O Caçador corria, e o inferno queimava sobre seus pés.
A noite estava viva. A tempestade começa a dar sinais de aparecimento — os raios sobrenaturais do céu e os raios naturais nascidos das nuvens e do calor.
Mas em um lugar em meio ao deserto de cinzas, havia um borbulhantes campo minado volátil de raio e fogo. O chão líquido quente devora as poucas coisas sólidas que sobraram de uma grande explosão, e pilares de fogo irrompiam de fissuras repentinas. Mas o Caçador se movia através do caos como se tivesse nascido nele. Sua nova mente processava a torrente de dados com uma clareza fria. Perigo à esquerda, pilar de fogo. Perigo à direita, raio condutivo. Ele não estava desviando; estava traçando um caminho perfeito através do apocalipse.
Seus sentidos estavam amplificados, não apenas por sua própria biologia, mas por sua arma. A lança-viva em seu braço era uma extensão de seu sistema nervoso. Ela vibrava com as mudanças na pressão do ar, provava as cinzas em busca de rastros químicos, e sua ponta oca "ouvia" o mundo em frequências que ele nunca imaginara. Ele era imparável, um míssil teleguiado de pura obsessão e agilidade, o ímpeto de sua corrida, uma força da natureza em si. Ele já podia saborear a carne de sua presa, sentir a textura de seus ossos.
Foi quando a dor o atingiu. Aguda, fina e gelada.
Ele parou, a confusão nublando sua fúria por um microssegundo. Algo estava em seu peito. Um palito. O ferrão de um inseto? Ele olhou para baixo. Um projétil fino e escuro havia perfurado o exoesqueleto de quitina, atravessando seu peito de lado a lado. Um líquido verde e fumegante escorria da ferida, sibilando ao tocar sua armadura.
Ele ergueu a cabeça. O ataque não veio de nenhuma besta externa ou armadilha previamente colocada. Ao analisar a provável trajetória, pequena fresta na parede de concreto, a metros de distância. Uma janela. E atrás dela, duas brasas o observavam. Olhos. Olhos que brilhavam na escuridão com uma luz iluminada pelo ambiente quente e vermelho atual, mas reconhecível como aqueles mesmo que o observavam em seu primeiro encontro.
Estava ali. Tão perto. Tão longe. O Caçador sentiu algo visceral e assassino florescer em seu peito, aquele mesmo sentimento que ia além da fome e da vingança. Era uma admiração perversa. A presa estava lutando. Ela o havia ferido. Ela podia o ferir.
O buraco em seu peito começou a se fechar, a carne se regenerando com velocidade visível. O veneno era expulso facilmente, uma toxina que deveria dissolver seus órgãos, foi neutralizado por seu metabolismo adaptativo e expelido em uma névoa ácida e sibilante através de suas glândulas sudoríparas como suor.
Ele continuou a correr, agora não apenas com fúria, mas com alegria. A caçada era real. Ela era digna. E não poderia mais correr!
Ele desviou de mais dois projéteis, a velocidade deles patética em comparação com a sua, ele poderia ter sido acertado uma vez, mas seria a última. Ele não precisava mais de suas proles, nem talvez, de sua lança; ele mesmo lidaria com isso. Chegou à entrada principal da base, um buraco escuro como um estreito corredor com mais uma daquelas tampas estranhas para bloquear predadores, algo ridículo para o caçador. Mas, ao se preparar para mergulhar em sua matança, sua nova mente analítica, a mente que havia melhorado e aprimorado a níveis supremos, gritou.
Uma sensação de estranheza. Ela havia parado de atacar. Os projéteis insignificantes cessaram. Por quê? A imagem de sua presa, a pequena e fraca criatura coberta de couro e ossos, surgiu em sua mente. Ela não era estúpida. Ela estava esperando. Era uma armadilha! Tinha que ser!
Bem dito.
Uma explosão cataclísmica irrompeu do telhado da base. A estrutura de concreto que Agnes levara semanas para construir se desintegrou em uma bola de fogo verde e cinza. O Caçador foi pego em cheio pela onda de choque, sendo arremessado para trás como uma boneca de pano, sua armadura de quitina rachando com o impacto.
Ele rolou e se pôs de pé, desorientado, a fúria dando lugar ao choque. O ninho estava destruído. E, saindo voando dos escombros como uma bala de canhão, uma bola prata esverdeada e suja de cinzas subiu aos céus. No meio do ar, a bola se desdobrou.
Era ela. Agnes.
Ela estava vestida com uma roupa nova, uma vestimenta estranha feita de couro e fibras de cipó de raio que brilhavam com um tom prateado. Das mangas de sua roupa, duas grandes asas de morcego se estenderam, capturando o vento quente da tempestade. Ela não estava caindo. Ela estava planando. Planando para longe como uma ave prateada, desaparecendo na noite vermelha. O caçador observava o céu em confusão e até mesmo, medo.
Alguns minutos atrás.
Agnes ainda tentava entender a situação. O Caçador estava lá fora, uma criatura que ela jamais viu, ele era mais inteligente e assustador do que todas as outras bestas que a mesma já catalogou. O pânico foi breve, substituído pela fria lógica da engenheira.
Ela correu para uma pequena fenda na parede, uma janela de observação disfarçada. Se havia inimigos lá fora, eles agora tinham duas rotas de entrada: o buraco que a formiga criara ou a entrada principal, que estava pesadamente armada. Ela esperava que fossem escavadores. Ela tinha potes de gás venenoso e máscaras de respiração improvisadas. Ela poderia inundar os túneis.
Mas quando olhou para fora, sua esperança se quebrou como vidro.
Não era uma besta. Era um demônio. Um ser de armadura insectoide negra, com uma lança viva como uma cobra, fundida ao seu braço como uma sanguessuga, correndo pelo campo de batalha caótico como se fosse mais um dia comum. A coluna reta. A passada eficiente. A forma como ele desviava dos raios e pilares de fogo com uma economia de movimento que Agnes, com seu corpo curvado e desajeitado, só podia invejar.
O medo deu lugar a uma análise fria e focada inteiramente em sobreviver, se aquela coisa chegasse aqui, morte, apenas e simplesmente isso.
Ela armou sua besta. O virote mais mortal de seu arsenal. Ponta de osso oca, preenchida com o veneno ácido e volátil da Borboleta Hálito da Morte um veneno difícil de se adquirir e de manuseia sem morrer ou ter a pele derretida. Era um projétil instável, que teve que ser armazenado em um tubo de argila selado para impedir que o veneno corroesse a própria arma.
Com os sentidos levemente aguçados pela adrenalina, ela mirou. Esperou. Sua previsão analítica era excelente. A figura desviou de um pilar de fogo... agora.
O virote saiu da besta como uma vespa furiosa, cruzando a distância em um piscar de olhos. Ela o acertou em cheio no peito, atravessando-o.
A criatura parou. E olhou para ela.
Através da fresta, seus olhares se cruzaram. A face do demônio estava oculta por seu exoesqueleto, mas a sensação que ela teve foi de pura apatia. Calma. Quase zombaria. Ela não sabia, não podia saber, que por trás daquele capacete havia apenas uma obsessão cega e raivosa que agora a via como uma igual. Uma verdadeira e gloriosa iguaria sem igual.
Mas Agnes sabia de uma coisa: o virote mais mortal que ela possuía não iria funcionar, era simplesmente claro para Agnes que tal ser demoníaco estava em outro nivel. A criatura se regenerou facilmente e continuou e sua corrida.
O Plano A falhou. O Plano B, uma defesa estática, era agora suicídio.
Era hora do Plano C. O Plano "Céu".
Um projeto de longo prazo, uma fantasia de engenharia que ela vinha montando desde o primeiro dia em que saiu da carcaça daquele macaco, uma esperança secreta de que ela pudesse um dia voar acima daquele inferno. Ela nunca o havia testado sem ser com pequenos protótipos e experiência técnica em sua mente. Mas não havia como se importar menos com isso, não havia tempo para testes agora.
Ignorando o demônio que agora corria em direção à sua base, ela começou a se mover. Primeiro, a besta. Ela acoplou uma caixa retangular longa e fina, cheia de virotes comuns, à estrutura da arma. Ligou-a a um mecanismo de tensão movido por uma mola de cipó trançado. Uma besta metralhadora automática. Um protótipo grosseiro, mas ela não precisava que durasse; precisava apenas que comprasse tempo. Ela a posicionou na entrada principal, com uma corda de gatilho.
Enquanto a besta começava a disparar aleatoriamente assim que o Caçador se aproximou, ela começou a se vestir. A roupa planadora. Mangas longas de couro de por cima de sua armadura de placas de gorgorejador, com alguns retoquetoques e finalizaçoes de emergência em suas costuras com uma agulha de osso, as vastas membranas das asas de uma criatura-morcego também tinha que ser rapidamente costuradas e ajustadas.
A besta automática falhou. Um feixe de raio saído da fumaça atingiu a estrutura frágil, e a arma explodiu em lascas. Agnes não se importou. Estava terminando seus preparativos com urgência.
O impulsionador.
Ela havia preparado uma série de explosivos – os potes de metano – em um único ponto, bem abaixo de uma placa solta em seu piso. Acima dela, ela colocou uma cápsula, um casulo grosso improvisado de fibras de cipó de raio e folhas, trançado em uma bagunça compacta. Ela rasgou a cápsula, transformando-a em um tapete prateado no chão.
Ela pegou sua lança-arpão. Sua bolsa de alça, contendo seu diário e seus recursos mais preciosos. Seu último jarro explosivo de metano. O outro jarro foi colocado perto dos explosivos principais, com um pavio curto.
Sem esperar por um sinal, ela começou. Pegou um bulbo verde que crescia na viga central. Com a agulha de osso, perfurou o bulbo. A reação começou. O suco do bulbo "verde" se misturara ao ar, e a interação gerou pequenos feixes de raios. Agnes soltou o bulbo com um grito de dor, o choque subindo por seu braço. Ela chutou os bulbos em direção ao pavio do jarro explosivo.
O pavio acendeu.
Ela se deitou no tapete prateado e o fechou, enrolando-se em uma esfera apertada. Prendeu a respiração. E se preparou para o impacto.
BoOoM.
A explosão foi ensurdecedora. O chão de concreto se partiu, e a força combinada de todo o seu metano armazenado a arremessou para cima, através do teto de couro, como uma bala de canhão humana. Ela sentiu seu corpo ser elevado aos céus, girando descontroladamente.
O Plano C tinha duas falhas fatais: a decolagem e a aterrissagem. Ela só podia controlar uma.
Ela esperou, contando os segundos, sentindo a física. O impulso estava acabando. Ela estava no auge de sua trajetória, prestes a despencar.
Agora.
Ela abriu o tapete, esticando os braços e as pernas com um grito animalesco de sua garganta. As asas de morcego se abriram, capturando o vento quente. O giro parou. A queda se transformou em um planeio instável, mas controlado.
Ela estava voando. O vento quente em seu rosto, a sensação do ar passando por suas asas improvisadas... era a sensação mais próxima de liberdade que ela já tivera. A sensação desesperadora da provável queda deu lugar ao triunfo do sucesso.
Agnes olhou para baixo. Para seu perseguidor. O demônio negro estava parado em meio aos escombros arremessados, de sua agora destruída, casa, olhando para cima. Os raios vermelhos da noite refletiam em sua armadura.
E foi então que ela viu. Algo estava refletindo em sua armadura negra. vermelho como sangue e caótico como os raios.
Ao olhar pra cima. A Ave Carmesim.
O deus do céu, que ela havia visto muitas vezes durante as tempestades de raio, estava vindo em direção a ela. O bico enorme, feito de cristal opaco e amarelado, se abriu, os raios da tempestade sendo sugados para dentro dele. Agnes tentou desviar, mas seu planeio era lento, patético.
Ela foi engolida em uma única e gigantesca bicada.
A ave pousou no chão com um impacto que fez a terra tremer. Com uma graça indiferente, ela enterrou o bico nas cinzas borbulhantes, sugando os raios que eram emitidos do chão como se fossem uma deliciosa macarronada. Em um piscar de olhos, a tempestade local foi silenciada, toda a energia caótica devorada.
O Caçador observava. Um medo instintivo, vindo do fundo de seu código genético, o pressionava a correr, a se esconder daquele ser de poder divino. Mas a raiva... a raiva de perder sua caça, de tê-la roubada no exato momento da vitória... essa era maior.
Aquilo era inaceitável. Era dele. Somente dele. E foi simplesmente devorado.
Aquela ave ia pagar!
O Caçador se impulsionou à frente. Não era mais uma caçada.
Era para matar. Verdadeiramente MATAR!
(Fim do capítulo)