Enquanto Xiu Ying conduzia uma reunião e ordenava a alocação dos feridos, Kael, por outro lado, preparava-se para sua grande performance.
O Merthiolate Cicatricure — ou melhor, o medicamento divino — já estava sobre a bancada, pronto para ser usado. Além disso, após analisar melhor a situação dos discípulos da Seita, com uma carranca no rosto, saiu rapidamente em sua bicicleta até a mercearia, a poucos quarteirões dali.
Ele estivera pensando em algo útil para repor a energia dos discípulos, assim como lidar com a grande desnutrição que assolava mais de oitenta por cento deles.
“Não posso deixar meus subordinados sofrerem... Este também é o melhor momento para gravar minha gentileza no coração de todos”, refletiu com um sorriso.
Kael estava animado, mas, ao retornar para casa, respirava pesadamente. Sentia como se aquele simples esforço já tivesse esgotado boa parte de sua energia.
— Haa... Que droga! Quando lidei com o enorme couro de Feng Li, eu não estava tão mal. Parece que a caixa-artefato realmente me ajudou naquele momento.
Seu olhar tornou-se solene.
“Não devo me iludir com o fato de ser poderoso para os seres daquele pequeno mundo... Aqui fora, já estou nas últimas.”
Ele deixou o ar escapar lentamente enquanto subia pelos restos da escada até o segundo andar.
— Cultivar... Sim, eu devo fazer isso, pois quero viver o máximo possível! — declarou com firmeza, após se sentar na cama e encarar o interior da caixa, que estava sobre a bancada.
Ampliando a imagem, viu uma linda mulher de cabelos brancos encarando pacientemente o céu sobre o pico de uma montanha imponente.
Como se tivesse se esquecido do cansaço, um sorriso esboçou-se em seus lábios ao notá-la. Logo, sua voz ecoou, vinda de além dos céus.
— Então, minha querida Ying. Tudo finalizado para este Soberano agir?
Acima da montanha, a mestra da Seita não resistiu e sorriu um pouco sem jeito pela maneira como era chamada.
— Sim, meu Senhor — respondeu ela. — Todos estão reunidos no Palácio Interno da Seita, ao lado desta Montanha da Iluminação.
Kael olhou para baixo, em direção à montanha, mas não conseguia ver nada.
“Parece que terei de estudar mais a fundo as configurações da caixa-artefato. Ter algo como múltiplas telas exibindo o interior do mundo em miniatura seria bastante útil.”
Estreitou os olhos em reflexão.
“Farei isso mais tarde, quando me sobrar um tempinho”, decidiu internamente.
Por enquanto, ele apenas suspirou e deu zoom para observar melhor o lugar. Viu uma construção que lembrava vagamente um estádio de futebol, completamente coberto.
Ficaria difícil jogar um pouco de Merthiolate naquele lugar.
— Está tudo bem se eu retirar a cobertura da estrutura? — perguntou ele.
Foi então que Xiu Ying finalmente notou seu erro. Ela estava tão focada em preparar um dos melhores lugares da Seita que acabou se esquecendo da maneira como aquele Soberano estava interagindo com seu mundo.
— Eu... peço perdão pela minha incompetência, meu Senhor... Queria apenas mostrar um local mais adequado.
Notando a tristeza em seu olhar por acreditar tê-lo decepcionado, Kael fixou bem a imagem no rosto dela.
“Essa mestra da Seita consegue ser tão fofa e linda mesmo com essa expressão... Realmente, as cultivadoras têm um charme diferente das raposas do meu mundo.”
Xiu Ying, que aguardava em silêncio enquanto apertava a borda da longa vestimenta de seda branca que contornava suas belas curvas com uma sutileza tentadora, levantou o rosto ao escutar uma risada. Embora ela soasse como o estrondo de trovões, ainda assim conseguiu percebê-la.
“O Soberano está decepcionado comigo ou... estou errada?”
Esse ser que salvou sua Seita era muito diferente de tudo o que leu ou ouviu de seu mestre a respeito das divindades que viviam no Reino Divino.
“Frios, distantes, indiferentes, sem reações emocionais semelhantes às dos mortais... Acho que essas descrições não correspondem a ele”, pensou ela, com um olhar curioso, querendo saber mais.
Mas logo a voz de Kael surgiu:
— Não se preocupe com essas coisas pequenas! Este Soberano tem um grande coração. Mas provavelmente danificarei um pouco seu salão interno.
Colocando as mãos em forma de concha, Xiu Ying se curvou.
— Toda a Seita pertence à sua excelência, para mantê-la ou... destruí-la conforme sua vontade.
Ela teve certa dificuldade em falar a última parte. Kael, por outro lado, balançou levemente a cabeça.
“Tanto a pequena Ying quanto a pequena Bai são bem extremas, hein... Isso não é necessariamente ruim, mas me faz sentir um pouco poderoso demais.”
— Bem, não pense muito sobre isso. O destino desta Seita é governar este mundo!
Os olhos da garota arregalaram-se ao escutar aquela afirmativa.
“Nossa Seita Dao Infinito vai governar tudo?”
Xiu Ying não conseguia esconder o brilho que tomou seus belos olhos violeta. Nem quando seu mestre, um Verdadeiro Imortal, ainda estava vivo, ela ousara ter tais pensamentos. Mas... quem era que estava afirmando aquilo para ela?
Mordeu levemente os lábios.
“Não é ele um ser que provavelmente possui grande status no Reino Divino ou talvez até seja o próprio governante de lá?”
Como ela poderia duvidar do que ouvira dele? E, por não duvidar, quase não conseguia controlar a alegria crescente em sua alma.
“Sim, eu, Xiu Ying, fiz a escolha certa ao acreditar em você. Logo, todos também entenderão de onde vem a minha confiança”, pensou ela, com um leve sorriso de convicção.
Sem nem saber o que se passava na cabeça dela e apenas achando fofa a expressão extasiada da garota, Kael continuou:
— Espere apenas um pouco, que vou buscar dois subordinados meus para você introduzir em cargos na Seita.
Cessou brevemente suas palavras, refletindo sobre quais seriam bons cargos, mas rapidamente continuou:
— Gostaria que um deles fosse um dos anciões e o outro, a besta protetora da Seita.
— Xiu Ying obedece às ordens do meu Senhor — respondeu ela, curvando-se com as mãos em forma de concha.
Kael a encarou brevemente. Quanto mais a olhava, mais sentia vontade de experimentar entrar naquele mundo e vê-la face a face. A maneira como ela o chamava de “meu Senhor” era algo que o sacudia levemente por dentro. Ele realmente gostava daquilo.
— Certo, minha querida. Então, aguarde-me um pouco.
Logo, o silêncio retornou ao lugar. Xiu Ying ainda olhava de forma solene para o céu, sentindo que, de alguma forma, era bem mais fácil conversar com ele do que com as pessoas à sua volta.
— Saia, Cang Lan! — Sem nem mesmo virar-se, sua voz surgiu cortante.
A primeira anciã e vice-mestra, Cang Lan, saiu de detrás de um pedregulho, coçando a cabeça com um olhar perdido.
— Minha amiga Ying, eu só estava de passagem, sabe? — disse ela, com uma risada forçada ao se aproximar.
Xiu Ying estreitou os olhos e bufou.
— Então, ultimamente, tem dado muitas voltas, principalmente quando estou conversando com Vossa Excelência...
Virando-se, ela encarou a vice-mestra da Seita, que agia como se não soubesse do que ela estava falando.
Suspirando, Xiu Ying continuou:
— Ele é muito bom para conosco, mas não teste a paciência dele. Se o Soberano decidir lidar com você, o que eu poderei fazer para impedi-lo?
Cang Lan aproximou-se lentamente e, esticando a mão, tocou levemente o rosto da amiga.
— Você não precisaria apenas pedir com seu jeitinho? Ele parece estimá-la muito. Ainda que eu não entenda o que ele diz, esse sorriso que você tenta esconder, essa expressão tão relaxada em seu rosto...
Cang Lan a encarou com um olhar sugestivo.
Xiu Ying tirou a mão dela de seu rosto e a encarou friamente. Mas essa sua vice-mestra não pareceu se importar e apenas continuou:
— Sabe, minha amiga — disse ela —, isso me faz até lembrar do tempo em que ainda éramos mortais comuns, no início do cultivo. Os sentimentos eram tão vívidos naquela época... Havia até um fogo tão intenso em certa idade.
Parou brevemente e pegou na mão de Xiu Ying, que não a rejeitou, apesar de incomodada.
— Será que, em apenas duas conversas, aquele ser que vive além dos céus amoleceu este seu coração, que se esfriou pelo cultivo e pelas adversidades constantes?
Xiu Ying não respondeu de imediato. Seu corpo se elevou, voando alguns centímetros antes de parar brevemente.
Ela ponderou um pouco, mas, após um breve suspiro, deixou suas palavras surgirem suavemente.
— Acho que está tudo bem, certo, Lan...? Que eu possa agir como uma menina mortal, agora que não preciso carregar todo esse peso?
O ar escapou novamente entre seus lábios enquanto olhava de relance para o céu azul.
— Afinal, ele já está no topo do cultivo... Se eu realmente tiver essa oportunidade de alcançar esse topo, mesmo que precise ser apenas uma garota, o que haveria de ruim nisso?
Cang Lan ficou bastante surpresa com o que ouviu. Aquilo era realmente estranho. Já fazia mais de quatrocentos anos que as duas eram próximas, mas sua amiga, mesmo desde os tempos em que era discípula, sempre agira como se nada além do cultivo tivesse importância.
Não era apenas com ela. Todos aqueles que se dedicavam à busca pela imortalidade eram assim: tornavam-se cada vez mais distantes, perseguindo o objetivo de, um dia, alcançar o Dao, transcender a divindade e viver por incontáveis eras.
“Talvez... eu devesse tentar ser menos dura comigo mesma e aproveitar agora que a Seita parece ter um futuro brilhante...”, refletiu Cang Lan. “Ainda assim, é melhor observar um pouco mais.”
Como já havia sido exposta, Cang Lan não voltou a se esconder, apenas aguardou no local junto de Xiu Ying.
Enquanto isso, Kael já estava conversando com Feng Li e Bai Suxian.
Ele disse que iria lidar com a situação dos pequenos discípulos naquele momento e aproveitaria para introduzi-los na Seita.
Diante disso, um brilho surgiu na face de Feng Li, que imediatamente se prostrou.
— Grande Soberano, eu lhe suplico! Deixe este humilde servo... mascote experimentar o divino medicamento Merthiolate Cicatricure, capaz de trazer os mortos de volta à vida e até de restaurar almas imortais.
Kael ficou meio sem palavras ao assistir a esse seu dragão. Se ele estivesse na forma humana agora, não seria para tanto, mas vê-lo naquela forma de um imponente dragão agindo assim fazia com que se sentisse envergonhado, até porque a Divina Imortal Bai observava a cena com curiosidade.
“Por que eu mimo esse projeto de dragão? Que vergonha!”
Kael deixou escapar um pesado suspiro.
— Para que você precisa disso, Feng Li? Você está perfeitamente bem.
Ele realmente não queria ter de assistir a seu mascote se debatendo como uma minhoca tonta em meio a gemidos suspeitos. Seria uma vergonha afirmar ser dono dele.
— Soberano, este humilde servo sente que pode compreender ainda mais o Dao da Regeneração, ficando assim muito mais fácil exceder o Reino Divino no futuro, e também...
De repente, a expressão de Feng Li tornou-se extremamente dolorosa e, entre tosses violentas, ela cuspiu alguns goles de sangue.
— Cof...! Como o mestre pode ver, este seu pobre mascote ainda não está totalmente restaurado do sofrimento causado pelo Verme Radiante.
Kael abriu a boca, mas não encontrou palavras diante do que acabara de presenciar.
“Que filho de uma serpente! Esse dragão safado está querendo encenar de doente para cima de mim? Quem lhe deu tanta coragem e ousadia...? Com certeza isso não tem nada a ver com o meu cuidado de dono atencioso.”
Ele encarou aquele dragão duvidoso agindo como um moribundo em estado terminal.
“Bem, sinceramente não me importo, mas não vai ser de graça... Merthiolate custa dinheiro.”
Lembrando-se das palavras do tal Reverendo Radiante, um sorriso surgiu nos lábios de Kael.
“Em todos os romances, sejam orientais ou ocidentais, tudo que pertence a dragões é um tesouro inestimável... Se vou começar a cultivar, está na hora de pegar um bom recurso.”
— Tudo bem, Feng Li. Como um dono de bom coração, farei esse favor para você, meu mascote. Fingirei que não sei o que se passa nessa sua cabeça e realizarei esse desejo.
Repentinamente, a expressão de extrema dor e agonia do dragão suavizou antes desaparecer por completo.
Kael piscou algumas vezes. Uma pitada de surpresa surgiu em seus olhos diante do talento de Feng Li, mas ele logo deixou aquilo de lado e continuou:
— Vou querer alguns litros do seu sangue para saciar minha sede... Sangue de dragão é um vinho muito apreciado entre os deuses.
A Besta Imortal pareceu ter visto um fantasma. Seu corpo ficou rígido. Aquelas palavras fizeram sua imaginação de dragão correr solta.
“Será que meu mestre me escolheu com a intenção de beber meu sangue? Mas, se essa é a realidade, ainda existem dragões ancestrais no Reino Divino?”
Enquanto refletia, um pensamento assustador lhe veio à mente.
“Não é possível que o destino dos dragões tenha sido o de serem uma boa bebida para os deuses, certo?”
Um frio percorreu sua espinha enquanto sua mente corria solta.
Kael bufou levemente.
— Deixe de pensar em coisas que você não entende, Feng Li. Trate o meu pedido como uma punição por sua ganância!
Os olhos de Feng Li brilharam em compreensão.
“Sim... Deve ser isso mesmo: uma punição. Afinal, minha linhagem dracônica é quase inexistente. Ainda assim...”
Diante da conversa dos dois, Bai Suxian assistia com um olhar desconfiado.
“Desde quando o sangue da divina raça draconiana se tornou uma bebida? Será que alguém dos Nove Mundos Divinos teria coragem de mexer com essa raça orgulhosa?”
Seu cenho se estreitou.
“Na verdade, acho que nem mesmo entre os Seis Mundos do Reino Divino Demoníaco alguém teria essa coragem...”
Levantando a mão direita, tocou levemente o queixo.
“Será que realmente tanta coisa mudou em apenas dez mil anos ou há algo de errado? Este Dao da Regeneração... seria uma extensão do Dao da Vida?”
O olhar de Bai Suxian fitou o céu acima.
— Sobre a nossa conversa, Kamiel... quando poderemos?
Ao ouvir aquela voz suave, porém carregada de uma sutil frieza, Kael percebeu que devia ter dito algo errado há pouco. Ainda assim, só pôde balançar a cabeça diante da situação.
“É normal que eu tropece ao interpretar esse personagem diante dessa Divina Imortal... A lacuna de informações entre nós dois é uma grande barreira. Eu devo criar uma história que ela possa aceitar, ainda que existam furos... Estarei pensando nisso depois.”
— Minha pequena Bai, não tenha pressa. Deixe-me lidar com essas situações e depois terei um tempinho só para você — respondeu ele, sem se importar muito com a desconfiança dela.
“Ainda que esteja com um pé atrás, você já jurou pelo Grande Dao ser leal a mim. Agora é tarde para se arrepender. Hehe...”
Ao se lembrar disso, sentiu-se mais relaxado.
“Não sei muito sobre a importância desse juramento, mas, se é algo que todos fazem para garantir segurança e até você o utilizou para cortar relações com seu discípulo, o suposto protagonista, então deve ser algo extremamente confiável...”
Kael coçou a cabeça, sentindo que o charme dessa Divina Imortal era realmente perigoso demais para ela andar à solta sozinha por aí.
“Ainda bem que já capturei esta Pokémon lendária. Agora, seu destino é ser leal à minha pessoa.”
Depois de informar aos dois que deveriam ir até o pico da montanha, no centro da Seita, para serem devidamente apresentados, o silêncio retornou ao local.
A Divina Imortal Bai ainda mantinha um olhar desconfiado e pensativo. Em contrapartida, Feng Li convocou, de sua pequena dimensão de bolso, um certo pergaminho e, ainda em sua forma de dragão, controlou uma pena com a mente para escrever. Após gastar alguns segundos preenchendo inúmeras linhas em uma velocidade difícil de acompanhar com os olhos, decidiu registrar suas notas.
《Crônicas do Supremo Deus dos Nove Céus》
Notas de Reflexão: Sinto que eu, Feng Li, descobri um terrível segredo, o destino do antes prestigiado Clã Draconiano — de acordo com algumas poucas palavras de meu Soberano, o sangue de dragão é um “ótimo vinho no Reino Divino”. Será que eu devo me preocupar com o meu futuro? Ainda assim, decido confiar no coração solene de meu Mestre. Afinal, alguns litros de sangue realmente não vão me fazer falta se puder trocá-los por oportunidades como a de experimentar o Divino Medicamento Merthiolate... se eu compreender bem o Dao da Regeneração, pavimentarei meu caminho para me reerguer. Ainda assim, tenho minhas dúvidas se devo continuar ou simplesmente abrir mão do caminho dos dragões.
Notas de Observação: Talvez eu esteja errado, mas a Divina Imortal parecia incomodada ao assistir àquela humana de cabelos brancos rindo na palma da mão de meu inestimável Mestre. Bem, faz sentido. Se eu fosse um dragão fêmea, também teria caído em seu charme irresistível! É uma pena. Provavelmente, eu seria bonita na forma humanoide e poderia receber um tratamento mais privilegiado do meu Soberano. Todavia, ainda há muito a se viver. Futuramente, vou procurar algumas beldades para trocar ou, melhor, presentear meu Mestre, na esperança de receber mais algum elixir ou petiscos como aquela besta imortal em forma de peixe.
Notas para manter a atenção: Acredito que o Verme Radiante deve estar vivo, já que meu Mestre o poupou em consideração à sua antiga conhecida. Ele deve estar fraco, mas a influência daquele inseto não deve ser subestimada. É bem capaz de logo um exército de bilhões de cultivadores vir até estas fronteiras para travar uma grande guerra conosco. Sinceramente, seja o que for que ele arme, o resultado final não vai mudar. Mas eu, Feng Li, estou ansioso para despedaçar alguns desses hipócritas do caminho ortodoxo. Hehe. Ouvi dizer que existem certas beldades talentosas nas grandes seitas e nos quatro impérios que são chamadas de Sete Fênix Divinas. Pergunto-me se meu Mestre estaria interessado nelas para passar o tédio…