Capítulo 4: O Banquete Real
Após o encerramento da primeira parte da reunião, caminhei pelos corredores polidos em direção ao salão de festas e refeitório real, sentindo os meus ombros finalmente relaxarem alguns centímetros. A tensão de ter segurado o pavio aceso de um barril de pólvora no Salão Neutro havia drenado quase todas as minhas energias.
Atrás de mim, Erich mantinha uma distância respeitosa de dois passos, disfarçando a custo um sorriso diante da minha expressão de pura e dramática exaustão.
Ao cruzar as portas do suntuoso refeitório, o ambiente era de cortar a respiração. Mesas fartas de carvalho distribuíam-se pelo espaço, repletas de travessas de prata com assados opulentos da culinária humana, frutas exóticas vindas das rotas dos dragões, pães artesanais densos dos anões e iguarias refinadas preparadas pelos mestres cozinheiros élficos. Era uma fascinante fusão gastronômica das Quatro Casas Imperiais.
— O senhor lidou muito bem com a situação lá dentro, Vossa Alteza — comentou Erich, aproximando-se enquanto eu pegava um prato ornamentado de porcelana. — Embora o seu irmão pareça à beira de um colapso de fúria por não ter conseguido arrancar uma declaração de guerra imediata.
— Se o Luki quer tanto sangue, que vá para o campo de batalha sozinho — resmunguei com a voz arrastada, servindo-me de um pedaço de pão doce e enchendo uma taça com suco de frutas silvestres. — A única coisa que eu quero agora é comer em paz, sem que ninguém tente invadir o território alheio pelos próximos vinte minutos.
Afastei-me em direção a uma mesa isolada, próxima a uma grande janela circular com vista panorâmica para os jardins suspensos e as torres da cidade.
No entanto, a minha trégua durou pouco.
Ao puxar a cadeira para me sentar, notei uma movimentação sutil do outro lado do salão. A Princesa Elfa acabara de entrar no refeitório, acompanhada apenas por duas guardas de honra élficas. Seus olhos varriam a multidão de nobres que conversavam em grupos fechados, como se procurasse alguém específico.
Assim que os seus olhos cruzaram com os meus, me vendo sentado sozinho perto da janela, a Princesa fez um gesto discreto para que as suas guardas aguardassem à distância. Com passos graciosos e silenciosos, começou a caminhar na minha direção.
Atrás de mim, a postura de Erich entrou em alerta imediato. Ele deu um passo à frente, sussurrando com cautela.
— Vossa Alteza... a Princesa Elfa está vindo diretamente para a nossa mesa.
— Tudo bem, Erich. Deixe-a vir — respondi em voz baixa, mantendo a serenidade exterior apesar da batida acelerada no peito.
Erich assentiu em silêncio e recuou dois passos, posicionando-se ao lado da coluna de mármore com uma postura vigilante, mas neutra.
Conforme a Princesa se aproximava, um aroma suave de flores silvestres e orvalho da manhã precedeu a sua chegada. Ela parou a um passo da mesa e inclinou-se numa reverência graciosa.
— Com a sua licença, Príncipe Kamio né? — disse ela, com uma voz melodiosa que parecia ainda mais cristalina e doce de perto do que na acústica fria do salão. — Espero não estar interrompendo a sua refeição.
Ela lançou um olhar breve para o meu prato quase intocado e depois para as olheiras de cansaço no meu rosto, permitindo que um pequeno e sincero sorriso se desenhasse nos seus lábios.
— Gostaria de agradecer pessoalmente pelo que fez durante o conselho. Se não fosse a sua intervenção corajosa quando o Rei Dragão perdeu o controle, aquela assembleia teria terminado em massacre diplomático antes mesmo da primeira pauta ser votada.
Fiquei sem jeito com o elogio direto, sentindo o calor subir pelas bochechas.
— A-ah... sobre isso... o clima lá dentro parecia prestes a explodir e... bem, senti que se ninguém fizesse nada, o teto viria abaixo. Acabei apenas reagindo por puro desespero — confessei, rindo de forma contida e meio desconcertada.
A Princesa soltou uma risadinha suave, um som límpido que lembrava o tinir de pequenos cristais ao vento, parecendo apreciar a minha honestidade desarmada. Ela juntou as mãos à frente do corpo e reduziu o tom de voz para que a conversa permanecesse estritamente entre nós.
— Compreendo perfeitamente o sentimento, Príncipe Kamio. O peso dentro daquele salão é sufocante. Encontrar alguém que demonstre um pingo de sinceridade e humanidade real em meio a tantas máscaras e jogos de poder... foi um alívio inestimável.
Ela olhou de relance para as cadeiras vazias ao meu redor e voltou a fixar aqueles olhos hipnotizantes em mim.
— Se não for um incômodo... posso se sentar com você por alguns instantes? Creio que ambos merecemos uma pausa dos discursos vazios dos nossos anciãos.
— Claro! Fique à vontade, por favor — respondi com prontidão, afastando um pouco a minha bandeja para lhe dar espaço.
A Princesa puxou a cadeira de madeira trabalhada com extrema delicadeza e acomodou-se à mesa. Fez um aceno suave a uma das criadas, que logo lhe serviu um chá de infusão clara de ervas da floresta.
— Agradeço a hospitalidade — disse ela, contemplando a luz dourada que entrava pela janela circular. — Sabe, Príncipe Kamio... é curioso. Quem olha de fora pensa que todos os herdeiros reais anseiam apenas por mais coroas, terras e controle.
— Mas ao ouvi-lo falar hoje de manhã, tive a nítida sensação de que prefere mil vezes a tranquilidade de um dia comum a todo esta confusão imperial.
Ela virou o rosto para mim, despindo-se por completo da frieza cerimonial da corte élfica.
— A verdade é que compartilho exatamente do mesmo sentimento. Não desejo ver o meu povo dominar o continente à custa do sangue e da miséria alheia. Sonho com uma coexistência verdadeira... onde não precisemos nos encarar eternamente como inimigos em potencial. Mas pergunto a você, Príncipe Kamio... em um mundo governado por soberanos tão obstinados quanto os nossos, você realmente acredita que o nosso ideal tem alguma chance de florescer?
A pergunta pairou entre nós carregada de uma vulnerabilidade quase dolorosa.
— Eu entendo perfeitamente o que quer dizer... — comecei a responder, sentindo um nó me apertar na garganta. — Eu também me cansei de ver o sofrimento dos inocentes. No fim das contas, a função primordial de um governante não deveria ser proteger o seu povo?
Ao pronunciar aquelas palavras, o refeitório diante de mim desvaneceu-se enquanto eu comecei a encarar o chá que estava em minha mão. Minha mente foi violentamente arremessada de volta para o abismo escuro da minha infância.
*Eu tinha apenas oito anos.*
*Cansado dos deveres do Palácio Imperial, cometi a imprudência de escapar pelos fundos, vestindo uma túnica marrom desgastada e suja para esconder o meu rosto. Após uma caminhada difícil pelas rochas da floresta no lado exterior do palácio, o mundo real que encontrei além das muralhas fez o meu estômago revirar.*
*As ruas eram um mosaico vivo da miséria. Adultos, idosos e crianças amontoavam-se pelas calçadas empoeiradas, com olhares vagos e ocos. Não havia lágrimas, havia apenas o vazio. Os olhos daquela gente tinham uma saturação tão baixa, um cinza tão profundo, que refletiam a própria morte da esperança.*
*E os corpos... estavam tão emaciados que a pele parecia esticada diretamente sobre os ossos, esculturas trágicas de fome e abandono.*
*Ao avançar pelas estradas trincadas que levavam aos campos agrícolas nos arredores, meu rosto paralisou, totalmente congelado, lágrimas começaram a escorrer, elas refletiam a cor do sangue do que eu acabava de ver, o cenário se transformava em um museu de horrores.*
*Construções antes ativas e vastos campos agrícolas jaziam reduzidos a cinzas e lama. Carcaças de animais inchavam sob o sol, enquanto rastros de sangue seco manchavam a terra.*
*Espalhadas pelo caminho, máquinas de guerra retorcidas e equipamentos desgastados sussurravam a brutalidade do massacre, em suas lâminas, o sangue inimigo e inocente havia secado há muito tempo, transformando-se em crostas escuras.*
*Foi naquele exato dia que eu caí na realidade. Foi naquele exato dia que eu despertei.*
*Ao testemunhar a crueldade nua e crua, ao sentir o peso sufocante do sofrimento daquelas famílias, algo dentro de mim quebrou, para nunca mais voltar ao lugar. A dor do mundo cravou-se em minha alma como espinhos.*
*"— Eu não suportaria ver isso de novo..." — o eco daquela promessa silenciosa queimava em meu peito.*
*"— Eu não permitiria. Jamais deixaria que o inferno consumisse tudo o que eu amo uma outra vez."*
*Mergulhei ainda mais fundo em minha mente. Outra lembrança, implacável e cruel.*
*Desta vez, o cenário era o próprio coração do reino, de repente uma explosão avassaladora que deixaria qualquer um surdo, grandes nuvens pretas de fumaça se ergueram no ar, eu estava tão perto aquela hora, a apenas dezenas de metros, me aproximei com uma sensação cravada em meu peito, como se eu já estivesse esperando o pior.*
*Quando cheguei ao local, eu vi os escombros da torre do palácio real da ala humana, agora reduzida a uma montanha de destroços fumegantes.*
*E lá, em meio aos estilhaços de pedra, estava minha mãe, a Rainha.*
*O vestido que ela tanto amava, de um tom verde-jade tão radiante quanto a primavera, não existia mais. Havia sido inteiramente tingido por um vermelho denso, escuro, viscoso. O próprio sangue dela.*
*Em sua mão fria e sem vida, ela ainda apertava a sua coroa, o majestoso emblema do leão que coroava a casa imperial humana, agora manchado de sangue e arranhado, mutilado pela violência da queda.*
*Mas o que fez o meu coração se despedaçar ainda mais como a precisão de uma lâmina, foi o que estava ao lado.*
*Meu pai, o Rei Harold, o soberano imponente que costumava inspirar temor e reverência em todo o continente, estava de joelhos na poeira e nos cacos. As mãos grandes e trêmulas dele pressionavam inutilmente a barriga da mamãe, como se pudessem conter a vida que escapava por entre seus dedos.*
*Quando o meu pai ergueu o rosto e olhou para mim, me deparei com uma expressão que jamais, em mil anos, conseguiria apagar da memória.*
*Não era o olhar de um monarca. Não era a face de um guerreiro lendário. Era o rosto puro de um marido, a ruína absoluta de um ser humano que acabara de perder o seu único mundo para a tirania da guerra.*
Com a dor final, comecei a voltar a realidade enquanto ainda encarava a xícara de suco de forma trêmula entre minhas mãos por alguns segundos antes de olhar diretamente nos olhos da Princesa Sylph.
Apesar do passado conturbado, eu mantive uma expressão de determinação tranquila, a mesma de quando observava a cidade da varanda do palácio.
— Sendo bem honesto com você, Princesa Sylph... na maior parte do tempo, parece uma batalha perdida, — respondi a Princesa, com um sorriso fraco, porém sincero.
— Nossos pais e os velhos conselheiros foram criados na desconfiança. Eles só enxergam números, recursos e batalhas territoriais. Mas quando eu olho para a cidade lá embaixo... eu vejo mercadores humanos negociando com anões, crianças elfas e dragões brincando nos mesmos parques.
— O povo já vive em harmonia. Quem está desconectado da realidade somos nós, no topo dessa árvore.
inclinei-me ligeiramente para a frente, colocando o chá sob a mesa enquanto apoio os cotovelos, minha expressão ficou um pouco mais firme.
— Se tem chance de florescer? Acredito que sim. Mas não vai acontecer por milagre ou por um tratado assinado em um pedaço de papel. Vai exigir que a gente tenha a coragem de encarar essa estrutura, de arriscar a nossa própria posição para provar que há outro caminho.
— O fato de você e eu estarmos sentados aqui, pensando da mesma forma, já é a prova de que o futuro não precisa ser igual ao passado.
A Princesa Sylph piscou surpreendida, os olhos ligeiramente arregalados com a minha resposta direta e objetiva. O sutil distanciamento aristocrático que ela mantinha desmoronou por completo, dando lugar a um brilho genuíno de admiração mostrada pela sua face.
— Você é realmente um humano bastante peculiar, Príncipe Kamio... — disse ela, com um tom carinhoso que fez as minhas bochechas esquentarem um pouco...
— Geralmente os nobres da sua casa tentam me impressionar com títulos ou conquistas militares. Mas ouvir você falar assim... me faz sentir que não estou sozinha nessa luta.
Antes que o momento pudesse se aprofundar entre nós, a sombra imponente de Erich projetou-se discretamente ao meu lado da mesa.
— Com sua licença, Vossa Alteza, — disse ele em tom baixo e cauteloso, erguendo seu corpo levemente para baixo.
— O intervalo do conselho está prestes a terminar em dez minutos. O Primeiro Príncipe e seu pai já estão se dirigindo de volta ao Salão Neutro. Se virem os dois conversando a sós dessa forma, isso levantará suspeitas desnecessárias entre os conselheiros.
A Princesa Sylph suspirou suavemente, e com os seus elegantes dedos ajusta a tiara de mithril em sua cabeça enquanto se levantava da cadeira com a graciosidade habitual.
— O dever nos chama de volta ao teatro político, — disse a princesa, olhando para mim com um sorriso cúmplice. — Mas espero que este não seja o nosso último diálogo sincero, Príncipe Kamio.
— E não será Princesa... não será.. — me senti bem mais leve após essa conversa, fiquei observando a Princesa enquanto graciosamente se afastava de minha presença.
Me levantei também da mesa de forma abrupta e me dirigi ao salão neutro novamente.
— Vamos Erich!
Apesar de meu estômago embrulhar e sentir o meu corpo tremer só de pensar o que poderá acontecer nessa segunda parte da reunião, estou muito mais confiante e determinado em seguir o meu objetivo.
*Obrigado Princesa Sylph*