O cheiro de ozônio e seiva esmagada vinha sempre antes do barulho.
No topo de um galho de carvalho ancestral, Aluara ajustou as lentes de seus goggles sobre a testa, deixando que seus olhos âmbar cortassem a névoa perpétua que insistia em lamber as fronteiras do Bosque da Lua Nova.

O vento agitou seus cabelos verdes brilhantes, desalinhando algumas mechas que teimavam em cair sobre suas orelhas pontudas.
Sua pele, no tom rico de um cobre amadeirado, reluziu timidamente sob a luz filtrada pelas copas das árvores.
Ela limpou uma gota de fuligem da manga de sua blusa e apertou uma fivela da sua bota.
O bosque era seu santuário, o último lugar onde a terra respirava sem o gosto de ferro na boca. Mas o mundo lá fora estava mudando, apodrecendo, e a Ferrugem da alma batia à porta.
Um estalo seco e metálico ecoou abaixo dela, seguido por um resmungo ríspido.
— Se você despencar daí e quebrar uma engrenagem dessas botas, eu vou deixar você no chão, guria.
Aluara olhou para baixo e sorriu, ajeitando a saia enquanto a cauda do tecido flutuava atrás dela.
Escorado em uma raiz enorme estava Bituca.

O Anão-Kurapi¹ era baixinho, encorpado como o tronco de uma aroeira, e exibia uma cabeleira vermelha cor de brasa que parecia queimar mesmo na penumbra.
Ele mantinha os pés fantasmas² firmemente plantados no musgo, uma posição que confundiria qualquer rastreador tolo, enquanto limpava o cano fumegante de sua espingarda de múltiplos tiros com um pano velho.
— Deixa de ser rabugento, Bituca — Aluara deslizou pelo tronco com a agilidade de uma ladina, as botas de fivela batendo suavemente no chão fofo. Suas meias listradas inconfundiveis. — Você ouviu o estrondo tanto quanto eu. Aquilo não foi um raio de Juron³. Foi uma explosão das boas. Das que deixam metal retorcido e sucata utilizável para trás.
Ela ergueu as mãos, flexionando os dedos dentro das luvas de couro pesado.
Sobre o dorso de suas mãos, mini bobinas brilharam com uma estática azulada e suave, misturando o brilho da magia natural com a energia ruidosa da mecânica.
Para Aluara, detritos humanos não eram apenas lixo; eram "mercadorias" esperando para serem ressignificadas.
— Explosão significa humanos. Humanos significam fumaça, engrenagens velhas e aquela maldita fuligem cinzenta — Bituca cuspiu no chão, batendo com a coronha da espingarda no chão. Os canos rotativos da arma brilharam com runas arcanas de cor amarela. — O Bosque da Lua Nova continua limpo daquela Ferrugem, mas se aqueles malditos mineiros ou inventores de Ferrosol⁴ estiverem testando caldeiras perto do nosso perímetro... eu vou encher o peito deles de chumbo encantado.
— Por isso mesmo estamos fazendo a ronda, meu caro guardião — Aluara piscou, ajustando as luvas. Ela sentiu um arrepio na espinha quando o vento trouxe um odor diferente. Não era apenas pólvora. Era o cheiro azedo, pesado e frio de metal oxidado. O cheiro da Ferrugem da alma. — E parece que a nossa mercadoria acabou de cair bem na nossa horta. Vamos.
Com um aceno, a Caipora saltou entre os arbustos, movendo-se como uma sombra colorida entre as árvores, seguida de perto pelo Kurapi, cujas pegadas invertidas deixavam um rastro confuso para qualquer um que ousasse segui-los.
Eles avançaram em direção à fumaça cor de ferrugem que começava a subir no horizonte, rasgando o céu do bosque.
A fumaça vermelha que Aluara vira de longe não subia em colunas limpas; ela rastejava pelo chão como serpentes de fuligem, sufocando o brilho natural das plantas do Bosque da Lua Nova.
O cheiro era insuportável: uma mistura de carne queimada com óleo de motor velho.
Aluara se abaixou atrás de uma samambaia gigante, ocultando seus cabelos verdes brilhantes. Suas botas não emitiram som algum no solo úmido.
Logo atrás, Bituca se posicionou, erguendo a pesada espingarda rúnica, os olhos vermelhos faiscando de puro ódio ao ver o estado da floresta.
No centro de uma clareira aberta à força por uma explosão violenta, destroços de metal retorcido ainda estalavam com o calor. Mas o que chamou a atenção da Caipora não foi a sucata.
Flutuando ao redor da área, emitindo um zumbido agudo e mecânico, estavam três estruturas esféricas feitas de ferro fundido e costuradas com canos de bronze. Eram drones. Das suas frestas, escapava um gás denso, arroxeado e oleoso: o temido Necrovapor.
Aluara sentiu um calafrio. Aquilo era tecnologia do Grande Arquivista, o tirano mecânico que usava
a essência da Ferrugem da alma para escravizar os mortos e mover suas abominações.
Os drones cercavam uma figura estática no centro do caos.
Era um paladino. Sua armadura dourada e imponente reluzia com um brilho próprio, quente e hipnótico que parecia emular o próprio fogo, cortando a névoa escura. O elmo, forjado em uma forma majestosa de uma cabeça de serpente, ocultava sua expressão, mas sua postura era de absoluta prontidão.
— Drones de Necrovapor... — sussurrou Bituca, a voz áspera carregada de nojo. — O Arquivista está estendendo as garras para dentro do nosso bosque. Quem é o enlatado dourado?
— Não sei, mas eles vieram especificamente atrás dele — Aluara observou, ajustando os goggles para ampliar a visão. As bobinas em suas luvas começaram a estalar com uma estática azulada, respondendo à sua tensão. — Olha como os drones estão fechando o cerco. Eles não querem destruir o enlatado, eles querem capturar ele. E se o Arquivista quer aquele paladino, nós temos um bom motivo para não deixar que o levem. Além do mais... aquela armadura dourada deve valer uma fortuna em peças.
Um dos drones emitiu um estalido agudo e disparou um jato concentrado de Necrovapor diretamente contra o cavaleiro. O gás roxo e corruptor avançou como uma onda ávida para enferrujar a alma do guerreiro.
O cavaleiro de elmo de serpente não recuou um único passo. Com um movimento rápido, ele sacou sua lâmina, que flamejou instantaneamente em uma resposta ardente ao ataque.
— Bituca — Aluara sorriu, um brilho ladino cruzando seus olhos âmbar enquanto flexiona os dedos, liberando faíscas azuis de suas luvas. — Vamos estragar os brinquedos do Arquivista.
— Já estava demorando, guria — o Kurapi resmungou.
Com os pés fantasmas dando-lhe uma tração bizarra e perfeita no terreno, Bituca saltou da folhagem, girando os canos de sua espingarda. As runas amarelas explodiram em luz e o primeiro tiro mágico rasgou o ar em direção aos drones. A batalha no Bosque da Lua Nova havia começado.
O primeiro disparo de Bituca não foi um tiro comum; foi uma linha de luz amarela e rúnica que cortou a névoa, atingindo em cheio a lateral de um dos drones esféricos.
O estalo do chumbo mágico ecoou pela clareira, e a máquina do Arquivista guinou para o lado, derramando jatos descontrolados de Necrovapor roxo de suas frestas avariadas.
— Menos um brinquedo pro inventário! — gritou Aluara, impulsionando-se de cima da raiz.
Ela saltou com a graciosidade de uma caipora, a cauda de sua saia flutuando no ar enquanto seus pés venciam a distância até o chão. Ela sacou suas adagas, e as mini bobinas em suas luvas de couro rugiram com estática azul.
O paladino dourado bloqueou o jato de gás purpúreo com o escudo, mas ao ouvir o estrondo e ver os dois nativos invadirem a clareira, seus olhos faiscaram.
— Afastem-se, criaturas do bosque! — a voz do paladino ressoou de dentro do metal, grave, imponente e perfeitamente calma, apesar do caos. — Este fardo é meu. O Necrovapor corrompe a carne e a alma. Não se sacrifiquem por um estranho.
— Ah, claro, porque a gente adora ver metal velho poluindo nossa horta! — Aluara deslizou por baixo de um cabo de aço que chicoteou no ar, vindo de um segundo drone. Ela deu uma pirueta e desferiu um golpe direto na lente óptica da máquina. A descarga elétrica das bobinas fritou os circuitos internos do drone, que começou a estalar e soltar fumaça cinzenta. — E quem disse que é sacrifício? Eu já estou de olho nas peças da sua armadura, enlatado!
— É um paladino, guria! Dá pra ver a pose de herói de longe! — Bituca esbravejou, os pés fantasmas fincados na lama dando a ele uma tração perfeita enquanto ele recarregava o trabuco com movimentos rápidos e brutos. Três novos canos da espingarda giraram com um clique metálico pesado. — Ô, da cobrinha de ouro! Se vai ficar parado discursando, sai da minha linha de tiro!
O paladino não respondeu com palavras, mas com ação.
Ele girou a espada flamejante, desenhando um arco de fogo vivo no ar que dissipou a fumaça arroxeada ao seu redor. Sua presença emanava um calor que fazia o ar vibrar, uma herança de sua natureza mística combinada com o fervor divino.
Com um passo pesado que fez a terra tremer, ele cravou a lâmina no terceiro drone que tentava flanquear Aluara, partindo a carcaça de bronze ao meio. O Necrovapor dentro da máquina explodiu em uma lufa de vento frio, mas o fogo sagrado de Pyros consumiu o gás antes que ele pudesse tocá-lo.

— Minha missão é purificar a heresia mecânica do Arquivista — declarou Pyros, girando a espada para limpar o óleo negro da lâmina, mantendo a guarda alta enquanto os restos dos drones ainda espirravam faíscas. — Mas reconheço o valor de seu aço... e de sua ousadia.
— Viu só? Ele gostou de mim — Aluara pousou levemente ao lado do cavaleiro, batendo as botas para tirar a sujeira e ajustando os goggles na testa com um sorriso malandro. Suas luvas ainda emitiam pequenos estalos azuis. — Sou Aluara. O rabugento ali atrás com cabelo de fogo é o Bituca. E você acabou de estragar metade da sucata que eu ia coletar, senhor...?
— Sou Pyros. Paladino da chama eterna — ele respondeu, o elmo de serpente inclinando-se ligeiramente em sinal de respeito, embora seus olhos continuassem varrendo as árvores. — E temo que as apresentações tenham sido prematuras. O Arquivista não envia apenas batedores.
Antes que Bituca pudesse soltar mais um de seus resmungos, o chão da clareira começou a tremer.
Das sombras da floresta, onde a fumaça de Necrovapor era mais densa, formas humanas e deformadas começaram a se erguer. Eram lenhadores e caçadores locais que haviam sucumbido à ferrugem da alma, agora reanimados pelo gás roxo que bombeava através de tubos cravados em suas espinhas. Os escravos zumbis do Grande Arquivista avançavam, com engrenagens enferrujadas rompendo a carne morta.
— Mas que ótimo... — Bituca cuspiu no chão, olhando para os zumbis com a cara mais fechada que podia. — Mais trabalho. Espero que você tenha bastante fogo nessa espada, paladino, porque o chumbo vai comer solto agora!
O avanço dos escravos zumbis transformou a clareira em um pesadelo mecânico de carne cinzenta.
Engrenagens enferrujadas giravam por entre costelas expostas, emitindo estalos metálicos enquanto os mortos marchavam.
— Fiquem juntos! — ordenou Pyros, dando um passo à frente. A armadura dourada emitiu um calor intenso, criando uma aura que fazia o Necrovapor ao redor sibilar e desaparecer. — O fogo limpa a heresia, mas a carne deles pertence ao Arquivista. Não hesitem!
— Hesitar? Você não me conhece, enlatado! — Aluara deu uma cambalhota para o lado, escapando das garras de um zumbi cuja mandíbula havia sido substituída por uma mordaça de ferro.
Ela girou sobre as meias listradas e desferiu um soco com a manopla direita diretamente no peito da criatura. A bobina descarregou uma onda elétrica azul que superaqueceu as engrenagens internas do monstro, fazendo-o explodir em fumaça e óleo negro.
Logo atrás, o trabuco de Bituca cantou grosso.
BOOM!
Três tiros rúnicos rasgaram o peito de dois zumbis que tentavam flanquear o paladino, despedaçando metal velho e ossos podres.
— Bando de carcaça imprestável! — resmungou o Kurapi, limpando os respingos de óleo escuro do rosto enquanto girava o cano da arma. — Aluara, a munição mágica não brota em árvore!
— Guarda um pouco de chumbo, Bituca, porque o chefe deles acabou de chegar — Aluara avisou, o tom descontraído sumindo de sua voz pela primeira vez. Seus olhos âmbar se fixaram na borda da clareira, e ela puxou os goggles de volta para os olhos.
A névoa purpúrea se partiu de forma violenta.
Passos pesados, que faziam a terra tremer com o baque de metal maciço e rangendo, anunciaram a nova ameaça.

Era o Perseguidor da Ferrugem.
O cavaleiro negro era uma abominação bizarra metade máquina, metade monstro. Sua armadura outrora honrada estava completamente corroída pela ferrugem da alma, manchada por crostas de ferro velho e placas de matéria vermelha viva que pulsavam como carne. Tubos espessos de bronze cravados diretamente em sua espinha e ombros bombeavam um fluxo violento de Necrovapor pressurizado, alimentando os mecanismos grotescos acoplados ao seu corpo.
Atrás da viseira despedaçada, não havia olhos, apenas duas fendas de pura energia escura e doentia. Aquele monstro já fora um paladino de grande virtude, mas agora era apenas uma marionete apodrecida nas mãos do Grande Arquivista.
— Um caído... — Pyros sussurrou, a espada flamejante tremendo ligeiramente. A presença do Perseguidor exalava a magia das trevas mais profundas, um frio sepulcral que combatia diretamente o calor do paladino Boitatá. — Sua alma foi completamente consumida pela ferrugem.
— PYROS... — a voz do Perseguidor da Ferrugem ecoou, distorcida pelo metal e pelo vapor, parecendo o som de duas placas de ferro se arrastando. — A FÁBRICA... EXIGE... SUA... PURIFICAÇÃO.
Com um movimento brutal, o cavaleiro negro ergueu seu enorme montante de ferro. Os tubos em suas costas sibilaram com força total, liberando uma lufada de Necrovapor escuro que se condensou no ar, transformando-se em correntes de magia negra que chicotearam em direção ao grupo.
Pyros cruzou o escudo para conter o impacto, mas o golpe da magia das trevas foi devastador.
O impacto jogou o paladino dourado de joelhos, fazendo o ouro de sua armadura chiar sob a corrupção escura. Uma horda ainda maior de zumbis começou a marchar das sombras, bloqueando qualquer rota de ataque.
— Aluara! Ele quebrou a barreira do dourado! — Bituca gritou, disparando duas vezes contra o Perseguidor, mas as balas rúnicas ricochetearam na armadura pesada e enferrujada sem causar danos. — São muitos! Se ficarmos, a Ferrugem pega a gente também!
Aluara avaliou a situação em um segundo.
O paladino estava sobrecarregado, as manoplas dela não teriam energia para fritar aquela armadura negra e a munição de Bituca estava no fim.
— Bituca! Código Vermelho! — Ela comandou, recuando até Pyros e puxando o paladino pelo braço da armadura. — Vamos dar o fora! Agora!
— Eu odeio correr! Mas nesse caso! — Esbravejou o Kurapi.
Ele bateu a coronha da espingarda com força no solo de musgo e enfiou os dedos na boca, soltando um assobio agudo e estridente que ecoou por todo o Bosque da Lua Nova.
— Acorda Troncho, bora rapaziada!
A terra não apenas tremeu, ela se rompeu.
Do meio da vegetação intocada, três vultos colossais irromperam como tanques de guerra vivos. Eram três javalis gigantescos, Troncho, Guilt e Estopo, eram guardiões ancestrais do bosque convocados pela magia de Bituca. Eles eram assustadores: seus olhos queimavam com um fogo espiritual alaranjado e, de suas presas maciças de marfim, saltavam faíscas elétricas e brasas estalando a cada respiração bufante.

— Sobe na carona, enlatado! — Aluara agarrou Pyros com uma agilidade impressionante, impulsionando o paladino ferido para cima do primeiro javali que passou rugindo ao lado deles.
Bituca saltou no segundo animal com a facilidade de quem já fizera aquilo mil vezes, enquanto Aluara montava no terceiro.
Os três javalis avançaram em investida brutal, atropelando a linha de zumbis mecânicos e abrindo caminho através da fumaça roxa com suas presas faiscantes.
O Perseguidor da Ferrugem tentou erguer sua lâmina escura para interceptá-los, mas um jato de brasas e faíscas lançado pelos dentes dos javalis criou uma cortina de fogo divino, cegando momentaneamente seus sensores ópticos.
Sob o comando ranzinza de Bituca e as risadas nervosas de Aluara, as feras dispararam floresta adentro em alta velocidade, deixando para trás os gritos distorcidos dos mortos-vivos e a silhueta sombria do cavaleiro negro, estática na clareira destruída. Eles haviam sobrevivido, mas a guerra contra a Ferrugem da alma tinha acabado de bater à sua porta.
¹Anão Kurapi, Raça de Anões que foram tocados pela magia do Curupira. (Suplemento de Raças)
²Pés Fantasmas, Habilidade herdada do Curupira
³Juron, Deus do trovão
⁴Ferrosol, cidade dos ferreiros e das armas