Capítulo 7 - O Amanhecer da Ratificação
O sol nasce novamente no horizonte tingindo o céu de tons amarelados e avermelhados. Os sinos do salão neutro começaram a soar por toda a torre principal, convocando os líderes para a cerimônia de assinatura dos tratados de paz e comércio.
— A..ahh.. De novo não! — levanto-me da cama, porém ainda sentado na beira, de maneira extremamente preguiçosa e com uma aparência totalmente desajeitada.
Sentado na cama, comecei a despreguiçar, levantando o meu braço direito para cima e inclinando o corpo levemente para a direção oposta, um estralo escandaloso estremeceu a minha coluna, isso doeu bastante...
Ao pensar nas conversas que tive com a Princesa Sylph, me levantei animadamente do conforto da cama, e fui me arrumar no banheiro do aposento.
Quando terminei de vestir minha túnica nobre de gala e abri a porta do meu quarto, encontrei Erich já de pé no corredor, com uma armadura levemente arranhada e expressão extremamente séria.
— Bom dia, Príncipe Kamio, — cumprimentou Erich, curvando a cabeça, fazendo uma reverência imperial seguindo o protocolo. — Tenho atualizações sobre a ordem de ontem à noite.
— Erich! Por favor, entre!
Erich acompanhou o meu movimento rápido, dando um passo para o centro do quarto enquanto eu trancava a porta de madeira pesada. Ele ajustou a postura, mantendo a voz em um sussurro controlado para que o som não atravessasse as frestas.
— Fez bem em trancar, meu Príncipe. O tom das coisas mudou desde ontem à noite, — disse Erich, com os olhos firmes e atentos, porém diferente do habitual. — Meus homens vigiaram os passos do seu irmão durante toda a madrugada.
Ele fez uma breve pausa, aproximando-se um pouco mais de mim.
— Ele não retornou aos aposentos reais após ser expulso do banquete. Em vez disso, encontrou-se secretamente com três generais da facção militar nos pavimentos inferiores da torre. Não conseguimos ouvir toda a conversa devido aos encantamentos de abafamento que usaram, mas interceptamos a movimentação de duas mensagens enviadas por mensageiros alados para as guarnições do norte.
Erich colocou a mão no cabo da espada, a expressão dele começou a ser tomada por uma gravidade extrema.
— Eles não estão aceitando a invalidação do relatório, Kamio. O seu irmão está organizando uma manobra para tentar deslegitimar a cerimônia de ratificação de hoje antes que o Rei Harold assine os documentos definitivos. Ele quer provocar um incidente nas fronteiras para forçar uma declaração de emergência.
— Droga! Esse meu irmão insistente... — Começo a ir de um lado ao outro dentro do quarto enquanto mordia minhas unhas de forma totalmente ansiosa.
Após alguns segundos de minha dúvida existencial, parei por um breve momento, reorganizei os meus pensamentos e apoiei a mão no ombro de Erich.
— Erich, eu preciso escrever uma carta, quero que você posicione alguns guardas reais em locais estratégicos para fazer o reconhecimento e inteligência desses movimentos militares.
Erich escutou com atenção e assentiu imediatamente com a cabeça, compreendendo a gravidade da situação.
— Entendido, jovem Príncipe. Selecionarei nossos batedores e batedoras mais discretos e os posicionarei nos pontos de observação ao longo da rota do norte e dos limites da fronteira. Qualquer movimentação atípica ou sinal de provocação armada será reportado diretamente a nós antes que eles possam encenar um falso ataque.
Ele caminhou até a mesa de escrita no canto do quarto, puxou uma folha de pergaminho de alta qualidade, uma pena de ganso e o tinteiro de tinta negra, colocando-os prontos diante de mim.
— A mesa está pronta, Príncipe Kamio. Para quem será direcionada essa carta e quais ordens ou avisos o senhor deseja registrar? — perguntou Erich, mantendo-se a postos enquanto aguardava as orientações.
— Envie para a Princesa Sylph por favor.
"
À Princesa Sylph,
Bom dia Princesa, alguns dos meus guardas reportaram movimentações militares nas fronteiras do norte, orquestradas pelo meu irmão idiota, acho que ele pretende causar um incidente para atrasar o tratado do congresso. Mandei meus guardas mais leais para ficar de olho nele, gostaria de sua ajuda!
Do Príncipe Kamio
"
Erich pegou a carta recém escrita por mim, dobrando-a com cuidado e guardando-a em um compartimento secreto sob sua armadura.
— Entendido. Entregarei esta mensagem pessoalmente e em absoluto segredo às mãos da Princesa Sylph ou de sua guarda de elite antes que ela entre no salão cerimonial, — disse Erich, ajustando as luvas de couro e ferro.
— Com os batedores da Casa Élfica em alerta juntamente com os nossos, qualquer tentativa do seu irmão de forjar um ataque na fronteira será desmascarada no ato.
— Assim eu espero! — respondi ele com um olhar afiado e preocupado.
Erich caminhou até a porta do quarto, destrancando-a com um clique suave e verificando o corredor antes de se voltar novamente para mim.
— A cerimônia de assinatura começará em poucos minutos. Por favor senhor, não se atrase, cuidarei da entrega e do posicionamento das nossas tropas de reconhecimento.
Erich abriu caminho e saiu primeiro para concluir minhas ordens.
O som distante dos sinos de prata ressoavam pela torre, anunciando que os soberanos já estavam se acomodando para a ratificação final dos tratados.
— Ok! Vamos lá! — Disse a mim mesmo.
Caminhei pelos grandes corredores do palácio até o salão cerimonial. Durante o caminho, senti aquela coisa novamente, uma sensação..
Algo me observando de longe, algo pesado, como se fosse energia mágica em sua forma mais densa, mas ela não era pura, era.. algo muito mais fundo e vazio..
Essa sensação escura no meu peito começou a arder e se espalhar no meu tórax, minha visão começou a ficar turva, não conseguia gritar, não conseguia falar, algo estava bloqueando minhas cordas vocais enquanto eu estava desesperado.
"— I-isso, de novo?"
"— Q-quem está aí?"
"Vida.."
"— O que você quer de mim?",
"Receptáculo.."
"— O que você quer de mim?", "— O que você quer de mim?", "— O que você quer de mim?".
"Poder.."
"— Por que?!.. Por que?!..."
Até que.. Rapidamente esse ar cheio que me atingia se dissipou quase que instantaneamente, deixando apenas o sentimento de algo obscuro no fundo da minha alma. Respirei ofegantemente enquanto processava a minha volta esperando que eu encontrasse alguém.. Não encontrei nada.
Engoli a saliva que estava em minha garganta e continuei o meu caminho.
Ao chegar no salão cerimonial, abri as portas pesadas e ornamentadas de ouro e prata, que possui os símbolos das quatro Casas Imperiais.
O primeiro símbolo era o emblema do leão dourado, símbolo característico da Casa Humana.
O segundo símbolo era o emblema da lótus prateada, símbolo da Casa Élfica.
O terceiro símbolo era o emblema do mithril de platina, símbolo da Casa dos Anões.
E por último, o quarto símbolo, era o emblema das chamas de bronze, o símbolo da Casa dos Dragões.
Ao adentrar no salão cerimonial, um ar totalmente formal, real e organizado invade a minha mente, no centro da sala, entre a porta e o altar, um tapete cerimonial estendido em tons vermelhos e dourados, faz o caminho real mostrando a força e doutrinação imperial.
Ao lado esquerdo e direto do tapete, as comitivas de todas as raças unidas, cada uma ocupando o seu espaço de forma totalmente simétrica e organizada, como se fosse a posição em linha de um exército, o ambiente como um todo era algo muito mais além do que imperial, era divino, o local parecia uma capela bem planejada.
Quando comecei a observar os meus arredores, parado na entrada da porta, percebi algo incomum, desta vez, a atmosfera não era de debates acalorados, mas sim de uma solene expectativa.
Nobres, diplomatas e generais vestiam seus melhores trajes para presenciar a assinatura do Tratado de Integração das Fronteiras e Rotas de Comércio.
Enquanto me acomodava no meu assento na bancada humana, notei a ausência de Luki. A cadeira ao lado do meu pai estava vazia, um sinal claro da punição recebida na noite anterior, ou de que ele estava ocupado nos bastidores, como Erich havia descoberto.
Do outro lado do tapete do salão, a Princesa Sylph chamou minha atenção. Ela fez um movimento quase imperceptível com a cabeça, parecendo indicar que havia recebido a minha carta.
Ao seu lado, a guarda de honra élfica parecia visivelmente mais atenta, e alguns mensageiros da Casa Élfica já haviam se retirado discretamente do salão para enviar ordens de verificação para as fronteiras.
*Baque!*
O Mediador Neutro posicionou-se diante do altar de mármore onde repousavam os quatro pergaminhos sagrados encadernados em ouro e runas de proteção.
— Representantes do Grande Conselho do Império! — anunciou o Mediador, a voz ressoando com imponência. — Iniciaremos agora a ratificação oficial dos acordos negociados. Convido os soberanos das Quatro Casas Imperiais a registrarem seus selos de mana nos documentos!
O Rei Dragão foi o primeiro a se aproximar, pressionando seu anel selar contra o pergaminho e cobrindo a folha com um brilho escarlate de fogo ancestral.
Em seguida, os soberanos dos Anões e a Princesa Sylph registraram suas assinaturas sob aplausos contidos da plateia.
Finalmente, o meu pai levantou-se do trono humano, ajeitou a capa de veludo e caminhou a passos lentos até o centro do altar. Mas, no exato instante em que ergueu a mão para canalizar seu selo mágico sobre o documento, as pesadas portas do salão cerimonial foram abertas com um estrondo violento!
Um oficial da guarda do norte, ensanguentado e vestindo a armadura da facção de Luki, invadiu o salão sob os olhares chocados de toda a nobreza.
— Majestade! Pare a assinatura! — gritou o soldado, caindo de joelhos sob o tapete central enquanto o seu sangue substituía as nuances e detalhes dourados do tapete. — A fronteira do norte foi atacada! Tropas não identificadas cruzaram os limites das terras dos Dragões e incendiaram nossos postos avançados! O 1º Príncipe assumiu o comando da guarnição e declarou estado de emergência militar!
O salão virou um caos instantâneo. Nobres gritaram, guardas puxaram suas armas e o meu pai congelou a milímetros do documento de paz.
— Essa não! Erich, o que faremos? — sussurro para mim mesmo de forma baixa enquanto o nervosismo toma conta do meu corpo.
O burburinho de pânico e a indignação tomou conta do salão como um incêndio. Nobres dragões se levantaram urrando de fúria, os conselheiros anões começaram a esbravejar acusando a Casa Humana de traição e o meu pai manteve a mão suspensa sobre o pergaminho, com os olhos faiscando em um misto de dúvida e choque.
No meio do caos, Erich surgiu como uma sombra ao meu lado. Seu semblante era frio, mas a postura era de quem já esperava o golpe. Ele inclinou-se rapidamente no meu ouvido, mantendo a voz em um sussurro urgente e afiado.
— Mantenha a calma, Príncipe Kamio! Esse soldado é da guarda pessoal do seu irmão, é exatamente a encenação que prevíamos. — murmurou Erich. — Nossos batedores e as tropas de elite da Princesa Sylph já devem ter interceptado o local do suposto ataque ou descoberto que é uma simulação da facção do norte.
Erich deu um passo para trás, encarando o altar com os olhos atentos.
— O seu pai está a um segundo de ceder à pressão da facção militar e declarar estado de guerra. O senhor é o único aqui com autoridade e conhecimento do plano para impedir que essa farsa destrua a assinatura do tratado!
Do outro lado da sala, a Princesa Sylph manteve a postura impecável. Ela olhou diretamente para mim, com os seus olhos transmitindo um sinal claro, de confiança, e um aceno de cabeça.
Milhares de pensamentos por segundo invadem a minha mente, o que eu deveria fazer? Chamar a atenção do pessoal? Usar a emenda constitucional novamente? Forjar uma mentira para adiar a cerimonia? Talvez.. Fugir?? O caos começa a dominar os pensamentos mais saudáveis do meu eu interior, enquanto desesperadamente eu tento encontrar uma solução.
Até que, no meio dessa confusão e caos.. percebi algo, de novo.. A mesma sensação que senti no corredor, uma energia densa e pesada, algo fora dos padrões de mana normais, quando ergui a minha cabeça para o soldado ferido, consegui ver sutis linhas de mana densa que estavam emanando sobre ele.
Mas não era uma mana normal, era algo vazio, obscuro, como se a própria mana tivesse consciência, ela estava sendo emanada exatamente na região do peito do soldado.
Com certeza tem algo de errado nisso, mas o que mais me intrigava, é que ninguém do salão parecia estar percebendo essas fortes leituras de mana? Nem mesmo a Sylph que é uma maga habilidosa?
Acho que vou tentar isso.. não é algo que tenho certeza de que vai dar certo, mas é a única coisa que eu posso tentar fazer nesse momento.
— Silêncio!!! — Levantei-me da cadeira e bati na mesa com uma força média mais suficiente para ecoar no salão todo.
Comecei a caminhar lentamente em direção ao soldado ferido, de uma forma séria e profissional. Estendi as duas mãos com as palmas abertas em direção ao soldado e ditei:
"Árvore Ancestral"
"Conceda-me sua força, seu fluido da vida"
"E me ajude a eliminar essa ilusão e mentira mascarada pelos seus filhos impuros"
"Quebrar Ilusão!"
Um círculo mágico surge a partir das minhas palmas, entoando a magia, eles brilharam em um tom azul vibrante, espalhando uma onda de luz suave por todo o salão cerimonial. O brilho envolveu o soldado "ferido" e, em questão de segundos, o sangue que manchava sua armadura evapora como fumaça, revelando uma pele sem nenhum arranhão ou ferimento real.
As ataduras se desfizeram e o soldado deu dois passos para trás, em choque, percebendo que sua encenação havia sido completamente desfeita diante dos olhos de todos os soberanos.
Um suspiro coletivo ecoou pelo salão.
— U-uma farsa?! — exclamou um dos conselheiros anões, com o olhar fixo no soldado que está intacto.
O meu pai deu um passo à frente, sua aura congelando o ar ao redor. A fúria no olhar dele não era mais contida, ele percebeu instantaneamente que a facção militar de Luki tentara manipular todo o império.
— Guardas! Prisão por traição e falso testemunho em sessão imperial! — ordenou ele, a voz retumbando como trovão. Os guardas neutros avançaram imediatamente e agarraram o soldado, que não ofereceu resistência.
Meu pai olhou para mim por alguns segundos, parecendo reconhecer a minha firmeza e sabedoria. Sem dizer mais nenhuma palavra, ele virou-se para o altar, pressionou o anel selar contra o pergaminho e canalizou sua energia, selando o Tratado de Integração das Fronteiras. Enquanto o soldado preso era levado pelos guardas lentamente enquanto gritava incessantemente.
*Baque!*
— Está oficialmente ratificado o Tratado de Paz e Comércio entre as Quatro Casas Imperiais! — declarou o Mediador Neutro, sob uma salva de palmas que tomaram conta do salão.
Do outro lado da mesa, a Princesa Sylph sorriu abertamente para mim, e Erich aproximou-se discretamente, com um olhar de orgulho e alívio.
— O senhor salvou o império hoje, jovem Príncipe, — disse Erich em um tom baixo e respeitoso. — A farsa caiu e o tratado está assinado.
O salão inteiro comemorou, por um instante, mesmo que por meros segundos, eu consegui sentir a harmonia de um palácio limpo e cooperativo, de nobres que entendem o valor da vida, que conversam abertamente consigo mesmos.
Mas apesar de tudo, mesmo feliz hoje, eu sabia que esse não era o fim, era apenas o começo de algo grande que estava por vir, meu irmão está sumido, não faço a mínima ideia do que ele fará a seguir e nem do que ele é capaz.
Porém não estou sozinho, dessa vez, além de meu leal cavalheiro Erich ao meu lado, tenho a belíssima Princesa Sylph do outro, me apoiando nessa guerra da harmonia que ecoa aos poucos no palácio imperial.