Capítulo 1: O Prodígio de Quinta Categoria
O cavaleiro do livro demorou quarenta e dois segundos para desenhar o círculo.
Eu contei. Fiz isso porque a mana formigava nos meus dedos e eu precisava de algo para fazer com isso, aquela coceira irritante que aparece quando fico parado tempo demais. A xilogravura mostrava um homem de joelhos, a pena sobre a pedra, cada runa traçada com a devoção de quem pinta um afresco sagrado. Círculo de Invocação Menor: setenta e oito símbolos, dispostos em três anéis concêntricos.
Setenta e oito.
Como se a mana fosse burra. Como se ela não percebesse o que você queria até você rabiscar a coisa inteira no chão como um pedido formal em triplicate.
Fechei o livro. Abri no capítulo seguinte. Depois fechei de novo.
A coceira piorou.
Estendi a mão em direção ao prego enferrujado que prendia o mapa de plantio na parede e puxei — não com os dedos, mas com aquela pressão interna que a maioria das pessoas chama de mana e eu chamo de óbvio. O prego saltou. Pousou na minha palma.
Dezoito palavras. Era o que o livro usava para esse feitiço.
Eu havia usado zero.
— Roni!
O cabo da espada de madeira acertou minhas costelas antes que o nome terminasse de sair da boca da minha mãe.
O ar saiu dos pulmões de uma vez, como se alguém tivesse amassado um fole. Caí de joelhos na terra batida com o gosto de ferro na língua — mordi a bochecha na queda. O sol de Atellis queimava minha nuca. A terra fedorava a húmus e verão seco.
Fiquei ali por um segundo deixando o mundo parar de rodar.
— Se fosse uma batalha real, você já estaria morto desde a segunda distração.
Ela podia estar falando sobre o tempo para a colheita. O tom era exatamente o mesmo.
Levantei devagar, espanando a terra das calças. Anne esperava com a espada baixa, punho relaxado, a cabeça ligeiramente inclinada — o mesmo ângulo que usava para calcular distâncias em terreno desconhecido. Eu conhecia aquele ângulo bem demais.
— Sou um mago — disse eu. A voz saiu mais firme do que as costelas mereciam. — Magos têm aliados para combate corpo a corpo.
— Aventureiros morrem no intervalo entre chamar um aliado e ele chegar.
Ela deu um passo à direita. Só um passo, casual, como se fosse ajustar a posição. Reconheci o movimento cedo demais para não reconhecê-lo tarde demais — o peso já tinha mudado para a perna dianteira quando a espada veio.
Bloqueei com o antebraço. Errado. Ela havia contado com isso.
A segunda batida acertou minha coxa.
— Nobre — disse ela, e a palavra tinha aquele sabor azedo que eu conhecia — não pode se dar ao luxo de ser só uma coisa.
Nobre.
Havia fotos na biblioteca que eu tentava não olhar. O casamento do rei, décadas atrás, quando ele ainda era só um príncipe com pretensões. No canto direito, quase cortada pela borda da moldura, uma mulher de cabelos pretos e postura de quem cresceu sendo ensinada que dobrar o pescoço era fraqueza. Jovem demais para a expressão que usava.
A prima que agora assinava correspondências com o selo da coroa havia escrito uma vez, em carta que eu li escondido enquanto minha mãe estava no campo:
Você escolheu o caminho errado, Anne. A família não perdoa traição ao sangue.
Minha mãe tinha escolhido a espada em vez do título.
Depois tinha "escolhido" ser mãe.
E agora estava aqui, ensinando postura de guarda a um filho que mal conseguia segurar uma espada de madeira, no quintal de uma propriedade que cheirava a trigo e a vidas menores do que deveriam ser.
Eu tentava não pensar nisso. Normalmente conseguia.
— Roni.
Meu pai estava na varanda, barba vermelha bem aparada, meu irmão caçula no colo. O Aaron tinha dois anos e a personalidade de alguém que havia decidido, por princípio, discordar de tudo. Naquele momento estava quieto, o que significava que provavelmente estava dormindo ou planejando algo ruim.
— Para com isso por hoje, Anne. — A voz do meu pai não subia, nunca subia, mas havia um peso nela que eu só ouvia em raras ocasiões. — Precisamos conversar sobre os tutores.
Minha mãe baixou a espada. Não virou para ele de imediato — ficou um segundo olhando para o horizonte, onde as montanhas engoliam a estrada para a capital. A mão dela repousou no pomo com aquela familiaridade de memória muscular. Depois virou.
— Eu já trouxe meu melhor argumento — disse ela, olhando para minhas costelas.
Segui meu pai para dentro antes que eu dissesse alguma coisa burra.
A conversa aconteceu na mesa da cozinha, onde as decisões sérias sempre aconteciam. Minha mãe havia estabelecido isso sem declarar formalmente — a sala de estar era território neutro, a biblioteca era minha, a cozinha era onde o mundo real acontecia.
— Vamos contratar dois tutores — disse meu pai. — Chegam amanhã.
Cruzei os braços, ignorando o latejo contínuo nas costelas. — Já li os três volumes de esgrima da Biblioteca de Atellis. E com magia —
— Roni.
— — manipulo mana sem encantamento. Na semana passada lancei uma Bola de Fogo com um terço do —
— Roni.
Minha mãe não levantou a voz. Não precisava. Havia algo no tom, aquela qualidade específica que eu associava à postura dela antes de um golpe, que fechava a garganta no meio de qualquer frase.
— Você é inteligente — disse ela, devagar. — Isso não é o mesmo que ser bom. Seus pais não são suficientes, e você sabe disso. Eu não consigo te ensinar os estilos de corte da capital. E seu pai... — ela olhou para Ethan por um momento, alguma coisa cruzando o rosto dela que eu não soube nomear — ...te ama demais pra enxergar onde você falha.
Havia pelo menos quatro respostas boas formadas na minha cabeça, cada uma mais precisa que a anterior.
Não disse nenhuma.
Naquela noite não dormi.
Fiquei na biblioteca improvisada, cercado dos diagramas que havia desenhado nos últimos meses — círculos mágicos fatiados, reduzidos, destrinchados até sobrar só o essencial. A vela derretia enquanto eu repassava as anotações com a ponta do dedo sem realmente lê-las.
Muletas. Era o que os círculos eram. Andaimes para quem não conseguia sentir o fluxo sem apoio visual. Eu sentia. Sempre havia sentido — aquela pressão baixa atrás do esterno que pulsava quando a mana estava disponível, que esquentava quando eu a forçava, que doía de um jeito específico quando eu pedia mais do que tinha.
Mas Mira e Garrick não eram do tipo que elogiava por educação. Meu pai havia dito isso com orgulho. Eu havia ouvido como aviso.
No canto da mesa havia um mapa que minha mãe tinha desenhado da propriedade. Não era mapa de plantio. Eram rotas de fuga, marcadas com símbolos da guilda que eu havia aprendido a reconhecer sem que ninguém me ensinasse. Pontos de emboscada. Ângulos mortos. Ela ainda pensava como aventureira, mesmo aqui, neste lugar sem nada para sobreviver exceto a entressafra.
Dobrei o mapa. Coloquei de volta onde estava.
Apaguei a vela e fiquei no escuro por um tempo, ouvindo o trigo balançar lá fora.
Amanhã eu mostro pra eles.
O pensamento tinha aquele calor habitual — orgulho, certeza, a sensação confortável de ser o melhor na sala. Mas embaixo dele havia algo que eu preferia não examinar de perto. Uma pontada. Pequena. Persistente.
Como mana forçada na direção errada.
A carruagem chegou com o sol ainda baixo, sem ostentação. Poeira, marcas de estrada longa, cheiro de viagem.
Garrick era alto, com uma cicatriz que atravessava a sobrancelha esquerda em diagonal — velha o suficiente para ter deixado de ser interessante e virado só parte do rosto. O olhar dele varreu o quintal, a casa, meu pai descendo as escadas, eu na varanda com os braços cruzados. Parou em mim por um segundo.
— Então este é o prodígio — disse ele, sem inflexão nenhuma. Depois cuspiu no lado da estrada e foi abraçar meu pai como se eu não estivesse ali.
Mira era menor que eu havia imaginado. Mantos pesados para o calor de Atellis, cajado com arranhões e uma rachadura velha no terço inferior cuidadosamente reforçada com arame — marca de uso real, não de decoração. Ela me olhou uma vez, avaliou alguma coisa que não me disse, e voltou os olhos para a casa.
Desci as escadas.
— Vamos pular a parte onde vocês me testam com exercícios básicos — disse eu, parando na distância certa para que a conversa fosse entre iguais. — Já li os volumes de esgrima e manipulo mana sem encantamento. Se a intenção é cobrir fundamentos, posso poupar o tempo de todos.
Garrick trocou um olhar com Mira.
— Ethan — disse ele, sem tirar os olhos de mim —, o moleque vai ser um pé no saco.
— Ele é meu filho — meu pai respondeu, com aquela gargalhada genuína. — Exatamente igual ao que a gente era.
— Não — eu disse, sentindo o calor subir pelo pescoço. — Melhor.
A mão da minha mãe pousou no meu ombro. Firme. Chega.
Mas eu já havia dito.
O treino de espada com Garrick durou vinte e três minutos.
Não que eu houvesse contado com exatidão — mas havia uma qualidade diferente no tempo quando você passa a maior parte dele no chão. Garrick não explicava. Não demonstrava e esperava que eu copiasse. Simplesmente atacava, e quando eu defendia errado — que era sempre — a espada de madeira encontrava a abertura antes que eu processasse onde havia sido.
— Você pensa demais — ele disse, a certa altura, depois de me ajudar a levantar pela quarta vez.
Nada mais. Nenhuma instrução adicional. Como se pensar demais fosse diagnóstico e tratamento ao mesmo tempo.
Mas a magia era diferente. A magia era onde eu vivia.
Encarei Mira com o queixo erguido, ignorando o latejo novo instalado no ombro direito.
— Pronta?
Ela se levantou do tronco onde havia sentado durante o treino de espada. Não disse nada. Ergueu uma mão, palma para cima, e esperou.
Respirei fundo. Senti a mana se organizar — aquela pressão familiar atrás do esterno, quente, disponível. Eu não precisava de círculos. Não precisava de setenta e oito runas. Só de intenção e da palavra certa para ancorar a forma.
— Bola de Fogo!
A mana saiu em forma de calor comprimido, uma esfera do tamanho de uma cabeça —
— Escudo.
A palavra saiu da boca de Mira quase antes do meu feitiço terminar de se formar. Sem círculo. Sem gesto. Só uma sílaba, e uma barreira azul-opaca surgiu por uma fração de segundo — tempo suficiente para minha esfera se desfazer em fagulhas inofensivas.
O ar cheirava a ozônio e palha queimada.
Uma palavra.
— Rajada.
A lufada de vento veio de um ângulo que eu não esperava — não do cajado, de algum ponto à minha esquerda, como se ela houvesse moldado o ar ao redor sem que eu visse o momento em que decidiu fazê-lo. Acertou meu peito e me mandou rolando na terra seca.
Me levantei rápido. Costelas protestando. Ombro protestando. Orgulho protestando mais alto que os dois.
— Disparo de Água!
— Absorver. Descarga.
Ela não moveu o cajado. Não moveu o corpo. Os dedos da mão livre fecharam por um instante e o feitiço simplesmente... parou. Ficou suspenso no espaço entre nós, como água represada, e depois voltou em forma de descarga branca que rachou a terra aos meus pés.
A fumaça subiu. Eu estava de joelhos.
Uma palavra. Duas palavras. Ela havia absorvido minha magia e devolvido sem nem ajustar a respiração.
Me levantei pela última vez. As mãos tremiam — não de dor, mas de alguma coisa que eu não sabia nomear direito. O tipo de tremor que vem de dentro para fora.
— Tempestade Ígnea.
Era o meu melhor. Meses de trabalho — fogo e vento combinados num padrão que eu havia derivado sozinho, sem livro, sem tutor, porque havia enxergado a sobreposição de frequências de mana que ninguém havia me mostrado. Era genuinamente meu.
Mira ergueu dois dedos.
— Escudo. Lança.
Meu feitiço se dissolveu no ar como fumaça encontrando vento. A lança de água veio e me acertou no ombro direito — o mesmo ombro — com força suficiente para me girar no próprio eixo antes de me derrubar.
Fiquei de costas na terra olhando o céu de Atellis.
Nuvens altas. Sol. Um pássaro em algum lugar que não sabia que eu existia.
Mira apareceu na borda do meu campo de visão e ficou ali, olhando para baixo.
— Você tem boa manipulação de mana bruta — disse ela. — Mas pula etapas que não entende. Você vê o atalho, não enxerga o que o atalho contorna.
Garrick, encostado numa árvore a distância, não disse nada.
Minha mãe, do outro lado do quintal, não disse nada.
Meu pai, na varanda, não disse nada.
Ninguém veio.
Me levantei sozinho.
Entrei no quarto e fechei a porta. Devagar, sem bater.
Sentei na borda da cama com a terra ainda nas calças e o ombro latejando em cadência. Os diagramas nas paredes pareciam diferentes daqui — cada círculo reduzido, cada atalho descoberto com meses de trabalho, cada linha que eu havia achado elegante.
Olhando agora para eles, via o que Mira havia dito.
O atalho. Não o que ele contorna.
Eu havia removido as runas que achei redundantes. Nunca me perguntei por que alguém as havia colocado ali. Assumi que eram ineficiência. Nunca considerei que fossem segurança. Estabilização. Fundamento.
O prego enferrujado ainda estava na minha mesa.
Dezoito palavras para zero. Eu havia achado isso evidente.
Mira usava uma.
A diferença entre nós não era o tamanho do atalho. Era que o atalho dela passava por um lugar que eu nem sabia que existia.
Apertei as mãos nas coxas. Os olhos ardiam de um jeito que eu reconhecia e não queria reconhecer.
Lá fora, o trigo balançava. Minha mãe estaria no quintal, provavelmente, fazendo alguma coisa que não precisava ser feita mas que dava a ela razão para não ficar parada. O mapa de rotas de fuga na biblioteca. A espada enferrujada no quarto.
Ela sabe como o mundo lá fora é. Ela viveu ele.
E eu era o motivo de ela não viver mais.
O pensamento não era novo. Mas havia dias em que pesava mais, e hoje pesava como pedra molhada.
Me deitei de costas, um braço sobre os olhos, e deixei o silêncio do quarto durar.
No fundo da cabeça, abaixo da vergonha e do cansaço e do ombro que latejava, havia uma voz que eu conhecia bem. A voz que me acordava às cinco da manhã pra reduzir encantamentos enquanto todo mundo dormia. A voz que havia derivado a Tempestade Ígnea de princípios, sem ajuda.
Você pode aprender. Você pode entender o que o atalho contorna. Você pode aprender a não pular.
Era uma voz menor agora do que havia sido pela manhã.
Mas ainda estava lá.
Fiquei ouvindo ela até o sol sumir atrás das montanhas.