Capítulo 2: Um Rosto Florido
Dois dias se passaram, e o sol novamente nasceu no horizonte, cobrindo o Império de Luminus com uma luz dourada e radiante. Os sinos sagrados do distrito central ecoaram doze vezes, anunciando o início oficial do grande dia da Reunião das Quatro Casas.
O momento em que as comitivas das quatro raças do continente se reuniriam no Salão Neutro para debater os rumos, tratados e negócios do Império.
Antes mesmo que eu pudesse me perder nos meus pensamentos matinais sobre o peso daquela cúpula, uma batida polida, porém firme, ecoou pela madeira maciça.
Antes sequer de pensar em me levantar, escutei um estrondo. A porta abriu-se de maneira abrupta, e a própria rajada de vento causada pelo choque bateu como um chicote, fazendo o meu cabelo voar.
— Cheeefiiaaa!!
— Seu café da manhã!
Era ninguém menos que a própria Luna! Luna Kotaro é a empregada mestra da Casa Imperial Humana, responsável por cuidar e treinar as novas criadas. Porém... bem, ela tem uma personalidade um pouquinho elétrica demais...
— Aaqui Chefia, trouxe do jeitinho que você gosta! — Ela estendeu a bandeja em minha direção enquanto os seus olhos rosados pareciam estar se movendo igual a água.
Na bandeja de prata que ela carregava com firmeza, repousavam uma xícara de chá aromático e iguarias leves preparadas sob sua supervisão estrita.
Enquanto ela estava toda empolgada, movi-me sob os lençóis de linho, erguendo o tronco com lentidão. Sentado à beira da cama, esfreguei os meus olhos que ainda estavam pesados de sono, vencido por uma onda densa de preguiça matinal.
Soltando um suspiro arrastado.
— Bom... enfim é hoje, né?
Quando ela ouviu aquilo, sua postura polida vacilou por um segundo. Seu corpo começou a tremer de alegria, e seu liso cabelo lilás, que tocava os ombros, ficou arrepiado momentaneamente. Pensei por um instante que ela iria derrubar o meu café...
— Sim, Chefia! Não temos tempo pra parar! — exclamou ela, com o rosto iluminado por uma empolgação quase infantil, enquanto ajeitava a postura. — Termina aí seu café. Vou separar e preparar a sua melhor roupa pra reunião!
Ela fez uma expressão tão decidida que cheguei a temer o que prepararia para mim...
— Ah... tá... faz o que quiser... — respondi-lhe, deixando o meu corpo tombar levemente para o lado, em um gesto arrastado que transbordava a mais pura apatia e preguiça matinal.
Apesar da minha falta de entusiasmo, Luna não pareceu abalada. Com a eficiência de uma veterana, colocou a bandeja na mesa lateral e aguardou pacientemente enquanto eu me rendia ao meu próprio olfato.
O aroma doce e frutado invadiu o quarto assim que a tampa da porcelana fina foi levantada. Claro que não resisti: saboreei as iguarias quentes preparadas pelas cozinhas reais, finalizando a refeição com o emblemático chá aromático de mirtilo selvagem, uma bebida de coloração violeta translúcida cujo cultivo e preparo eram mantidos em sigilo absoluto, servindo como uma tradição milenar e exclusiva da nobreza da Casa Imperial Humana.
O calor reconfortante do chá acalmou um pouco a ansiedade que eu sentia.
Ao terminar de comer, a verdadeira operação de guerra da Luna teve início. Guiado por ela até os vestiários, vi as pesadas portas se abrirem minutos depois, revelando o resultado do rigoroso trabalho que fizera em mim.
Ela me vestiu em uma casaca formal da corte imperial em tecido azul-marinho profundo, ricamente adornada com bordados prateados em arabescos que desenhavam o contorno das mangas e da gola alta.
Dragonas ornamentadas com finas correntes de prata repousavam sobre meus ombros, enquanto uma faixa cerimonial cruzava meu peito, ostentando as condecorações menores da minha linhagem. O tecido impecável moldava minha silhueta com uma seriedade que parecia me envelhecer anos à frente. Eu estou tão velho assim?
Luna deu dois passos para trás, uniu as mãos na altura da cintura e arregalou os olhos, que brilhavam com um fulgor quase cósmico.
— Não ficou bãoo?! — exclamou ela, com as bochechas levemente coradas de pura euforia e um sorriso que ia de orelha a orelha, enquanto estrelas imaginárias faiscavam em seu olhar encantado.
Virei-me de perfil para o espelho de corpo inteiro, encarando o meu próprio reflexo com óbvia relutância. Puxei a gola alta da casaca, sentindo-me desconfortável.
— Eu não sei, não... — resmunguei, cruzando os braços com um suspiro pesado, sentindo-me sufocado por tanta nobreza. — Será que precisava de tudo isso mesmo? Não acha que é exagero? Vão me notar de longe... e eu não queria ser o centro das atenções.
Quando falei isso, o sorriso radiante da Luna murchou por exato meio segundo. Com um suspiro resignado, inflou o peito, deu um passo decidido em minha direção e, com movimentos rápidos e precisos, ajeitou minha gola e as dragonas do casaco, enquanto endireitava a minha postura à força.
— Que nada, chefia! — replicou Luna, com um tom de voz que não aceitava tréplica, embora carregado de um carinho maternal inegável. — Hoje não é qualquer dia! No Salão Neutro, você não é apenas o jovem Kamio, você é o reflexo da dignidade, do poder e da soberania da Casa Imperial Humana diante das comitivas dos Elfos, dos Anões e dos Dragões.
Ela recuou um pouquinho, cruzando os braços com satisfação enquanto avaliava a obra-prima que havia vestido em mim.
— Se aqueles representantes das outras raças perceberem qualquer desleixo excessivo em nossa comitiva, eles nos chamariam de fracos!! O traje é mil maravilhas! Serve perfeitamente pra qualquer coisa e exala a imponência que o seu cargo tem que ter. Então, trate de aceitar os elogios e erguer essa cabeça!
Revirei os olhos diante da palestra motivacional matinal da minha "adorada" empregada favorita, mas sabia muito bem que discutir com Luna quando ela assumia sua persona de general dos criados era uma batalha perdida antes mesmo de começar.
— Arrgh, tá bom... Você venceu — murmurei, ajeitando de forma contrariada os punhos da camisa rendada, enquanto lançava um olhar de sossego derrotado para ela. — Quer saber? Acho que você está passando tempo demais com o meu pai. Tá ficando igualzinho a ele com essa mania de rigidez e formalidade excessiva.
Assim que as fatídicas palavras saíram de minha boca e cruzaram os ouvidos de Luna, o tempo pareceu congelar nos aposentos reais.
Uma lufada de vento fantasmagórica varreu o corredor interior, e os olhos rosados de Luna se arregalaram em espanto absoluto. A cor sumiu de suas bochechas em segundos.
O impacto daquela comparação foi tão violento para o orgulho profissional dela que uma silhueta translúcida de tom azulado — a própria essência de sua alma — descolou-se fisicamente de seu corpo, flutuando a centímetros de altura por um breve e hilário instante de quase morte espiritual.
Comparada... ao R-Re-Rei??! Ao severo e implacável patriarca da Casa Imperial?!
As engrenagens da mente de Luna travaram por completo. Ela deu um passo para trás, quase tropeçando, levando as mãos trêmulas à altura do peito enquanto tocava com os dedos o emblema da Casa Humana em sua gola. Sua alma flutuante parecia prestes a vagar para os portões celestiais pelo puro choque.
— C-comparada... ao Re-Rei...?! — gaguejou ela, com a voz falhando terrivelmente enquanto o espírito voltava correndo para o corpo em um sobressalto dramático.
Depois de uma leve crise existencial, Luna recuperou a postura de imediato, tossindo disfarçadamente para limpar a garganta e ajeitando o broche do Leão com dedos trêmulos, embora o rubor de vergonha e indignação tivesse voltado a tingir todo o seu rosto.
— Cheefiaaa!! Como você ousa proferir uma blasfêmia dessas logo cedo?! — exclamou ela, indignada, mas incapaz de esconder o nervosismo com a associação. — Eu sou apenas uma humilde serva dedicada à moderação e aos bons costumes da coroa! O Imperador é... bem... Sua Majestade é incomparável! Eu jamais ousaria...
*Olha só ela reverenciando o meu pai novamente*, pensei. *Casa logo com ele, mulher!*
Luna cruzou os braços novamente, tentando erguer o que restava de sua dignidade estilhaçada, embora desviasse o olhar para o teto com um leve tremor de pânico por ter sido comparada, nem que de leve, ao meu pai.
Ao ver o desespero cômico e a indignação genuína de Luna, o canto da minha boca curvou-se em um sorriso sincero que logo se transformou em uma risada leve, contagiando o clima tenso do aposento.
— Bem, eu vou indo. Tenho que encontrar o Erich antes que ele surte achando que fugi pela janela. Ah, e... se puder organizar o meu quarto, por favorzinho? — pedi a ela, virando-me para trás no último segundo com os olhos arregalados e uma expressão de coitado absolutamente teatral e inocente, piscando os cílios de forma calculada.
As portas pesadas de madeira fecharam-se atrás de mim, deixando para trás a aura caótica e divertida do quarto.
Segui pelo vasto corredor do palácio imperial, pisando com firmeza sobre os tapetes de um tom carmesim profundo que abafavam o som de minhas botas. Nas paredes laterais, arandelas ornamentadas em ouro puro sustentavam lustres de cristal cujos reflexos dançavam ao sabor da luz matinal, ostentando toda a opulência arquitetônica imperial.
Não demorou muito para que eu avistasse a familiar silhueta plantada logo à frente.
Apoiado contra uma coluna de mármore branco, de braços cruzados e com uma expressão de quem já estava perdendo a paciência, encontrava-se Erich. Ele me aguardava ao lado do corredor, ostentando sua armadura prateada impecável para ocasiões especiais e a postura inflexível de quem contava os segundos no relógio.
— D-desculpe a demora! Vamos indo?
Seguimos juntos pelo corredor, enquanto ele resmungava e reclamava da minha falta de pontualidade e eu tentava me justificar com desculpas esfarrapadas.
Ao virar a esquina do corredor, que levava ao Pátio das Estátuas, uma grande área aberta no primeiro nível da torre, um som suave e compassado chamou a minha atenção: era o farfalhar de tecidos finos misturado ao trote ritmado de montarias mágicas.
Quando olhei pela janela, logo abaixo, no portão de entrada norte da Torre Principal, uma comitiva acabava de cruzar as grades de ferro trabalhado.
Eram os representantes da Casa Élfica.
Diferente da marcha ruidosa e imponente dos humanos, os elfos moviam-se com uma elegância quase irreal. Trajavam túnicas em tons de verde-musgo, prateado e azul profundo, tecidas com fios de seda de mana que brilhavam sutilmente sob a luz do sol. Carregavam também estandartes com o emblema da flor de lótus prateada, o símbolo da Casa Imperial Élfica.
Erich parou ao meu lado, também observando pela janela.
— A comitiva da Casa Élfica chegou mais cedo do que o previsto — comentou Erich em tom baixo. — Normalmente eles evitam chegar cedo à Torre Principal antes da hora oficial do conselho.
Cruzei os braços, fixando o olhar na procissão silenciosa.
No centro da comitiva, cercada por guardas de elite com arcos longos e armaduras de mithril, caminhava uma figura envolta em um manto florido com o capuz suavemente puxado sobre o rosto.
Por um breve segundo, senti algo passar pelo meu peito, como se percebesse a presença de alguém me observando. A figura misteriosa parou no meio do pátio e ergueu suavemente a cabeça na direção da janela onde eu estava com Erich.
O capuz da túnica escorregou levemente para trás, permitindo que a luz do sol revelasse apenas uma fração do rosto dela. Pude ver traços delicados, uma pele pálida como a neve, orelhas longas e bem definidas e fios de cabelo prateados que pareciam reluzir e se movimentar com a própria magia do ar.
Mas o que realmente chamou minha atenção foram os olhos: mesmo parcialmente cobertos pela franja, vi um tom profundo de azul-violeta que parecia carregar uma melancolia tão intensa quanto a minha.
Essa jovem elfa manteve o contato visual comigo por apenas dois batimentos de coração antes que um dos guardas da comitiva se aproximasse, curvando-se e pedindo que continuasse a caminhar para dentro das instalações reservadas.
Ela voltou a puxar o capuz sobre o delicado rosto e seguiu adiante, desaparecendo sob o arco da entrada da ala reservada aos elfos.
— Quem era aquela...? — murmurei para mim mesmo, enquanto sentia uma estranha inquietação no peito.
— A Princesa Regente da Casa Élfica — respondeu Erich, notando o meu olhar fixo na jovem. — Sylph Van Luminus. Dizem que ela é tão reclusa quanto talentosa nas artes da magia antiga. É a primeira vez que deixa a capital élfica para representar pessoalmente o Rei Elfo nesta reunião.
Mesmo após a comitiva élfica ter entrado, continuei com os olhos fixos no portão de entrada, curioso e pensativo. Com certeza algo estava diferente, de todos os representantes políticos que já observei, ela foi a primeira que não me olhou com desprezo.