— Vossa Majestade… até quando pretende manter essa situação? A Cadela do Norte deveria ser tratada de outra maneira. — disse um dos homens, inclinado ligeiramente à frente.
— E os custos, Senhor? — acrescentou outro, ajustando o manto. — Acha mesmo que não serão notados? Toda essa movimentação exige justificativa. Não dispomos de tesouros para sustentá-la indefinidamente.
— A justificativa já foi dada. — disse um terceiro, em tom baixo. — Uma praga.
Fez uma breve pausa.
— Não podemos permitir que tal doença… saia destes muros.
Silêncio.
A carruagem parou diante da velha fortaleza.
Poucos instantes depois, quatro homens desceram. Uma pequena escolta os acompanhou para dentro. Do lado de fora, outros guardas permaneceram junto às carroças cobertas por lonas.
Eles entraram.
…
— Serpe.
A palavra veio como um sussurro, mal audível a poucos metros de Vaelia.
Duarte sorria, fitando a rainha.
— Vossa Majestade carece de acomodações adequadas. Sugiro que comecemos por isso.
Vaelia ergueu o queixo, sem recuar.
— Você está zombando?
— Jamais faria isso. — Duarte respondeu, sem pressa. — Estou apenas tratando de uma questão evidente: faltam-lhe elementos básicos para uma vida sustentável. Estou errado?
Moveu a mão, indicando o ambiente ao redor.
— Além disso, não me parece apropriado que apenas eu desfrute de algum conforto durante nossas tratativas.
Os dedos de Vaelia se fecharam com força. Um leve tremor voltou.
— Palavras refinadas para dizer que estou sendo tratada como uma mendiga.
— Opções para acomodar uma monarca… — Duarte inclinou levemente a cabeça — são limitadas, nas circunstâncias atuais. Mas não precisam ser desconfortáveis.
Ela abriu a boca para responder—
Passos no corredor.
Um grupo surgiu, carregando carpetes, utensílios, móveis simples… e comida.
A movimentação foi rápida, quase ensaiada.
— Engodos.
Duarte inclinou levemente a cabeça, quase como se concordasse.
A cela foi aberta.
Guardas se posicionaram de cada lado da grade.
Homens entraram e começaram a trabalhar.
Carpetes foram estendidos. Móveis simples foram montados. Utensílios organizados.
Velas foram colocadas do lado de fora, lançando luz para dentro da cela.
A grade lateral foi aberta.
O espaço dobrou de tamanho.
Um pequeno vestíbulo tomou forma. Uma banheira foi instalada.
Vaelia observava tudo, sem se mover.
— Você está montando uma gaiola muito bonita… — disse, a raiva contida na voz. — Ou melhor… um canil. Já ouvi esse tipo de zelo antes.
— O que se diz nos campos de batalha nem sempre reflete a realidade.
— Mas certamente ecoa nas cortes.
Duarte soltou o ar lentamente.
Vaelia sorriu.
— Creio que concordamos: o mínimo de conforto é necessário para uma conversa.
Ela se sentou ereta na cadeira almofadada colocada no centro da cela.
— De fato… estamos em uma situação melhor agora. — o fitou. — O que veio me comunicar? Se não é minha execução… então sou um troféu.
Uma breve pausa.
— Ou melhor… sua refém.
— Eu até poderia dizer protegida. — Duarte fez uma breve pausa. — Mas, para os fins desta conversa… convidada me parece mais adequado.
Vaelia permaneceu em silêncio por um instante.
Quando voltou a falar, o tom havia mudado.
— O que deseja tratar com sua convidada?
— Sei que lhe parece ultrajante, mas este é o melhor lugar para mantê-la. Tendo em vista que sua batalha contra o príncipe deste reino criou… certa animosidade.
— Foi uma honra ter estado no mesmo campo de batalha que ele.
— Creio que foi. — Duarte assentiu levemente. — Porém, a morte de Augusto… sua queda pelas suas mãos… criou problemas para o nosso reino.
— E você espera que eu me responsabilize por esses problemas?
— Não é bem isso—
— Seu irmão era um homem sábio. Desejava, tanto quanto eu, o fim desta guerra.
— Ainda assim… os resultados daquela batalha apenas aprofundaram as rixas.
— Vocês não respeitaram o legado dele. Nem os seus desejos.
— Outro legado surgiu naquele campo de batalha… — Duarte fez uma breve pausa — e alguns símbolos são maiores que testamentos.
Silêncio.
— A situação em que você se encontra é resultado dessas rixas. Dentro deste reino, o papel que você ocupará não é consenso.
— Então a facção que me quer como refém é minoria.
Duarte não respondeu.
Vaelia inclinou levemente a cabeça.
— Não… a informação é restrita. Poucos sabem que estou viva.
— Existe a possibilidade de que, se descoberta, Vossa Majestade seja humilhada. Isso… na melhor das hipóteses.
— Isso seria inconveniente para os seus planos.
— Uma rainha humilhada seria um obstáculo às negociações entre nossos reinos. Uma convidada de sua estatura… requer dignidade.
— E você espera minha cooperação?
— Espero por sua boa vontade em dialogar. Afinal, sabemos que, na sua situação atual, sua capacidade de influência é limitada.
Vaelia estreitou o olhar.
— Seu eufemismo irrita.
— Ainda assim… o que Vossa Majestade simboliza abre caminhos para o diálogo entre nossos reinos. Isso permite que sua voz seja ouvida… mesmo nestas circunstâncias.
— Mas você não possui uma facção forte o suficiente para me levar a público… e me proteger.
— Neste momento, não. — Duarte manteve o tom calmo. — Mas isso está sendo providenciado.
— Melhor seria providenciar o meu retorno ao meu reino.
Duarte a observou por um instante.
— E, nesse caso… eu passaria a ter problemas com o meu.
Inclinou levemente a cabeça.
— Talvez… o fato de Vossa Majestade ter sido vencida sem grande resistência possa implicar em situações indesejadas em seu próprio reino.
Fez uma breve pausa.
— Nesse contexto… sua permanência aqui pode ser mais favorável do que um retorno imediato.
O silêncio pesou.
Vaelia sustentou o olhar.
— Você está insinuando algo?
— Talvez as tropas do meu reino tenham sido… mais eficientes do que o esperado.
Um leve traço de sorriso surgiu.
— Parece-me uma narrativa mais conveniente.
— Suas falas nunca têm um único significado.
— Eu me dirijo a Vossa Majestade fazendo jus às suas capacidades.
— Plantar dúvidas não prova sua narrativa.
— Também não a nega.
— Permanecer nesse jogo não nos levará adiante. Afinal, se tivesse como provar suas insinuações… já as estaria usando.
— Não necessariamente. — Duarte fez uma breve pausa. — Mas Vossa Majestade tem razão… em parte.
O silêncio se alongou.
Vaelia suspirou.
— É por isso que você se preocupou primeiro com minhas acomodações.
— Naturalmente. Quero o seu compromisso de que não se oporá às acomodações que lhe são fornecidas.
— Você quer minha palavra de que não atacarei os guardas.
— Sei que Vossa Majestade não é suicida. Quero sua palavra de que não atacará as damas de companhia.
— Proteção para suas espiãs.
— A função primária delas é garantir o seu conforto. — fez uma breve pausa — E, como bônus, podemos estender seus aposentos por todo o seu lado do corredor.
— Um canil longo e bonito… com diversos tratadores.
— Não se preocupe. Essas acomodações são temporárias — uma medida de proteção para este momento. Assim que Vossa Majestade for revelada, será conduzida a um local mais adequado. Terá, inclusive, mais liberdade… e mais conforto.
Duarte fez um leve gesto com a mão.
Um grupo de oito mulheres entrou no corredor. Três delas tinham a pele levemente azulada.
Vaelia as fitou.
— Mestiças…
— Isso a incomoda? — Duarte perguntou, com naturalidade. — Particularmente, não me importa. Mas, se for da preferência de Vossa Majestade, posso providenciar outras damas de companhia.
Vaelia voltou o olhar para ele.
— Não. Apenas foi inesperado. Desde que nenhuma das oito tente algo contra mim… não me oporei à presença de nenhuma delas.
— Então chegamos ao primeiro termo do nosso acordo.
Duarte fez um novo gesto, e uma das mulheres se aproximou.
Era mais velha que as outras, por volta dos trinta e cinco anos.
— Esta é Helena. Ela será sua governanta neste lugar. Pode direcionar a ela suas demandas. Fará o possível para lhe garantir uma estadia confortável.
— Toda essa conversa… para me oferecer conforto.
— Vossa Majestade não está satisfeita com o conforto… e com a conversa?
— O conforto é suficiente. E as falas… esclarecedoras.
Duarte sorriu.
— Devo me retirar agora. Espero que sua estadia seja satisfatória.
Duarte se ergueu enquanto se despedia de Vaelia.
Os outros três homens ao seu redor fizeram uma reverência à rainha e o acompanharam.
Helena então se dirigiu a Vaelia, apresentando as demais damas.

O grupo de homens deixou o corredor, enquanto outros traziam mais móveis e trabalhavam na expansão das celas, convertendo-as em aposentos.
Na carruagem, no caminho de volta, os quatro homens conversavam.
— O Senhor deu informações demais durante aquela conversa. — disse o reverendo, com um leve franzir de testa.
— Reverendo, eu apenas conversei de acordo com o intelecto dela. — Duarte respondeu, sem alterar o tom.
— Vossa Majestade precisava dar indicações da situação do nosso reino? — o reverendo insistiu, inclinando levemente a cabeça.
— Mas eu também plantei dúvidas sobre a atuação do reino dela.
— Vossa Majestade acha isso suficiente? — perguntou o reverendo, mais contido, mas ainda firme.
— Ela aceitou os termos iniciais, então foi suficiente. — Duarte fez uma breve pausa. — Não concorda, Guilherme?
Guilherme soltou o ar pelo nariz, apoiando o cotovelo na lateral da carruagem.
— Usar a força seria preferível.
— E correr o risco de molestar uma monarca da Britânia? — o reverendo interveio novamente. — Como eu negociaria com aquele reino depois disso?
João, que até então observava em silêncio, cruzou os braços.
— Era necessário incrustar joias de selamento nos móveis. Acha que ela não notou?
— João… — Duarte respondeu com calma, voltando o olhar para ele. — Tenho certeza de que ela notou. Ainda assim, é preferível a forçá-la a ingerir poções inibidoras.
Fez uma breve pausa.
— Com o tempo, as joias dos grilhões se tornam menos eficazes. Ela testou assim que entramos. Acha mesmo que não voltará a testar?
João assentiu levemente, já pensando adiante.
— Então teremos de substituir regularmente as pedras dos móveis. Mais um custo.
— São despesas com a desinfecção da praga. — disse o reverendo, em tom firme, como quem reafirma uma verdade necessária.
— Por quanto tempo, meu senhor? — perguntou Guilherme, direto, sem rodeios.
— Até que eu compreenda melhor a situação do reino dela.
O reverendo voltou a inclinar a cabeça.
— E se a Britânia quiser se livrar dela?
Duarte desviou o olhar por um instante, pensativo.
— Realmente espero que não. Não me agrada a ideia de entregá-la à nossa corte.
Guilherme soltou um leve som de desdém.
— Isso lhe traria muitos apoiadores.
— Mas ampliaria a guerra. — Duarte respondeu. — E eu detesto que sejamos usados por outra nação… se isso não trouxer benefícios reais para o nosso reino.