Após ter uma divertida conversa com a linda cultivadora Xiu Ying, agora uma de suas subordinadas, Kael se sentiu mais relaxado. Ele pensou que teria dificuldade em interagir com aquela Seita, mas, sem perceber, já havia conquistado o coração da Mestra da Seita. O resto seria um passeio no parque.
“Não pensei que eu fosse tão talentoso em cortejar mulheres...” refletiu, com a outra mão no queixo. “Não, isso deve ser porque elas dedicaram suas vidas ao cultivo por muitos anos, assim como nos romances. No fim, acabam sendo diferentes das garotas da Terra, onde a maioria é composta por raposas astutas.”
Seja Xiu Ying ou Bai Suxian, ambas pareciam carregar corações de donzelas que jamais haviam sido tocados. Possuíam aquela ingenuidade cativante, mesclada a uma sutil frieza. Ainda que ele não tivesse plena certeza quanto à Divina Imortal Bai, sobre a Mestra da Seita, porém, isso era um fato que Kael considerava incontestável.
“Bem, deixando isso de lado, é melhor acelerar as coisas.”
Descendo a mão até próximo ao pico da montanha, disse a Xiu Ying que descesse e reunisse todos os feridos, independentemente da idade ou de há quanto tempo possuíam a lesão.
Os olhos da garota brilharam como belas joias ao ouvir aquilo. Ela não questionou nem perguntou o que ele pretendia fazer. Após aquela boa conversa, conseguia mais ou menos entender que tipo de pessoa era aquela divindade.
“Ele é bem diferente de qualquer coisa que imaginei durante esses dez anos... Todos temem a repetição da Era Perdida, mas, depois de conhecê-lo, eu não me importo mais.”
Refletiu a mestra da Seita, enrolando uma mecha de seu belo cabelo no dedo indicador. Um sorriso cativante repousava em seus lábios.
“Agora, seja eu ou a própria Seita, pertenceremos a ele. Viveremos e morreremos completamente devotados a este Ser que nos observa lá do alto!”
Ela saiu em passos lentos. Seus belos olhos lançavam olhares furtivos àquela mão dourada, revelando uma sutil relutância.
“Espero que possamos conversar mais vezes... Nunca me senti tão bem como hoje. Por um momento, até esqueci de tudo...”
Logo, Xiu Ying desapareceu da montanha e já estava no Palácio Interno abaixo, onde os discípulos e anciões reuniam os feridos.
Com sua chegada, todos a encararam brevemente. Alguns estavam assustados, outros curiosos, pois a Mestra da Seita havia passado mais de uma hora sobre a palma gigantesca que pairava nos céus da Seita.
Contudo, o que chamava a atenção de todos, principalmente dos anciões mais próximos, era a expressão em seu rosto. Um leve sorriso ainda era visível, enquanto toda aquela frieza e tensão naturais em seu olhar haviam se suavizado bastante.
Sem se importar com os olhares de todos, sua voz cortou o silêncio com firmeza:
— O Soberano que nos estendeu as mãos passará a comandar nossos destinos, como todos já estão cientes...
Seu olhar passou lentamente por todos, fossem os que estavam sobre macas improvisadas ou de pé, velhos ou jovens.
— Reúnam todos aqui neste salão, sejam os que tiverem ferimentos externos ou internos, de muitos anos atrás ou recentes, mesmo que sejam feridas em suas almas.
Ao finalizar suas palavras, ela faria uma breve reunião com os seis principais anciões, mas, nesse momento, uma jovem de longos cabelos castanhos e olhos verdes surgiu diante dela. Após fazer uma saudação, estava prestes a falar, mas parecia ter dificuldade para encontrar as palavras.
Xiu Ying suspirou.
— Jin Mei, sou sua mestra há tantos anos e você ainda tem dificuldade de falar comigo?
A garota respirou fundo. Atrás dela estavam outros discípulos considerados os mais geniais da Seita Interna que ainda permaneciam vivos.
— Mestra... — disse Jin Mei. — Está realmente tudo bem nos entregarmos assim nas mãos de uma divindade?
Ouvindo sua pergunta, Xiu Ying sorriu, surpreendendo a todos. Mas, antes que pudesse responder, a vice-mestra Cang Lan tomou a palavra:
— De fato... Provavelmente seremos inimigos de todo o Mundo Imortal e rejeitados em todos os lugares... Caçados para sermos mortos. Mas tudo já não era dessa maneira antes?
Com sua resposta, os murmúrios que haviam começado entre os discípulos cessaram. Era realmente como ela havia dito. Essa já era a realidade da Seita havia mais de um século, e todos sabiam disso muito bem.
— Jin Mei... — a voz de Xiu Ying surgiu suavemente. — Eu sei do seu medo. Afinal, seu clã lutou bravamente na guerra de dez mil anos atrás e pereceu.
A mestra não media palavras ao respondê-la, fazendo a discípula apertar a borda de sua roupa.
— Respeitarei sua escolha, seja ficar ou ir embora. Aquele Soberano também não vai impedi-la...
Vendo as lágrimas se formarem nos olhos de sua discípula, ela deu alguns passos e tocou suavemente sua cabeça.
— Por que não o observa um pouco? Ainda que seja um ser Divino, ele é bem diferente do que eu imaginava — respondeu Xiu Ying. — De uma maneira que me faz pensar que também o seguiria, mesmo que nossa Seita ainda estivesse em seu auge.
Terminando suas palavras, não perdeu mais tempo e foi fazer uma breve reunião com os principais anciões.
Apenas Jin Mei, rodeada por cinco discípulos, permaneceu de cabeça baixa, mordendo levemente os lábios.
— Por quê, mestra...? Você parece tão diferente após um único encontro com esse ser terrível... Será que ele já controla a sua mente? — seus lábios balbuciaram baixinho, mas sua mestra já havia desaparecido do local.
Os demais discípulos e anciões se apressaram para cumprir as ordens dadas anteriormente pela mestra da Seita.
Nesse momento, Xiu Ying e os outros já estavam todos na sala de reunião da Seita. A primeira pessoa a tomar a palavra foi a segunda anciã, Zen Yue.
— Mestra da Seita, antes não quis dizer nada por respeito à sua imagem... — disse ela. — Mas você está sendo muito precipitada ao entregar a si mesma e toda a Seita nas mãos de um ser que provavelmente nos vê como formigas.
— Sim. O que garante que nosso fim não seja semelhante ao dos demônios do Clã Zi Chi? — completou Jiang Tian, o terceiro ancião, com firmeza na voz.
Por ser mais velho e experiente que sua líder, era seu dever apontar quando ela estava errando.
Jun Cheng, o quarto ancião, também planejava dar sua opinião, mas uma mão repousou levemente sobre seu ombro. Era Cang Lan. Ela não disse nada, mas seu olhar já deixava claro o que pensava.
Ele suspirou e permaneceu sentado. Afinal, Cang Lan era alguém que não queria decepcionar.
Mas os demais não ficaram calados. O quinto ancião, Long Wei, deu uma opinião semelhante à dos outros dois anciões. Já o sexto, Bai Cang, o mais velho entre eles, fitou Xiu Ying nos olhos por algum tempo antes de falar.
— Você, jovem Ying, é a segunda a liderar nossa Seita desde a morte do meu bom amigo Laozu. Quando ele encontrou você, ainda um bebê, em meio àquela zona de guerra, decidiu criá-la como sua filha...
Ele parou brevemente, deixando o ar escapar lentamente.
— De início, me opus. Não havia necessidade de ser ele a fazer esse trabalho, mas ele insistiu, e você se mostrou o maior gênio de nossa Seita e alcançou seu atual lugar — seu olhar passou por todos. — Não por ser discípula ou mesmo filha dele, mas porque não havia ninguém mais apropriada do que você para assumir após a morte de Laozu.
Levantando-se, ele caminhou até uma grande janela, de onde era possível ver boa parte da Seita abaixo.
Os discípulos iam de um lado para outro, carregando os feridos e levando os corpos dos mortos para outro lugar. Vários anciões externos passavam com carroças de madeira improvisadas, levando o que restava dos suprimentos e medicamentos para aqueles que mais precisavam naquele momento.
Em alguns lugares, muitos ainda choravam diante dos corpos. Em outros, havia um raro som de risadas.
Enquanto observava tudo o que ocorria do lado de fora, sua voz ressoou.
— No fim... provavelmente amanhã estaríamos todos mortos nas mãos do Clã Zi Chi. Mas vejam o olhar de todos...
Bai Cang se virou e os encarou um a um, principalmente Zen Yue, a segunda anciã, e Jiang Tian, o terceiro ancião.
— É esperança! — disse ele. — Vocês enxergam isso?
Ele suspirou pesadamente antes de continuar.
— Eu entendo, não existe comida grátis. Se aquele ser divino nos ajudou, é porque há algo que ele quer. Mas de que isso importa agora? Xiu Ying é jovem e pode estar sendo precipitada, mas ela sempre fez um bom trabalho.
Ele caminhou até seu assento e sentou-se novamente.
— Só por hoje, pelo milagre que aconteceu, eu, Bai Cang, quero embarcar nessa decisão dela.
Houve silêncio após ele finalizar.
Apesar de Bai Cang ser o sexto ancião, ele atualmente possuía méritos suficientes para ser o próprio Mestre da Seita, mas decidiu ocupar esse último assento entre os anciões apenas para poder ajudar os mais jovens.
Suas palavras carregavam um peso tão grande quanto as de Xiu Ying e muito maior que as de Cang Lan, a vice-mestra.
Xiu Ying pôs-se de pé e fez uma reverência, com os punhos em forma de concha, em direção ao sexto ancião.
Em seguida, continuou, contando-lhes sobre o sonho que tivera dez anos atrás, algo que já havia contado apenas a Cang Lan, presente diante deles como testemunha da veracidade de suas palavras.
— Eu não estou acreditando cegamente em tudo isso — disse Xiu Ying. — Mas estou cansada. Meus ombros estão pesados. Mesmo com todas as minhas dúvidas e sabendo que serei uma inimiga pública do Continente Imortal, ainda decido manter minha palavra e, dessa vez, seguir o meu coração.
Ela fez uma breve pausa.
— Como aquele ser imensurável nos salvou, é direito dele ter aquilo que preservou com seu poder... Os fracos não têm voz neste mundo, mas, depois que o conheci melhor, eu garanto que, se vocês quiserem ir embora, ele não os impedirá.
Ela se levantou de seu lugar.
— Preciso confirmar se já está tudo pronto, então estarei me retirando por agora — afirmou Xiu Ying antes de sair da sala de reunião.
Vendo-a partir, Cang Lan, que não havia expressado sua opinião até então, levantou-se.
— Como Vice-Mestra da Seita, tenho meus deveres e deveria ser firme como vocês, apoiando-a ou repreendendo-a. Mas nós fomos abandonados pelo mundo que antes nos aplaudia e dizia ser nosso aliado. No fim das contas, onde estavam todos esses aliados durante esses quatro séculos?
O olhar dela tremeu levemente enquanto cerrava os punhos.
— Dizer e fazer são coisas muito distintas. Fizeram de nós uma barreira contra os demônios enquanto levavam uma vida boa... Não sei vocês, mas, para mim, já deu dessa hipocrisia sobre o que é certo ou errado. Se estiver bom para nós, o que importa se ficar ruim para eles?
Respirando fundo, concluiu:
— Todos morrem de medo da possível repetição da Era Perdida, mas eu penso diferente. Se é para acontecer, que estejamos do lado vencedor...! Por que não escolher pegar na mão de quem não nos negou essa mão, a nós, que não temos nada?
Após terminar de falar, Cang Lan saiu, pretendendo conversar com Xiu Ying.
Os demais que permaneceram se entreolharam. Bai Cang ria abertamente, enquanto Jiang Tian tinha uma grande carranca no rosto.
Já a segunda anciã, Zen Yue, parecia mais calma, porém muito pensativa. O quarto ancião foi o único que não disse nada do começo ao fim. Simplesmente saiu, aproveitando a tensão na sala.
Enquanto tudo isso se desenrolava, Feng Li continuava lapidando as Crônicas do Supremo Deus dos Nove Céus. Estava fazendo uma releitura para ter certeza de que não havia esquecido nada.
Já Bai Suxian tinha uma leve carranca no rosto. Ela tinha muitas perguntas a fazer a Kamiel, mas, por algum motivo, aquele seu antigo companheiro parecia dar grande atenção àquela pequena Seita Mortal, onde não havia um único cultivador que tivesse alcançado o mero Reino Imortal.
Ela realmente não compreendia. Segundo o dragão Feng Li, aquilo era uma grande jogada de Kamiel para se livrar do tédio, mas Bai Suxian não sabia dizer ao certo. Perguntava-se se realmente estava fazendo a coisa certa ao decidir se submeter a ele.
A Divina Imortal suspirou levemente.
Não sabia o porquê, mas ver aquele seu antigo conhecido sendo tão amigável com aquela jovem cultivadora lhe causava uma sensação estranha, como se não gostasse daquilo.
Além do mais, os dois haviam conversado por mais de uma hora e, mesmo Bai Suxian sendo atualmente apenas uma alma divina, sua força ainda era comparável à de um Verdadeiro Imortal. Por isso, pôde ouvir um pouco da conversa, ainda que estivesse distante.
Pelo que pôde perceber, Kamiel usou alguma técnica para que ela não entendesse suas palavras, mas Bai Suxian ainda pôde ouvir alguns comentários e risadas da garota, que parecia tentar ‘comer’ algo completamente fora de seu alcance.
“Diferente dos outros, que sempre se dedicaram a compreender o Dao e alcançar grandes alturas no Reino Divino, deixando de lado as questões carnais e até as considerando irritantes...” — o olhar dela se tornou complicado ao se lembrar disso. — “Você, por outro lado, era o completo oposto, como se não se importasse com a compreensão do Dao e nem desse a mínima para alcançar o topo...”
Um dos motivos pelos quais Bai Suxian desprezava Kamiel, no passado, era a forma como ele agia, afogando-se em prazeres mortais sem se importar com o que diziam ou pensavam. Ela realmente não o compreendia por completo, apesar de tê-lo conhecido por pouco mais de três mil anos.
Agora, ali estava ele novamente, agindo como no passado. Porém, ao contrário da repulsa e do desejo de repreendê-lo que ela sempre teve, aquilo agora, por algum motivo, a incomodava de uma maneira diferente.
— Eu realmente preciso conversar a sós com você, Kamiel... Preciso ter minhas dúvidas respondidas e descobrir se essa sensação estranha realmente tem a ver com você... — murmurou ela, balançando a cabeça enquanto colocava os pensamentos em ordem.
Em contrapartida, Kael estava dando uma boa olhada nas fotos que havia tirado até então. Depois de analisar tudo cuidadosamente, clicou no ícone da lixeira, apagando todas as fotos e vídeos que havia registrado.
Apesar de desejar criar uma pasta secreta para guardar tudo aquilo, não correria o risco. No início, não se preocupava muito, afinal, quem imaginaria que se tratava de um mundo dentro de uma caixa?
No entanto, com a Terra atual possuindo portais e sendo invadida por seres de outros mundos, isso o fez refletir sobre as histórias que ele mesmo vinha contando a respeito de inúmeros mundos. Se essas fotos vazassem e fosse comprovado que não se tratava de uma IA, o que impediria que ele fosse caçado antes mesmo de ter força suficiente para se proteger?
“Depois de curar o pessoal da Seita e dar algum agrado para aquecer seus corações, vou pedir oferendas, já que me veem como um ser divino... Além disso, a Seita Dao Infinito deve ter uma biblioteca cheia de pergaminhos...”
Kael batia levemente os dedos sobre a bancada de seu quarto enquanto refletia.
“Devo aprender o máximo que puder a respeito deste mundo. Assim, poderei continuar atuando sem problemas. É necessário conhecer pelo menos o básico antes de conversar a sós com a pequena Bai Suxian.”
Após fechar os olhos brevemente, fitou a caixa à sua frente.
— Caixa-artefato... por acaso, eu posso entrar nesse pequeno mundo? Digo, assumindo uma proporção natural para um humano de lá?
Houve silêncio após sua pergunta.
Então, seus olhos brilharam e um sutil sorriso surgiu em seus lábios.
A caixa respondeu.
E a resposta foi um simples: ‘Sim.’
Para Kael, aquilo já levantava inúmeras possibilidades.
A princípio, quando descobriu que a caixa tinha consciência própria, já havia cogitado fazer essa pergunta, mas a incerteza o fez deixar isso de lado por um tempo. Não apenas pela diferença de proporções entre ele e as pessoas daquele pequeno mundo, mas porque sabia muito bem que entrar naquele lugar significava caminhar bem mais próximo da morte do que em sua atual situação de câncer terminal.
Apesar de sua alma de leitor de romances ansiar por experimentar aquele mundo fantástico de cultivo que antes só poderia imaginar, Kael não era tolo a ponto de abrir mão facilmente de sua perspectiva praticamente divina fora daquele mundo.
Primeiro, deveria ter uma boa conversa com a caixa-artefato e avaliar os prós e os contras. Só então decidiria se valia a pena correr o risco.
É claro que seu desejo de entrar naquele mundo não tinha absolutamente nada a ver com as belas cultivadoras que poderia encontrar por lá. Muito menos com uma certa mestra da seita de longos cabelos brancos. Era apenas o inocente desejo de um leitor aventureiro.
Pelo menos era isso que Kael dizia a si mesmo.