Os olhos da Imperatriz Wumi quase saltaram das órbitas ao ouvir aquela exigência. Seu Império existia havia oito mil anos. Trinta por cento de toda a sua riqueza era simplesmente demais.
Ela, que antes flutuava, tentando manter sua presença diante de seu povo enquanto arruinava a reputação de seu inútil marido, o Imperador Ming Liu, desmaiou e caiu em queda livre.
Nesse momento, o capitão da guarda imperial, Lin Feng, subiu aos céus e a resgatou a tempo. Muitos entre o povo que assistia a tudo não conseguiram conter as lágrimas diante da situação de sua Imperatriz e do enorme peso que recaíra sobre o Império.
Sem que percebessem, uma fúria há muito escondida contra o Imperador e o príncipe herdeiro começou a ferver.
Então, um cântico, cuja origem ninguém soube identificar, ecoou por todas as ruas da Capital Imperial.
~Justiça! Justiça! Entreguem o maldito príncipe herdeiro!~
~Justiça! Justiça! Derrubem o Imperador Ming Liu!~
~Justiça! Justiça! Queremos a Imperatriz Wumi!~
Kael estava perplexo. Nunca imaginou que encontraria, naquele pequeno mundo, uma mulher quase tão talentosa quanto ele na arte da atuação. Por um instante, até sentiu vontade de se levantar e aplaudir aquela performance.
“Não. Devo me controlar, ou essa raposa astuta vai roubar meu prestígio.”
A Imperatriz Wumi pareceu despertar de seu desmaio, deixando os fortes braços do capitão da guarda imperial.
Ela se ajoelhou sobre alguns escombros, enquanto lágrimas escorriam por seu rosto. Parecia estar em profundo sofrimento.
— Meu querido povo... nós falhamos com vocês, o Imperador e até aquele...
Sua voz estava carregada de angústia. Então, tossiu, fazendo alguns goles de sangue caírem à sua frente e mancharem suas mãos, que tocavam os escombros em um gesto de lamento.
— Aquele... que cuidei como meu próprio filho... que desgraça para nosso Império Violet!
Por um momento, todos se esqueceram da gigantesca mão dourada suspensa nos céus, solitária e imóvel.
Suas vozes tornavam-se cada vez mais altas e imponentes em seu cântico de justiça. Até o Ki Verdadeiro do ambiente parecia ressoar com suas vozes.
Wumi sorriu no canto dos lábios enquanto escondia o rosto entre as mãos manchadas de sangue.
— Grande divindade... tenha clemência. Nossa riqueza é inútil para você... leve... o príncipe e... o Imperador, mas poupe a pouca riqueza que pertence ao povo!
Kael assistiu com interesse à performance da mulher. Naquele momento, apreciava aquele sorriso vitorioso que ela tentava esconder.
“Hehe, minha querida novata no melodrama, sou um homem de cultura. Já assisti a muitos dramas de época desse tipo. Esse joguinho está longe de funcionar comigo.”
Seu olhar se estreitou.
Ele desligou o áudio da caixa e deixou apenas Wumi escutá-lo.
— Com um sorriso no canto dos lábios e um coração ganancioso. Poder, glória e honra movem sua alma. Seus olhos, como os de uma águia, percebem o momento de abater a presa!
— Hoje se inicia a história da Imperatriz Wumi... sua fama tomará o Império e será lembrada por gerações — disse ele, fazendo a expressão da mulher escurecer. — Este Soberano admira sua tenacidade!
Ela refletiu sobre como deveria responder àquelas palavras, que haviam sido tão altas que todos no Império deveriam tê-las ouvido.
A Imperatriz logo escutou uma risada.
— Não se preocupe, pequena mortal. Ninguém ouviu o comentário deste Inestimável. Falei diretamente ao seu coração.
Wumi suspirou aliviada ao perceber que, de fato, era verdade. Todos ainda continuavam entoando o cântico.
“O que esse ser divino pretende...? Ele me enxergou tão facilmente assim...”
Sem querer perder mais tempo, Kael decidiu agir.
“Caixa-artefato, deixe minha voz mais alta e estrondosa, a ponto de fazer os mais fracos desmaiarem. Você pode fazer isso?”
Questionou em pensamento. Ele sorriu logo em seguida e, ao receber a resposta, respirou fundo antes de falar:
— Este Incomensurável por acaso tá fazendo caridade? Por que eu deveria ouvir os gemidos de meras formigas?
Era como um terremoto causado por uma imponente onda sonora. Muitas construções foram ao chão, e aqueles com cultivo mais fraco desmaiaram, com sangue escorrendo dos ouvidos.
Se não fosse pela matriz de proteção, o estrago teria sido assustador.
Observando a calma retornar ao lugar após um minuto de silêncio, Kael se sentiu mais relaxado. Então, pediu à caixa que restaurasse as configurações de áudio originais.
— Entreguem-me o príncipe e a compensação. Esta é a última vez que gasto minha voz com vocês!
Não houve resposta. Apenas silêncio.
Um brilho semelhante a um relâmpago surgiu. Era o segundo príncipe, Ming Chu, que carregava um corpo moribundo e ensanguentado.
— Divindade... este é o primeiro príncipe, que vossa excelência capturou anteriormente — disse Ming Chu. — Eu selei o cultivo dele e destruí seus caminhos de Ki.
Ao lado dele, de repente, outra figura surgiu. Era o ancestral fundador, Ming Qin, que havia tomado algumas pílulas para se recuperar um pouco. Porém, sua aparência pálida, as roupas rasgadas e as feridas expostas, das quais escorria sangue vermelho com um leve brilho dourado, deixavam claro que sua situação não era boa.
Ele se curvou em reverência, com as mãos em forma de concha.
— Este júnior, Ming Qin, agradece a grande oportunidade que vossa excelência me concedeu!
Dito isso, fez um pequeno anel de armazenamento, junto ao corpo inconsciente do primeiro príncipe, Ming Lu, flutuarem até perto da mão dourada.
— Neste anel de armazenamento, há três anéis com dez mil metros cúbicos cada, e cada um possui dez por cento da riqueza acumulada por nosso Império Violet... — disse Ming Qin, com leve pesar. — Acredito que vossa excelência possa cessar sua pesada mão contra nosso Império agora...
Kael não sabia dizer se havia ou não alguma coisa dentro daquele minúsculo anel de armazenamento, mas acreditava que, depois de todo esse desenrolar, aquele velho não seria safado ao ponto de tentar enganá-lo.
Sua mão se moveu e rapidamente fechou o punho sobre o corpo desmaiado do príncipe e o anel. Então, desapareceu dos olhos de todos, mas sua voz ainda trovejou uma última vez.
— Este Soberano admira a coragem deste pequeno mortal, Ming Qin. Deixarei que tudo se encerre por aqui por esse motivo!
Um pesado silêncio tomou o lugar. Todos apenas encaravam o céu vazio acima, sem saber como reagir.
Aquela foi a primeira vez, em oito mil anos, que o Império Violet passou por uma situação que poderia levar à sua ruína, mas que milagrosamente conseguiu sobreviver sem grandes perdas.
Enquanto um novo capítulo era escrito na longa história do Império, a mão de Kael havia surgido na colina onde Sui Lian o esperava.
A garota estava sentada sobre uma rocha, em meio à grama da colina, e parecia cantarolar alegremente.
Por um momento, Kael mordeu os lábios enquanto observava a garota. Foi naquele lugar que, por um mísero pedaço de carne e por ter se encantado com a formosura desatenta dela, quase teve a mão decepada.
Ele estava até com medo de puxar a mão de dentro daquele mundo e ver sua situação miserável. Sentia até uma dormência, além da ardência anterior. Perguntava-se se não desmaiaria após vê-la.
Sui Lian saltou radiante ao notar aquela mão surgir do nada, cobrindo o céu.
“Meu Senhor voltou para mim, hehe!”
Kael levou sua mão até uma parte mais plana, coberta por barro sólido, e a virou, deixando cair um corpo que parecia morto, acompanhado pelo som metálico de um anel.
— Sui Lian... esse é o cara?
A garota, que acabara de chegar correndo, fazendo seus dois grandes e carnudos seios saltitarem a cada movimento, parou prontamente a poucos metros do corpo no chão.
“Porra... ela só pode ter feito isso intencionalmente para acalmar minha fúria.”
Seu olhar os encarou saltarem uma última vez.
“Aqueles malditos peitos... também têm essas malditas curvas. Esta é a verdadeira ruína de todos os homens gentis como eu.”
Sui Lian nem imaginava o que passava pela cabeça de seu Soberano. Apenas caminhou em volta daquela pessoa no chão, chutou-o algumas vezes e, com a ponta do pé, levantou levemente o rosto dele.
Seus olhos brilharam e, em seguida, uma lágrima cristalina escorreu pelo canto de seu rosto.
— Sim... foi ele que roubou minha inocência... Está mais feio e gordo, mas, sem dúvidas... é ele!
Sua voz falhou entre o choro e os soluços. Ela se esforçava para se acalmar.
— Meu... Senhor realmente fez justiça por mim? Eu só tinha um pedaço de carne... — seus lábios balbuciaram. Era difícil de acreditar.
Kael quase xingou ao ouvir essa última parte. Logo a respondeu:
— Sim, pequena Lian, você tem um grande pedaço de carne... uma grande dívida comigo. No futuro, não se esqueça a quem você pertence!
A garota limpou as lágrimas dos olhos uma última vez e esboçou um sincero sorriso. Depois de tanta solidão e de ser desprezada, alguém a escolheu e até vingou-se por ela. Ela não conseguia explicar os sentimentos confusos que sentia, mas entendia bem as entrelinhas das palavras que ouvira.
— Esta Sui Lian entende, meu Senhor. — Seu rosto corou levemente. — Eu... minha vida é sua! Sui Lian quer ir com você!
— Certo, então — disse Kael, sem jeito por não conseguir ficar com raiva daquela garota. — Este Soberano vai dar um fim nesse traste. Pegue esse pequeno anel que está no chão e guarde-o para mim por enquanto.
A garota pegou o anel prateado com curiosidade e o segurou com firmeza, com medo de perdê-lo.
Vendo-a tão séria, Kael balançou a cabeça em desamparo. Pediu para ela se afastar e, em seguida, unindo o dedo indicador ao polegar, pegou o corpo do príncipe herdeiro junto a um grande pedaço de terra, deixando uma enorme cratera no local.
Feito isso, pediu que ela esperasse alguns poucos minutos enquanto resolvia aquele contratempo.
Mais uma vez, sua mão desapareceu diante dela. Mas agora Sui Lian não duvidava mais de seu retorno.
Kael perguntou à caixa-artefato sobre um bom lugar para jogar aquele príncipe, já que ainda sentia um gosto amargo em tirar a vida de um humano, ainda que tão minúsculo e merecedor da morte.
Mesmo sabendo que provavelmente muitos haviam morrido naquele Império, em parte por sua própria culpa, ainda era difícil para ele processar tudo aquilo.
A caixa-artefato apresentou um lugar no Continente Demoníaco chamado, por algum motivo:
Floresta da Lamentação Masculina.
Segundo a caixa, vivia uma espécie de demônios primitivos que amava orifícios masculinos.
Até ele mesmo sentiu um frio na espinha ao saber dessa raça diabólica, provavelmente vinda diretamente do inferno. Mas, sem se importar muito, jogou o príncipe inconsciente ali.
“Caixa-artefato... Você é um pouco... como posso dizer? Maliciosa demais para um artefato. Mais uma vez, tenho certeza de que você é, de fato, uma fêmea”, disse em pensamento.
Como resposta, recebeu apenas um bufado, seguido de silêncio.
“Você continua mesquinha.”
Kael era curioso por natureza e esperou um pouco, já que aquele tal príncipe Lu estava acordando.
Então, seus olhos se estreitaram. Sombras de seres verdes humanoides surgiram. Eles tinham cerca de metade da altura de um humano e começaram a babar ao avistar a parte traseira do príncipe em uma posição tão vulnerável, enquanto ele arqueava o corpo para se levantar do chão.
— Onde... é isso?
O príncipe Lu estava prestes a se levantar, mas foi impedido por mãos pequenas e firmes.
Kael assistiu assustado e engoliu em seco, como se visse um fantasma, pois mais e mais daqueles demônios verdes cercavam o príncipe. Sem lhe dar tempo para reagir, rasgaram suas roupas chiques de seda, deixando sua bunda branca exposta.
Os olhos do príncipe se arregalaram quando algo, sem aviso, o penetrou por trás. Um grito escapou de sua boca, que logo foi preenchida por um membro endurecido e esverdeado.
Kael não aguentou mais e fechou aquela imagem macabra e perturbadora, voltando para Sui Lian. Ainda tentava recuperar a compostura.
Nesse momento, a caixa-artefato disse algo que o deixou sem palavras. Disse para não se importar com aquilo, pois, mesmo com o cultivo do príncipe selado, seu corpo era forte o suficiente para sobreviver alguns milhares de anos ali, mesmo que os demônios o usassem todos os dias.
“Porra... isso é ainda pior... milhares de anos tendo o seu brioco...”
Kael balançou a cabeça, tentando não pensar mais nisso, pois aquilo o assustava.
— Príncipe safado... não me culpe — murmurou baixinho. — Culpe sua própria maldade por ter tocado na minha Sui Lian! Culpe a caixa-artefato, foi ideia dela...