Capítulo 3: Correspondências
A casa acordou diferente nos dias seguintes.
Não era nada que eu pudesse apontar com precisão — as vigas continuavam as mesmas, o cheiro de madeira e ervas secas ainda vinha da cozinha de manhã cedo. Mas havia algo. Uma qualidade no silêncio entre os sons normais que antes não estava lá.
Descobri o que era na terceira noite.
Estava indo ao banheiro quando ouvi. Um som rítmico, baixo, vindo do corredor que levava ao quarto dos meus pais. Metal contra pedra. Muito devagar, muito regular, com uma paciência que sugeria que havia começado horas atrás e podia continuar por horas mais.
Fui até o corredor com passos silenciosos — já sabia como fazer isso, era questão de memória de onde pisar — e parei na entrada.
Minha mãe estava sentada no chão, de costas para a parede, numa faixa de luar que entrava pela janela do corredor. Tinha a espada no colo. A de verdade, não a de treino. A espada enferrujada que ficava no quarto dela e que eu nunca havia visto fora de lá.
A pedra de afiar movia-se pelo fio da lâmina com um ritmo que parecia respiração.
Ela não me viu. Ou fingiu não ver.
Voltei para o meu quarto, fechei a porta com cuidado, e fiquei deitado ouvindo o som metálico atravessar as paredes até adormecer.
Pela manhã, a espada havia sumido de volta para o quarto.
Minha mãe descascava legumes na cozinha com aquela precisão habitual, a mesma expressão, o mesmo cantarolar baixo para minha irmã pequena sentada no chão com duas colheres de pau. Meu pai lia à mesa. O meu irmãozinho aprendia a se levantar segurando as vigas da sala com a dedicação de quem pratica uma arte.
Tudo normal.
Exceto que eu havia ouvido a pedra de afiar por três noites seguidas.
A biblioteca me recebia de manhã cedo e me soltava só quando os olhos começavam a arder.
Copiava as anotações de Mira à lamparina, reformulava os diagramas nas paredes — não mais os círculos cheios de atalhos que eu havia achado tão elegantes, mas estruturas mais honestas, onde cada runa estava lá por uma razão que eu conseguia explicar em voz alta se alguém perguntasse.
Ninguém perguntava.
Numa tarde de inverno, parei diante de uma estante que eu nunca havia examinado de verdade. Ficava num canto da biblioteca, levemente atrás de uma coluna de pedra, com volumes mais velhos que os outros — lombadas desgastadas, cores passadas, sem título legível na maioria.
Puxei um. Abri na folha de rosto.
Teoria de Transfiguração Aplicada — Volume III. Na margem superior, uma dedicatória em letra pequena, inclinada para a direita:
Para Cael — que sempre entendeu mais rápido do que devia. Cuide-se aí fora.
Embaixo, outra letra, mais larga, menos cuidadosa, feita anos depois:
Eles podem tirar tudo exceto o que você aprendeu.
Não havia nome em nenhuma das duas.
Coloquei o livro de volta. Examinei o resto da prateleira. Um espaço vazio entre dois volumes, largo o suficiente para três ou quatro livros, com uma camada fina de pó menos densa do que nos lugares que nunca tinham sido tocados. Como se aquela lacuna fosse antiga mas não primordial — alguém havia retirado os volumes num momento específico e nunca devolvido.
Para Cael.
Meu pai nunca havia mencionado um irmão. Nunca, em nenhuma conversa. Mas tinha dito, aquela noite antes de sair rápido demais do meu quarto: seu tio teria gostado de você.
Fiquei parado diante da prateleira por um tempo que não soube medir.
Depois peguei o livro de Mira da mesa e voltei para as anotações.
O inverno chegou com o vento cortante que descia das montanhas todo ano. Os campos ficaram nus, o trigo colhido, o solo escuro e encharcado de chuva. Minha irmã começou a andar alguns dias depois do meu irmão, o que gerou uma rivalidade doméstica que ninguém havia pedido e que os dois levavam muito a sério.
O treino continuou.
Em outubro, eu movia a água da tigela de Mira em espirais estáveis, sem hesitação.
Em novembro, aprendi o que ela chamava de tensão direcional — a diferença entre empurrar a mana e orientá-la. O frio ajudava com água, estranhamente. Com as mãos frias era mais fácil sentir onde a mana terminava e onde o elemento começava, aquela borda entre o que é meu e o que não é. Tentei por três dias manter um Hexágono de Gelo estável enquanto as mãos tremiam de frio no quintal. No quarto dia, ele durou quarenta segundos sem colapsar.
Mira olhou para o cronômetro de areia. Não disse nada. Virou a areia de volta.
— De novo.
Em dezembro, aprendi que meu limite com fogo não era falta de talento. Era incompatibilidade de geometria — minha mana quer conter, e fogo quer explodir, e tentar reconciliar as duas coisas por força de vontade é como tentar encaixar peças que nunca foram do mesmo quebra-cabeça. Eu havia interpretado isso como fraqueza por meses. Não era fraqueza. Era só a realidade.
Mira parou meu treino no meio de uma sessão, sentou no chão frio e disse:
— Você pode treinar fogo por dez anos e vai ser mediano. — Ergueu dois dedos. — Água e derivados. Concentra.
— E vento?
— Vento você usa como suporte, não como arma. — Uma pausa pequena. — Por enquanto.
Por enquanto. Dois meses de treino e era o mais perto de elogio que eu havia recebido.
O roxo dos hematomas no ombro foi passando para amarelo ao longo de semanas. Depois o amarelo sumiu. O ombro continuou doendo em dias frios, mas era uma dor diferente da primeira — não de lesão, de uso. A distinção, eu aprendi, importa.
Garrick me derrubava menos. Não porque tinha ficado mais devagar, mas porque eu tinha parado de pensar nos movimentos. Simplesmente executava. O corpo havia aprendido o que a mente não conseguia ensinar, e a sensação era estranha — saber alguma coisa sem saber que sabia, até o momento em que o corpo faz e a mente só assiste.
Completei quinze anos num dia comum de primavera, com vento e cheiro de terra molhada. Minha mãe fez um bolo de mel que ninguém pediu e que todo mundo comeu em silêncio satisfeito ao redor da mesa da cozinha. Meu pai cantou um verso de alguma coisa que não era bem uma música. Meu irmão bateu a colher na mesa no ritmo errado com muita convicção.
Foi um dia bom.
A carta da universidade ainda não tinha chegado.
Até aquela manhã.
O treino de ontem ainda doía nos braços quando Mira ergueu a mão para começar.
Respondi com um disparo duplo de água — fluido, os dois jatos em ângulos divergentes que forçavam escolha dela. Ela escolheu escudo amplo, absorveu com uma sílaba, devolveu uma lança de vento que desviei por centímetros. Contra-ataquei. Ela bloqueou. Continuei.
Era assim todo dia. Ela ainda estava muito à minha frente. Mas eu tinha parado de medir a distância e começado a trabalhar a borda do que eu conseguia fazer, que era a única parte que eu podia controlar.
Ontem, depois de desviar de uma rajada, eu havia devolvido um disparo em menos de dois segundos. Sem encantamento. Só intenção e o espaço que ela havia deixado.
Ela ficou parada por um momento. Os olhos me avaliando de um jeito ligeiramente diferente do habitual.
Não disse nada. Continuou o treino.
Mas eu vi. E me permiti sentir por uns três segundos antes de cortar — porque orgulho prematuro é exatamente o tipo de coisa que Mira encontra e usa contra você.
O treino terminou com o sol no meio da manhã. Eu estava ofegante, mas de pé. Mira recolheu o cajado sem comentar e foi embora pelo portão lateral.
Fui me limpar e peguei o caminho da vila.
Sitári cheirava a pão.
A padaria ficava perto da entrada da rua principal e ainda soltava aquele cheiro de massa e canela naquela hora da tarde. Passei por ela e encontrei o Arlo do lado de fora, encostado na parede de pedra, braços cruzados, olhar fixo na janela lateral com a concentração de um estrategista.
— O que você está fazendo?
Ele levou um susto pequeno. Se recompôs. — Apreciando a arquitetura.
— Arlo.
— O Benedikt vai sair daqui a pouco — disse ele, abaixando a voz. — Quando sai, deixa um pão esfriando no parapeito. É questão de timing.
A família dele não passava necessidade. Todo mundo em Sitári sabia disso.
— Isso é sobre o desafio — disse eu.
— Exatamente. — A seriedade na voz dele era completamente genuína, o que era a parte mais desconcertante. — Não é sobre o pão. É sobre conseguir.
Sentei na pedra ao lado dele sem decidir fazer isso. — Esquece o pão. Preciso te contar uma coisa.
A outra metade da atenção veio imediatamente. — Sobre a elfa.
Não era pergunta. Ele havia guardado aquilo.
Contei tudo que meu pai havia explicado. As raças, os territórios, os jeitos de viver. Anões nas montanhas, ferais com seus traços animais, demônios com sua reputação injusta. Elfos, com suas florestas fechadas e sua raridade fora delas.
Arlo ouviu tudo sem interromper. Isso, em si, era incomum o suficiente para eu notar.
Quando terminei, ficou quieto um momento. — Anões eu já sabia. Meu avô trabalhou numa mina. Disse que eram exatamente como todo mundo descreve. Baixos, teimosos, e orgulhosos dos dois.
— E ferais?
— Minha prima tem uma amiga feral. Orelha de gato. Parece completamente normal. — Pausa. — Mas elfos?
Ele virou o rosto com uma expressão que eu não via nele com frequência — algo entre espanto genuíno e indignação levemente ultrajada, como se o mundo houvesse guardado essa informação dele de propósito.
— Elfos são reais?
— Você viu uma.
— Eu achei que tinha visto. Achei que estava ficando louco. Todo mundo na vila me zoou até hoje. — Ele se levantou de um salto, o pão completamente esquecido. — Eles são reais. Eu vi uma elfa de verdade e ninguém acreditou em mim.
— Eu acredito.
— Você é o primeiro. — Ele enxugou os olhos com o dorso da mão, de forma cômica e completamente sincera ao mesmo tempo. Apontou para a direção do moinho. — Vamos lá agora?
Já estava de pé antes de ele terminar.
Minha mãe descascava legumes quando entrei, meu pai à mesa com uma xícara de chá esfriando na frente.
— Mãe — disse eu, sentando na cadeira de frente. — O que são orelhas pontudas e cabelo branco numa pessoa?
Ela parou de descascar.
Meu pai ergueu os olhos do livro. Os dois se entreolharam por um segundo — um daqueles olhares rápidos que carregam mais conteúdo do que o tempo que duram — antes de ele pousar o livro na mesa.
— Onde você viu?
— Não vi. Arlo viu. Perto do moinho velho.
Meu pai assentiu devagar e passou os minutos seguintes me explicando sem rodeios. O mundo era maior do que Sitári. Raças, territórios, culturas. Elfos e suas florestas fechadas. Anões e as montanhas. Ferais com seus traços animais. Demônios, escassos e mal-compreendidos. E os monstros, que habitavam dungeons e ruínas e eram a razão pela qual aventureiros existiam.
— Todos convivem? — perguntei.
— Depende do lugar. Depende das pessoas.
Ouvi com uma atenção maior do que o assunto provavelmente merecia.
— Quero conhecer ela — disse, quando ele terminou.
Me levantei.
A mão do meu pai fechou no colarinho da minha camisa antes do segundo passo. Parei com os pés quase saindo do chão.
— Ethan — disse minha mãe.
— Um momento — disse ele, com uma calma que era mais preocupante do que raiva teria sido.
Virei a cabeça.
Mira estava na entrada da cozinha. Eu não a tinha ouvido chegar. Segurava um envelope com o polegar e o indicador, com o jeito dela de segurar coisas como se fossem documentos.
O selo era azul-escuro. O símbolo, à primeira vista, não reconheci. Na segunda olhada, reconheci das lombadas de livros antigos da biblioteca.
A torre com três janelas.
Mira colocou o envelope na mesa e saiu sem dizer nada.
Meu pai soltou meu colarinho.
O silêncio na cozinha era diferente agora. Minha mãe pousou a faca na bancada, devagar. Meu pai olhava para o envelope com aquele brilho que eu raramente via nele aqui na fazenda — o brilho de quem está vendo um lugar onde já esteve e quer voltar.
— Vou ter que sair de casa? — A voz saiu mais pequena do que eu pretendia.
— A universidade fica além da capital. — Ele hesitou. — Mas não muito longe.
Do canto do olho, os ombros da minha mãe desceram. Não muito. Só um pouco.
Eu notei.
Peguei o envelope. O papel era grosso, mais pesado do que correspondências normais, com o cheiro levemente adocicado de pergaminho de cidade grande. Quebrei o selo com o polegar e abri a aba com cuidado.
Duas páginas. Letras caprichadas, tinta escura, o cabeçalho com o emblema da torre.
À família Rowenvald
É com satisfação que a Universidade de Riochi confirma o interesse na candidatura de Aaron Rowenvald, de quinze anos... A recomendação recebida do ex-aluno Ethan Rowenvald, graduado com distinção pela nossa instituição há dezenove anos, foi recebida e considerada com o devido peso. O nome Rowenvald é conhecido nestes corredores com respeito, e temos razões para acreditar que seu filho honrará essa herança.
Parei nessa linha.
Honrará essa herança.
O papel pesava nas mãos. O brilho nos olhos do meu pai — que eu havia visto por uma fração de segundo antes de olhar para a carta — era de orgulho e de memória. A versão dele que andou naqueles corredores dezenove anos atrás.
Eles me aceitaram pelo nome dele.
O pensamento veio seco, sem drama. Só estava lá, com o peso específico das coisas que você sabia antes de admitir que sabia.
Coloquei a carta na mesa.
— Está bem — disse.
Meu pai sorriu. Minha mãe já havia voltado a descascar os legumes.
Saí da cozinha, subi as escadas, fechei a porta do quarto com cuidado. Sentei na beirada da cama e fiquei olhando para os diagramas nas paredes.
Eram melhores agora do que seis meses atrás. A diferença não estava na ambição — que era a mesma — mas na honestidade. Cada linha estava lá por uma razão que eu conseguia explicar.
Mas minha mão havia tremido levemente ao pegar o envelope. E o papel cheirava a corredores onde pessoas me esperavam com expectativas que pertenciam a outra pessoa.
Eu não queria chegar lá como o filho do Ethan Rowenvald. Queria chegar como eu.
O vento movia o trigo lá fora. A casa fazia os sons de sempre.
Do corredor, minha irmã riu de alguma coisa que ninguém mais via.
Peguei o livro de Mira da mesa de cabeceira e abri na próxima página.