Caminhando em um sonho…. ou pesadelo.
Clong!… clong!
Um badalar abafado e metálico reverberou intensamente, pesado como correntes sendo arrastadas, e arrancou a garota do vazio onde estava presa, sem piedade, de volta àquela realidade entre o sonho e o pesadelo. A garota levantou de sua cama amarrotada. “Aquela era sua cama?”, perguntou a si mesma. Fez, com gestos simples, uma arrumação improvisada, jogando um leve lençol cinza muito gasto sobre um colchão branco fino e um travesseiro de palha desfiada. Terminando a tarefa, colocou-se propriamente ao lado da cama, quase em uma pose militar — coreografada e automática.
Tinha algo de errado.
A garota teve um leve vislumbre de suas roupas. Um pijama branco — ou pelo menos um dia fora branco — com aspecto muito sujo, quase como um pano de chão costurado em forma de camisola e calça. Em seus pés, pequenos chinelos felpudos igualmente desgastados.
Clong!… clong!
Mais um som abafado.
Sua visão parecia nublada, sem nitidez. Tinha a sensação de um corpo leve, mas ao mesmo tempo mole, como se estivesse em coma durante dias, semanas ou meses. Depois de algum tempo parada ao lado da cama, a menina sentiu uma leve pontada na cabeça — uma dor rasgante — que abriu sua percepção com mais clareza para o lugar onde estava.
Mais de vinte camas se encontravam dispostas em um grande quarto escuro e mofado e, assim como ela, outras crianças permaneciam de pé ao lado de seus colchões, em posição de sentido. Todas vestiam a mesma roupa branca e surrada: algumas camisas furadas, calças curtas ou, em certos casos, tão grandes que sobravam no corpo, arrastando-se pelo chão como vestidos improvisados.
A menina forçou os olhos para um dos cantos do quarto: uma porta, iluminada por focos de luz em suas laterais, a única fonte de iluminação do ambiente. O curioso, porém, era que, além da visão ainda não estar completamente nítida, tampouco a jovem sentia ter controle pleno sobre o próprio corpo. Tentou olhar ao redor, mas seu corpo não respondia como deveria. Baixou o olhar para seus chinelos felpudos e jurou ver o dedo mindinho despontando por um rasgo que se estendia por toda a lateral do calçado.
Então, como movida por fios invisíveis, seu olhar se fixou à frente. Fez um movimento com a perna, projetando-a para frente, e começou a caminhar por entre as camas. Uma fila de crianças se formou. Pelo que a garota entendeu, as outras crianças presentes no quarto repetiram o mesmo movimento coordenado e aguardavam em posição, alinhadas à porta no canto do quarto.
A porta se abriu.
Uma figura surgiu na soleira.
— Um, dois, três… — um homem baixinho contava em voz alta, com um timbre arranhado, enquanto as crianças enfileiradas passavam pela porta que dava para um corredor. A garota era a penúltima da fila e pôde observar que nenhuma das crianças esboçava qualquer reação. — Dezessete. Estão todos aqui! — gritou a figura no instante em que a última criança cruzou a porta.
O corredor era estreito, formado por paredes texturizadas em madeira muito escura. Dos dois lados, quadros estavam expostos, enriquecendo o ambiente. Todos demonstravam grande qualidade nos detalhes, pensou a garota — desde rostos bem pintados até paisagens minuciosamente trabalhadas em pintura a óleo. O mais intrigante, porém, era como ela sabia sobre essas coisas.
À medida que avançavam, o corredor parecia se alongar sem fim e, quanto mais caminhavam, mais crianças surgiam por outras portas que davam no mesmo corredor — algumas dezenas delas, de diversas alturas e cabelos; algumas com orelhas pontudas, outras com peles das mais diferentes cores.
Chegaram, então, ao final do corredor. Um grande salão se abriu diante deles, acompanhado de um cheiro estranho que fez o estômago da garota se embrulhar. Três grandes mesas dividiam o salão em linhas retas: duas trabalhadas em madeira nobre, ricamente detalhadas, enquanto a terceira, muito mais simples, destoava completamente da elegância do lugar, como se tivesse sido colocada ali de forma improvisada.
Todas as crianças se sentaram de maneira automática, sem qualquer agitação, como se executassem um movimento coreografado. A menina sentou-se na mesa mais simples, de frente para um pequeno garoto de cabelos muito loiros e cabeça desproporcionalmente grande.
— Não esqueçam de comer bem, seus pestinhas — disse uma figura corpulenta, carregando uma cesta de pães e distribuindo pedaços de pão velho para cada criança.
A garota teve o primeiro vislumbre do pão colocado em uma tigela bem refinada à sua frente. Logo depois, o mesmo homem colocou uma taça diante dela, que, diferente da tigela, era simples e exalava um cheiro forte e estranho. Com uma das mãos, agarrou o pedaço de pão, notando pela primeira vez seus próprios braços — extremamente brancos e pálidos. Ao tocá-lo, teve a sensação de segurar uma pedra, de tão duro e seco que era. Sentiu uma pontada no estômago, mas, ainda assim, comeu.
A cada mastigada, sentia os dentes estalarem e, ao engolir, o peso da comida fazia barulho em sua barriga. Diferente de antes, uma sensação de enjoo surgiu, acompanhada de ânsia de vômito. Um cheiro estranho veio por suas costas — o mesmo cheiro da taça desgastada, mas agora muito mais intenso — impregnando todo o salão.
— Misturaram como eu disse? — uma voz ríspida e dura ecoou pelo ambiente, diferente de todas as outras que a garota havia escutado. Uma voz feminina.
— Sim, madame — responderam em coro as duas outras vozes, ambas mais graves e encorpadas.
— Bem, hoje vocês cuidam de tudo. Levem eles para a sala de música e, depois do almoço, deixem-nos pegar um pouco de ar fresco no quintal — continuou a voz ríspida. — Vou buscar mais uma carga hoje. E esperamos que seja a que ele quer. Estamos ficando sem tempo.
— Sim, madame — completaram as duas vozes. Em seguida, a garota ouviu o som de uma porta se fechando e percebeu que, no salão, restavam apenas os dois homens.
— “Misturaram como eu disse”… — uma das vozes comentou em tom de deboche. Era uma voz masculina.
— Quer perder seu emprego? — o outro respondeu de forma rígida, com a voz mais baixa e contida. — Ou pior… morrer.
A conversa cessou por um instante.
O cheiro forte voltou a surgir, agora muito próximo. A garota teve a sensação de que iria vomitar o pão seco ali mesmo, mas seu corpo não reagia. Pelo canto do olho, viu um dos homens — o mais corpulento — carregando uma panela presa por uma cinta ao pescoço. Com uma concha, enchia as taças das crianças com um líquido lilás cintilante e oleoso.
A taça da garota ficou completamente cheia. Uma a uma, as crianças viravam o conteúdo em suas bocas. Quando chegou sua vez, agarrou o recipiente e engoliu o líquido.
Branco profundo.
—
Clong!… clong!
Mais uma vez, o badalar surgiu em sua cabeça. Um sino, pensou. Mas, dessa vez, veio acompanhado de uma tosse, partindo de sua própria garganta.
Perdendo completamente a noção do tempo, a garota voltou a abrir os olhos com a visão ainda desfocada. O que mais lhe chamou atenção não foi o que via, mas o que ouvia: notas musicais fluíam de um lindo piano no centro do salão, embora ninguém o estivesse tocando.
Ela estava em outro lugar agora. Não mais o salão de jantar, mas um ambiente amplo e belo, rico em estátuas e artefatos, digno de um casarão da mais alta nobreza. Notou que seus colegas permaneciam parados, catatônicos — alguns pareciam admirar objetos, mas ela tinha certeza de que apenas agiam no automático. Ela mesma, embora sentisse os pensamentos voltarem pouco a pouco, ainda não tinha controle pleno sobre o próprio corpo.
— Vamos, hora do almoço — soou a mesma voz de sempre, vinda de um homem alto , extremamente gordo e grande barba ruiva, aguardando as crianças à soleira da porta que levava ao refeitório.
Como sempre, as crianças seguiram o comando, passando pela porta se posicionando ao lado da mesa e por fim sentarem. Logo mais, o mesmo homem trouxe consigo três grandes panelas e as colocou distribuídas ao longo das mesas.
O cheio estranho habitual foi substituído por algo um pouco mais apetitoso. Uma espécie de sopa começou a ser despejada nas tigelas pelo mesmo homem gordo. Pouco depois, o outro homem surgiu — agora mais nítido — por uma portinha lateral: bem mais baixo que o outro, com barba raspada e uma bigodeira exuberante.
— Ei… A proporção era uma parte de seiva de acácia para duas de tulipas lilás… ou ao contrário? — perguntou o homem que chegara carregando a panela.
— Sei lá! Você ficou responsável por isso, não eu — respondeu o outro, mal-humorado.
— Eu gastei toda a seiva nisso aqui! — insistiu o primeiro. — A encomenda ainda não chegou?
Outro homem negou.
— Vamos logo com isso. Vamos dar essa gororoba para os pivetes e levá-los para o pátio. Quero tirar minha soneca — resmungou o homem de barba ruiva.
— Nem vem! Hoje é o seu turno no pátio gordão — retrucou o homem baixinho de bigode.
— Ah, sai fora…
A partir dali, a garota mal conseguia prestar atenção. Não era por não conseguir ouvir, mas porque travava uma verdadeira batalha contra a própria consciência e a conversa foi para um segundo plano.
Clong!… clong!
Depois da breve discussão, o homem que havia saído da cozinha começou novamente a encher as taças surradas de cada criança sentada. Ao passar por trás da garota, despejou o líquido de forma descuidada, enchendo menos de um terço de sua taça. No momento em que o homem se afastou, a menina, contrariada, esticou o braço para levar o líquido lilás até a boca.
Clong!… clong!
Mas, enquanto iniciava o movimento e o cheiro enjoativo subia até seu nariz, algo — um pulso momentâneo de consciência — fez sua mão hesitar. Ficou congelada no ar por alguns instantes, a taça tremendo entre seus dedos, enquanto uma forte dor de cabeça começava a martelar junto ao badalar metálico que ia e vinha em sua mente. Após uma fração de segundo e sem que ninguém percebesse sua atitude estranha, a garota baixou a taça de volta à mesa, ainda com a mesma quantidade de líquido.
Sentiu um leve alívio. Mas tudo isso acontecia apenas em seu subconsciente, que, mesmo ainda dormente, começava a se erguer. Sua visão permanecia turva, mas a audição parecia funcionar a todo vapor.
— Você acha que ele vai aceitar essa próxima que está vindo? — perguntou um dos homens em voz baixa. A garota não conseguia reconhecer de qual deles vinha a fala.
— Já faz tanto tempo… Não param de chegar crianças, e ele rejeita todas — respondeu o outro, aproveitando para enfiar um pedaço de pão na boca, sentado em uma mesa mais afastada.
— A madame parecia confiante dessa vez.
— Ela sempre fica confiante. Mas escuta o que estou te dizendo… Se ele não aceitar essa nova criança, vai botar esse lugar abaixo.
Os dois permaneceram em silêncio por alguns instantes.
— Você já… — hesitou o outro, engolindo seco. — Você já viu ele?
O pouco de percepção que a garota recuperara foi suficiente para notar um tom de medo na voz do homem, como se estivesse tocando em um assunto proibido.
— Não… Eu nunca vi ele — respondeu o homem, apreensivo. — Mas uma vez, quando fui acompanhar a madame lá embaixo, eu vi uma coisa…
— O quê? — indagou o outro, curioso, mas claramente assustado.
— A madame entrou com uma criança depois daquela porta… e eu ouvi um grito. Juro que, pela fresta, vi uma sombra escura… e senti uma energia muito forte — confidenciou o homem, convicto. — Falo e repito: nunca entre naquele lugar.
O assunto cessou e, passado algum tempo, como se algo estivesse programado, as crianças se levantaram em perfeita ordem de seus assentos nas grandes mesas, olhando fixamente para uma das faces do salão de jantar, aguardando alguma instrução. A garota fez o mesmo movimento, mas jurou que agora conseguia contrair levemente a ponta do dedo mindinho da mão direita.
— É a sua vez, gordão — disse o homem de bigode. — Vou tirar uma soneca e depois ver de fazer mais disso aqui. Logo me junto a você lá fora — falou, apontando para o panelão preso à cinta.
— Ahhh… me arruma antes um pedaço de salame — pediu o homem ruivo e gordo, de maneira contida.
— Não me diga que tu tá com fome, gordão — respondeu o homem baixo, rindo.
— Não, não… é para o pobre do Ruffos.
— Nada de salame para aquele vira-lata — o homem ruivo e gordo expressou uma leve decepção. — Não esqueça de buscar lenha enquanto eles estiverem lá fora.
Terminou a fala e saiu por uma porta lateral menor, deixando o colega com as crianças.
— Bem, crianças… — o homem manteve a voz contida, mas mudou o tom ao se dirigir à fileira de dezenas de pequenos. — Vamos lá tomar um pouco de “sol”.
Finalizou rindo e caminhando em direção a uma grande porta.
Com a porta aberta, as crianças começaram a andar em sua direção. Mas algo diferente estava acontecendo: os movimentos da pequena garota estavam, aos poucos, voltando a funcionar. Conseguia sentir o chão sob os pés, mover os braços com mais liberdade, sentir o pescoço e virar a cabeça para os lados. Ao passar pela porta, enquanto o homem aguardava a última criança cruzar, teve uma visão mais clara da figura estranha que os conduzia.
Exibia uma grande e espessa barba ruiva, bigodes fartos e uma barriga tão avantajada que parecia pôr à prova a resistência do cinto que mantinha sua calça no lugar. O homem era coberto de sardas e furúnculos na pele, cheirava a carne azeda e a garota jurou vê-lo enfiar o dedo em uma das narinas, tentando tirar alguma coisa.
A marcha seguiu pelo grande salão. O homem ruivo fechou a porta atrás deles e os guiou até uma grande porta de vidro situada no outro extremo, muito além do piano exposto no centro.
Assim que a porta se abriu, uma brisa leve invadiu o ambiente, renovando o ar pesado do interior da casa. Do lado de fora, via-se um gramado verde iluminado por raios de sol que pareciam devolver alguma energia a quem os recebesse.
Passando pela porta, as crianças entraram em um pátio externo cujo chão era totalmente coberto de grama. Ao redor, diversos brinquedos estavam espalhados pela área, murada por uma cerca viva. O espaço era extenso e confortável, amplo o bastante para comportar todas as crianças. Assim que adentraram o recinto, dispersaram-se para o que pareciam ser posições previamente estabelecidas. Algumas foram para as gangorras, outras para os balanços ou para brincar com bolas. Outras simplesmente ficaram paradas diante de tabuleiros com peças, entorpecidas, sem reação.
A menina caminhou até o canto oposto à porta e avistou uma pilha de tacos de madeira, provavelmente parte de algum brinquedo improvisado.
— Bem, brinquem à vontade, pirralhos — disse o homem. — Eu já volto. Vê se não vão fazer bagunça.
Soltou uma risada forçada e saiu do local.
Logo depois que o homem fechou a porta, um clack ecoou no ambiente, indicando que havia sido trancada. Ainda sob o domínio daqueles fios invisíveis que a moviam, a garota se agachou diante do amontoado de tacos de madeira. Seu corpo começou a empilhar os pedaços, tentando formar uma pequena construção sem forma definida.
Do lado de fora, nada se via. Mas, por dentro, a garota travava uma batalha intensa contra o próprio subconsciente, lutando desesperadamente para retomar o controle de si mesma.
Dentro de sua cabeça, um mar revolto de pensamentos se formava — fragmentos de memórias, imagens desconexas, palavras soltas que ela mal sabia se pertenciam a si mesma. A pressão era tão intensa que sua testa latejava. Queria gritar. Queria pedir socorro.
Clong!… clong!
O sino não parava.
Quando seu corpo, ainda movido por reflexos automáticos, foi alinhar mais uma peça de madeira, simplesmente travou.
Clong!… clong!
A respiração tornou-se pesada. Sentia o ar escapar dos pulmões como se estivesse se afogando em plena luz do dia. A dor na cabeça era insuportável. Sua visão, antes turva e distante, começou a clarear — como uma neblina densa sendo varrida por uma rajada repentina de vento.
Clong!… clong!
A imagem de um grande sino suspenso surgiu em sua mente, badalando com toda a intensidade.
Finalmente, sentiu o calor em sua pele. Suas mãos, enfim, voltaram a obedecer.
E então, num impulso frenético, rasgando o silêncio do pátio como um raio em noite calma, a garota gritou:
— Ahhhhhhhhhhh!