Capítulo 1
Orvalhos de Mana
Era para ser apenas mais um dia comum nos céus flutuantes de Iara-Mirim. O sol reluzia sobre o mar de Nuvens-Arrecife, os ventos quentes sopravam entre as pontes metálicas e a mana fluía pelas ruas como uma maré invisível. Poderia ser uma manhã qualquer no mercado do distrito mas não era. Era um dia especial.
— Moema, você tá me ouvindo? — a voz de Ayna soou perto de seu ouvido, carregada de uma impaciência carinhosa. — Você tá muito distante hoje!
— Sei lá, Ay... acordei assim — murmurou Moema, piscando devagar enquanto as mechas de seus cabelos indigo e turquesa flutuavam suavemente ao redor do rosto, desafiando a gravidade. Seus olhos, em um tom azul vivo da cor do oceano, encaravam o nada com um brilho pensativo. — Às vezes a mana me traz essas sensações... E com tudo o que andou acontecendo ultimamente...
— Sim, eu entendo, mas você precisa prestar atenção por onde anda! — Ayna segurou firmemente o braço de Moema, puxando-a para trás bem a tempo de evitar um impacto iminente contra uma barraca de frutas-do-sol.
Moema esteve a um passo de tombar sobre uma pilha reluzente de frutas recém-colhidas nos tanques suspensos. O feirante, um Encantado de escamas prateadas, apenas riu da cena, enquanto Ayna soltava um suspiro resignado, ajustando os oculos de aviador no topo de sua cabeça.
Acontece que era um dia muito especial. Hoje havia aberto a tão esperada inscrição para a competição de idols na Academia Harmônica do Eco. Como uma jovem barda extremamente talentosa, cuja sensibilidade captava até os menores murmúrios de mana no ar, Moema estava com a cabeça nas nuvens por conta deste evento. E, claro, estava arrastando Ayna junto com ela. Afinal, melhores amigas servem para essas coisas.
— Por falar em concurso, Ay... — disse Moema, virando-se com um sorriso sapeca.
Ayna estreitou seus olhos castanhos-avermelhados, alertas e expressivos, fitando a amiga com desconfiança. Ela conhecia bem aquele olhar. Moema fazia a pergunta com o tom mais inocente do mundo, mas o brilho em seu rosto entregava a verdade: ela já tinha inscrito as duas.
— ...você vai participar comigo, né? — completou a barda, juntando as mãos em tom de pedido.
TRIIIIM!
O ressoar agudo do sino de bronze reverberou pelas estruturas de latão da rua, interrompendo a conversa abruptamente. Tão imersas que estavam nos planos para o concurso, nem perceberam que já haviam atravessado a praça e parado bem em frente aos grandes portões da Academia Harmônica do Eco.
— Chegamos na Academia, Moema! — anunciou Ayna, esquivando-se do assunto com habilidade. — Vamos entrar antes que o diretor chame nossa atenção. Depois eu lhe dou uma resposta!
Ayna deu um piscadela e fez uma cara sapeca para a amiga. No mesmo instante, a feição fofa e pedinte de Moema mudou para uma careta emburrada. Suas bochechas inflaram e ganharam um leve tom rosado — uma reação involuntária que só a deixava ainda mais adorável.
Chegando ao setor de treinamento da escola, as duas seguiram direto para os vestiários. Era hora de deixar de lado as vestes de estudante e vestir o Uniforme Padrão de Combate da Academia Harmônica — um traje projetado sob medida para suportar impactos, canalizar magia e garantir total liberdade de movimento nas simulações.
O traje base era composto por uma malha tática azul-petróleo hidrofóbica e flexível, reforçada por placas leves de coral-de-aço dispostas estrategicamente sobre o peito e ombros.
O uniforme de Ayna ajustava-se perfeitamente à sua estrutura atlética. A jaqueta curta e sem mangas deixava seus braços livres para as manobras. Braçadeiras de latão e cintos utilitários de couro cruzavam seu peito e cintura, servindo de suporte para o equipamento padronizado fornecido pela escola: um tridente de treino com pontas rombudas de borracha arcana e um disparador mecânico de simulação preso ao antebraço. Ajustando seus óculos de bronze na testa e prendendo as botas de combate até os joelhos, ela ficou pronta para o exercício.
Já o traje de Moema tinha um design mais fluido e sintonizado com sua magia. A malha de combate trazia detalhes rúnicos em dourado ao longo dos braços e laterais, conectados às ombreiras e aos anéis metálicos dos seus pulsos. As placas de proteção eram extremamente leves, permitindo que a barda se movimentasse com agilidade enquanto a mana do recinto fazia seus cabelos indigo e turquesa flutuarem suavemente. Na cintura, em vez de um instrumento próprio, ela acoplou um diapasão de treino padrão da Academia, utilitário fornecido aos alunos para canalizar e controlar frequências sônicas.
Ambas ajustaram as luvas e os fechos metálicos dos trajes de instrução. Devidamente equipadas com o arsenal básico da escola, atravessaram as portas reforçadas em direção à Sala de Simulação de Éter...
O salão amplo era cercado por emissores arcanos de latão que, ao serem ativados pelo professor, preencheram o recinto com uma névoa azulada. Diante delas, a mana condensou-se em projeções holográficas sólidas: três autômatos de combate e uma Fera de Éter translúcida, rosnando com luz pulsante.
— Iniciar protocolo de combate! — ecoou a voz do instrutor pelos alto-falantes.
Ayna não perdeu tempo. Com um impulso ágil, suas botas avançaram pelo piso de pedra. As barbatanas translúcidas em suas orelhas se moveram levemente, captando o deslocamento do ar e prevendo o ataque do primeiro autômato holográfico. Ela girou seu Tridente de Coral-Vivo, aparando um golpe de luz e contra-atacando com uma estocada rápida que despedaçou o peito da projeção em mil partículas brilhantes.
Porém, as duas projeções restantes tentaram cercar Ayna pelos lados, projetando garras de energia holográfica.
— Mô, agora! — gritou Ayna, sem desacelerar.
Atrás dela, Moema já estava posicionada. A jovem barda segurava seu microfone-tridente com as duas mãos, fechando os olhos e deixando que a frequência de sua voz se alinhasse com o fluxo de mana da sala. Suas marcas rúnicas abaixo das orelhas acenderam em um violeta brilhante.
— Sok-Yira! — entoou Moema em uma nota cristalina e ressonante.
Uma onda de choque sônica, invisível mas poderosa, expandiu-se da ponta de seu foco mágico. A barreira sonora envolveu Ayna como um escudo luminoso, aumentando sua velocidade e desestabilizando a estrutura das projeções holográficas ao redor.
Com o suporte perfeito da amiga, Ayna saltou no ar, acionando o Lançador de Marés no antebraço. O mini-arpão de bronze atravessou o núcleo da Fera de Éter holográfica, enquanto uma varredura com seu tridente destruiu o último autômato em uma explosão silenciosa de poeira luminosa.
A simulação desligou-se, retornando a sala ao seu estado normal.
— Uff... estou exausta! — disse Ayna, apoiando as mãos nos joelhos e limpando uma gota de suor da testa enquanto o ar na sala voltava ao normal. Ela olhou para Moema e sorriu com sinceridade. — Obrigada pelo suporte, Mô. Você é muito talentosa!
Moema guardou o diapasão na cintura e cruzou os braços, mantendo um biquinho desconfiado no rosto.
— Falando em talentosa... e sobre o concurso de idols? — cobrou a barda, dando um passo à frente. — Você vai me ajudar! Você prometeu que ia me dar uma resposta!
— Aaaa... sim, o concurso! — exclamou Ayna, erguendo a cabeça e soltando uma risadinha provocadora. — Então, pensando bem... eu vou te ajudar sim! Mas com uma condição: que você vá comigo no Campo de Nuvens-Arrecife me ajudar a caçar alguns peixes-balões.
Moema arregalou os olhos azul-oceano, chocada com a proposta.
— E por que você não vai sozinha?! — protestou a garota, juntando as mãos em dramatização. — Peixes-balões são tão fofinhos!
— Fofinhos?! — Ayna cruzou os braços, soltando um risinho abafado enquanto ajeitava os goggles na testa. — Mô, eles são balões de espinhos que devoram as hortas de vapor do mercado! E se não controlarmos a população deles, o feirante do Distrito das Correntes nem vai ter frutas-do-sol para vender. Além disso... a essência de éter deles vale alguns trocados. Podemos usar para comprar o tecido das roupas do nosso show!
Moema engoliu em seco, e a menção de figurinos brilhantes para a apresentação pareceu balançar sua convicção. Por um instante, de tão constrangida e dividida entre a fofura das criaturas e o sonho do palco, suas bochechas ganharam um tom rosado involuntário e suas pequenas barbatanas auriculares se agitaram sob os cabelos indigo-turquesa.
— Você é muito chantagista, Ay! — protestou a barda com um biquinho dramático, mas logo cedendo com um suspiro conformado. — Tá bom, tá bom... Eu ajudo a cercar os peixes-balões. Mas nada de ferir os pequenininhos!
— Negócio fechado — disse Ayna, exibindo aquele seu raro e sincero sorriso de canto de boca que só reservava para a melhor amiga.
Após devolverem o equipamento básico de treino nos armários da Academia Harmônica, as duas garotas deixaram a escola e seguiram em direção aos limites do Distrito do Eco da Iara. Conforme se afastavam das ruas pavimentadas e das tubulações de latão, o sopro dos ventos de éter ficava mais intenso e úmido, carregado de pequenas gotículas brilhantes — os famosos orvalhos de mana.
Caminharam até o atracadouro marginal, onde pontes suspensas de madeira arcana e cordas trançadas conectavam o recife principal aos pequenos platôs flutuantes que circundavam a cidade.
O trajeto até lá foi puro encanto para Moema. Como sempre, a física atenuada do éter permitia que ela desse passos tão leves que quase "nadava" no ar, deixando seus cabelos azuis ondularem livremente ao vento enquanto cantarolava notas baixas para testar a acústica das nuvens. Ayna, por outro lado, mantinha os pés firmes no piso, com suas orelhas de barbatana atentas a cada deslocamento das correntes de ar, garantindo que o caminho estivesse seguro.
Atravessando a última ponte pênsil, a névoa densa finalmente se abriu, revelando o belíssimo Campo de Nuvens-Arrecife.
O cenário parecia um sonho flutuante: dezenas de pequenas ilhas de rocha e vegetação luminescente flutuavam suspensas sobre um mar de nuvens fofas e esbranquiçadas, que brilhavam com matizes de rosa e dourado sob a luz do sol. Entre os arbustos e as névoas, pequenas esferas flutuantes de cor lilás e amarelo-ouro nadavam preguiçosamente pelo ar, inflando e desinflando como balões vivos.
— Chegamos... — murmurou Moema, com os olhos azul-oceano brilhando deslumbrados diante da paisagem.
— Certo — Ayna ajustou os goggles sobre os olhos castanhos-avermelhados, sacando seu disparador de simulação e olhando para a amiga com um ar desafiador. — Hora de caçar peixes-balões!
As Nuvens-Arrecife pareciam um mar de algodão luminoso suspenso no vazio. As pequenas ilhotas de rocha e vegetação bioluminescente flutuavam sob o sol, e dezenas de peixes-balões — esferas lilás e amarelo-ouro — nadavam em bandos tranquilos pelo ar, alheios ao perigo.
— Certo, o plano é simples — instruiu Ayna, agachando-se no limite de uma borda rochosa e ajustando os goggles na testa. — Eu avanço pelas laterais e cerco o bando. Você usa o diapasão de treino para lançar uma onda sônica suave e desacelerar eles. Sem machucar! Entendeu, Mô?
— Entendi, entendi... — respondeu Moema, assentindo com animação.
Ayna saltou entre os rochedos com a agilidade natural de uma caçadora. Suas barbatanas auriculares captavam o menor movimento das correntes de ar, permitindo que ela se deslocasse em silêncio. Com uma manobra rápida, ela arremessou o cabo de treino para assustar três peixes-balões, direcionando-os perfeitamente para a posição da amiga.
— Agora, Moema! Lança a frequência! — gritou Ayna.
Moema ergueu o diapasão de bronze e respirou fundo para entoar uma nota cantada. Mas, no instante em que ia disparar o pulso sônico, um dos peixes-balões inflou as bochechas, piscou os olhinhos redondos e soltou um pequeno espirro de vapor d'água na direção dela.
— Ah, não... Ay, olha o tamanho da fofura dele! Ele espirrou! — Moema derreteu-se inteira, abaixando o foco mágico e juntando as mãos contra o peito. As marcas rúnicas abaixo de suas orelhas brilharam num tom rosa-chiclete e pequenas barbatanas surgiram involuntariamente na lateral do seu rosto. — Eu não posso atacar ele!
— Moema! Eles vão escapar! — Ayna soltou um estalo de língua e deu um salto no ar, usando a haste rombuda do tridente de treino para bloquear a rota de fuga das criaturas e empurrá-las de volta. — Foca no suporte! É só uma bolha de desaceleração!
— Tá bom, tá bom! — Moema ajustou a postura, fechou os olhos azul-oceano e buscou sua concentração.
Ela começou a cantarolar uma nota limpa e ressonante. A mana ao redor começou a responder, criando ondulações visíveis na atmosfera de éter. Contudo, assim que Moema abriu seu canal com o fluxo mágico do ambiente, algo mudou.
O som da própria voz pareceu distanciar-se. Por trás do fluxo natural de mana, um murmúrio diferente começou a ecoar diretamente em sua mente. Dezenas de vozes finas e cadenciadas, sobrepostas em um idioma antigo, sussurravam no fundo do éter:
“...Sok-Yira... a frequência desperta... o oceano nos céus escuta...”
Moema estancou. O diapasão em sua mão tremeu e suas marcas rúnicas mudaram da tonalidade rósea para um violeta profundo e pulsante. Ela arregalou os olhos azuis, encarando o abismo de névoa abaixo das ilhotas flutuantes.
— As vozes... de novo? — murmurou Moema para si mesma, completamente alheia à caçada, dando um passo involuntário em direção à beirada do precipício.
— Mô? O que você tá fazendo?! Cuidado com a beirada! — Ayna percebeu o olhar distante da amiga e a mudança no tom de suas marcas rúnicas. Seus instintos de batedora apitaram na hora. Correndo com agilidade, puxou Moema com firmeza pelo braço, tirando-a da borda do rochedo. — Você viajou de novo! O que deu em você?
— Ay... a mana tá... sussurrando — murmurou Moema, piscou devagar com seus olhos azul-oceano e apontando para a névoa abaixo. — É como se algo estivesse agitando as correntes do éter...
Antes que Ayna pudesse questionar, o solo de rocha sob os pés das duas estremeceu com uma vibração abafada. Os pequenos peixes-balões que nadavam por ali soltaram guinchos agudos e saíram disparados em pânico, escondendo-se rapidamente entre a vegetação bioluminescente das ilhotas.
O mar de nuvens das Nuvens-Arrecife começou a borbulhar e se agitar.
Não surgiu nenhum monstro gigante destruidor de cidades — afinal, aquele ainda era o perímetro seguro de treino da periferia do distrito. No entanto, rompendo a névoa com um grande estouro de vapor, emergiu o verdadeiro causador da bagunça: um Peixe-Balão Alfa.
A criatura tinha o tamanho de um pequeno carro de carga. Sua pele arroxeada estava excessivamente inflada devido a uma sobrecarga de mana absorvida do ambiente, repleta de espinhos arredondados de borracha natural. Ele flutuava pesado no ar, balançando as barbatanas minúsculas com uma feição extremamente zangada, expelindo pequenos jatos de vapor pressurizado pelas narinas.
— Tá brincando... um Alfa inflado por excesso de éter? — Ayna ajustou os goggles na testa e firmou a pegada no tridente de treino de pontas rombudas. — Ele tá tão cheio de energia que vai acabar destruindo as pontes do atracadouro se não esvaziarmos ele!
— Tadinho, ele só tá com indigestão de mana! — exclamou Moema, mas logo ajeitou a postura ao ver a criatura virar na direção delas, bufando uma rajada de vento.
— Deixa a dó pra depois, Mô! Vamos usar o treinamento da Academia! — ordenou Ayna, com o olhar focado de seus olhos castanhos-avermelhados.
O Peixe-Balão Alfa investiu contra elas como uma grande bola de canhão flutuante.
Ayna agiu rápido. Usando sua agilidade e o piso de gravidade leve, deu um salto lateral sobre as pedras, chamando a atenção do monstrinho:
— Ei, espinhoso! Aqui! — Ayna disparou uma ventosa de borracha com seu disparador de simulação preso ao antebraço. O projétil atingiu a lateral do peixe sem feri-lo, mas o suficiente para desviar sua trajetória.
Com o miniboss desequilibrado no ar, Moema entendeu seu papel de suporte. Deixando de lado a distração das vozes por um instante, ela ergueu o diapasão de treino fornecido pela escola e respirou fundo.
— Sok-Yira! — entoou Moema em uma nota ressonante e cristalina.
A onda sônica propagou-se pelo ar, atingindo em cheio o Peixe-Balão Alfa. A frequência da magia de Moema entrou em sintonia com o excesso de mana represado dentro do corpo do animal, criando uma vibração que abriu suavemente suas válvulas de ar.
PSHHHHHHHHHH!
O ar e o vapor aprisionados começaram a vazar da criatura como um balão murchando desengonçadamente pelo ar. O Alfa começou a voar em espirais cômicas e descontroladas pelo céu de nuvens enquanto esvaziava!
— Agora, Ayna! — avisou Moema, sorrindo.
Ayna aproveitou a oportunidade perfeita. Correu pela borda da rocha, pegou impulso no ar e disparou uma última rede de contenção de treino de seu dispositivo. A rede envolveu o peixe-balão no exato momento em que ele murchou de volta ao seu tamanho normal — ficando do tamanho de uma grande bola de praia.
O Peixe-Balão Alfa caiu suavemente sobre a névoa, soltando um pequeno "pop" murcho e pisando os olhinhos, completamente derrotado e inofensivo.
— Boa! Conseguimos! — Ayna comemorou com um raro e sincero sorriso de canto de boca, limpando o suor da testa e prendendo o disparador no cinto utilitário. — Nada mal para duas recrutas com equipamento de treino básico.
— Viu só? Eu disse que não precisava machucar ele! — Moema correu até a rede, agachando-se para cutucar a bochecha murcha do peixinho, que soltou um pequeno bolborilho de cansaço.
Porém, assim que o alvoroço da batalha passou e o silêncio retornou às Nuvens-Arrecife, Moema sentiu um calafrio percorrer suas costas.
Ayna aproximou-se da amiga, notando a mudança imediata no semblante dela.
— Tudo bem, Mô? — perguntou a caçadora, colocando a mão no ombro da barda.
— Ay... peixes-balões não acumulam tanta mana sozinhos a ponto de virarem Alfas agressivos assim — Moema levantou o olhar azul-oceano para o horizonte de nuvens. — A mana que fez ele inchar... veio daquele sussurro que ouvi. Algo fez a maré de éter de Iara-Mirim transbordar aqui perto...
Ayna olhou na direção do abismo das Nuvens-Arrecife, a expressão ficando séria e analítica ao perceber que o mistério estava apenas começando...
— Essa mana tá estranha de verdade... — murmurou Moema, massageando o peito enquanto olhava para o horizonte roxo das Nuvens-Arrecife. — Mas, Ay... a gente não devia voltar para a escola e avisar alguém?
— A gente vai avisar — disse Ayna, tirando o saco de contenção de couro leve do cinto utilitário. Ela olhou de canto para Moema, cruzando os braços com um sorriso de canto de boca. — Assim que a gente terminar a cota. Se voltarmos agora só com o Alfa murcho, o feirante do Distrito das Correntes não vai pagar nem metade da recompensa. E você lembra para que precisamos desse dinheiro, né?
Os olhos azul-oceano de Moema brilharam na mesma hora.
— Os tecidos de seda de éter para o figurino do show! — exclamou a barda, juntando as mãos empolgada. Suas marcas rúnicas abaixo das orelhas acenderam em um tom rosa-chiclete e a pele de suas bochechas ganhou o habitual tom avermelhado involuntário de quando ficava ansiosa. — Aqueles que brilham no escuro quando a gente canta!
— Exatamente — confirmou Ayna, ajustando os goggles na testa. — Então para de dar papo para os sussurros de mana por dez minutos e me ajuda a cercar os últimos cinco. Prometo que depois a gente leva tudo para o encarregado e investiga essa bagunça.
A perspectiva de cantar no palco com um figurino deslumbrante na Academia Harmônica do Eco foi o suficiente para varrer o receio do coração de Moema.
Trabalhando em perfeita sintonia, a caça final virou uma dança rápida. Moema ajoelhou-se na borda de um pequeno monte de rochas flutuantes e começou a vocalizar notas graves e aveludadas. A frequência suave acalmava os peixes-balões restantes, fazendo-os flutuar devagar e desarmar seus espinhos. Ayna, com passos ágeis e precisos, apenas passava recolhendo cada um com a rede de treino e acomodando-os com cuidado nos cestos aerados de transporte.
Em poucos minutos, o cesto estava cheio de pequenas esferas lilás e amarelo-ouro, soltando pequenos barulhos satisfeitos enquanto boiavam em segurança.
— Cota batida com sucesso — anunciou Ayna, fechando a tampa de latão do cesto e prendendo a alça no ombro com facilidade. — Vamos cair fora antes que outro Alfa decida aparecer.
Elas iniciaram a caminhada de volta, cruzando as pontes pênseis que ligavam as Nuvens-Arrecife ao atracadouro do distrito. Conforme o vapor quente das tubulações urbanas voltava a substituir a brisa fria do éter selvagem, o sentimento de missão cumprida tomou conta das duas.
No posto de entrega do atracadouro, o encarregado da feira — um Encantado idoso com escamas prateadas — examinou o cesto com ar impressionado.
— Ora, ora! O bando todo intacto e sem um único arranhão nos espinhos? — disse o velhinho, soltando uma risada rascante. — Vocês duas recrutas da Academia mandaram muito bem. Aqui está o pagamento combinado em moedas de latão e essência cristalizada!
Ayna pegou o saquinho de moedas que tilintavam pesadamente e entregou direto nas mãos de Moema.
— Aqui está o fundo do nosso figurino, Sacerdotisa — brincou Ayna com seu tom seco habitual, dando uma leve cotovelada na amiga.
— Ay, nós conseguimos! — Moema abraçou o saquinho contra o peito, pulando levemente no ar enquanto sua gravidade reduzida a fazia flutuar alguns centímetros acima do chão de madeira. — Amanhã mesmo a gente compra os tecidos e começa os ensaios!
Ayna sorriu com sinceridade, mas logo seu olhar voltou-se para a direção das nuvens distantes. A missão dos peixes-balões estava concluída e os figurinos garantidos, mas a sensação estranha na mana de Iara-Mirim ainda pairava no ar como uma nota desafinada que só Moema conseguira ouvir.