Enquanto Kael estava ocupado organizando seu empreendimento e se preparando para curar seus subordinados, a pouco mais de dois milhões de quilômetros dali, Yechen acabava de sair da Floresta das Almas, no Grande Império Alvorada, situado ao norte do Continente Imortal.
Seu objetivo era se reunir com Nie Long para começar a incitar as principais forças do continente a seu favor.
De repente, uma risada alta e seca ecoou, fazendo-o franzir a testa. Um homem surgiu, vestindo uma roupa feita de couro de Dragão Gélido do Norte. Era alto, com cerca de dois metros de altura, e sua forte musculatura era perceptível sob a vestimenta.
Este era Nie Long, o antigo Imperador do Norte, também conhecido como o Matador de Dragões.
— O que temos aqui, hein? — Uma mão forte repousou sobre o ombro de Yechen. — Por que o grande gênio Radiante está tão moribundo e fraco?
Yechen retirou a mão que pressionava seu ombro e bufou.
— Por que você acha? — disse ele, furioso. — Ouvi sobre aquela serpente do Mar da Perdição que estava se tornando um Dragão Imortal e fui lá colher os frutos, mas...
— Gahaha!
Nie Long gargalhou ainda mais alto. Sentia-se satisfeito ao ver aquele jovem presunçoso, que parecia ter nascido com o cu virado para a Lua, finalmente enfrentar alguma dificuldade depois de mais de um milênio.
— Seu pirralho, Yechen! Eu falei para você que um dia sua arrogância seria sua ruína, mas você não me ouviu... Veja, tsc! Perdeu dois grandes reinos de cultivo. Que azar!
O Reverendo não parecia muito animado para ficar de papo, então foi logo ao assunto principal.
— Nós temos que eliminar os elos de ligação daquela divindade do Mundo Superior — disse ele com firmeza. — Ele é poderoso demais para enfrentarmos de frente e também...
Por um breve momento, parou e refletiu se valia a pena contar aquilo para esse cara chato. Porém, percebendo que aquela informação poderia representar uma eventual fraqueza para eles, decidiu compartilhá-la.
— Aquele tal Soberano dos Nove Céus parece ter uma capacidade semelhante à dos Altos-Elfos de ler a mente de quem quiser, tornando difícil elaborar planos sem o risco de serem vazados.
Ao ouvir isso, Nie Long passou lentamente a mão direita, alisando sua longa barba negra.
— Bem... isso é complicado. Mas, se lidarmos com os apóstolos dele, o Grande Dao o restringirá pelos próximos dez mil anos, impedindo-o de influenciar novamente nosso Mundo Imortal.
Seus olhos se estreitaram.
— Aquele rugido colossal que percorreu praticamente todo o Continente Imortal... tem a ver com esse ser do Reino Divino?
Yechen cerrou os punhos ao ouvir a pergunta. Logo, relembrou aquela cena humilhante.
— Sim...!
Sua voz saiu carregada de uma sutil intenção assassina, fazendo Nie Long sorrir presunçosamente por um breve momento antes de voltar à sua expressão séria. Ele, porém, percebeu.
“Que merda... Tudo culpa daquele desgraçado que está pagando uma de Soberano... Eu, Yechen, sou alguém que paga cem vezes mais por qualquer humilhação.”
Deixando escapar um pesado suspiro, ele não apenas confirmou as dúvidas de Nie Long, como também revelou que, segundo aquele Ser, aquilo não passara de um mero rugido de um de seus bichinhos.
O ar pareceu ficar pesado entre eles após essa última parte.
— Ming Chu tinha razão... Realmente precisamos nos preparar o mais rápido possível. Parece que a repetição da guerra entre imortais e deuses de dez mil anos atrás é inevitável — comentou, soltando um silencioso suspiro.
Em seguida, deu um leve tapinha no ombro do jovem à sua frente.
— Você fez um ótimo trabalho sobrevivendo até aqui! Um talento como você é indispensável em tempos como estes.
Yechen sorriu, fingindo modéstia diante do elogio. Sem perceber sua falsidade, o Antigo Imperador continuou:
— Na verdade, uma grande reunião já foi agendada com todas as grandes figuras do Continente Imortal.
Fitando o antes majestoso Reverendo Radiante, que agora se encontrava em um estado miserável, Nie Long resistiu à vontade de zombar dele.
— Dentro de uma semana, decidiremos o que devemos fazer. Enquanto isso, entre no meu Império Alvorada. Meu filho, o atual Imperador, providenciará os melhores elixires para que você consiga, pelo menos, manter o cultivo de um Imortal de Prata por algum tempo.
Assim que terminou de falar, seu corpo desapareceu como uma brisa passageira. No entanto, sua voz ainda ecoou nos ouvidos de Yechen, fazendo-o tremer de raiva.
— Claramente, isso não será de graça, pequeno Yechen... Se estiver pobre no momento, tenho muitas netas, bisnetas e tataranetas solteiras. Também tenho algumas belas filhas, caso prefira as mais velhas...
— Hehe. Seria uma grande honra tê-lo como meu genro e, quem sabe, como o futuro Imperador do Norte, depois que meu filho abdicar... Afinal, meus netos não são nada comparados a você!
O silêncio voltou a reinar.
Então, um estrondo ecoou.
Uma enorme cratera surgiu sob os pés de Yechen, enquanto uma vala escura se estendia por mais de trinta quilômetros à sua frente. Ele havia pisado com força no chão, tentando conter a própria fúria.
“Porra...! Foda-se você e seu Império! Por que eu, o grande Yechen, destinado a governar os Nove Mundos Divinos e os seis Mundos Divinos Demoníacos, perderia meu tempo com esse lixo?”
Ele respirou fundo.
“Essas mulheres inúteis que você quer me oferecer não chegam nem à ponta da unha do meu mindinho perto de Bai Suxian. Além dela, quantas beldades de temperamento e beleza incomparáveis existem no Reino Divino ou no Reino Divino Demoníaco...?”
Deixou o ar escapar lentamente, retomando seu temperamento calmo.
“Até mesmo a esposa do antigo protagonista, que pretendo tomar para mim, é infinitamente superior a todo esse lixo. Claramente, não desperdiçarei meu tempo com essas barangas inúteis!”
Sem sequer perceber a reviravolta que havia causado naquele mundo de cultivo, Kael já estava apresentando Feng Li e Bai Suxian.
A primeira a aparecer foi a Divina Imortal Bai, deixando tanto Xiu Ying quanto Cang Lan levemente tensas.
— Ei, Ying... essa é uma alma divina, certo? Uma deusa caída? — questionou Cang Lan por transmissão mental à amiga, um pouco surpresa.
A Mestra da Seita encarou a recém-chegada Bai Suxian com um olhar diferente daquele de sua amiga Lan, que demonstrava apenas curiosidade.
“Ela é bem bonita... Nunca me senti inferior a nenhuma mulher nesse quesito, mas tenho que admitir... Além disso, se é uma alma divina, seu nível de cultivo deve estar no limite deste Mundo Imortal.”
Sem perceber, Xiu Ying deixou escapar um suspiro antes de confirmar à sua vice-mestra, Lan, que sua suspeita sobre aquela mulher estava correta.
Bai Suxian bufou ao ouvir a conversa das duas.
— Para alguém da minha estatura, é fácil interceptar suas conversas por transmissão mental. Então, deixem isso de lado. É vergonhoso! — disse ela, com desdém, antes de se apresentar. — Meu nome é Bai Suxian, Divina Imortal da Pureza Radiante. Atualmente, estou aos cuidados do meu velho amigo Kamiel.
Uma carranca surgiu no rosto de Xiu Ying.
“Kamiel... esse é o nome de Vossa Excelência... Não é um nome que alguém como eu, que jamais transcendeu a divindade, possa mencionar levianamente.”
Apesar de compreender isso, era difícil para ela não se sentir frustrada com aquela realidade, ainda mais depois de perceber a sutil provocação nas palavras daquela mulher.
— Certo — respondeu em seguida. — Seguindo as ordens do meu Senhor, a receberei como uma das principais anciãs da Seita...
Ela fez uma breve pausa, sorrindo sutilmente.
— Como você é uma alma sem corpo... acredito que não tenho muito com o que me preocupar!
O olhar de Bai Suxian tornou-se frio. Se não fosse por Kamiel, ela já teria apagado aquele sorriso do rosto da garota.
— Você parece uma pequena pirralha tentando comer algo que está além da sua compreensão... Apenas desista e viva sua humilde vida.
As duas se encararam por alguns instantes antes de bufarem simultaneamente e permanecerem em silêncio. Cang Lan olhava, admirada, primeiro para sua amiga e depois para a Divina Imortal.
“O que temos aqui? Por que esse romance está tão acelerado a ponto de já surgir uma potencial rival para minha querida amiga? Mas, de certa forma, é divertido assistir.”
Kael acompanhava a cena do lado de fora da caixa, com uma expressão meio perdida diante do que estava acontecendo.
“É a primeira vez que elas se encontram... Por que parecem duas gatas de rua brigando por um macho?”
— Ah...
Coçando levemente a cabeça, ele se perguntava se aquilo tinha alguma coisa a ver com ele.
“Esse meu charme com as cultivadoras não deve ser tão letal assim, certo? Bem, deixando isso de lado... onde está o traste do Feng Li?”
De repente, ouviu gritos vindos de inúmeras vozes. Foi então que percebeu um dragão negro voando e se exibindo para os inocentes discípulos da Seita, que o observavam com admiração.
“Esse... projeto de dragão realmente ousa roubar meu grande momento? Não, isso não vai ficar assim. Vou discipliná-lo como um verdadeiro dono deve fazer.”
Com esse pensamento, fez sua voz ser ouvida por todos na Seita do Dao Infinito.
— Onde está meu pequeno e fofo dragão negro? Por que está vagando por aí, Feng Li? Venha e se apresente devidamente à minha pequena Xiu Ying!
Por um momento, houve silêncio. Porém, diferente do que Kael esperava, seu mascote não ficou envergonhado.
— Kahahah! Escutaram bem, pequenos servos do meu grande mestre? Este dragão agora fará parte deste tabuleiro para uma futura grande jogada!
Ele riu alto mais uma vez, fazendo manobras enquanto voava sobre a Seita. Então, liberou uma labareda de chamas negras com tonalidades roxas e atravessou as próprias chamas.
— Não pensem demais. Apenas alguém como meu Mestre, que governa o Reino Divino e os inúmeros mundos mortais, pode me tratar dessa forma...
Sua voz tornou-se fria e áspera.
— Acredito que vocês não queiram tentar a sorte, certo?
Uma veia quase saltou da testa de Kael.
“Esse dragão desgraçado... Ele é tão bom no improviso que chega a ser irritante. Mas, hehe... não deixa de ser um fofo amostrado. Parece que devo diminuir um pouco desse ego draconiano.”
Sem dizer uma única palavra, Kael estendeu a mão, cobrindo todo o céu acima da Seita. Sem dar tempo para Feng Li reagir, fechou o punho rapidamente, mas com cuidado suficiente para não matá-lo.
Então, puxou o braço e lançou o dragão sobre a Montanha da Iluminação.
Bai Suxian, Xiu Ying e Cang Lan rapidamente voaram vários metros acima da montanha. Logo, um grande estrondo ecoou, abalando parcialmente toda a região, seguido por um estranho silêncio.
— Cof! Cof!
Um belo jovem com dois longos chifres e uma cauda, vestido com uma longa túnica preta, surgiu voando do fundo de uma cratera de cinquenta metros de profundidade e quinhentos metros de extensão.
O restante de seu corpo havia atingido a parte íngreme da montanha, deixando uma profunda marca naquela antiga e reverenciada formação.
Um pesado suspiro ecoou como um trovão sobre toda a Seita.
— Veja, Feng Li... que estrago você fez. É bom pensar logo em uma maneira de reembolsar minha subordinada, Xiu Ying!
O dragão, que acabara de assumir sua forma humanoide, abriu a boca para refutar seu Soberano, mas logo abaixou o rosto, sentindo-se injustiçado.
“De fato...” pensou ele. “Existem dias de luta e dias de glória, mas há uma terceira verdade... Tem dias em que só me resta ser um servo fiel, independentemente das circunstâncias.”
Com isso, rapidamente retomou sua postura humilde e se curvou.
— Este servo só existe para obedecer ao meu grande e inigualável Mestre!
Sua cauda balançou animadamente, como se não se importasse em restituir a Seita por aquele pequeno contratempo. Afinal, manter-se no lado bom de seu Soberano lhe renderia muito mais oportunidades.
As três mulheres que assistiam a tudo simplesmente ficaram sem saber o que dizer. Elas tinham visto perfeitamente o que havia acontecido e quem era o culpado pela destruição, mas, se aquele Ser sobre o céu dizia que a culpa era do dragão, mesmo que quisessem corrigi-lo, sentiam que era melhor deixar como estava.
Sem perder mais tempo, Kael recolheu a mão do mundo em miniatura e pegou seu Merthiolate, do qual restava apenas o suficiente para duas borrifadas.
“Vou ficar em falta se sofrer algum corte ou me machucar”, refletiu ele. “Mas é um bom investimento. Logo colherei os frutos, principalmente do sangue de Feng Li... Realmente me pergunto o quão mágico é o sangue de um dragão.”
Kael estava um pouco animado para descobrir se seria como nas novels, quando os protagonistas adquiriam sangue de dragão e ficavam todos fodões. Alguns até ganhavam características desses lendários répteis. Todavia, ele tinha suas dúvidas sobre se seria o mesmo caso com o sangue de seu pet, pois ele era um dragão falsificado.
“Bem, vamos deixar isso de lado por enquanto.”
Com um leve suspiro, esticou sua mão mais uma vez para dentro daquele mundo. A caixa em si era bem prática.
Depois de pressioná-la por um tempo — ou melhor, depois de implorar à honrável caixa-artefato —, ela revelou uma nova função, da qual Kael já desconfiava que existisse. Assim como Tony Stark, de Homem de Ferro, movia os hologramas, ele poderia espalhar pelo seu quarto várias janelas mostrando imagens do mundo no interior da caixa, sem necessariamente precisar colocar a mão diretamente dentro dela o tempo todo.
Era como algum tipo de múltiplas telas interligadas àquele pequeno mundo. Mas Kael havia descoberto isso apenas alguns minutos antes, pois a caixa-artefato era muito mesquinha em compartilhar informações.
Na frente dele, três imagens surgiram, nas quais ele ampliava ao máximo com seus pensamentos para enxergar tudo com clareza. Em uma das imagens estavam Feng Li, Bai Suxian, Xiu Ying e uma bela coroa enxuta, cuja origem ele não sabia ao certo.
Em outra, ele via os inúmeros olhares voltados para a descida de sua mão sobre a montanha. Já na terceira, Kael estava apenas curioso sobre aquele tal Reverendo e resolveu dar uma olhadinha.
Pelo que viu, o cara estava vivo e completamente curado de todos os ferimentos, além de ter se encontrado com um possível figurão marombeiro, com uma longa barba negra no rosto.
Diante disso, sua certeza sobre a identidade de Yechen só aumentava. Esse cara, inquestionavelmente, era o protagonista daquele mundo. Estava até tendo uns chiliques nervosos e destruindo o chão de pura raiva com seus pisões.
“Hum... ele deve estar com estresse pós-traumático. Mas eu estava certo em seguir meus instintos de leitor de romances e não matar esse cara... Provavelmente, ele iria voltar dos mortos ainda mais forte.”
Kael observou atentamente a carranca e o semblante distorcido da outra parte.
“Hehe, sua expressão me diz que está planejando sua grande vingança contra um ser tão humilde e inocente quanto eu. Que maldade típica de protagonista clichê.”
Um sorriso brincalhão se arqueou em seus lábios.
“Vamos lá, meu cordeirinho da sorte. Vá dar uma volta e tropece em tesouros para seu pai Kael aqui ter uma vida fácil... Vou deixar você ter uma longa vida de CLT não remunerado, já que ousou ferir meu pobre Feng Li e enganar minha linda Divina Imortal Bai.”