Capítulo 1: O Palácio da Desconfiança
O sol da tarde atravessava os altos vitrais da minha sala, onde eu administrava o Império no Palácio Imperial de Luminus, projetando reflexos dourados e avermelhados pelas paredes de mármore branco.
No topo do distrito central, a torre principal, chamada de zona neutra, erguia-se como o coração político do império, o local onde as quatro raças fingiam coexistir em perfeita ordem.
No entanto, dentro do Palácio da Casa Imperial Humana, a atmosfera era tudo, menos harmoniosa.
Pilhas gigantescas de documentos e tratados comerciais acumulavam-se sobre minha mesa de madeira escura, cuja superfície polida refletia as enormes torres de papel.
Eu estava sentado na grande cadeira no centro da sala, profundamente entediado. Como segundo príncipe regente, o peso burocrático da Casa Humana frequentemente caía sobre os meus ombros, já que o meu irmão mais velho, Luki Van Luminus, primeiro príncipe humano, e o meu pai, o Rei Harold Van Luminus, estavam ocupados demais articulando manobras políticas para enfraquecer as outras raças.
Soltei um suspiro pesado, largando a pena de caligrafia sobre a mesa enquanto me reclinava na cadeira e coçava o meu cabelo castanho, que absorvia a luz solar vinda da janela. Ele já era bastante bagunçado, então desarrumá-lo um pouco mais não faria diferença.
— Mais um relatório sobre a taxação das minas dos Anões... e uma reclamação formal dos Elfos sobre o uso de magia de dominação territorial no leste...
Resmunguei em voz baixa, observando o teto ornamentado com o emblema da Casa Imperial Humana, uma balança cujo centro era dominado pela imagem de um leão, um símbolo que emanava autoridade e controle, bem típico de nós, humanos. O desenho no teto alinhava-se perfeitamente ao broche com a mesma insígnia preso ao meu ombro esquerdo.
— Eles realmente acham que pisar no calo uns dos outros vai trazer prosperidade para Luminus?
Nesse momento, ouvi batidas firmes e compassadas vindas da grande porta de carvalho do gabinete. A porta pesada abriu-se lentamente, com o ruído áspero da madeira atritando contra o chão.
— Com sua licença, Vossa Alteza.
Era Erich, o comandante da guarda pessoal da família real humana. Mais do que isso, ele era meu guarda-costas pessoal, respondendo diretamente às minhas ordens.
— Príncipe Kamio — disse Erich, curvando-se com respeito apesar do peso da armadura e das medalhas de honra, pousando a mão sobre o emblema do leão em seu peito, reluzente em autoridade e lealdade.
— Seu pai, o Rei Harold, solicita sua presença na sala do conselho auxiliar. Os preparativos para a Grande Reunião das Quatro Casas começaram, e a tensão entre os representantes já atinge um nível preocupante antes mesmo do evento principal.
Fechei os olhos por um segundo. A Grande Reunião ocorreria em poucos dias. Nela, todas as quatro famílias reais se reuniriam na torre para deliberar sobre os domínios territoriais, políticos e econômicos do império, contudo, o ambiente já se mostrava tóxico.
Levantei-me da mesa, ajeitando a gola da minha veste real ligeiramente desbotada.
— Erich... diga-me com sinceridade. Há alguma chance dessa reunião terminar sem que o Rei dos Dragões tente incinerar um diplomata anão, ou meu pai tente chantagear os elfos?
Perguntei em tom leve, com um sorriso irônico nos lábios, fixado com meus olhos âmbar o rosto de Erich, cujos cabelos avermelhados refletiam a luz solar.
Ele manteve a expressão sóbria, embora estreitasse levemente os olhos verdes em minha direção. Eu conseguia ver os traços de um rosto severo e a sutil cicatriz na bochecha esquerda, marcas de anos de batalhas e experiências duras que ele enfrentara, embora naquele instante transparecessem uma discreta resignação.
— Vossa Alteza sabe a resposta. A Casa dos Dragões-Humanoides exigem supremacia militar, a Casa Élfica exige o controle absoluto das linhas de mana, os Anões controlam a economia, e seu pai deseja que os Humanos dominem a política. A harmonia é apenas uma fábula para o povo comum.
— Uma fábula que deveria ser a nossa realidade... — murmurei, caminhando em direção à saída do gabinete.
Ao sair para o corredor circular do palácio, observei pela janela o movimento das comitivas. Ao longe, diplomatas e guardas de diferentes raças encaravam-se com desconfiança e desprezo mútuo no trajeto até a torre central.
Continuei meu caminho pelo corredor. Erich caminhava ao meu lado, acompanhado como sempre de sua espada veterana presa à cintura. A lâmina estava levemente desgastada, mas ele recusava-se a trocá-la, dizia carregar ali uma memória muito valiosa, sem jamais revelar os detalhes.
— O Rei espera que o senhor assuma uma postura mais firme hoje. Seu irmão mais velho, Luki, já declarou publicamente que nós, humanos, não cederemos um centímetro de poder. Se o senhor continuar demonstrando essa postura conciliadora, os nobres da nossa própria casa começarão a duvidar de sua aptidão para a sucessão.
Parei por um instante na sacada à frente, que oferecia uma vista deslumbrante. Contemplei a imensa capital de Luminus lá embaixo, onde humanos, elfos, anões e dragões viviam misturados no cotidiano, trabalhando e convivendo em harmonia, um contraste gritante com a ganância dos líderes no topo do palácio.
— Será que não existe a possibilidade de convivermos em paz no futuro? Quero dizer... no fundo, somos todos iguais.
Suspirei suavemente e me afastei da sacada, retomando o passo lento em direção à Sala do Conselho Auxiliar.
O corredor era extenso, e o som dos meus passos ressoava ao longo do tapete carmesim. Erich me acompanhava um passo atrás, em silêncio respeitoso, ciente dos pensamentos e das incertezas que me inquietavam.
Quando os guardas abriram as pesadas portas de carvalho adornadas em relevos dourados, o ruído da sala me atingiu com força. O aposento era suntuoso, dominado por uma mesa circular de mármore cinzento onde repousava um detalhado mapa estratégico do império.
Ao redor dela, a tensão era palpável. No ponto mais alto da cabeceira, sentado em uma poltrona que se assemelhava a um trono, estava meu pai, o Rei Harold.
— ...A Casa Humana não vai tolerar mais atrasos no fornecimento do minério de mithril! — esbravejava ele, golpeando a mesa com o punho fechado no exato instante em que entrei. — Se os Anões continuarem reduzindo a produção com a desculpa de "manutenção das minas", consideraremos isso uma quebra de acordo comercial!
Um diplomata anão, de barbas trançadas e trajes rústicos porém opulentos, levantou-se bufando, com o rosto afogueado de irritação.
— É manutenção de fato, Majestade! As galerias profundas estão instáveis por causa do uso desmedido de magia de extração que os seus magos humanos vêm realizando sem a nossa autorização! Se continuarem assim, a montanha inteira vai desabar!
Meu pai estreitou os olhos, prestes a ordenar a expulsão imediata do diplomata, quando notou minha presença.
— Atrasado como sempre, Kamio — declarou ele. Seus olhos frios, de um tom carmesim desbotado, pareciam perfurar a minha alma enquanto sua voz cortante ecoava pela sala. O ambiente silenciou-se de imediato.
— Aproxime-se. Estávamos justamente discutindo a firmeza com que devemos tratar nossos "parceiros" na Grande Reunião. Venha e tome seu lugar ao meu lado para aprender como um verdadeiro governante se impõe.
Dei alguns passos à frente. Sentia o peso dos olhares de todos os presentes: nobres humanos gananciosos, anões desconfiados e diplomatas elfos e dragões observando o impasse do fundo da galeria com nítido desprezo.
Apoiando a mão suavemente no encosto de uma cadeira vaga, mantive a postura ereta. Meu olhar sereno sustentou a expressão austera de meu pai.
— Acredito que impor a força antes de ouvir a razão apenas demonstra a fragilidade de nossa própria posição, meu pai — ponderei com voz calma e firme. — Se as galerias estão instáveis devido aos nossos próprios métodos mágicos, exigir que trabalhem mais rápido só nos trará desabamentos em vez de mithril. Uma aliança genuína requer cooperação, não ameaças.
Um silêncio sepulcral tomou conta do recinto. O diplomata anão piscou, surpreso com minha intervenção, enquanto meu pai tensionava o maxilar, a irritação evidente em seu semblante severo.
— Você confunde fraqueza com sabedoria, Kamio — respondeu ele em tom ameaçador. — A harmonia que você tanto idealiza não existe neste mundo. Apenas o poder garante a sobrevivência da nossa raça.
Você ainda não compreende, pai, pensei, olhando fixamente a frieza daquela imensa mesa de mármore.
A reunião encerrou-se sob um clima ainda mais gélido. Embora minha intervenção tivesse evitado o rompimento imediato com a Casa dos Anões, a fúria de meu pai era evidente.
Ao final da sessão, ele me encarregou de supervisionar pessoalmente a vistoria do Depósito de Mantimentos na Torre Principal, uma tarefa exaustiva e puramente burocrática, deliberada para me punir pela ousadia.
Horas se passaram. A noite já cobria a capital imperial quando finalmente concluí os relatórios na ala norte. Exausto da falsidade dos nobres e daquele ambiente opressivo, caminhei até o Corredor de Vidro, uma passagem elevada ladeada por vitrais translúcidos que ligava a ala dos humanos à ala neutra da Torre Principal.
Lá do alto, a lua cheia banhava as nuvens e os jardins do palácio.
— Você realmente não facilita as coisas para si mesmo, jovem mestre — comentou Erich, aproximando-se sem fazer ruído e pousando sobre meus ombros uma capa espessa para conter o vento frio da noite.
— Se eu me calasse, Erich, seria cúmplice dessa loucura — respondi, apoiando as mãos na sacada envidraçada e fixando o olhar nas luzes da capital.
— Eles estão tão cegos pelo poder que não percebem que este império é como um castelo de cartas. Se uma raça ruir, todas as outras cairão juntas.
— Ainda assim... desafiar o Rei diante dos embaixadores só fortalece a facção radical do seu irmão. Eles o consideram um "príncipe fraco".
Esbocei um leve sorriso irônico, erguendo os olhos em direção à lua, cuja luz prateada refletia em meus olhos âmbar.
— Deixe que pensem o que quiserem. Prefiro ser chamado de fraco a ser o responsável por causar uma guerra.
Enquanto a brisa noturna sussurrava pelas frestas do corredor, eu sabia que a contagem regressiva para a Grande Reunião havia começado e que o destino de Luminus estava prestes a mudar irrevogavelmente.
— E você, Erich? O que pensa sobre tudo isso?
Ele não respondeu de imediato. Deu dois passos à frente e parou ao meu lado. Suas mãos calejadas por décadas de batalhas, cobertas por manoplas de couro e aço, apoiaram-se na proteção da sacada. Ele soltou um suspiro profundo, e uma tênue névoa branca formou-se no ar gélido.
— O senhor me faz uma pergunta perigosa, jovem Mestre — disse ele, com a voz grave ressoando no corredor deserto. — Se qualquer outro nobre ou guarda fiel ao seu pai me ouvisse responder com total sinceridade, minha cabeça estaria rolando pelos degraus da torre antes do amanhecer.
Erich fez uma pausa e me olhou de canto. Ao virar o rosto em sua direção, percebi em seu olhar uma mistura de respeito e profunda melancolia.
— Mas, já que pede a minha opinião... sirvo à Casa Humana há mais de quinze anos. Vi guerras de fronteira, batalhas sangrentas contra os dragões nas montanhas do norte e pragas mágicas devastarem vilarejos inteiros. E, em cada uma dessas tragédias, quem pagou o preço mais alto nunca foram os reis ou os príncipes em seus salões confortáveis.
Erich indicou com o olhar as luzes da cidade lá embaixo, onde milhares de famílias de diferentes raças dormiam alheias às tramas do palácio.
— Quem sangra são os soldados, os camponeses, os mercadores. O anão que perde sua forja por taxas abusivas, o elfo que vê sua floresta arder pela ambição alheia, ou o humano que tomba na linha de frente pelo capricho de um monarca. O que acontece hoje neste palácio não é política, Vossa Alteza... é um jogo de egos.
Ele ajustou o cinto da espada, contemplando as estrelas.
— Eu concordo com o seu ideal. O mundo precisa desesperadamente de harmonia. No entanto, a história ensina que a paz construída apenas com flores e discursos gentis costuma ser esmagada pela bota do primeiro tirano que desembainha uma espada.
— A sua visão é nobre, meu Mestre... mas, para torná-la realidade, o senhor precisará ser muito mais do que um sonhador. Terá que cultivar a força necessária para proteger essa harmonia daqueles que pretendem destruí-la.
Erich virou-se para mim, pousando a mão espalmada sobre o peito e curvando a cabeça com uma reverência genuína, muito diferente do gesto protocolar que prestava ao meu pai.
— Se o senhor realmente decidir trilhar esse caminho árduo e unir as quatro casas, eu o seguirei até o fim. Não por obrigação ao trono humano, mas porque o senhor é o único nobre nesta cidade que ainda enxerga as pessoas além de suas raças.
O silêncio envolveu novamente o corredor de vidro, quebrado apenas pelo ondular suave dos estandartes imperiais à distância.
Dei uma risada discreta.
— É por isso que escolhi você como meu guarda-costas, Erich. Você compreende que não desistirei de buscar aquilo que eu acredito, mesmo que isso custe a minha vida...
— Mas não quero arrastá-lo comigo. Se a situação parecer sair do controle, quero que pegue suas coisas e fuja. Esqueça-me. Você ainda tem muito pelo que viver.
Voltei a contemplar Luminus iluminada, sentindo um misto de melancolia e firme convicção.
Erich manteve a cabeça baixa por um momento, absorvendo minhas palavras. Quando ergueu o rosto, sua expressão austera carregava surpresa e consideração. Ele deu uma leve risada anasalada e ergueu a cabeça devagar.
— O senhor realmente não compreende o coração de um velho soldado, compreende, jovem Mestre? — disse ele, descansando a mão sobre o pomo da espada.
— Pedir a um cavaleiro que fuja para salvar a própria pele enquanto aquele a quem jurou lealdade se lança às chamas... isso seria uma desonra pior do que a morte.
Ele deu meio passo à frente, nivelando seu olhar ao meu. Naquele momento, não vi diante de mim apenas o guarda juramentado, vi um companheiro leal com quem sempre poderia contar.
— Minha vida serviu a este império e a muitos líderes, mas hoje ela serve à sua causa. Se o futuro nos reserva uma tempestade, que venha. Nós a enfrentaremos juntos, Vossa Alteza.
O vento soprou um pouco mais forte, agitando a capa contra a sacada. O silêncio que se seguiu não carregava mais hesitação, mas sim a certeza inabalável de dois companheiros unidos pelo mesmo propósito.