Oi, meu nome é…
A luz atravessou seus olhos como uma corda lançada para alguém caindo em um penhasco, mas, para a garota, era o resgate de sua consciência, de sua liberdade. Ela sentiu o calor do sol como um toque gentil em seu rosto e respirou fundo, ofegante, sentindo o ar preencher seus pulmões. Tateou os braços e as pernas, sentiu a garganta coçar, a boca salivar, o cheiro de grama seca e flores, enquanto uma única lágrima escorria por um de seus olhos.
Ajoelhando-se, desceu a mão até o chão, afofando o gramado e sentindo as folhas passarem entre os pequenos dedos. Tentou respirar mais fundo,em uma tentativa de acalmar o coração acelerado. A grama era gostosa, ela pensou. Seu corpo estava dolorido, como se tivesse acordado de um coma duradouro — olhos ardendo, músculos que pareciam não ter sido usados há muito tempo. A lágrima escorreu por seu rosto até cair sobre uma folha de grama entre suas mãos; observou atentamente a gota percorrer lentamente o limbo da folha até finalmente escorrer para a terra. Agarrou o chão com força, quase arrancando um chumaço de grama. Queria se jogar no chão, berrar, fazendo força para não chorar.
Levantou-se, batendo as mãos nos joelhos para limpar as folhas grudadas. Sentiu uma leve tontura, uma pontada na cabeça, enquanto, em sua mente, aquele som misterioso de badalar de sino era substituído por milhares de perguntas. Olhou ao redor sem fazer alarde: as crianças de pijama branco permaneciam na mesma posição catatônica. Tentou não fazer movimentos bruscos, mas, pela primeira vez em sabe-se lá quanto tempo, sentiu uma brisa fresca passar entre seus cabelos, jogando-os para frente e revelando uma mecha muito branca que caiu sobre seus olhos.
O pátio, rodeado por uma cerca viva, tinha, de certa forma, algum charme — ou talvez tivesse tido algum dia, pois agora estava velho e desgastado. Os arbustos eram mal cortados; os brinquedos jogados pelo chão estavam enferrujados, e os de madeira tinham pregos soltos, prontos para rasgar a mão de um desavisado.
Observando a barreira vegetal, calculou que tivesse pelo menos quatro metros de altura e, com certeza, espinhos, tornando a escalada quase impossível. Olhou por baixo, por cima, estudou uma das gangorras do outro lado do pátio; talvez pudesse se pendurar e, com um contrapeso adequado, saltar para fora. Mas decidiu se concentrar primeiro em entender melhor o lugar. A única rota óbvia era a porta que dava acesso ao casarão, que, visto de fora, mais parecia uma bela e imponente mansão.
Olhou ao redor, tentando não chamar atenção, e, a alguns passos, um garoto moreno brincava com um conjunto de dados que, roboticamente, jogava ao chão e em seguida recolhia. Com o coração acelerado, aproximou-se com cautela.
— Oii… — falou baixinho. Sua voz era aguda e tenra.
O garoto não esboçou qualquer reação.
— Por favor, me responda! — continuou, agora num tom de urgência, elevando levemente a voz. Tentou tocar o braço do garoto, que por um instante congelou, mas logo voltou a recolher os dados do chão.
Um pouco nervosa, respirou fundo, tentando não se desesperar. Sabia, por algum motivo, que naquela situação o mais correto era manter a calma. Olhou para o rosto do garoto: era talvez alguns centímetros mais alto que ela e possuía manchas brancas por toda a pele. Olhou para o próprio braço, arregaçando a manga, e viu a pele igualmente branca e opaca. Não se lembrava de sua aparência até reparar com atenção nas orelhas do garoto, arredondadas e curtas. Quando passou a mão pelas próprias orelhas, sentiu-as mais alongadas e pontiagudas.
Em sua mente, vislumbrou uma garota de orelhas pontudas, pele muito branca, olhos exageradamente lilases e cabelos brancos. Como diante de um espelho, teve a visão completa de si mesma.
Desistindo do garoto, que continuava seu jogo sem sentido, observou melhor as outras crianças, talvez em busca de alguém que tivesse acordado como ela ou feito qualquer movimento não automático. A primeira coisa que lhe veio à mente foi que todas eram muito diferentes entre si, mas ninguém parecia muito mais velho que ela. Alguns eram maiores e mais robustos, outros pequenos e abaixo do peso. Então, um número surgiu em sua mente: onze. Essa era sua idade.
A dor de cabeça voltou com força, assim como o som do sino. Colocou a mão nas têmporas, tentando aliviar, mas era como se algo pressionasse seu crânio de dentro para fora. Imagens pipocaram em sua mente — livros, paisagens, mapas gigantescos, uma poltrona. Até que um borrão surgiu, total escuridão, como se um buraco negro devorasse tudo no interior de suas lembranças. Um vazio. E então, como o último verso de uma poesia, uma palavra chegou até ela, soprada por uma voz doce e feminina:
— Elara.
A garota lembrou-se do próprio nome.
— Woof…
Um som rouco e ameaçador fez Elara congelar. Um calafrio percorreu-lhe a espinha, deixando-a sem reação. Decidiu ficar parada, sem movimentos bruscos, imitando as demais crianças. O latido veio de uma pequena casinha no outro extremo do pátio. A casa de madeira, de boa qualidade — julgou pelo olhar —, feita do mesmo material requintado do casarão ao fundo. Tinha pouco mais de oitenta centímetros de altura e ficava estrategicamente posicionada com a abertura voltada para a porta de vidro. Diante dela, dois potes de cerâmica estavam dispostos no chão: um abarrotado de comida que, Elara percebeu de imediato, parecia melhor do que a que havia comido há pouco; o outro, provavelmente destinado à água. Uma placa de madeira pendia do beiral, e em letras garrafais azul-anil lia-se:
— Ruffos — Elara leu baixinho, tentando organizar os pensamentos.
Ninguém além dela pareceu se assustar com o latido — ao menos foi o que pensou — até que duas grandes patas gordas surgiram à frente da casinha, seguidas por um focinho largo e orelhas caídas.
Ruffos saiu completamente, farejando o ar com a narina achatada voltada para o céu. A pelagem caída, formando grandes dobras mescladas de marrom e cinza, fazia-o parecer tão grande e gordo quanto o homem de barba ruiva que Elara vira antes. Para completar, usava presa ao pescoço uma gravata borboleta azul-anil, que balançava enquanto o animal farejava.
— Woof…
O latido seguinte teve uma direção específica — e, por sorte, não era ela. Um pequeno grupo de crianças ao centro do pátio chamou a atenção do cachorro. Entre elas, Elara notou algo incomum: um jovem de pele acinzentada e moicano ruivo, ajoelhado sobre a grama. Só então percebeu o motivo — apesar de ajoelhado, ele tinha a mesma altura das demais crianças em pé. Com braços longos e definidos, parecia não ser mais de um ano mais velho que ela, embora seu corpo fosse surpreendentemente forte para alguém tão jovem. Olhando para as próprias mãos, murmurava grunhidos confusos, provavelmente o que atraíra Ruffos.
O cão caminhou lentamente em direção ao garoto, focinho apontado e base das orelhas eriçadas.
Elara percebeu que o garoto talvez estivesse lutando para acordar, como ela fizera pouco antes. Tudo mudou quando o jovem ergueu o olhar duro para o cachorro. Ruffos latiu freneticamente, baixando a cabeça e arrastando a enorme barriga pela grama. Por alguns instantes, os dois se estudaram. Até que até mesmo o cachorro silenciou.
Então, para surpresa de Elara — e do próprio cão —, o jovem se levantou abruptamente e, erguendo os braços, berrou:
— Uhaaaaaa!
O latido mudou de tom quando Ruffos recuou. O garoto gritava para o céu, segurando a própria cabeça e, em seguida, começou a esbofeteá-la com força. Entre gritos e pancadas, perdeu completamente o controle, até empurrar uma menina miúda em direção à floreira.
— Cuidado! — gritou Elara por impulso.
No instante seguinte, folhas e ramos cresceram numa velocidade absurda, formando uma almofada vegetal que amorteceu o impacto. O garoto, porém, seguia alheio, até revelar presas longas projetando-se da mandíbula inferior. Elara recuou alguns passos, mas não deixou de ficar fascinada com o que via.
Elara agachou-se e, movendo-se da forma mais furtiva possível, para não chamar a atenção do cão ou do garoto, chegou até o canto da floreira onde a menina havia caído que felizmente não se machucou. A garota repousava aninhada entre folhas gigantes, como se estivesse embalada em um abraço verde. Aliviada, Elara soltou o ar preso nos pulmões.
Como um estalo, o garoto cessou seus movimentos e voltou a ficar imóvel. A luta em sua mente havia terminado. Elara permaneceu encolhida junto à menina e ao vaso da floreira, esperando o que viria a seguir. Ruffos, ao contrário, continuava latindo de forma frenética, alternando a postura defensiva e avançando alguns passos. O garoto, agora, coçava a própria cabeça.
O jovem ergueu o olhar na direção de Elara e da menina protegida pelas folhagens. Seus olhos âmbar reluziam sob o sol. Um leve sorriso surgiu em seus lábios antes de voltar a encarar Ruffos.
— Ah, cala a boca, seu pulguento!
Sem hesitar, o jovem correu em direção ao cão gordo. Em desespero, Ruffos soltou um latido misturado a um ganido choroso e mergulhou por entre as gangorras.
— Eu que vou te morder, seu animal obeso! — berrou o garoto.
A corrida foi frenética. Por incrível que parecesse, Ruffos era mais ágil do que aparentava. Os dois esbarraram em tudo pelo caminho, mas Elara percebeu que o jovem se esforçava para desviar das crianças, que continuavam estáticas, como estátuas. Ao alcançar um dos cantos do pátio, o garoto conseguiu encurralar Ruffos, que agora tremia diante da fúria do menino.
— Agora você é meu!
O garoto saltou sobre o cão. Os dois rolaram pela grama, o jovem tentando imobilizá-lo enquanto Ruffos se debatia com todas as forças. Segurando as patas traseiras e envolvendo o pescoço do cachorro com um dos braços, o garoto finalmente conseguiu prendê-lo ao chão. Com a mão livre, rasgou a vestimenta já esfarrapada, improvisou um laço e amarrou as quatro patas de Ruffos, deixando-o imobilizado como um leitão pronto para o abate. Exausto, o cachorro deixou a língua pender para fora, arfando.
— Muahahaha! Mais uma luta, mais uma vitória! — gritou o jovem, erguendo os braços como se fosse ovacionado por uma plateia invisível.
Elara observava a cena, incrédula. Ruffos jazia imobilizado, a gravata azul-anil torta no pescoço, respirando com dificuldade. O jovem então se virou para o centro do pátio e começou a caminhar em direção a Elara.
Ela congelou.
Quando o garoto se aproximou, Elara fechou os olhos e se encolheu, esperando o pior.
— Ela tá bem? — perguntou ele, num tom impaciente e levemente envergonhado, com uma voz que soava claramente adolescente.
Elara abriu os olhos devagar, encarou o garoto de pele cinza e moicano ruivo e assentiu com a cabeça.
Inesperadamente, o garoto começou a retirar a menina pequena de dentro do ninho de folhas.
— Ei! — protestou Elara.
— Tá tudo bem com ela — respondeu o jovem, girando a menina com cuidado, examinando-a de maneira desajeitada, à procura de algum machucado. — Ufa… quase fiz merda — disse, aliviado, abrindo um sorriso.— Foi você que fez isso aqui? — perguntou ele, segurando uma das folhas gigantes da floreira.
— Não… não fui eu — respondeu Elara, ainda receosa.
O jovem colocou a menina de volta entre as folhas. Balançou a cabeça e, aproximando-se do rosto da garota desacordada, chamou:
— Oi! Tem alguém aí?
Sem resposta.
— Acho que não é assim que funciona… — comentou Elara, com um olhar analítico.
— Não custa tentar, né! — retrucou o jovem. — Qual é teu nome?
Antes que Elara respondesse, ambos ouviram um barulho vindo de um canto do pátio. Alguém havia esbarrado em um brinquedo, pois um dos balanços começou a se mover sozinho. Os dois entraram imediatamente em alerta. Elara sentiu um frio percorrer sua espinha e se escondeu ainda mais entre as folhas da floreira.
Então, uma mecha de cabelos vividamente roxos surgiu, balançando de um lado para o outro. Em seguida, uma criança de orelhas pontudas apareceu lentamente sobre um dos bancos, espiando os dois.
— Ihhh… — a menina emitiu um som estridente ao perceber que havia sido notada, em sua tentativa falha de se esconder.
Um clack ecoou pelo pátio, acompanhado de um frio no estômago dos três. A porta que dava para a mansão escancarou-se. Um homem gordo de barba ruiva entrou no pátio, usando estranhamente botas pesadas de neve e um grande casaco que cobria parcialmente sua barriga. Seus pequenos olhos se fixaram imediatamente em Ruffos amarrado.
Elara viu a menina de cabelos roxos correr para o fundo do pátio, enquanto ela própria se ajeitava ainda mais entre as folhas para fugir do olhar do homem. O vegetal tornou-se seu esconderijo perfeito.
O jovem de moicano ruivo, porém, fez o oposto.
Afastou-se de Elara e da menina adormecida e posicionou-se bem no centro do pátio, completamente exposto.
— Que merda você fez com o pobre Ruffos?! — bradou o homem ruivo.
Como uma lembrança emergindo à força, Elara sentiu reconhecer aquele homem. Ela o conhecia havia muito tempo. Aquele era Ghinorf, um dos ajudantes.
— É a sua vez, seu gordo do caralho… — rosnou o jovem, cerrando os punhos. — Você vai conhecer a fúria de Baruk!
E armou os punhos pronto para o combate.