Capítulo 3: A Grande Reunião Imperial — Parte I
Permaneci parado na sacada por mais alguns momentos, encarando o portão vazio por onde a comitiva élfica acabara de passar.
Aqueles olhos violeta... não pareciam os olhos de alguém que desejava a supremacia ou a guerra. Havia algo diferente neles, uma busca contida por compreensão, um olhar sutil de paz que contrastava com a rigidez de todo o resto.
— jovem Mestre? — chamou Erich, percebendo que eu havia me perdido em devaneios. — Devemos nos preparar para a reunião. Ela começará em uma hora.
Pisquei, voltando à realidade, e dei um leve aceno com a cabeça.
— Você tem razão, Erich. Vamos.
Enquanto caminhávamos pelos corredores rumo à Torre Neutra, minha mente simplesmente não conseguia se afastar daquela breve troca de olhares. O destino parecia estar movendo peças invisíveis no tabuleiro de Luminus, e aquela reunião marcaria o início de algo que mudaria o rumo de todos nós.
Ao alcançarmos o centro da torre, as imponentes portas de bronze do Grande Salão Neutro abriram-se de par em par.
O ambiente era monumental. Um teto abobadado em cristal límpido permitia que a luz do meio-dia iluminasse com precisão o centro da cúpula. No meio do salão, quatro grandes mesas elevadas, dispostas em um círculo perfeito, representavam as Quatro Casas Imperiais de Luminus.
O burburinho de vozes era ensurdecedor. Representantes, generais, magos e diplomatas de todas as raças discutiam aos gritos entre si antes mesmo da sessão ser formalmente aberta.
Na bancada da nossa comitiva, meu pai mantinha sua carranca habitual ao lado do meu irmão mais velho, Luki.
Aos vinte e nove anos, Luki é o 1º Príncipe e a personificação militar da nossa família. Com os mesmos cabelos castanhos curtos e os olhos carmesins intimidadores igual a do meu pai, ele vestia sua farda escarlate de alta patente com uma imponência agressiva.
Ao lado dos generais, ele cochichava ordens com um sorriso predatório de quem enxergava o mundo apenas como um campo de batalha a ser dominado.
Caminhei com a pouca compostura que me restava até o meu assento reservado. No entanto, ao erguer os olhos em direção à bancada diametralmente oposta a da Casa Élfica, meu olhar colidiu imediatamente com a jovem de cabelos prateados.
Sylph Van Luminus estava sentada no assento de destaque. De perto, sua presença era ainda mais impressionante, dona de uma beleza etérea, trajava um vestido nobre em tons de verde-musgo e branco, ostentando uma delicada tiara de mithril acima de sua franja.
Seus longos fios prateados caíam em ondas suaves, com duas mechas laterais elegantemente trançadas. Aquele mesmo par de olhos azul-violeta, profundos e cristalinos, mantinha uma compostura serena, mas emanava uma determinação silenciosa inegável.
*Baque!*
O estrondo seco de um cajado de pedra colidindo contra o piso fez o salão inteiro emudecer.
No centro exato do salão, o Mediador Ancião Neutro ergueu sua túnica cinzenta.
— Que a Grande Reunião das Quatro Casas Imperiais de Luminus comece! — declarou ele, com a voz ressoando pela acústica do domo. — Que a razão prevaleça e o equilíbrio do império seja mantido!
A paz não durou sequer dez segundos.
O Rei da Casa dos Dragões-Humanóides, um colosso de ombros largos, com escamas rubras cobrindo o pescoço e pupilas fendidas em um amarelo incandescente, levantou-se em fúria, desferindo um soco pesado contra a mesa de mármore.
— Chega de formalidades inúteis! — rugiu o monarca dracônico, fazendo a madeira tremer com o eco de um trovão. — A Casa dos Dragões não veio aqui para perder tempo com discursos vazios! Exigimos a revisão imediata do Tratado dos Limites Territoriais do Norte! Se as outras casas não cederem o acesso às veias de mana, consideraremos isso um ato de hostilidade aberta!
O caos explodiu.
Meu pai levantou-se na hora para retrucar a ameaça, o embaixador dos anões começou a berrar insultos em sua língua nativa e a delegação dos magos elfos se levantou em protesto indignado. A Grande Reunião mal havia começado e já parecia um barril de pólvora à beira da detonação.
Vendo aquele colapso iminente, senti um frio congelante subir pela espinha. O pânico de uma guerra iminente falou mais alto que o meu medo. Levantei-me da cadeira, sentindo minhas têmporas suarem frio enquanto reunia todo o ar dos meus pulmões.
— Já chega!! — gritei, com uma voz que soou inicialmente tímida, mas que rasgou o tumulto do salão. — Por favor! Isto é uma reunião diplomática formal! Não viemos aqui para brigar! Demonstrem o mínimo de respeito ao Salão Neutro!
Minha voz não tinha a potência ensurdecedora do Rei Dragão, nem a frieza implacável do meu pai. Mas ela carregava um apelo de razão tão direto que cortou o ar como lâmina.
Escondi minhas mãos trêmulas sob o tecido bordado do manto imperial, cerrando os punhos com força para que ninguém percebesse o quanto meu coração martelava contra a caixa torácica.
De repente, dezenas de pares de olhos, humanos, élficos, anões e dragões, fixaram-se em mim com espanto e desdém.
— O que pensa que está fazendo, Kamio?! — sibilou meu pai em um sussurro carregado de ódio, virando o rosto em brasa para mim. — Sente-se agora mesmo! Você não tem autoridade para interromper os soberanos!
Ao meu lado, Luki soltou uma risada baixa e venenosa, cruzando os braços com total deboche.
— Deixe o garoto passar vergonha, pai — zombou ele, com os olhos carmesins cheios de desprezo. — Olhem como ele treme. Nosso "príncipe pacifista" acha que palavras doces vão conter as presas de um dragão.
Do outro lado do salão, o Rei Dragão soltou duas baforadas de fumaça cinzenta pelas narinas, cravando seus olhos amarelados em mim.
— Um filhote de humano ousando nos dar sermões de postura? — rosnou ele, e a mana quente que emanava de seu corpo fez estalar o piso de pedra polida. — Respeito?! Onde estava o respeito da sua Casa quando os mercadores humanos tentaram estrangular nossas rotas no norte?!
A atmosfera tornou-se sufocante. Pelo canto do olho, vi Erich dar meio passo à frente, com a mão já encostada no cabo de sua espada veterana, preparado para qualquer investida contra mim.
Porém, antes que a situação desmoronasse em agressão física, uma voz límpida e melodiosa, carregada de uma harmonia mágica natural, ecoou pelo recinto.
— Acredito que o jovem príncipe humano está coberto de razão, Majestade.
O salão inteiro parou. Todos os olhares convergiram instantaneamente para a bancada élfica.
A Princesa Elfa havia se levantado com uma elegância inabalável. Apoiando as mãos delicadas à frente do vestido, ela sustentou o olhar furioso do Rei Dragão sem hesitar um único milímetro:
— Transformar o Salão Neutro em uma competição de gritos não trará soluções para as crises de fronteira nem para a escassez de mana — argumentou ela, com uma serenidade que desarmava qualquer exaltação. — Se viajamos até a Torre Principal, foi em busca de diálogo. Agredir quem pede ordem apenas demonstra a incapacidade desta assembleia em governar.
Murmúrios de espanto varreram as mesas dos anões e dos próprios nobres elfos.
A Princesa virou levemente o rosto em minha direção. Nossos olhares se cruzaram no meio do salão, e naqueles olhos violetas vi um aceno claro e silencioso de cumplicidade.
Meu pai trincou os dentes de pura frustração política, sem poder atacar a postura impecável da herdeira élfica, enquanto o Rei Dragão recuou meio passo, soltando um rosnado contrariado.
— Que patético... uma aliançazinha infantil entre herdeiros novatos — resmungou Luki, bufando ao meu lado com uma careta amarga.
Engoli a saliva que travava minha garganta e aproveitei a brecha que a Princesa havia aberto. Respirei fundo, endireitei a postura da casaca engomada e tentei adotar o tom mais firme e polido possível.
— O-obrigado, Princesa... — agradeci discretamente, antes de me voltar a todos. — Sugiro que iniciemos os trabalhos de forma ordenada. Cada casa apresentará suas pautas e demandas em sequência, começando pela Casa dos Dragões, por favor...
O Mediador Ancião não perdeu a oportunidade e golpeou o cajado no chão pela segunda vez.
— O Segundo Príncipe da Casa Humana tem a palavra e estabelece a ordem dos trabalhos! — proclamou o ancião. — Para assegurar a equidade, concedemos a fala à Casa dos Dragões-Humanóides. Vossa Majestade pode se manifestar.
O Rei Dragão bufou mais uma vez, mas cruzou os braços escamosos. O ímpeto de sua fúria fora completamente cortado pela intervenção dupla.
— Pois bem — rosnou o soberano dos dragões, a voz grave vibrando pela sala. — Nossa demanda é direta, a população dos territórios vulcânicos cresceu e necessitamos expandir para os vales férteis do leste. Contudo, barreiras de contenção mágica erguidas pelos humanos continuam bloqueando nossos comboios. Exigimos a desativação imediata desses bloqueios e a livre passagem de nossos suprimentos.
O clima belicioso deu lugar a uma disputa puramente diplomática.
Luki debruçou-se sobre a mesa em minha direção, zombando com veneno na voz.
— Belo trabalho, "mestre de cerimônias" — sussurrou ele. — Acha que ceder a palavra nos faz parecer generosos? Se perdermos um palmo de terra no leste, os comandantes considerarão sua intervenção como alta traição.
Ignorei meu irmão. Meu pai permanecia em silêncio, avaliando a proposta com seus olhos gélidos.
Do outro lado, A Princesa Elfa anotava pontos em um pergaminho com uma elegante pena de prata, erguendo o olhar apenas para me conceder um breve aceno de aprovação.
Atrás de mim, Erich inclinou-se suavemente para sussurrar.
— Jogada brilhante, jovem mestre. Eles foram forçados a dialogar. Mas mantenha a guarda, a réplica do seu pai será o teste definitivo.
Virei-me com formalidade em direção ao meu pai.
— Meu pai, vossa palavra. Concorda com as demandas? Se deseja propor os termos de negociação, o momento é este.
O Rei Harold ergueu uma sobrancelha, visivelmente surpreso pela compostura com que lhe transferi o comando das negociações sem hesitar. Ele ajeitou seus anéis de ouro e olhou o monarca dos dragões com um olhar estritamente calculista.
— A Casa Humana não ergueria defesas sem motivo, tampouco abrirá mão de território sem contrapartida — declarou ele, com voz fria e contundente. — No entanto... caso a Casa dos Dragões reduza em cinquenta por cento as tarifas alfandegárias sobre o minério de ferro vulcânico e aceite patrulhas mistas na fronteira do norte, estaremos abertos a liberar as rotas.
O Rei Dragão cerrou as pálpebras, digerindo as condições. O perigo de batalha aberta dera lugar a uma dura barganha econômica.
Luki estalou a língua em desgosto por não ver sangue derramado, enquanto eu sentia o alívio de Erich ecoar em um suspiro discreto às minhas costas.
A Princesa Elfa, percebendo que a primeira barreira havia sido superada, esboçou um sorriso sutil e quase imperceptível antes de voltar sua atenção aos seus próprios relatórios.
— A contraproposta foi apresentada — interveio o Mediador. — Enquanto os delegados analisam os termos, prosseguiremos com a pauta. A palavra agora pertence à Casa Élfica.
A Princesa levantou-se suavemente. O tecido azul de seu manto esvoaçava como água fluida, e partículas brilhantes de mana pura cintilavam ao redor de seus dedos conforme ela estendia a mão direita. No centro da mesa, uma projeção mágica ilusória desenhou as copas imensas das Grandes Florestas do Leste.
— A reivindicação dos elfos não diz respeito a terras ou minérios — começou ela, com uma voz doce que parecia purificar o ar pesado da cúpula. — Nossos bosques sagrados e os afluentes mágicos estão secando a um ritmo alarmante. Constatamos que a causa é a drenagem abusiva das veias subterrâneas de mana, conduzida tanto pela Casa dos Anões quanto pelas indústrias da Casa Humana.
Ela sustentou o olhar diretamente sobre mim, como se me convidasse a testemunhar a gravidade da situação.
— A mana de Luminus é um ciclo vital integrado. Se acabarem com o subsolo para alimentar maquinários e engenhos bélicos, o leste cairá — e, com ele, a sustentação mágica de todo o continente. Exigimos um tratado de preservação mútua e a redução imediata da mineração de cristais nas zonas de fronteira.
— Preservação de mato?! — zombou Luki na mesma hora, soltando uma risada gutural enquanto apoiava os cotovelos na mesa. — Enfrentamos escassez de recursos e a Princesinha Élfica nos pede para paralisar a produção por causa de árvores velhas? Que ridículo!
O ambiente congelou instantaneamente. Os guardas élficos ao fundo levaram as mãos aos arcos de mithril, ultrajados pelo desrespeito de Luki.
A Princesa, porém, sequer piscou. Ignorou a ofensa do meu irmão e manteve o foco em mim, aguardando para ver se a razão continuaria guiando a bancada humana.
Erich sussurrou rapidamente atrás de mim:
— Cuidado, Vossa Alteza. A extração de cristais financia grande parte do poder militar do seu irmão. Se você endossar a causa dos elfos agora, comprará uma briga direta com a nossa própria guarda.
Antes que a discussão escalasse, o embaixador anão adiantou-se, tossindo grosso para limpar a garganta:
— A Casa dos Anões reconhece a gravidade das correntes místicas — pronunciou o anão com relutância. — No entanto, um corte brusco na extração paralisaria nossas forjas. Sugiro um reajuste gradual das cotas de extração, sob inspeção técnica conjunta de artífices anões e magos élficos.
Meu pai anuiu com a cabeça, vislumbrando vantagem.
— A Casa Humana concorda com a revisão escalonada, desde que a Casa Élfica apresente relatórios mágicos quinzenais atestando os danos.
Ao ver que o diálogo havia vingado e o impasse fora contornado, A Princesa Elfa relaxou sutilmente a rigidez dos ombros. Ela fez uma reverência elegante.
— A Casa Élfica aceita a cooperação técnica e o envio periódico dos relatórios.
Antes de tomar o assento, aqueles olhos cristalinos voltaram a cruzar com os meus, me entregando um sincero e silencioso "obrigada".
*Baque!*
O cajado do Mediador soou novamente.
— Registrados os termos preliminares, encerramos a primeira rodada de apresentações! — anunciou o mediador. — Fica estabelecido um intervalo de duas horas para que as comitivas formulem os rascunhos oficiais antes da votação dos tratados!
O eco de conversas paralelas explodiu pelo salão conforme as comitivas começavam a se dispersar. Eu finalmente soltei o ar que nem sabia que estava prendendo, ciente de que havíamos vencido a primeira batalha daquele dia... mas o verdadeiro teste ainda estava por vir.