No alto do Monte da Iluminação, assim chamado desde que o fundador da seita, Laozu, ascendera ao Reino do Verdadeiro Imortal, Xiu Ying aguardava em silêncio. Como atual Mestra da Seita e discípula de seu antigo fundador, ela esperava pacientemente pela manifestação da divindade que havia salvado a seita de seu destino de ruína.
De repente, um brilho dourado rompeu o azul do céu, e uma mão imensa desceu em sua direção. Xiu Ying engoliu em seco, assustada, mas respirou fundo, prostrou-se de joelhos e encostou a testa no chão da encosta da montanha em reverência.
— Esta pequena Xiu Ying saúda a grande divindade que teve compaixão de nós, meros mortais!
Sua voz soou alta e firme. Ela não ousou demonstrar o medo em suas palavras, para não desagradar o deus que os havia salvado.
Kael ampliou a imagem e assistiu à cena com admiração. Ao recordar sua primeira interação com Feng Li, não pôde deixar de balançar a cabeça em decepção.
“Tch! Veja só... Essa linda cultivadora nem sequer deixa a voz tremer ao se apresentar, enquanto aquele projeto de dragão já parecia disposto a entregar o próprio couro de serpente naquele mesmo dia.”
Seu olhar tornou-se solene.
“Confesso que Feng Li é humilde e comportado, mas sinto que falta uma verdadeira ferocidade em seu caráter... Realmente não se fazem dragões como antigamente!”
Sem responder a Xiu Ying imediatamente, Kael baixou sua mão até ficar a dezenas de metros acima da montanha.
Naquele ponto, a Seita Dao Infinito já estava em completo silêncio, encarando aquela imensa mão que, anteriormente, havia movido uma arma Celestial e exterminado milhares de demônios, reduzindo-os a fumaça.
Todos, desde o discípulo mais comum até os seis grandes anciões, suavam frio. Nem mesmo os discípulos feridos se atreviam a fazer um único barulho. O medo de que aquela mão esmagasse sua Seita e toda a cordilheira de montanhas os dominava.
Kael, por outro lado, sequer parecia perceber a comoção que havia causado. Para ele, os membros da seita eram minúsculos demais para serem notados sem que ampliasse a imagem da caixa. Por isso, decidiu que apenas a Mestra da Seita seria capaz de ouvir sua voz.
Só então resolveu falar. Antes, porém, tentou suavizar o tom da própria voz, tomando cuidado para não assustá-la.
— Minha pequena Xiu Ying, este Soberano decidiu escolher você e sua seita para meus futuros planos.
Ele fez uma breve pausa para tornar o momento mais solene, mas não contava que a garota responderia logo em seguida.
— Meu Soberano... Eu, Xiu Ying, e toda a Seita Dao Infinito estamos dispostos a sermos seus, ainda que o mundo se vire contra nós!
— Por isso, em nome do Grande Dao, já me entreguei para ser sua, tanto eu quanto minha Seita... — sua voz cessou por um momento. — Só peço que, em sua misericórdia, caso alguns dos discípulos desejem partir, Vossa Grandeza possa permitir que eles deixem a Seita.
Kael ficou surpreso com a resposta dela. Já esperava uma demonstração de submissão, mas aquilo tinha sido rápido demais. Ele mordeu levemente os lábios antes de esboçar um sorriso sugestivo.
“Se entregou para ser minha? Ela é tão ousada e direta... Que pena que é tão minúscula, ou eu poderia levar isso ao pé da letra.”
Kael suspirou, decepcionado com sua situação. Tantas cultivadoras bonitas ao seu redor, e ele, um solteirão com um pé na cova, nem sequer podia aproveitar um pouco daquela sorte.
“Não... Deve haver uma maneira. Depois terei uma conversa séria com a caixa-artefato.”
Ele teve a sensação de ouvir um bufado. Parecia ter vindo da caixa-artefato, mas decidiu deixar isso de lado por enquanto.
Colocando sua outra mão no queixo, parecia refletir profundamente.
“Bem, mas faz sentido essa submissão a mim. Acho que minha performance contra os demônios foi como belos fogos de artifício para ela. Sim, deve ser isso. Afinal, livrei-os de uma grande aflição.”
Sua voz surgiu no momento seguinte, semelhante ao som de muitas águas, diferente do habitual estrondo de trovão. Ele tentava soar gentil ao falar com a garota.
— Levante-se, minha querida Xiu Ying. Suba na palma deste Soberano. Deixe-me vê-la de perto.
Ao ouvir essas palavras, Xiu Ying levantou o rosto e, após respirar fundo, levantou-se. Em seguida, flutuou até pousar na imensa palma dourada daquele que a havia salvado.
Ela sentia uma forte supressão apenas por entrar em contato com aquela mão, mas não parecia haver nela qualquer intenção de lhe fazer mal. Após ter jurado em nome do Grande Dao, sentia seu destino completamente ligado ao dele.
Agora, aquele ser era seu mestre, seu dono por toda a eternidade, e ela estava disposta a servi-lo. Afinal, enquanto todos haviam virado as costas para ela e sua Seita — até mesmo os quatro impérios do Continente Imortal e as grandes Seitas, que, após a morte de seu mestre, decidiram ignorá-los e deixá-los à própria sorte, condenados a morrer nas mãos dos demônios...
Ele fez diferente.
Por quatrocentos anos, ela teve de assistir a centenas de milhares de seus queridos discípulos morrerem, um após o outro. Todos acreditavam nela; haviam confiado suas vidas aos seus cuidados. Mas, mesmo sendo a Mestra da Seita, seu cultivo estava apenas no Reino das Sete Transformações, e ela nada podia fazer além de tentar oferecer alguma esperança àqueles que ainda permaneciam ao seu redor.
Xiu Ying se sentia completamente sobrecarregada e exausta. Todas as noites, sua alma gemia em agonia, e suas lágrimas já haviam formado até uma pequena poça em sua caverna de meditação. Sua vida havia se tornado apenas isso: uma existência completamente solitária, incapaz de suportar os olhares daqueles ao seu redor.
Se não fosse pela matriz de defesa e pela matriz de ataque que seu mestre havia deixado, capazes de resistir aos ataques de um Imortal Dourado e até mesmo feri-lo gravemente, eles não teriam durado nem um ano.
Todavia, os recursos de sua Seita foram sendo esgotados para manter aquelas duas matrizes. Após trezentos anos, tiveram de abrir mão de uma delas para continuarem vivos. Restou-lhes escolher apenas a matriz de defesa, mas até ela havia chegado recentemente ao seu limite.
Se não fosse pelo sonho que tivera com aquela divindade salvando sua Seita dez anos atrás, talvez já tivesse entrado em colapso e sofrido um desvio de Ki, podendo até mesmo morrer.
Sobre a palma de Kael, Xiu Ying levantou o rosto para encarar o céu, enquanto lágrimas escorriam de seus olhos e caíam sobre a mão dele. Ela não conseguia se controlar. Era como se finalmente tivesse encontrado sua rocha de sustentação.
— Obrigada... Meu Soberano — disse entre lágrimas. — Por me salvar, por nos salvar... Eu sempre serei leal a você!
Kael ficou sem palavras diante daquela cena. Aquela bela mulher chorava e, pela expressão em seu rosto, parecia que suas lágrimas não cessariam tão cedo.
Ele suspirou pesadamente. Ver aquilo foi um grande golpe contra seu coração masculino.
“Será que ela está tentando me conquistar com essas lágrimas...? — refletiu ele. — Se for isso, ela está de parabéns pela performance, pois está conseguindo.”
Após um breve silêncio, finalmente resolveu respondê-la.
— Não chore, minha pequena. Você é muito mais linda sorrindo. Se não fosse por você ser uma mortal, até cogitaria fazer de você uma das minhas mulheres para consolá-la pessoalmente... Mas quem sabe em outra oportunidade.
Kael disse essas palavras sem pensar muito, afinal, na concepção dele, um Soberano que governava o Reino Divino certamente não poderia ter apenas uma mulher. Isso seria praticamente uma perda de prestígio.
Todavia, Xiu Ying, que limpava os olhos, fitou o céu, desnorteada com o que ouvira.
“O Soberano... é um pouco diferente do que eu imaginava que seriam os seres divinos... Pensei que estariam longe dos desejos mortais comuns, mas... eu não desgosto disso.”
Seus olhos piscaram brevemente, enquanto um sorriso surgiu em seus lábios. Limpando as lágrimas e respirando fundo para se acalmar, finalmente conseguiu cessar o choro.
“Ele disse que me acha bonita quando sorrio... Então, devo sorrir mais... E esse ser divino realmente considerou fazer de mim uma de suas mulheres...?”
Durante seus setecentos anos de vida, Xiu Ying nunca havia se envolvido com o sexo oposto. Para os cultivadores, tais reações eram consideradas um atraso em sua longa jornada de cultivo.
Isso só era diferente para os cultivadores dos caminhos não ortodoxos que utilizavam o cultivo duplo, mas esse era um caminho dependente de um ou mais companheiros Dao do mesmo reino.
A diferença de talento acabava estagnando muitos deles antes que pudessem alcançar um nível realmente digno de nota.
Mas não era um homem qualquer ou comum que falava com ela. Era um deus que habitava o Reino Divino. Para alguém como ela, que sempre desejou alcançar o topo do cultivo, aquilo era uma grande oportunidade.
“Mas... parece que eu ser uma mortal é um problema...”, pensou Xiu Ying, um pouco decepcionada.
Kael nem sequer imaginava o impacto que suas palavras, ditas de forma tão direta, haviam causado naquela Mestra da Seita, que já o havia colocado como sua rocha de sustentação por toda a vida.
Ele estava acendendo dentro dela um fogo mortal que deveria ter sido apagado há muito tempo, após seus longos anos de cultivo.
Enquanto Xiu Ying se perdia em pensamentos, Kael, na verdade, tinha deixado o Merthiolate de lado e pegado seu celular, agora gravando-a com a outra mão.
“Aaah... Meu pobre coração solitário insiste em querer amar essas beldades, mas... Não, Kael, você deve focar em se curar primeiro. Ainda que dar uma olhadinha não vá arrancar pedaço.”
Focando no rosto dela, percebeu aquela sutil decepção em seus belos olhos.
“Hum... Parece que meu charme é cativante para as cultivadoras. Devo tomar cuidado. Há muitas belezas por aí; não posso roubar o coração de todas ou os homens desse mundo ficarão chupando o dedo... Sim, devo ser mais modesto.”
Sua voz ecoou a seguir, na tentativa de consolar a linda garota apaixonada que estava em sua mão.
— É, minha pequena Xiu Ying... Se eu tivesse conhecido você alguns milhões de anos antes... Que pena. Você estaria comigo aqui neste momento, mas provavelmente sua alma estaria vivendo uma boa vida em algum dos inúmeros mundos durante esse período. — Kael suspirou pesadamente. — Agora, realmente é difícil para mim aceitá-la, mas haverá outras oportunidades. Não fique triste!
Xiu Ying encarou o vazio azul acima com a boca levemente aberta, meio que sem palavras.
— Hahaha!
Ela riu, mas logo tapou a boca ao perceber seu erro. Já estava prestes a se prostrar e pedir perdão pela indelicadeza, mas a voz de Kael surgiu bem na hora.
— Sua risada é tão boa de ouvir... Como eu disse, este Soberano nunca está errado. Você é mais linda com um sorriso no rosto!
Ouvindo isso, a antes fria e distante Xiu Ying corou, deixando seu rosto, que era branco como a neve, completamente vermelho.
— Meu Soberano... — ela murmurou. — Se você disser isso... eu não saberei como agir na sua presença.
Apesar de seu sussurro ser baixo, Kael, que estava focado nela, pôde ouvi-lo plenamente.
“Hehe. Essa tigresa tem um charme natural... Ainda bem que neste mundo não tem Internet ou ela estaria corrompida!”
— Não pense demais, minha querida Ying. Quando estivermos sozinhos, pode ser essa doce garota que está sendo agora. Este Inestimável alcançou o pico, afinal, por ter um coração magnânimo!
Os dois conversavam e, ocasionalmente, era possível ouvir as doces risadas de Xiu Ying. Mas nem ela nem Kael, que estava completamente focado em sua investida — ou melhor, em sua conversa —, notaram que, num canto escondido por trás de uma rocha, um par de olhos encarava a situação completamente perplexo.
Era a Vice-Mestra da Seita, a Primeira Anciã Cang Lan, que, apesar do medo, decidiu subir a montanha para ver a situação de sua velha amiga. Porém, nesse momento, não sabia o que dizer. Olhava para cima e só ouvia grandes estrondos semelhantes a trovões; outras vezes, soavam como o barulho de cachoeiras. Todavia, o que a deixava abismada era a sutil risada e os comentários tão femininos que surgiam da parte de sua amiga.
“Xiu Ying está rindo tão alegremente? Ela está conversando com aquela temível divindade... Por que parece tão feliz? Nunca a vi assim, nem quando o antigo Mestre da Seita estava vivo.”
Cang Lan simplesmente não compreendia o que estava acontecendo, mas ouvir aquela risada e a voz tão animada — e, às vezes, até tímida — de sua boa amiga fez com que ela esboçasse um sorriso.
Suspirando, decidiu sair do local.
Uma lágrima cristalina escorreu por seu rosto enquanto se afastava em passos lentos, ainda olhando de relance para aquela imponente mão que segurava Xiu Ying.
“Eu não sei o que esse ser grandioso está lhe falando, mas esse tom em sua voz ao respondê-lo e essa risada... Espero ouvir isso de você mais vezes... Que você possa ser feliz, minha querida amiga.”
— Agora não devo mais interromper... — murmurou Cang Lan, ao saltar do pico da montanha. — Com certeza essa poderosa divindade me notou, mas teve misericórdia de mim por consideração a Xiu Ying