De volta para Sui Lian, Kael não falou muito. Muita coisa havia acontecido em tão pouco tempo, e ele ainda tentava processar tudo.
Por conta de um pedaço de carne, o futuro de um Império mudou, uma garota foi vingada e agora era sua mais nova subordinada.
Um príncipe estuprador foi sentenciado a um destino em que teria seu brioco usado por milhares de anos, uma Seita foi salva da destruição por demônios, e o protagonista Yechen perdeu sua mestra e toda a sua riqueza para ele.
O mais assustador era que tudo aquilo havia acontecido em poucas horas. Agora já eram três da tarde. Todavia, havia uma culpa no olhar de Kael que era difícil esconder.
Ele se lembrou daquelas crianças chorando e dos corpos sem vida em meio à destruição na capital do Império.
Era meio hipócrita de sua parte tentar justificar aquelas mortes. Ele também estava lutando para sobreviver, mas suas ações já haviam causado a morte de pessoas daquele pequeno mundo.
Sui Lian estava sobre a mão ferida de Kael. Diferente de antes, o cenário não mudou diante dela, mesmo após alguns minutos. Sem entender muito bem o que estava acontecendo, decidiu não ser inconveniente, já que seu Senhor permanecia em silêncio, e apenas se deitou naquela palma, quente e aconchegante.
Era imensa aos seus olhos; até mesmo os dedos pareciam imponentes montanhas.
“Eu me sinto a mulher mais bem-aventurada do mundo...”
Pensou ela, com um leve sorriso, enquanto suas pálpebras pesavam.
“Não fiz nada para merecer ser escolhida por um deus tão bondoso... É engraçado. Meus iguais e até meus parentes me viraram as costas, mesmo quando estive à beira da morte ao ser abusada...”
Seus olhos se fecharam, e sua mente tornava-se cada vez mais turva.
“Esta Sui Lian... é menor que uma formiguinha aos seus olhos, meu Senhor. Tão pequena, tão frágil... ainda assim, você me escolheu, me tornou sua. Sou grata...”
A garota adormeceu sem que Kael sequer percebesse. Ele estava perdido em seus pensamentos, enquanto a culpa o dominava pouco a pouco. O tempo passou e, de repente, balançou a cabeça, desnorteado. A caixa-artefato o despertou daquele transe.
Pela primeira vez, sentiu que realmente ouvia uma voz, diferente de antes, quando aquilo se manifestava apenas como um pensamento ou uma sensação lhe transmitindo algo.
Dessa vez, era uma voz. Parecia distante e até mesmo fria e áspera, semelhante à de uma máquina, embora não totalmente; havia nela uma sutil semelhança com uma voz feminina.
A caixa-artefato disse a ele, secamente:
‘Se é para se perder em si mesmo após presenciar a realidade dos fracos, então desista e morra como eles!’
Houve uma risada sarcástica.
‘Mas... se quer ter controle sobre vidas, torne-se poderoso o bastante para isso. Saiba que, num mundo onde os fortes vivem, os fracos morrem a todo momento. No seu mundo, não é diferente!’
Kael piscou algumas vezes, olhando ao redor. Suava frio, e seu rosto parecia um pouco mais pálido que o normal. Estava bastante confuso.
“Eu... tive um sonho bem estranho...”
Pensou enquanto puxava a mão de dentro do mundo em miniatura, deixando algo quase imperceptível cair sobre sua cama.
Tudo estava parcialmente escuro à sua volta.
— Que horas são agora?
Pegando o celular, viu que já eram exatamente sete horas da noite.
— Porra... eu voltei até a Seita ou esqueci?
Deixou escapar um suspiro cansado.
— Bem, não importa. Eles cultivam há tantos anos; esperar um pouco não vai matar ninguém... Minha mão dói...
Caindo sobre a cama, seus olhos se fecharam. Sua respiração estava ofegante, e ele parecia estar passando por uma infecção, pois suava bastante, possivelmente devido à febre.
Naquela situação, sem a devida ajuda, havia uma grande chance de ele morrer enquanto dormia. De repente, um brilho branco tomou o quarto, iluminando tudo. A ferida na mão de Kael tornou-se completamente visível.
Havia um grande corte entre o dedo médio e o indicador, que se estendia até o meio da palma, expondo ossos aparentemente carbonizados.
Toda a sua mão direita, que havia confrontado a manifestação de Ming Qin, estava inchada e completamente escura, como se tivesse sido queimada. Não era uma simples queimadura de segundo grau, como ele havia pensado anteriormente.
Por algum motivo, dentro do mundo em miniatura, sua mão não parecia tão ruim para ele, mas agora, do lado de fora, a realidade havia se mostrado diferente. Todavia, ele já estava em sono profundo, completamente inconsciente e alheio a tudo.
Ao lado dele, uma garota de cabelos castanhos ondulados, usando um vestido branco e desgastado, surgiu após o clarão, que durou alguns segundos antes de desaparecer, deixando o quarto iluminado apenas pela luz da lua que entrava pela janela.
Ela abriu os olhos e, ao se sentar, espreguiçou-se completamente relaxada, como se já fizesse muito tempo que não dormia tão bem.
Sui Lian encarou a parede à sua frente, piscando algumas vezes enquanto tentava entender onde estava. Tocou os tecidos abaixo de si e até empurrou levemente o colchão com a mão.
— Hum, isso é confortável — murmurou ela, curiosa. — Mas ainda acho a mão do meu Senhor melhor para dormir.
Levando uma mão à cabeça, coçou-a.
— Eu não estava na palma do meu Senhor?
Um leve desespero surgiu nas profundezas de seu olhar.
“Será que tudo... foi um sonho?”
O pensamento fez com que ela desse um salto e olhasse ao redor, com os olhos marejados. Foi então que sua mão encostou em algo.
Sui Lian gritou assustada, levando uma mão ao peito e respirando fundo algumas vezes.
Ela engoliu em seco, nervosa com a situação.
Havia um garoto desconhecido deitado ao seu lado. Seus cabelos eram pretos. Apesar da pouca iluminação, ela conseguiu vê-lo. Sua pele estava muito pálida, respirava com bastante dificuldade e, embora parecesse um pouco bonito, era muito magro.
— Ei... você está bem? Vamos, acorde!
Ela o sacudiu várias vezes e o chamou, mas parecia não surtir efeito.
— Ele está muito mal... Eu não tenho nenhuma poção de cura. O que faço?
Naquele momento, Sui Lian sentiu um aperto fraco em sua mão. Aquele jovem abriu os olhos por um instante e a encarou brevemente antes de voltar a dormir. Porém, seus lábios se moveram.
— Ardilosa... Lian... amanhã este Soberano cuida de você...
Os olhos da garota se arregalaram completamente, perplexa.
“Essa maneira de falar... meu Senhor? Não.” Ela balançou a cabeça, afastando aquela ideia. “É impossível. O Soberano é tão grande e poderoso... mas, e esse rapaz? O que faço? Se deixá-lo assim, ele vai morrer.”
Sui Lian se sentiu desesperada. Aquele jovem a fez se lembrar de si mesma quando vagava sozinha. Quantas vezes quase morreu completamente solitária? Ela não queria deixar que o mesmo acontecesse com aquela pessoa.
De repente, pôs-se de pé sobre a cama e olhou ao redor, à procura de algo que pudesse ajudar. Tudo era estranho à sua volta, mas não era o momento de se preocupar com aquilo.
Naquele momento, sentiu como se tivesse ouvido uma voz em sua cabeça, embora também não parecesse exatamente uma voz. Ainda assim, aquilo lhe disse como poderia ajudar o garoto.
— Tem alguém aí? Você pode ajudá-lo? Ele está muito mal, por favor, ajude!
Ela suplicou, esperançosa, mas não recebeu resposta, apenas silêncio.
“Será que foi minha imaginação?”
Refletiu, sem entender. Porém, ainda se lembrava daquilo que havia ecoado em sua mente.
— Se eu der um pouco do meu sangue... esse garoto vai realmente ficar bem...?
Sui Lian respirou fundo.
Para ela, era melhor tentar alguma coisa do que simplesmente não fazer nada. Seu Senhor a salvou. Era justo que ela também tentasse salvar alguém que estivesse precisando de sua ajuda.
Seu olhar se estreitou.
“Eu devo morder meu dedo... Não, ele não parece ter forças para beber meu sangue.”
Por um momento, refletiu.
“Acho que meu Senhor não vai me culpar, já que é para salvar essa pessoa inocente, certo?”
Com um olhar decidido, ela se abaixou, pondo-se de joelhos sobre a cama, e inclinou o corpo sobre o rapaz. Seus seios pressionaram contra o corpo magro dele.
Por alguns segundos, encarou-o, ainda hesitante. Em seguida, uma expressão de dor surgiu em seu rosto, pois havia mordido a língua. Um pouco de sangue escorreu pelo canto de seus lábios, mas, sem perder tempo, aproximou-se dos lábios do garoto.
Usando a língua, abriu a boca dele e começou a alimentá-lo com o sangue que ainda escorria.
Em contrapartida, naquele momento, Kael estava tendo um bom sonho. Seus pais não haviam morrido e estavam o acompanhando em uma visita à universidade onde iria cursar astronomia e astrofísica.
Uma risada feliz ecoou antes de ele ser abraçado por uma bela mulher que parecia ter pouco mais de trinta anos. Seu sorriso era radiante e, junto aos longos cabelos escuros, roubava a atenção de alguns calouros que passavam.
— E pensar que meu menino passou em primeiro lugar. Só pode ter puxado a sua mãe! — disse ela.
Katia o abraçava sem dar espaço para respirar. Apesar de se sentir envergonhado com os olhares ao redor, ele não desgostava daquele afeto. Era até como se já fizesse muito tempo que não experimentava o carinho de sua mãe.
— Tch!
A voz de seu pai, Mikhael, surgiu.
— Até parece que isso é verdade. Meu Kael bem sabe que seu pai é a mente brilhante da área de ciência espacial. Foi a mim que ele puxou.
Katia soltou o filho de seu abraço de mãe-urso e encarou o marido.
— Hmp! Parece que alguém vai dormir no sofá hoje — disse ela, séria.
A face de Mikhael perdeu a cor. Rapidamente, ele começou a despejar inúmeras palavras, expressando o quanto ela era maravilhosa e a mulher mais linda do planeta.
Logo, os dois já estavam abraçados, esbanjando afeto pelos corredores.
Kael riu e balançou a cabeça, vendo os dois agindo feito crianças. Estava feliz, mas se sentia estranho, como se algo estivesse errado.
De repente, os dois olharam simultaneamente para ele e sorriram. Suas vozes estavam sincronizadas.
— Meu filho, nós te amamos muito! Mas... você deve voltar e viver...
Como se fossem levados para longe, começaram a se afastar dele. Naquele momento, Kael entrou em desespero. Correu atrás deles, porém, quanto mais se esforçava para alcançá-los, mais distantes pareciam ficar. Ele gritava entre lágrimas para que eles não o deixassem, mas parecia que não podiam ouvi-lo.
Seus passos tornaram-se cada vez mais lentos, até que parou, como se tivesse compreendido algo que não queria aceitar. De cabeça baixa, olhou para as próprias mãos. Pareciam menores. Então, o cenário mudou, e ele viu algo que já havia vivido, mas que parecia ter esquecido.
O enterro de seus pais, onde seus caixões estavam vazios. Então, lembrou-se da verdade: eles estavam mortos.
Além de Kael, um garoto que havia acabado de fazer quinze anos, uma mulher estava silenciosamente ao seu lado. Ashley Hoshino, sua tia de consideração.
Ela pôs uma mão sobre sua cabeça e fez um leve cafuné.
— Eu... sinto muito, Kael... Já era tarde demais. Não consegui fazer nada.
Lágrimas escorriam lentamente dos olhos dele ao ouvir suas palavras. Então, Ashley desapareceu, e um terceiro caixão surgiu diante de seus olhos. Lá estava o corpo dela.
Kael mordeu os lábios, sentindo-se completamente abandonado.
— Até você, tia... Até você me deixou...
Nesse momento, as vozes de seus pais ressoaram novamente, fazendo-o olhar em volta.
— Seja feliz, meu filho, o fruto do nosso amor... Saiba que nós, a mamãe e o papai, temos muito orgulho de você e te admiramos — disseram eles. — Não por ser perfeito, mas pelo grande coração que você tem! Você é bem mais do que é capaz de imaginar. Nosso Kael nem sabe o quanto é importante!
Tudo desapareceu diante de seus olhos.
Ele encarou aquele vazio e, por um momento, pareceu ouvir passos. Uma mão repousou sobre sua cabeça.
— Kael... essa tia não te deixou... Me desculpe por demorar tanto!
Ele viu brevemente o rosto de sua tia, Ashley. Ela parecia triste.
Então, como se acordasse de um sonho, tudo desapareceu e seus olhos se abriram rapidamente. Contudo, ao tentar sugar o ar pela boca para encher os pulmões, algo o obstruía.
Tentando se acalmar, respirou lentamente pelo nariz e expirou. Mas era difícil se acalmar ao notar sua situação. Uma garota estava abusando dele enquanto ele dormia. A língua dela movia-se violentamente dentro de sua boca, como se estivesse desesperada.
E o pior de tudo era que a estupradora era bem bonita, dificultando sua intenção de resistir a ela.
Diante disso, levantou os dois braços, passou-os pelas costas dela, abraçando-a e colando ainda mais o corpo dela ao seu. Além disso, retribuiu o beijo, entrelaçando sua língua à suave língua dela.
“A saliva dessa criminosa tem gosto metálico... mas, depois de um sonho tão difícil... não sei se é ruim ser alvejado por essa raposa. Espero que não tenha DSTs.”
Enquanto Kael parecia apenas aceitar seu triste destino, agarrando-a e retribuindo o beijo, os olhos de Sui Lian estavam arregalados de perplexidade.
Ela estava feliz por o jovem ter acordado, mas a situação ficou estranha de repente, deixando-a, por um momento, sem reação. Rapidamente, porém, escapou dos braços daquele garoto levado.
Sui Lian respirou fundo e levantou a alça de seu vestido, que havia caído de um dos ombros, expondo parte de seus seios. Ela apenas observou silenciosamente o jovem, que havia se sentado na cama e a encarava com a mão esquerda no queixo.
Kael estreitou os olhos e desviou o olhar dela. Em seguida, fitou por um momento a caixa prateada sobre a bancada de seu quarto.
“Essa é... quem estou pensando?”
Ele olhou para ela mais uma vez e analisou cada parte de seu corpo, deixando-a um pouco constrangida, pois encarava certas partes com muita atenção.
“Deixe-me ver... Esses seios fartos... quadris largos. A iluminação está pouca, mas certamente é ela...”
Kael engoliu em seco, nervoso.
“Que porra... como a pequena Lian veio parar no meu quarto? Será que ela superou o poder da caixa-artefato?”
A caixa negou veementemente sua suposição. Parecia até um pouco ofendida, mas não deu nenhuma explicação, permanecendo em silêncio e deixando-o desamparado, sem saber o que deveria fazer.
Sem dizer uma única palavra, Kael se levantou da cama e virou de costas para Sui Lian. Colocando as mãos para trás e unindo-as, rapidamente as afastou, sentindo uma dor latejante na mão direita. Todavia, conteve a grande vontade de xingar.
Tossindo baixinho para descontrair, finalmente falou:
— Este Soberano está muito satisfeito... Você passou no teste, minha pequena Lian!
Sui Lian se levantou prontamente ao ouvir aquelas palavras.
“Teste? Espera... Eu estava na mão de meu Senhor e dormi. Quando acordei, estava aqui... O Soberano... Isso tudo foi um teste?”
Notando o silêncio dela, Kael deduziu que provavelmente ela havia sido fisgada por sua atuação.
— Exatamente como pensa, minha Lian... Este Incomensurável fez este corpo mortal desde o ventre materno para ser um receptáculo.
Fez um breve silêncio para intensificar o impacto da revelação.
— Alcançar o topo de tudo torna os dias de eternidade bastante tediosos, então forjei algumas situações para meu próprio entretenimento... Fingir ser um mortal é uma delas.
Seu olhar se estreitou com seriedade, entrando plenamente no personagem.
— Escolhi você recentemente, Lian, e criei essa situação para testar se é digna de ser minha serva... se seu caráter seria aprovado.
Fez uma pausa dramática de cinco segundos.
— Alegre-se, pois você passou!
De repente, Kael quase perdeu o equilíbrio, caindo para a frente. Um peso surgiu sobre suas costas; um par de algo carnudo e macio pressionava contra ele, enquanto dois braços o envolviam em um abraço.
Era Sui Lian. Como se tivesse finalmente entendido tudo, ela conseguiu deixar para trás toda a tensão e a incerteza que pressionavam seu coração.
— Eu... estava com medo...
Disse ela, soluçando, enquanto as lágrimas escorriam por seu rosto.
— Sua Lian não sabia o que fazer, meu Senhor... Mas então veio a resposta e, mesmo assustada, quis salvar essa pessoa, pois alguém me salvou. Você, meu Senhor, é quem me salvou... Eu sou grata!
Kael permaneceu em silêncio, deixando-a abraçá-lo e chorar o quanto quisesse.
“Algo realmente aconteceu comigo? Será que eu desmaiei ou algo do tipo...?”
O cenho dele se estreitou ao ouvir uma risada que parecia vir da caixa-artefato.
“Caixa-artefato, sua pilantra traiçoeira... Você não me disse nada. Se essa garota não estivesse emocionalmente frágil e com poucos neurônios, como eu lidaria com a situação?”, pensou, irritado com aquela companhia pouco confiável.
Então, depois de xingá-la mais um pouco, a caixa-artefato bufou em desdém. Porém, diante da insistência dele, falou brevemente sobre o que havia acontecido, fazendo-o entender a situação.
“Hm... Então foi assim. Eu quase morri e a Sui Lian me salvou... Espera, você é um artefato místico e não podia fazer isso?”
Recebeu silêncio como resposta.
Kael bufou internamente. Entendeu tudo. Aquele artefato da Shopee estava insatisfeito e quis deixá-lo morrer.
“Você é uma maldita caixa mesquinha... Não vou deixar de te xingar. Para onde foi nossa parceria?”
Ainda não houve resposta.
“Certo, dona caixa-pomposa... Só porque você mudou de ideia e resolveu dar uma dica à minha Lian. Caso contrário, eu iria te assombrar depois da morte. Só por isso, vou perdoar esse nosso contratempo.”
Ele coçou a cabeça, desanimado. Tudo estava tão fácil antes. Agora teria que lidar com aquela garota, fingindo ser um Soberano sem possuir poder algum. Era muito arriscado.
Sua mão latejava um pouco e alguns dedos pareciam estar dormentes, mas estava realmente cansado demais para lidar com isso. Diante disso, resolveu apenas confiar na ingenuidade de Sui Lian.
Era sua sorte que não se tratava de Xiu Ying ou Bai Suxian, ou ele estaria completamente fodido.
Tocando levemente as mãos dela, envoltas em sua cintura, Kael pediu que o soltasse. A força dela não era normal e estava começando a sufocá-lo um pouco. Em seguida, virou-se para encarar aqueles belos olhos azuis que o fitavam com uma devoção quase fanática.
Sua voz soou suave.
— Certo, minha Lian. Amanhã, este Soberano vai explicar melhor sobre esse corpo mortal que você vê. Até então, vamos dormir.
Sui Lian abriu levemente os lábios, aparentemente querendo perguntar algo, mas, ao ouvi-lo, apenas sorriu e concordou.
Para diminuir ainda mais as dúvidas dela, Kael narrou brevemente o que havia acontecido desde o momento em que a encontrou na colina, quando pegou um pedaço de carne em troca de vingá-la, até a situação do Império Violet, sem expor nada que não fosse necessário.
A garota relaxou completamente depois de ouvir tudo. Agora não havia mais nenhuma dúvida em sua mente. O jovem à sua frente era realmente seu Senhor, em um corpo humano comum e aparentemente doente.
Ela se deitou na cama, e Kael engoliu em seco diante disso. Ainda se lembrava bem dos beijos quentes dela, da maciez de seu corpo e de seu cheiro, que lembrava o de uma flor do campo.
— Lian... — disse ele, um pouco nervoso. — Você decidiu ser minha, certo?
Sui Lian olhou para ele por um momento, mas então seu rosto corou, e ela confirmou com a cabeça, já imaginando a entrelinha da pergunta.
— Sendo assim — continuou ele —, este Soberano lhe faz uma pergunta: você quer isso?
A expressão dela já deixava claro que havia entendido, porém Kael não era nenhum abusador. Era um homem decente e de princípios, e não a forçaria.
Sui Lian engatinhou sobre a cama, aproximando-se um pouco mais. Seu rosto estava vermelho, mas seus olhos já demonstravam sua resposta.
Sua voz era suave ao respondê-lo:
— Eu sou sua, meu Senhor... Tudo que sou é seu!