Com os dois pés na escuridão
Os quatro encaravam com curiosidade o novo companheiro: Dirgah, o anão. Sua voz era doce, mas ao mesmo tempo intensa e potente. Tinha a mesma altura das elfas e era apenas um pouco mais franzino que Baruk, embora aparentasse ser mais maduro.
— Então… — Dirgah voltou a falar. — Se não é aqui que vocês moram, onde é que nós estamos?
— Não sabemos ao certo — respondeu Elara.
— Ah, que divertido — retrucou Dirgah em tom cômico.
Baruk saiu de sua posição e começou a rodear o novo parceiro, como se o estivesse analisando, estudando-o com calma.
— A gente foi sequestrado — disse o orc, parando à frente do anão. — E agora tem uma velha por aí querendo dar a gente de comida para algum tipo de monstro ou coisa do tipo.
Dirgah permaneceu indiferente, sem esboçar qualquer reação. Então, virou-se para os outros três:
— Ele é sempre assim biruta, ou foram as presas que deixaram ele assim? — falou, desleixadamente.
Nessaldom não conseguiu conter a risada, e até mesmo Elara deixou escapar um sorriso de canto de boca. Baruk se aproximou mais ainda, encarando-o seriamente, como um predador se aproximando de sua presa. Dirgah o encarou de volta, mantendo um sorriso maroto.
Depois de alguns segundos em silêncio, Baruk finalmente abriu a boca:
— Até que você é engraçado. — E, surpreendentemente, começou a rir também, dando alguns tapas desajeitados no ombro do garoto.
— Por pior que pareça, ele está falando a verdade — completou Elara, mudando o clima da conversa.
Nessaldom se aproximou, e junto a ela vinha Arthurn, colado às suas vestes.
— Você lembra de algo, Dirgah? — perguntou Ness, com uma voz calma e curiosa.
Dirgah, pela primeira vez, sentiu uma leve pontada na cabeça. Tentou vasculhar suas memórias — até mesmo as mais recentes —, mas não encontrou nada. Era uma sensação estranha. Sabia quem era, mas ao mesmo tempo, não. Não se lembrava de lugares, rostos, nem nomes. A única coisa que parecia intacta era seu próprio nome... e seu senso de humor duvidoso.
— Não. Nadinha! — exclamou ele, sorrindo. — Mas antes…
Dirgah se aproximou de Ness e, em um ato audacioso, segurou sua mão e a levou até a boca.
— Como é seu nome, nobre dama? — disse, dando um pequeno beijo no dorso da mão.
Ness fez total cara de paisagem, como se realmente não entendesse que aquilo era uma forma de cortejo.
— Nessaldom, mas pode me chamar de Ness — respondeu ela, ainda com a mão presa.
— Mas que belo nome, minha cara — continuou ele, deixando os demais visivelmente impacientes. — E ainda mais com esses cabelos roxos divinos… gostei—
— Estamos sem tempo, Dirgah — interrompeu Elara, séria. Ela puxou o relógio e, sem tirar os olhos do ponteiro, continuou: — Eu sou Elara. Aquele pequeno com a panela na cabeça se chama Arthurn, e o brutamontes ali…
Antes que ela completasse, Baruk se colocou no meio.
— Eu me chamo Baruk! — disse empolgado, erguendo o bastão e tentando mostrar os músculos do braço.
— Que belos nomes, meus amigos — disse Dirgah, ignorando a pressa da elfa e soltando a mão de Ness. — E alguém poderia me ajudar a entender o que está acontecendo?
— Bem, Dirgah, estamos sem tempo — disse Elara, guardando o relógio entre as vestes. — Temos pouco mais de duas horas agora.
— Duas horas para quê? — Dirgah tentou questionar, mas então tudo começou a chacoalhar intensamente, como se um terremoto tivesse começado. A sensação de antes, que aconteceu na sala de jantar.
Os mais sensíveis à magia sentiram uma aura intensa e avassaladora preencher cada canto do lugar, como se uma enorme mão chacoalhasse o brinquedo onde os cinco estavam presos.
Ness e Arthurn se jogaram no chão. Tudo parecia girar. Baruk serviu de apoio para Elara, que quase caiu. Dirgah se agarrou ao beiral da cápsula e tentou ajudar Arthurn, estatelado no chão.
— Ih, tá tudo tremendo! — gritou Ness, tentando se levantar.
— Pessoal, se segurem! — gritou Baruk, enquanto ajudava Elara a se manter de pé. Mesmo sendo amparado por Dirgah, Arthurn gritava desesperado.
Então, a tremedeira cessou.
— O que foi isso? — disse Dirgah, surpreso, tentando recuperar o fôlego enquanto puxava Arthurn para ajudá-lo a ficar em pé. — Você está bem?
Arthurn assentiu com a cabeça, ainda ofegante.
— Será o monstro dessa casa? — exclamou Ness, enquanto o grupo se reorganizava, ainda cambaleante.
— Aqui é uma... casa? — perguntou Dirgah, confuso.
— Por mais estranho que pareça, sim — confirmou Elara. — Vamos te explicar tudo, mas antes precisamos sair logo daqui. Já estou com calafrios.
As crianças se reagruparam ao lado da cápsula de onde Dirgah havia saído.
— Eu estou com medo... — confessou Arthurn, a voz trêmula.
— Calma, Art. Estamos juntos — disse Ness, tentando confortá-lo, embora sua voz também deixasse transparecer receio.
— Ô, gente! — chamou Baruk, que se afastara um pouco do grupo. — Alguém lembra onde é a saída desse lugar maldito?
O que o orc disse fazia total sentido. Não era por falta de orientação ou de atenção — a passagem por onde haviam vindo simplesmente havia sumido completamente.
— A saída não era por aqui? — completou o garoto.
— Ih... — Ness deu um gritinho. — Estamos presos!
— Não pode ser! — Elara apalpava a parede de terra, tentando buscar alguma explicação para o que havia ocorrido.
Após a perturbação mágica e o tremor que abalou a sala, as paredes pareciam ter se rearranjado, e a passagem que levava de volta à sala das lápides desaparecera. Elara tentou se concentrar magicamente para buscar uma saída, mas a aura mágica escura cobria qualquer vestígio. A elfa chegou a suar de tanta concentração, mas foi infeliz em sua tentativa.
— Estamos perdidos, pessoal! — exclamou Elara, sem pensar.
— Como assim?! — Baruk, então, agarrou seu bastão e começou a desferir golpes ininterruptos na parede. Infelizmente, sua ofensiva foi em vão.
Presos na sala, os cinco se desesperaram. Cada um começou a falar em cima do outro, não sobrando tempo para pensar ou para alguém tomar as rédeas da situação. Arthurn entrou em um choro desesperado e agarrou com força as vestes de Nessaldom, que gritava freneticamente coisas como “vamos morrer” e “guaxinins não são toupeiras!”. Baruk xingava a cada vez que seu bastão colidia com a parede de terra sólida, enquanto Elara se agitava tentando explicar que aquilo não faria diferença. O único mais controlado era Dirgah, que permanecia calmo e indiferente à situação.
— Pessoal, vamos nos acalmar... — tentou argumentar, mas ninguém prestou atenção.
Ele, então, tapou os ouvidos, tentando abafar o barulho caótico ao seu redor. Foi nesse momento que Ness deu um pulo: o choro frenético de Arthurn expulsou a elfa de perto, e onde antes havia lágrimas, agora pequenas fagulhas elétricas surgiam em volta do garoto.
— Ah, o Art vai explodir! — Ness se afastou e se agachou, cobrindo a cabeça.
Baruk e Elara voltaram sua atenção para o garoto desesperado, tentando se aproximar.
— Ei, cabeçudo! — Baruk tentou gritar. — Não vai explodir, moleque!
— Art! — Elara falou ao mesmo tempo. — Concentre-se na sua aura, Art!
As vozes de ambos foram insuficientes. A quantidade de estouros aumentava rapidamente, tornando quase impossível ficar a menos de um metro de distância do garoto, que agora parecia envolto por fogos de artifício.
Dirgah, observando tudo aquilo, decidiu tomar uma atitude. Posicionou-se à frente, quase dentro do raio dos estalos:
— Manipular sentimentos é comigo mesmo! — disse o anão com um sorriso maroto estampado no rosto.
Ele, então, fez uma leve reverência e, inesperadamente, começou a cantarolar alguns versos:
"Calma, calma, tudo vai passar, Fecha os olhos, deixa o medo voar. Brilha a luz no fundo do coração, Você tá seguro na minha canção."
— E isso é hora para cantar?! — protestou Baruk. Mas, assim que os primeiros versos foram entoados, uma fumaça azul começou a sair da boca de Dirgah — a mesma fumaça que antes emergia da cápsula, agora um pouco menos densa — e dirigiu-se a Arthurn, envolvendo-o completamente.
— Que jeito estranho de conjurar magia... — comentou Elara, se alinhando aos dois garotos e observando com atenção o método de Dirgah.
Depois de algum tempo, as fagulhas começaram a diminuir. O choro de Arthurn foi acalmando até cessar por completo. A fumaça azul se dissipou lentamente até desaparecer quando Dirgah entoou o último verso, encerrando a balada improvisada.
— Ufa! Já estava ficando sem criatividade... — disse Dirgah, se aproximando de Arthurn, agora calmo, com o olhar tênue e quase sonolento. O anão deu uma leve batidinha na panela que estava na cabeça do garoto. — Como se sente, pequeno?
— Estou bem agora — respondeu Arthurn, olhando para os demais amigos. — Desculpa, Ness... não queria te machucar.
A garota se aproximou, saindo de sua posição de proteção — felizmente, conseguiu sair com apenas um leve queimado em um dos braços; nada de grave havia acontecido.
— Tá tudo bem, Art! — falou com um sorriso no rosto. — Acho que eu deveria ter pego uma panela também — disse, apontando para a de Arthurn.
— Da próxima vez, eu vou te fazer dormir — ameaçou Baruk com seu bastão, mas a frase não foi suficiente para mudar o bom humor do garoto.
— Sua magia é mesmo poderosa, Dirgah — comentou Elara.
Os cinco riram e conversaram sobre o ocorrido. Mas, mesmo com o clima mais tranquilo, nada havia mudado em relação à situação. Continuavam presos em uma sala, o relógio corria para o início do ritual previsto para o meio da noite, e havia pouco tempo para encontrar uma saída — se é que ela existia.
— Pessoal, olhem aquilo... — disse Nessaldom em um tom de voz amedrontado.
Todos pararam e seguiram o olhar da garota. Atrás da cápsula branca, coisas começaram a surgir, fazendo os olhos de todos se arregalarem. Um frio na barriga, misto de ansiedade e angústia, tomou conta do grupo.
A câmara agora dispunha de várias mesas e cadeiras enfileiradas — não eram duas ou três, mas dezenas — quase como uma fila de espera. No centro do salão, próximo à cápsula vazia, um grande pedestal sustentava um imenso livro aberto, exposto como uma peça central.
E o mais horripilante: uma gigantesca aura mágica escura rugia do canto oposto ao que os cinco se encontravam. A energia era tão forte e obscura que parecia uma tempestade de granizo caindo diretamente sobre a pele.
No canto oposto, um grande portão metálico de duas folhas emanava essa aura sombria. Fumaça negra escapava pelas frestas, deixando o clima ainda mais tenso e pesado.
— Pessoal, o que a gente faz agora? — Dirgah perguntou para o grupo.
Ness tinha uma expressão aterrorizada. Baruk cerrava os dentes de raiva, pronto para pular em alguém. Elara parecia atordoada com a potência da aura escura que vinha do outro canto, e Arthurn permanecia calmo, ainda sob efeito da magia do anão.
— Não sei, mas eu quero ir embora — disse Ness.
— Acho que aquilo está além da nossa conta, pessoal — falou Elara, desacreditada.
As outras quatro crianças olharam para Elara. Foi a primeira vez que ela pareceu vacilar. Ela não era tão otimista quanto Baruk, mas nunca tinha perdido as esperanças.
— Ei, orelhuda — xingou Baruk. — Foco! A gente vai sair daqui!
Elara, ouvindo as palavras do colega, deu leves tapas em suas próprias bochechas e ergueu o olhar para todos.
— Tá certo, pessoal. Vamos procurar alguma coisa que nos ajude a encontrar uma saída. — Olhou novamente para o relógio. — Não nos falta muito tempo, mas é suficiente para sairmos daqui.
A elfa voltou a encarar o portão do outro lado e respirou fundo. Os cinco foram em direção à parede oposta da sala, onde mesas e cadeiras estavam dispostas, além do pedestal com o livro e o portão.
— E agora? — Nessaldom perguntou.
Baruk tomou a frente e chegou próximo ao portão.
— Eu vou abrir essa merda! — gritou.
— NÃO! — Elara nunca havia gritado daquela forma antes. — Não abre isso, Baruk. A aura que eu sinto daí é muito poderosa.
— Tá, e o que a gente faz? Espera a gente virar comida? — retrucou.
Ness deu um salto ao ouvir as palavras “virar comida”, mas, diferente das outras vezes, Arthurn não reagiu. Permaneceu risonho.
Elara se aproximou do livro no pedestal.
— Aqui deve ter alguma resposta.
A elfa puxou um dos bancos para conseguir ficar mais alta que o pedestal e estudou o livro com cautela. Ele tinha capa grossa, feita de um tecido refinado, com cores escuras. Estranhamente, não havia título nem qualquer assinatura. Abriu-o, finalmente, e deu de cara com páginas amareladas.
— Vamos ficar lendo agora? É isso? — protestou Baruk.
— Só me deem uns minutos — disse Elara, sem olhar para os demais, totalmente focada.
Os quatro se agruparam próximo às cadeiras enquanto Elara se concentrava na leitura. Ness e Baruk passaram alguns minutos ao lado de Dirgah, contando todos os detalhes do que haviam enfrentado até chegarem ali. Começaram do início — desde o momento em que acordaram no pátio, o líquido estranho que fazia as crianças ficarem catatônicas, a tentativa frustrada de fuga pela porta com a maçaneta que queimara a mão de Baruk, a chegada de Dirgah dentro de uma cápsula, e o momento em que Arthurn se transformou em um polvo gigante.
Dirgah ouvia tudo com interesse genuíno, sem demonstrar surpresa com nenhum dos eventos. O anão também reparou que Baruk parecia... exagerar um pouco nos momentos em que se descrevia como herói — multiplicando os perigos e dobrando suas próprias façanhas.
A história terminou quando eles encontraram a cápsula, no que eles acreditavam ser o subsolo do casarão.
Não se passou muito tempo até que um som seco ecoou pela sala — PÁ!
Elara havia batido a capa do livro com força, chamando a atenção de todos.
— Pronto, terminei! — anunciou, com um sorriso convencido no rosto.
— O quê? Mas já? — exclamou Ness, boquiaberta.
— E agora eu tenho uma ideia! — Elara falou com um sorriso maroto estampado no rosto.