesma cor prata... Que safadeza de quem fez isso”, pensou, frustrado.
Mas, no momento seguinte, seus olhos se arregalaram.
Dentro da caixa parecia haver uma maquete. Pelo menos foi o que pensou à primeira vista.
Mas era tão realista.
Montanhas, rios, florestas e cidades...
“Também tem pessoas?”
Kael assistiu àquilo admirado.
Colunas de fumaça subiam das cidades.
Pequenos barcos cruzavam os rios.
Pessoas caminhavam pelas ruas.
“Será uma projeção ultrarrealista?”
Perguntou-se, mas não conseguia lembrar de algo tão avançado quanto aquilo.
Parecia um mundo em miniatura.
Ele observou e tentou esticar a mão dentro da caixa para tocar uma das montanhas daquele lugar.
Kael não sabia qual era aquela tecnologia, mas parecia ouvir seus pensamentos, pois várias paisagens montanhosas começaram a passar lentamente no fundo da caixa.
Havia até algumas que perfuravam as nuvens.
— Quem era aquele velho para possuir tal coisa? — murmurou ao esticar o braço.
Sua mão entrou na caixa, e sua expressão escureceu.
— Droga, por que estou sentindo isso na minha mão?
Querendo saber se aquilo era real, fechou a mão e puxou, segurando o pico da montanha.
Dentro do mundo da caixa, inúmeros olhos assistiam, arregalados, à metade da imponente montanha sendo arrancada por uma mão gigantesca.
Em algum lugar daquele vasto mundo, um homem vestido com roupas de seda flutuava em pleno ar.
Seus olhos se fixaram naquela mão que brilhava em um tom dourado.
— Depois de dez mil anos... uma Divindade Superior desceu ao Mundo Imortal...
Os olhos de Chu Ming demonstravam pavor extremo.
Todo o seu corpo tremia.
Sua mente recordou a história da Era Perdida, repassada às gerações futuras.
A Era em que o Mundo Imortal quase foi dizimado.
— Eu tenho que avisá-los... Precisamos nos preparar para o pior!
Rapidamente, Chu Ming desapareceu daquele lugar como um feixe de luz.
Sem nem imaginar o caos que estava causando naquele mundo, Kael puxou a mão para fora da caixa.
Observou o pedaço de pedra pontiaguda em sua mão com curiosidade.
Até neve parecia haver no pico.
De repente, uma sensação o tomou.
Era como se algo lhe avisasse que aquele pedaço de montanha cresceria se ele o mantivesse consigo.
Sem entender bem, Kael pensou no mar, e a imagem de um imenso oceano se projetou dentro da caixa.
Rapidamente, estendeu a mão para dentro dela e lançou o pedaço de montanha lá.
A rocha desceu em alta velocidade, criando um rastro de fogo antes de se chocar contra o mar.
Uma onda se formou em seguida e cobriu várias pequenas ilhas em um raio de até quinhentos quilômetros.
— Será que exterminei alguma pequena civilização desse lugar? — perguntou-se com um sorriso forçado.
Rapidamente, Kael, guiando as imagens por seus pensamentos, observou os lugares submersos.
Suspirou levemente ao notar que não havia nada além de vegetação e alguns animais estranhos.
— Não é possível que esse mundo dentro dessa caixa seja real... certo?
Ainda que tentasse negar aquilo, tudo o que via parecia cada vez mais real.
— Tudo é miniatura... Esse mundo pequeno e imenso me pertence?
Os olhos de Kael brilharam.
Lembrou-se do velho dizer que, se quisesse viver, comprasse a caixa.
— Será que existe cura para o câncer nesse pequeno mundo...