Irvan ouviu o riacho antes de vê-lo, um som fino e constante entre pedras gastas, como se a água cochichasse com a própria terra; ele caminhava havia horas pela estrada baixa que descia em curvas irregulares até o pequeno vale onde corria o chamado Riacho Hilário, um nome que sempre lhe parecera estranho, pois nenhuma parte daquele lugar tinha algo de alegre — a água era fria, as árvores tortas, e o cheiro úmido do barro lembrava mais velhos túmulos do que qualquer riso — ainda assim o nome permanecera por gerações, e como tantos nomes antigos ninguém mais se lembrava de quem o dera ou por quê; Irvan parou à beira da corrente e agachou-se devagar, as botas de couro já gastas abrindo a terra úmida enquanto ele mergulhava as mãos na água gelada e deixava o frio subir pelos braços, observando o reflexo quebrado do próprio rosto entre as ondulações; um viajante sem bandeiras, pensou ele, como já pensara muitas vezes, repetindo para si o termo usado em Kaal para homens que não serviam a senhor algum nem carregavam brasão, homens que caminhavam de estrada em estrada sobrevivendo como podiam — às vezes como mercadores, às vezes como mensageiros, às vezes apenas como sombras que passavam entre vilas; não era um título de honra nem de vergonha, apenas um fato da vida, como nascer ou morrer; ele lavou o rosto e deixou a água escorrer pela barba curta enquanto o vento movia a relva nas margens, e quando ergueu os olhos viu ao longe as muralhas externas de Wurm surgindo sobre o horizonte como uma linha cinzenta contra o céu pálido da tarde; cidado-forte, chamavam-na, uma das muitas que formavam o Reino de Kaal, que era governado pelo rei Sarnus Mooncraster II, um homem cuja fama chegava às estradas mais distantes através de soldados bêbados, bardos cansados e mercadores que falavam demais quando o vinho aquecia a língua; Irvan já ouvira histórias suficientes para saber que os tempos estavam mudando, e mudanças raramente vinham sozinhas; ele bebeu um pouco da água, apenas o suficiente para molhar a boca, depois sentou-se sobre uma pedra achatada e observou o caminho de onde viera, lembrando-se da conversa da noite anterior em uma estalagem de estrada onde três soldados discutiam em voz baixa sobre Asaba; o Império de Asaba ficava muito além das colinas e desertos do sul, governado pelo chamado Shuka, título que entre eles significava algo entre imperador e sacerdote — o atual era Aumuh‑Wallud, segundo diziam — e seu povo adorava Muu'h, a deusa que, conforme a crença deles, criara o mundo, caminhara entre os homens e morrera por eles; Irvan não sabia o que pensar dessas histórias, mas aprendera que quando soldados começam a falar de impérios distantes com olhos acesos demais, geralmente significa que alguém em algum castelo já decidiu que homens irão morrer; ele suspirou devagar e ficou ali algum tempo, ouvindo o riacho correr, até perceber passos vindo pela estrada, passos arrastados de alguém carregando peso; quando virou a cabeça viu um carroceiro aproximando-se com duas mulas cansadas e uma carroça cheia de barris; o homem levantou a mão em saudação quando chegou perto e parou as mulas para que elas bebessem; “Estrada longa hoje”, disse ele, enxugando o suor da testa com a manga; Irvan assentiu, mantendo a voz baixa como sempre fazia com estranhos; “Longa o suficiente.” O carroceiro olhou para as muralhas distantes. “Vai para Wurm?” “Talvez.” “Talvez?”, o homem riu, um riso curto e rouco. “Ninguém vai para Wurm por talvez. Ou vai vender algo ou vai gastar o que tem.” Irvan deu de ombros. “Hoje talvez eu faça os dois.” O carroceiro pareceu gostar da resposta e sentou-se numa pedra próxima enquanto as mulas bebiam; por alguns minutos falaram de coisas simples — o estado da estrada, o preço do sal, uma ponte quebrada alguns quilômetros ao norte — até que o homem baixou a voz como quem conta um segredo; “Você ouviu falar do que dizem lá dentro?” perguntou, inclinando a cabeça na direção das muralhas; Irvan não respondeu de imediato, apenas observou o fluxo da água entre as pedras; “Ouço muitas coisas”, disse enfim; o carroceiro cuspiu no chão e coçou a barba. “Dizem que o rei anda reunindo homens.” Irvan ergueu uma sobrancelha. “Reis sempre reúnem homens.” “Não assim.” O homem inclinou-se mais perto. “Armas novas chegando. Armazéns cheios. Cavaleiros indo e vindo.” Ele fez uma pausa antes de acrescentar: “E falam de Asaba.” O nome pairou no ar como fumaça; Irvan não respondeu, mas o silêncio bastou; o carroceiro assentiu lentamente, como se ambos entendessem algo que não precisava ser dito; depois de um momento ele se levantou, puxou as rédeas das mulas e voltou à estrada; antes de partir ainda gritou por cima do ombro: “Se for entrar na cidade, vá antes do escurecer. Wurm não gosta de estranhos depois da noite!” Irvan observou o homem desaparecer pela curva da estrada, depois ficou sozinho novamente com o som do riacho; por um instante pensou em seguir outro caminho, como fizera tantas vezes quando pressentia problemas se formando, mas havia também uma curiosidade teimosa dentro dele, aquela mesma que já o levara a desertos, portos e cidades em ruínas; levantou-se devagar, sacudiu a água das mãos e ajustou o cinto onde carregava a pequena bolsa de moedas; quando voltou à estrada o sol já começava a descer e as muralhas de Wurm pareciam maiores agora, pesadas e antigas, construídas com blocos de pedra tão grandes que pareciam ter sido arrancados da própria montanha; enquanto caminhava Irvan lembrava-se de outra história ouvida meses antes, uma história cantada por um bardo velho em uma taverna escura, a história de Sir Girlan Zorna, chamado de quebra-elmo; segundo a canção, mais de um século antes, quando Kaal tentara pela primeira vez invadir Asaba, Girlan — um nobre de casa pequena e quase esquecida — enfrentara dois guerreiros Muna’Kushan em batalha e quebrara os elmos deles com a própria espada antes que pudessem derrubá-lo; histórias como essa costumavam crescer com o tempo, mas ainda assim os bardos cantavam o nome dele como se fosse feito de ferro; Irvan nunca acreditara totalmente em heróis, porém aprendera que as histórias que os homens contam sobre guerras geralmente começam muito antes das guerras começarem de verdade; quando finalmente chegou à ponte de madeira que marcava a entrada externa das terras de Wurm, ele parou por um instante e observou o caminho adiante, sentindo um leve peso no estômago que não era fome nem cansaço, mas algo mais difícil de nomear; talvez fosse apenas o presságio de que os ventos estavam mudando outra vez, e que mesmo um viajante sem bandeiras, um homem que não devia lealdade a rei algum, às vezes acabava caminhando direto para o meio das histórias que os bardos ainda nem tinham começado a cantar. Irvan cruzou a ponte de madeira enquanto o sol descia atrás das colinas e deixava o céu da tarde manchado de cobre e cinza, e conforme avançava pela estrada que levava para dentro de Wurm ele percebeu que o silêncio das terras próximas ao Riacho Hilário ficava para trás pouco a pouco, substituído por sons mais humanos — rodas de carroça, vozes distantes, o latido de um cão que parecia irritado com tudo e com todos — e embora as muralhas externas de Wurm fossem antigas e grossas como as de muitas cidado-fortes do Reino de Kaal, Irvan sabia que o poder real daquele lugar não estava apenas nas pedras, mas nas rotas e vilas que se espalhavam em volta delas, pequenas comunidades que serviam a Casa Orn, a família suserana que governava aquela terra em nome do rei Sarnus Mooncraster II; ele passou por um portão secundário guardado por dois homens de lança que pareciam mais entediados do que atentos, e nenhum deles lhe pediu nome ou origem, pois viajantes solitários não eram raridade nas estradas de Kaal, especialmente aqueles que carregavam pouco além de uma mochila, uma espada curta e o olhar de quem não pretende ficar muito tempo no mesmo lugar; depois do portão a estrada se dividia em dois caminhos principais, e Irvan tomou o da esquerda porque uma placa de madeira torta indicava que ele levava a Bosque Crepúsculo, uma vila que ele já ouvira ser uma das mais movimentadas de Wurm quando o assunto era vinho barato, madeira cortada e gente que trabalhava duro o suficiente para gastar tudo numa noite; o caminho descia por entre árvores altas e densas, e conforme o sol se escondia as sombras cresciam de tal forma que o nome do lugar começava a fazer sentido, pois ali a luz parecia sempre morrer mais cedo do que no resto do mundo; quando finalmente as primeiras casas surgiram entre os troncos escuros, Irvan percebeu que a vila estava mais cheia do que esperava para aquela hora, havia cavalos amarrados diante das estalagens, homens falando alto perto de barris abertos e mulheres passando pelas ruas com passos rápidos, como quem tenta terminar o dia antes que a noite traga problemas; ele entrou pela rua principal e logo o cheiro de lenha queimando e carne assada tomou o ar, misturado com o odor mais forte de cerveja derramada e suor humano, o cheiro comum de qualquer vila que vive de trabalhadores e viajantes; Irvan caminhava devagar, observando tudo sem parecer observar demais, um hábito que aprendera depois de anos nas estradas, e foi assim que notou primeiro os soldados, não muitos, mas mais do que seria normal para um lugar como aquele, homens usando o brasão da Casa Orn costurado nos mantos, sentados em mesas ou encostados nas paredes das tavernas enquanto bebiam; alguns riam alto, outros falavam baixo demais, e Irvan já vira esse tipo de silêncio antes, o silêncio de homens que sabem que algo está vindo mas ainda não sabem exatamente quando; ele parou diante de uma estalagem chamada A Lua Partida, cujo letreiro mostrava um disco lunar rachado ao meio por uma espada pintada de forma grosseira, e ao entrar encontrou o tipo de lugar que não fazia perguntas desnecessárias — bancos de madeira gastos, um balcão grosso cheio de marcas de faca e um grupo de homens reunidos perto da lareira onde um velho tocava alaúde; Irvan pediu cerveja e pão, pagou sem discutir o preço e sentou-se em um banco onde pudesse ver a porta, e enquanto bebia percebeu que o velho alaudista não tocava apenas música qualquer, mas uma das canções antigas de Kaal, aquelas que falam de cavaleiros e guerras passadas; a voz do homem era rouca, mas firme, e logo Irvan reconheceu o nome que surgia entre os versos — Sir Girlan Zorna, o quebra-elmo — e como acontece com muitas histórias que sobrevivem ao tempo, a canção misturava memória e exagero em partes iguais; o narrador da história cantada explicava que, cento e três anos antes daquele tempo, quando Kaal marchara pela primeira vez contra o Império de Asaba, dois guerreiros chamados Muna’Kushan — um título de elite entre os soldados de Asaba — haviam enfrentado Girlan em campo aberto, confiantes na fama de suas armaduras negras e lâminas curvas, mas o cavaleiro de baixa casa os derrubara um após o outro, quebrando seus elmos com golpes tão fortes que os bardos juravam que o som ecoara pelo vale como martelo batendo em sino; Irvan bebeu mais um gole enquanto ouvia, pensando que talvez metade daquela história fosse mentira, mas mesmo assim os homens ao redor ouviam como se cada palavra fosse verdade pura, e talvez isso fosse o que realmente importava; depois da canção, um dos soldados da Casa Orn levantou-se e bateu na mesa com o punho, pedindo outra música, e foi então que alguém mencionou outro nome que Irvan conhecia das histórias de estrada: Sir Matthus Mooncraster, chamado Lua Limpa, irmão do antigo rei Markus Mooncraster, o Literário; a explicação, repetida entre goles de cerveja e risadas, dizia que Matthus fora o maior campeão de justas que Kaal já tivera, um homem que jamais perdera uma única disputa de lança, não importava se enfrentava nobres antigos ou jovens cavaleiros desesperados por fama; diziam que seu elmo polido refletia o sol como um espelho, e que por isso o apelido Lua Limpa surgira, pois quando ele baixava a viseira antes da carga parecia que uma lua branca avançava pelo campo de torneio; Irvan escutava tudo em silêncio, não porque acreditasse em cada palavra, mas porque sabia que histórias como aquelas não eram contadas por acaso, elas apareciam sempre que um povo começava a lembrar quem eram seus heróis, e povos costumam lembrar de heróis pouco antes de mandar homens para morrer; foi quando um dos soldados percebeu o silêncio de Irvan e virou-se para ele com um sorriso meio torto, daqueles que nascem entre o álcool e a curiosidade; “Você não é daqui”, disse o homem; Irvan apoiou o copo na mesa. “Sou de onde a estrada termina.” O soldado riu. “Então deve ter ouvido falar de Asaba.” O nome caiu sobre a mesa como uma pedra num lago; alguns homens olharam para os lados antes de responder, como se as paredes pudessem escutar; Irvan tomou mais um gole antes de falar. “Ouvi histórias.” O soldado inclinou-se mais perto. “E o que dizem nas estradas?” Irvan pensou por um instante antes de responder, porque homens bêbados gostam de respostas simples. “Dizem que reis gostam de guerra quando os celeiros estão cheios.” Houve um silêncio curto depois disso, seguido por algumas risadas nervosas, e o soldado levantou o copo. “Então beba conosco, viajante sem bandeira,” disse ele, “porque se as histórias estiverem certas, logo não faltarão homens querendo esquecer o mundo dentro de um barril.” Irvan levantou o copo também, mas enquanto a cerveja descia pela garganta ele não conseguia afastar a sensação de que as histórias cantadas naquela sala eram apenas a superfície de algo muito maior que começava a se mover nas profundezas do reino, algo que ainda não tinha nome nas bocas dos homens, mas que já caminhava silenciosamente pelas estradas de Kaal. Irvan não se lembrava exatamente de quando a conversa na estalagem terminara, apenas do calor pesado da cerveja descendo pelo estômago e da maneira como as vozes ao redor tinham se tornado um zumbido indistinto enquanto a noite avançava; ainda assim, como acontecia muitas vezes com homens acostumados às estradas, ele acordou cedo, antes mesmo de o sol atravessar completamente as janelas da estalagem A Lua Partida, e por alguns instantes permaneceu deitado olhando para o teto de madeira escurecida pela fumaça, ouvindo o ranger das tábuas e os passos de alguém descendo as escadas; sua cabeça estava pesada, mas não o suficiente para impedir o velho hábito de observar o mundo antes de se levantar, e foi assim que ele ouviu duas vozes discutindo do lado de fora, uma delas excitada demais para aquela hora da manhã; levantou-se, vestiu o manto e desceu para a rua ainda fria, onde a névoa baixa do Bosque Crepúsculo se espalhava entre as casas como se tivesse saído da própria terra; alguns homens caminhavam na mesma direção pela rua principal, e Irvan seguiu com eles sem perguntar nada, porque anos viajando haviam lhe ensinado que multidões raramente caminham sem motivo; não demorou muito para que a pequena praça da vila aparecesse diante dele, um espaço irregular cercado por casas de madeira e barris empilhados, onde um círculo de gente já se formava em torno de uma área de terra batida; dois homens estavam ali dentro, cada um segurando uma espada curta de treino, lâminas sem fio, mas pesadas o bastante para quebrar um osso se acertassem com força; Irvan aproximou-se devagar e ficou na borda da multidão enquanto o primeiro golpe era trocado, o som seco do metal ecoando pela manhã; competições de um contra um não eram raras nas vilas de Kaal, especialmente onde soldados e lenhadores se misturavam, e embora alguns chamassem aquilo de treino, a verdade era que muitas vezes servia apenas para provar quem era mais duro ou mais rápido; o homem mais alto atacou primeiro com um golpe amplo que o outro bloqueou com dificuldade, e a multidão reagiu com gritos e risadas como se aquilo fosse um espetáculo comum, o que de certa forma era; Irvan observava com olhos atentos, não tanto pela luta em si, mas pelos homens que assistiam, pois entre eles havia novamente soldados da Casa Orn, mais do que ele esperaria encontrar em uma vila de madeira cercada por árvores; os combatentes trocaram golpes por alguns minutos até que um deles escorregou na terra úmida e recebeu uma pancada forte no ombro que o derrubou de lado, arrancando aplausos da multidão; quando a luta terminou, um homem com chapéu largo recolheu algumas moedas de apostas e anunciou que outro duelo começaria em breve; Irvan permaneceu ali, cruzando os braços enquanto observava mais dois homens entrarem no círculo, desta vez um jovem com postura rígida e um veterano de barba grisalha que segurava a espada com calma demais para alguém prestes a lutar; ao lado de Irvan um homem de nariz torto comentou com o amigo: “Treinam mais agora do que no inverno passado.” O amigo respondeu: “Claro que treinam. Se a guerra vier, quem você acha que vai marchar primeiro?” O primeiro homem cuspiu no chão. “Se vier.” O segundo deu de ombros. “Sempre vem.” Irvan ouviu aquilo sem virar a cabeça, sentindo novamente aquele peso indefinido no estômago que já o acompanhara desde o Riacho Hilário; no centro do círculo o jovem atacava com energia demais, enquanto o veterano desviava com movimentos pequenos e eficientes, e quando finalmente decidiu encerrar a luta bastou um único golpe no pulso do rapaz para fazer a espada cair na terra; houve risadas, algumas vaias, e logo alguém começou a falar sobre antigas justas e campeões lendários, como sempre acontece quando homens assistem a lutas pequenas e começam a imaginar lutas maiores; o nome de Sir Matthus Mooncraster apareceu novamente entre as vozes, e um velho sentado num barril começou a explicar para um grupo de jovens como o cavaleiro chamado Lua Limpa jamais perdera uma justa, nem mesmo contra os nobres mais antigos de Kaal, dizendo que Matthus parecia prever o movimento da lança adversária antes mesmo da carga começar; Irvan escutou metade da história enquanto o sol finalmente atravessava as árvores e iluminava a praça com uma luz pálida; havia algo curioso na maneira como aqueles homens falavam de cavaleiros mortos e torneios antigos, como se a lembrança daquelas glórias fosse uma forma de preparar o espírito para tempos mais duros; depois de algum tempo Irvan deixou a multidão para trás e caminhou pela rua da vila em direção ao pequeno mercado que começava a abrir suas barracas; comprou um pedaço de queijo duro e um pouco de pão, comendo devagar enquanto pensava no que faria a seguir; ele não tinha motivo para permanecer ali por muito tempo, pois viajantes sem bandeiras raramente criam raízes em lugares onde começam a reconhecer muitos rostos; ainda assim havia mais uma parte de Wurm que ele pretendia ver antes de seguir adiante, um lugar cujo nome sempre aparecia nas conversas das estradas — Faminto Vagaroso; o nome parecia estranho à primeira audição, mas muitos lugares antigos carregavam nomes nascidos de histórias esquecidas, e algumas dessas histórias sobreviviam apenas nas bocas de velhos bêbados e bardos cansados; Irvan passou por uma fileira de casas baixas e chegou ao caminho que saía da vila em direção ao sul da cidado de Wurm, um caminho estreito onde a terra se tornava mais seca e as árvores começavam a rarear; enquanto caminhava, o vento carregava o cheiro distante de fumaça e algo mais difícil de identificar, talvez carne assada ou peixe seco, e conforme o sol subia o movimento na estrada aumentava — mercadores, camponeses, dois soldados montados que passaram sem dizer palavra; Irvan continuou andando, mastigando o último pedaço de pão enquanto observava as colinas suaves ao redor, pensando que aquela paisagem tranquila escondia mais tensão do que parecia; a guerra ainda não tinha começado, ninguém havia proclamado marcha ou erguido estandartes, mas nas estradas, nas tavernas e nas pequenas competições de espada entre homens comuns, já era possível sentir a presença dela, como um trovão distante que ainda não se vê no céu, mas que todos sabem que chegará mais cedo ou mais tarde; quando finalmente o caminho se abriu para uma área mais larga da estrada, Irvan viu ao longe as primeiras construções espalhadas do lugar chamado Faminto Vagaroso, e enquanto caminhava naquela direção teve a sensação de que aquele seria o último pedaço de Wurm que veria antes de decidir qual estrada seguir depois, porque o destino de um viajante sem bandeiras raramente se prende a uma única terra, mas às vezes — apenas às vezes — ele passa perto o suficiente da história para sentir o vento que ela levanta antes mesmo de começar. Irvan chegou a Faminto Vagaroso quando o sol já havia passado do meio do céu e começava a descer lentamente em direção às colinas baixas de Wurm, e à primeira vista o lugar parecia exatamente como tantos outros pontos de parada espalhados pelas terras de Kaal: um amontoado irregular de casas de madeira, galpões de pedra baixa, estábulos improvisados e tavernas construídas com mais pressa do que cuidado, tudo organizado ao longo de uma estrada larga onde poeira e lama disputavam espaço conforme o humor das estações; ainda assim havia algo naquele lugar que explicava o nome estranho, pois quem caminhava ali percebia rapidamente que as pessoas pareciam viver sempre à beira de duas coisas — fome ou viagem — e por isso o fluxo de gente nunca parava completamente; mercadores passavam com carroças rangendo sob o peso de sal, couro ou peixe seco, lenhadores chegavam das matas com os ombros cobertos de serragem e viajantes como Irvan apareciam sem anunciar origem nem destino, procurando apenas um lugar onde gastar algumas moedas e descansar antes de seguir adiante; o viajante sem bandeiras caminhou pela rua principal observando tudo com o olhar calmo de quem aprendeu a medir lugares pelos detalhes: quantos homens carregavam facas visíveis, quantas portas permaneciam abertas mesmo no meio da tarde, quantos cães dormiam sem levantar a cabeça quando alguém passava; Faminto Vagaroso não era exatamente perigoso, mas também não era gentil, e essa mistura era comum nas vilas que cresciam nas margens das estradas comerciais; ele parou primeiro numa pequena venda onde comprou uma tira de carne seca e um copo de cerveja rala que tinha mais gosto de cevada molhada do que de bebida, e enquanto mastigava devagar apoiado num barril observou dois homens discutindo sobre o preço de uma mula, um garoto correndo atrás de uma galinha e uma mulher gritando de uma janela para que alguém trouxesse lenha antes do anoitecer; eram cenas comuns, pequenas coisas que compunham a vida real das terras de Kaal muito mais do que as histórias de cavaleiros e guerras que os bardos gostavam de cantar; depois de algum tempo caminhando, Irvan encontrou o tipo de lugar que sempre acaba surgindo em vilas de estrada: um bordel que também funcionava como taverna, identificado por um letreiro simples mostrando uma rosa vermelha pintada de forma grosseira; ele empurrou a porta e entrou sem pressa, sentindo imediatamente o ar mais quente e o cheiro misturado de perfume barato, vinho e madeira antiga; algumas mesas estavam ocupadas por homens que bebiam enquanto conversavam com mulheres sentadas em seus colos ou apoiadas nos encostos das cadeiras, e atrás do balcão uma mulher de cabelos grisalhos contava moedas com expressão prática demais para qualquer romantismo; Irvan aproximou-se e pediu vinho, deixando duas moedas sobre a madeira; a mulher levantou os olhos e o observou rapidamente, como quem avalia se um cliente vai causar problemas; “Quarto ou companhia?” perguntou sem rodeios; Irvan respondeu com um leve sorriso cansado. “Talvez os dois, mas primeiro o vinho.” Ela pegou uma garrafa, encheu uma caneca de barro e empurrou para ele. “Então comece devagar, viajante.” Ele bebeu um gole longo e sentiu o calor espalhar-se pelo peito enquanto observava o salão; uma das mulheres aproximou-se pouco depois, uma jovem de cabelos escuros e olhar curioso que se apoiou no balcão ao lado dele; “Você não é daqui,” disse ela, inclinando a cabeça; Irvan respondeu sem olhar diretamente para ela. “Nem de muitos outros lugares.” Ela riu baixo. “Esses são os piores. Nunca ficam.” “Os melhores também não,” respondeu ele, dando outro gole; conversaram um pouco, coisas simples — de onde ele vinha, se já tinha visto o mar, quantos anos ela achava que ele tinha — e embora Irvan não acreditasse muito nessas conversas que acontecem entre vinho e trabalho, havia algo confortável na normalidade daquele momento; mais tarde ele subiu as escadas com ela para um quarto pequeno onde a janela deixava entrar o som distante da estrada, e por algum tempo o mundo lá fora deixou de importar, como tantas vezes acontece quando um homem cansado encontra uma cama quente e companhia humana; quando desceu novamente o céu já estava escuro e o salão do bordel estava mais cheio, as vozes mais altas e o vinho correndo com menos cuidado; Irvan sentou-se em outra mesa, pediu mais bebida e passou algum tempo ouvindo histórias aleatórias — um mercador reclamando de impostos da Casa Orn, um caçador dizendo que tinha visto um lobo grande demais para ser normal nas colinas, dois jovens discutindo qual deles conseguiria beber mais antes de cair da cadeira; o viajante sem bandeiras bebeu o suficiente para sentir o peso agradável do álcool nos músculos, mas não tanto a ponto de esquecer onde estava, e foi por isso que percebeu o homem aproximando-se antes mesmo de ele falar; era um sujeito magro, com barba rala e olhos atentos demais para alguém que fingia estar bêbado; ele parou ao lado da mesa de Irvan e apoiou uma mão pesada no ombro dele; “Você parece ter moedas, amigo,” disse com um sorriso torto; Irvan levantou os olhos devagar. “E você parece ter problemas.” O homem riu, mas não era um riso feliz. “Talvez possamos resolver os dois.” Algumas pessoas próximas já estavam observando, porque brigas são quase inevitáveis em lugares onde o vinho é barato e as moedas escassas; Irvan suspirou levemente e terminou o resto da bebida antes de se levantar; “Se vai tentar me roubar,” disse ele com voz tranquila, “pelo menos tente direito.” O homem respondeu tentando agarrar o cinto dele, mas estava lento demais, e Irvan desviou com um passo curto e empurrou o sujeito contra a mesa ao lado; a caneca de alguém caiu no chão e quebrou enquanto a multidão se afastava um pouco para abrir espaço; o ladrão tentou um soco desajeitado que Irvan bloqueou com o antebraço antes de acertar um golpe seco no estômago do homem; mesmo bêbado, Irvan ainda se movia como alguém que passara muitos anos nas estradas onde brigas são tão comuns quanto chuva; o homem tentou levantar uma faca curta que tinha escondida na cintura, mas Irvan segurou o pulso dele e torceu com força suficiente para fazer a lâmina cair no chão; depois disso bastou um empurrão final para mandar o sujeito de costas contra o piso de madeira; houve algumas risadas e alguém comentou que o ladrão tinha escolhido o homem errado naquela noite; Irvan respirou fundo, sentindo o álcool rodar um pouco mais forte na cabeça agora que a adrenalina passava, e recolheu a própria bolsa de moedas antes que alguém mais tivesse ideias semelhantes; o dono do lugar apareceu logo depois, um homem grande que olhou para o ladrão caído e depois para Irvan; “Se vai brigar aqui,” disse ele, “pelo menos compre outra rodada depois.” Irvan pegou uma moeda e jogou sobre a mesa quebrada. “Considere pago.” Depois disso ele saiu para o ar frio da noite, deixando o barulho do bordel para trás enquanto caminhava de volta para a estrada principal de Faminto Vagaroso; a lua estava alta e clara sobre as terras de Wurm, iluminando a poeira da estrada e os telhados tortos da vila; Irvan parou por um momento ali fora, respirando o ar fresco enquanto o mundo parecia silencioso outra vez, e pensou que aquela tinha sido apenas mais uma noite comum na vida de um viajante sem bandeiras — vinho, companhia, uma pequena briga e nenhuma promessa de amanhã — e talvez fosse exatamente assim que ele preferia que o mundo permanecesse, simples e imprevisível, mesmo que no fundo soubesse que além das colinas e das estradas tranquilas algo maior começava lentamente a se mover nas terras de Kaal.